[QUADRINHOS] O Batman Holístico de Grant Morrison

Introdução

Há anos sou fascinado por escritores e artistas em geral que experimentam misturas de elementos tão diversos quanto sincronicidade, a “inteligência” das plantas, viagens no tempo e interplanetárias, ameaças do Inferno, e da poluição radioativa, como foi o caso de Alan Moore, em seu trabalho brilhante como escritor de Monstro do Pântano na década de 1980. O mesmo podendo ser dito sobre a série de livros A Torre Negra, de Stephen King, com sua mistura de futuro pós-apocalíptico com elementos de faroeste, suspense sobrenatural, universos paralelos, e inúmeras referências cinematográficas, literárias e musicais, isto só para citar dois de inúmeros exemplos.

Uma das tendências atuais, tanto na cultura pop, como nas pesquisas científicas, é este cruzamento de referências, que pode ser visto como uma tentativa de aplicar o holismo na investigação humana de suas próprias origens, do funcionamento do universo e de nosso papel nele.

O holismo considera que um determinado sistema só pode ser inteiramente compreendido quando se leva em consideração todos os seus componentes e suas múltiplas interações. Não pretendo aqui entrar em detalhes sobre o assunto, pois meu objetivo é fazer uma breve análise de sua influência sobre um caso específico: o trabalho do escritor Grant Morrison com o super-herói Batman.

Desde que despontou nos Estados Unidos escrevendo as histórias em quadrinhos do então pouco conhecido Homem-Animal, Morrison vem usando conceitos que podem ser considerados “de vanguarda”, tanto no campo científico (da época), como nos quadrinhos norte-americanos de então, onde seu uso não era comum. Por tratar-se de um herói do terceiro escalão da DC, o autor teve liberdade para abordar questões variadas e complexas para um quadrinho de super-heróis, como consciência ambiental, maus-tratos contra animais, ressonância mórfica e teoria fractal. Esta última, por exemplo, fora aplicada no que poderíamos chamar de “terrorismo artístico”, em que um artista alienígena do planeta Thanagar cria uma “bomba”, cuja detonação iniciaria a transmissão telepática de uma compilação de todas as lembranças de sua vida, a qual seguiria o padrão infinitamente expansível de uma figura fractal, composta de partes que repetem a forma do todo, tornando-se exponencialmente mais caótica, que por fim causaria um colapso mental naqueles atingidos pela onda de choque psíquica.

O Batman de Morrison, até certo ponto, reflete esse apreço – eu diria até crença, pela freqüência com que aparece em outros trabalhos – do autor por uma visão holística e fractal da vida humana, como, espero, ficará mais claro ao longo deste texto.

Batman, Filho e a Luva Negra

Desde que assumiu as histórias do personagem em 2006, Morrison vem trabalhando com a premissa básica de que todas as aventuras das quais Batman participou em suas mais de sete décadas de existência têm validade cronológica, não importando se algumas contradizem outras, tanto em tom como em [falta de] lógica interna.

Resumindo, o Batman de Morrison é tanto aquele homem que passou pelos tormentos psicológicos decorrentes da perda de seus pais ainda criança pelas mãos de um assaltante, e de seus embates contra vários criminosos insanos, como também é o super-herói que viveu as aventuras insólitas, fantasiosas e psicodélicas nas décadas de 1950 e 1960, além de ser o exímio detetive, e o brilhante estrategista que procura manter-se sempre um passo a frente de seus inimigos. E tudo isto ainda sem ignorar seu papel como figura atuante do Universo DC, onde, ao lado da Liga da Justiça, enfrentou ameaças que puseram em perigo todo o planeta, e até mesmo o universo inteiro, como foi o caso da Crise Final, a última grande saga escrita por Morrison, que envolveu a imensa gama de personagens da editora, na qual Batman teve uma importância essencial, além de ser profundamente afetado por ela, como veremos mais adiante.

Na medida do possível o escritor procurou integrar estas várias facetas do personagem num grande e abrangente mosaico narrativo, que teve início nas primeiras histórias de 1939, até chegar aos dias atuais. Assim, mesmo considerando que histórias como aquela publicada em Batman #153 (1963), na qual Batman e a primeira Batwoman, Kathy Kane, ficam presos numa dimensão alienígena, onde vivem uma aventura que mais parece uma viagem movida a LSD, não “se encaixam” na mesma ambientação concebida por Frank Miller em Batman Ano Um, e mesmo tendo consciência de que esta última não combina com as histórias das décadas de 1950 e 1960, em que os vilões armavam contra o herói planos absurdos, ingênuos e infantis, Morrison aceitou o desafio de criar um plano de fundo comum a todas elas, e explicações lógicas que permitiam a convivência de histórias tão contraditórias de um mesmo personagem.

Batman e a Batwoman original em sua famigerada aventura em “Outro Mundo”

Semelhante ao que fez – em menor escala, porém com maior liberdade – na aclamada Grandes Astros Superman, Morrison vem construindo nos últimos anos o que ele mesmo já definiu como sua versão definitiva do Batman. Todo o seu plano de integrar a imensa colcha de retalhos narrativos que compõem a história do herói tem como objetivo principal reforçar o valor icônico e extremamente flexível do personagem na cultura pop mundial, e enriquecer sua mitologia, sem anular nenhuma de suas fases nos quadrinhos. Morrison vem fazendo com suas histórias um estudo reverente e minucioso de Batman.

Toda a primeira temporada de Morrison no título, que vai do arco Batman e Filho (iniciado em Batman #655) até a saga Descanse em Paz (finalizada em Batman #683), esta última desenvolvida em paralelo com a Crise Final, funciona como uma longa recapitulação da carreira do herói, partindo de seus primórdios até os dias de hoje. Nesta temporada o autor pinçou referências representativas de cada período do personagem ao longo de todos os três arcos principais que a compõem, culminando em Descanse em Paz. Nele o autor revela seu maior intento, ao examinar como experiências tão singulares afetaram Bruce Wayne/Batman ao longo de sua vida, e como este homem consegue processá-las quando um inimigo inteligente e ardiloso como o Dr. Hurt, mente por trás do grupo de vilões conhecido como Luva Negra, encontra um meio de trazê-las à tona e voltá-las contra ele, a fim de esmagá-lo com uma carga bruta e compactada de memórias [o que não deixa de ser uma versão mais elaborada e menos tecnológica da bomba fractal vista em Homem Animal]. Isto fica bem exemplificado no trecho retirado de um diário que Bruce Wayne escreveu no decorrer de sua carreira apropriadamente entitulado “Casos Inexplicáveis” (publicado em Batman #676 de 2008):

“Algumas das experiências que relatei nestes cadernos são tão bizarras quanto desafiar a lógica e a sanidade. Cinco anos dentro da missão e parece uma viagem num trem fantasma. Eu não esperava psicopatas fantasiados, contatos frequentes com compostos alucinógenos ou intervenções alienígenas.”

Com algumas poucas linhas Morrison justificou décadas de histórias que, até então, não podiam se relacionar harmoniosamente. E atentem para a revelação de que tudo que levou mais de setenta anos para ser contado através de milhares de histórias em quadrinhos, para o Batman ocorreu em apenas cinco anos de sua vida, o que, convenhamos, é muito pra cabeça de qualquer pessoa, por mais prática que ela tenha de inúmeras técnicas de meditação e manutenção da saúde mental, algo que certamente Bruce Wayne possui.

O Batman de Zur-En-Arrh!

É notável esse cruzamento de referências quando encontramos entre as seis histórias que compõem o arco Descanse em Paz um Bruce Wayne psicologicamente abalado, atormentado por uma versão sinistra do outrora divertido e infantil Bat-Mirim. Em seu momento mais crítico ele veste uma fantasia espalhafatosa totalmente oposta ao visual com que nos acostumamos nos últimos anos, e passa a agir de maneira insana e caótica, se entitulando Batman de Zur-En-Arrh. Só nesta descrição já podemos encontrar um amálgama de elementos componentes de fases diversas do personagem, incluindo, no caso da última, uma referência obscura de um personagem que só havia aparecido em Batman #113 (1958), até Morrison resolver ressuscitá-lo sob um novo contexto (de alienígena do planeta Zur-En-Arrh ele tornou-se uma “personalidade de segurança”, criada por Bruce Wayne para ser ativada apenas no caso de Batman enlouquecer ou sofrer uma lavagem cerebral). Assim, Morrison promoveu uma releitura destes elementos que permitiu integrá-los organicamente à narrativa que vinha desenvolvendo desde sua estréia no título.

Batman e Robin

A fase seguinte se passa algum tempo depois da saga Crise Final, na qual Batman foi aparentemente morto pelo vilão Darkseid. Para abarcá-la foi criado o título Batman e Robin, onde Morrison explorou os efeitos da ausência de Bruce Wayne como vigilante de Gotham, apresentando um estudo de personagens em torno da interação de Dick Grayson, o primeiro Robin e herdeiro do manto e do título de Batman, e Damian Wayne, filho de Bruce introduzido no arco “Batman e Filho”, que tornou-se o novo Robin [Tim Drake, o Robin anterior, passou a chamar-se de Robin Vermelho durante a saga Batalha Pelo Manto, que apesar de se encaixar entre o fim de Crise Final e o início de Batman e Robin, não tem teve participação direta de Morrison como escritor das histórias].

Esta fase, inicialmente, apresenta relativa independência dos arcos anteriores de Morrison. Durante as primeiras histórias de Batman e Robin conhecemos o novo cenário que surge com a “morte” de Bruce Wayne, estabelecendo novas dinâmicas, e levando ao surgimento de novos vilões, como o Professor Pyg e o Flamingo. Até certo ponto foi uma reformulação do universo do personagem que não desconsiderou a continuidade, apenas poupando o leitor de seu peso.

Porém, nos dois últimos arcos do título, “Batman vs Robin” (Batman and Robin #10 a 12) e “Batman e Robin Devem Morrer” (#13 a 15), Morrison começou a revelar seu plano mestre, liberando pistas de que retomaria alguns elementos da primeira temporada, além de solucionar alguns mistérios que ficaram em aberto no final de “Descanse em Paz”.

A grande virada acontece quando descobrimos que tudo não passou de um artifício para que o autor levasse seu estudo da mitologia de Batman a um novo patamar. Durante o arco “Batman vs Robin”, a dupla dinâmica descobre novos segredos ocultos na Mansão Wayne, os quais revelam novas informações sobre a origem do local, e, com elas, novas descobertas sobre o passado de Gotham City. Com isto a trama estabelece uma ligação direta com a história que traria Bruce Wayne de volta.

Paralelo a este arco, um dos mais detetivescos de toda a temporada de Morrison como escritor do personagem, acontecia os eventos narrados na mini-série O Retorno de Bruce Wayne, onde as pretensões do autor se tornam mais explícitas.

Se em sua primeira temporada Morrison promoveu uma exploração arqueológica por todas as fases do personagem, desde sua criação, até a “morte” de seu alter ego. Em “O Retorno” o autor nos leva a uma viagem pelo tempo que começa na caverna pré-histórica vista pela última vez na conclusão de Crise Final, onde Bruce Wayne foi lançado por Darkseid ao término da saga. Ao longo da trama descobrimos que ela é a entrada da futura Batcaverna. Partindo deste ponto, a mini-série abrange um período que vai da época em que Gotham City sequer existia, passa por momentos decisivos de seu “nascimento” e “amadurecimento”, e segue, literalmente, até o fim dos tempos.

Conforme avança do passado ao presente através de saltos temporais, sobre os quais não possui controle, Bruce Wayne tem acesso a uma perspectiva mais elevada da história da cidade que jurou proteger. Mas Morrison vai além, levando o personagem a um profundo insight de sua própria criação, pois suas incursões em períodos diversos do passado de Gotham City acabam influenciando e gerando eventos que introduzem e reforçam elementos que, ao longo dos séculos, acabarão por compôr o grande mito do Homem-Morcego, o qual se revela, ao final, bem maior e mais antigo do que aquele iniciado no momento em que um menino jurou combater o crime como vingança pela morte de seus pais. Resumindo, Bruce Wayne descobre que ele próprio, sem intenção, deu início a uma série de eventos que levou Gotham City a transformá-lo no Batman.

Darkseid e a temível Caixa Ancestral

Um olhar mais atento nos detalhes e temas presentes na mini-série nos revela diversas rimas visuais e temáticas que apontam para a idéia de uma microestrutura ecoando outra de escala cósmica, além de coincidências significativas que se repetem ao longo de eras, num padrão que remete aos fractais, tão apreciados por Morrison. Vale reparar, por exemplo, no sino que é ouvido por diversos personagens, que funciona como um eco distante do opressivo DOMMM DOMMM DOMMM emitido pela Caixa Ancestral, usada por Darkseid para transformar o tempo em uma armadilha na qual prende Batman durante os momentos derradeiros de Crise Final (fatos revelados em Batman #701 e 702). Mais adiante, no arco final de Morrison em Batman e Robin, descobrimos que Bruce Wayne encontrou uma forma de construir sua própria “caixa-armadilha” dentro da armadilha maior (o tempo/Caixa Ancestral) na qual estava preso, e voltá-la contra o Dr. Hurt, reforçando a idéia do micro ecoando macro. E o sino também ecoa aquele tocado por Bruce no dia em que teve a idéia de criar o Batman, ao ver um morcego ferido entrar pela janela da Mansão Wayne (Batman Ano Um).

A clássica cena do morcego entrando pela janela em Batman Ano Um

Morrison também deu corpo à idéia de que o Batman é a criação de uma cadeia de eventos mais abrangente do que suspeitava ao espalhar pela mini-série elementos icônicos da origem do herói, como a presença constante de morcegos, chegando mesmo a criar toda uma tribo, os Miagami, que se inspira no herói quando ele os salva do ataque de uma tribo rival, usando a pele de um morcego gigante como uma versão pré-histórica de seu uniforme, evento este que acaba levando ao surgimento de um mito que precede a primeira aparição do Cavaleiro das Trevas na era atual. Outra idéia ousada é a de que o colar de pérolas usado por Martha Wayne no fatídico dia em que foi morta por Joe Chill é uma versão refinada de uma relíquia já existente na pré-história, que sempre pertenceu aos Miagami (The Return of Bruce Wayne #1).

O Batman da Pré-História contra Vandal Savage

E vale a pena levar em consideração que o próprio autor disse que um dos objetivos da mini-série era era não apenas explorar as origens de Gotham City como também torná-la uma grande homenagem a todos os tipos de heróis pulp do passado, que tiveram grande influência na criação do Batman (na trama ele assume o papel de homem das cavernas, caçador de monstros, pirata, pistoleiro, detetive noir e herói científico).

A mini-série também reforça a idéia dos ciclos que se repetem. Logo nas primeiras páginas descobrimos o destino do foguete lançado pelos últimos sobreviventes do Multiverso na conclusão de Crise Final, quando o universo inteiro estava sendo engolido pelo buraco negro gerado pela queda de Darkseid. O lançamento desta “cápsula do tempo” improvisada ecoa outro evento de maiores proporções visto na última edição de “O Retorno”, em que os robôs da Estação Linear enviam através de um buraco negro registros de toda a história daquela linha cronológica, que estava chegando ao fim naquele momento, até o exato instante em que ocorria o Big Bang, fornecendo, assim, as informações necessárias para o universo se “reiniciar”, e seguir toda a cadeia de eventos que culminaram em seu fim. Fato semelhante ocorre com Bruce Wayne, que usa o conteúdo do foguete (a capa do Superman, os farelos da última edição do Planeta Diário, o Bat-Sinal quebrado, e o próprio veículo espacial) na tentativa de reativar memórias de onde veio (o que não funciona de início, mas acontece mais tarde, quando sua memória muscular e instintos levam-no a agir como o herói que sempre foi, e salvar a Tribo do Cervo do ataque de seus rivais). Lembrando também que dentro da mini-série Bruce Wayne também constrói sua própria cápsula do tempo sob a forma da caixa de relíquias que é passada a cada geração das famílias que darão origem aos Wayne. Estes ciclos maiores, cujo fim liga-se diretamente ao início, se tornaria mais um dos temas centrais de Corporação Batman, como veremos mais adiante.

Batman versus Darkseid, o maior duelo de todos os tempos

Os eventos que conduziram a esta viagem pelo tempo de Bruce Wayne, também arquitetados por Morrison, expandiram ainda mais o mito que se formou em torno do herói. Batman morreu ao entrar em um confronto direto com Darkseid, o qual foi retratado pelo autor como um deus que é a personificação de toda maldade do universo. A luta é tanto real quanto simbólica, onde o mundano enfrenta o divino, o herói urbano bate de frente com o criminoso definitivo, o avatar de uma força cósmica capaz de varrer seu planeta, e o universo inteiro, da existência, por sua mera presença na Terra (algo que é ressaltado em Crise Final no momento em que Darkseid encarna num corpo humano preparado para recebê-lo, quando todo o planeta começa a transformar-se numa singularidade, que ameaça arrastar para si todo o universo, engolindo não apenas este, mas todos os universos paralelos a ele). Neste contexto é significativo que esta é uma das raras ocasiões em que Batman se permitiu usar uma arma de fogo, pois ela representava o clímax de sua luta contra o mau. Matar o mau em pessoa com uma bala matadora de deuses torna-se irresistível para ele.

Não é à toa que esta “morte” marca a entrada de Bruce Wayne/Batman não apenas em uma nova fase de sua vida, mas em um novo nível de compreensão de sua missão, e de seu papel no mundo.

Dr. Hurt e o “Buraco nas Coisas” – Um Interlúdio

Dr. Hurt caracterizado como Thomas Wayne

Neste ponto vale a pena voltarmos a falar do final da primeira temporada de Morrison em Batman. Em diversos momentos, durante as maquinações finais do Dr. Hurt no arco “Descanse em Paz”, o vilão se define como “o buraco nas coisas”, algo que deu margem a algumas interpretações a respeito da verdadeira identidade do personagem. A mais popular delas foi a que ele era o diabo em pessoa, uma idéia que foi levemente insinuada pelo próprio Morrison em algumas entrevistas que deu na época em que “Descanse em Paz” estava sendo publicada, e que não é de todo inexata, como veremos abaixo.

O que exatamente significa este “buraco nas coisas” é algo que só passamos a entender mais a fundo quando chegamos ao final de “O Retorno de Bruce Wayne”, que juntamente com as histórias publicadas em Batman #701 e 702, e releituras dos momentos finais do herói na saga Crise Final, lançam luz às implicações mais profundas daquela frase enigmática.

Para entendermos o verdadeiro significado, primeiro devemos levar em consideração no que consistia a ativação da Equação Anti-Vida do vilão Darkseid durante a Crise Final. Explicando de maneira simples, ela anulava toda a expressão da vida na existência humana, desabilitava o livre arbítrio, e com ele a liberdade humana, e sua capacidade de criar coisas, gerando uma abertura na mente de todo ser vivo inteligente para a entrada da essência de Darkseid, tornando a humanidade uma extensão de seu corpo (Final Crisis #5). A partir disto começamos a entender que ele é o tal “buraco nas coisas”.

Lembremos ainda do que ocorre quando Darkseid é finalmente derrotado (Final Crisis #7). Sua queda gera uma singularidade no tecido do espaço e do tempo, um buraco negro que começa a sugar para si todo o universo. Semelhante a um vilão que, prestes a cair de um penhasco, numa última tentativa desesperada de vingança, agarra o mocinho para levá-lo consigo para o fundo do abismo, o vilão se agarra ao próprio continuum espaço-tempo para arrastá-lo para baixo consigo. Darkseid, literalmente, abre um buraco na existência.

Mais tarde, quando finalmente descobrimos os detalhes da viagem no tempo a que Batman é lançado na conclusão de Crise Final, é revelado que Darkseid carregou o corpo do herói com energia ômega, proveniente de sua Sansão Ômega. Também é mostrado que o vilão enviou atrás de Batman uma criatura em seu encalço, o Hiperadaptador, um ser capaz de adaptar-se a quaisquer condições para sobreviver, atacar, e dominar sua presa.

Semelhante ao que fizeram os deuses de Nova Gênese na Alvorada do Homem durante a mega-saga Sete Soldados da Vitória, na qual é revelado que eles foram os responsáveis por disparar uma “bala platônica” do passado em direção ao presente, para derrotar os Sheedas, Darkseid faz o exato oposto, transformando Batman numa bala humana disparada para o passado, e pré-programada para dar saltos temporais na direção do presente, conforme acumula determinadas quantidades de energia ômega, recolhidas durante cada viagem no tempo. O objetivo do vilão era transformar o Batman numa bomba ômega, que atingiria massa crítica de energia quando finalmente chegasse ao presente, destruindo a Terra e com ela o eixo do Multiverso, que seria arrastado para o abismo onde se encontra o vilão na conclusão de Crise Final.

Mais importante é salientar que Batman, por ter sido tocado pelo poder de Darkseid, torna-se um receptáculo de uma porção da essência do vilão, e, por extensão, um “buraco nas coisas”. Cada incursão do Batman em uma época diferente abre um buraco, pelo qual o Hiperadaptador é infiltrado, e gera complicações ao herói. Fica subentendido que uma das funções do Hiperadaptador é estimular a geração e o acúmulo de energia ômega. Porém, ao final da mini-série ele exerce sua outra função: assumir o controle sobre o corpo de Bruce Wayne, algo que ocorre quando ambos chegam à Estação Linear no Fim dos Tempos. Desta forma descobrimos que Darkseid o enviou como garantia de que, no final, Batman, a “bala ômega humana”, seria forçado a chegar ao alvo de sua viagem, e destruir todo o Multiverso a partir do presente.

Acontece que Bruce volta a estratégia do deus do mal contra ele. Antes de seu último salto temporal, saindo da década de 1950, o herói toma posse do protótipo de máquina do tempo do Dr. Nichols (The Return of Bruce Wayne #5), que de alguma forma o leva para a Estação Linear. Desta forma, chegando ao Ponto de Fuga, Bruce rapidamente se adapta à situação [numa ironia sutil de Grant Morrison], e formula um meio de usar os recursos da estação a seu favor.

Assim, Bruce é convertido num semi-deus (talvez a forma que Grant Morrison encontrou de realizar seu desejo, vetado pela DC, de transformá-lo na reencarnação de um deus de Nova Gênese durante a Crise Final), usando um uniforme tecno-orgânico de última geração (literalmente), infectado com o Hiperadaptador, sobrecarregado de energia ômega. Parte da estratégia de Batman consiste em roubar a máquina do tempo usada por Rip Hunter para levar Superman, Lanterna Verde e Gladiador Dourado até o local. Com ela ele ganha controle sobre suas viagens no tempo.

Batman, o semi-deus, vindo direto do fim dos tempos

Com tamanho poder em mãos ele é capaz de voltar no tempo, exatamente para o momento que Darkseid esperava que ele atingisse, forçando o Hiperadaptador a revelar sua presença. Sabendo que no presente ele poderia contar com a ajuda de seus amigos, Batman força a Liga da Justiça a se unir na tarefa de “exorcizar o demônio/hiperadaptador” de si, e com ele livrar-se também da energia ômega (que é absorvida pelo monstro, e em sua maioria gasta durante a luta).

A genialidade do plano de Bruce se revela na culminância dos eventos. Usando a máquina do tempo que roubou de Rip Hunter na Estação Linear, ele envia o Hiperadaptador de volta no tempo. Vemos que a viagem dele ocorre através de saltos retroativos (conseqüência da energia ômega que ele absorve do Batman). Primeiro ele se materializa na câmara secreta da Batcaverna, assombrando Dick Grayson, que então a investigava durante o arco “Batman vs Robin” (Batman and Robin #12). Depois é quase imediatamente enviado para a época em que Simon Hurt invoca Barbatos (Batman and Robin #16), e no ritual transfere parte da energia ômega para o vilão, tornando-o imortal, e convertendo-o num novo receptáculo de parte da essência de Darkseid, vindo daí, finalmente, a razão porque ele se define como “buraco nas coisas”, pois ele é parte das maquinações do deus de Apokolips para transformar o tempo numa arma contra o Batman, infiltrando-se através de buracos abertos nele pela energia ômega. Isto também explica porque o plano do Dr. Hurt consistia em atormentar Batman com memórias bloqueadas, e vestir-se como uma versão distorcida e maligna de seu pai, Thomas Wayne, numa espécie de versão “pé-no-chão” do plano cósmico de Darkseid.

Não é inteiramente explicado, mas fica subentendido, que o Hiperadaptador, sob a forma de morcego, perdeu grande parte da energia ômega durante os saltos temporais, e especialmente durante o ritual de invocação de Barbatos (na verdade ele mesmo, mal-interpretado por homens do século XVIII), fazendo com que chegasse na pré-história apenas como um morcego gigante que não ofereceu muita resistência ao enfrentar Vandal Savage, que o mata, e exibe sua pele como troféu (The Return of Bruce Wayne #1). Apesar de morto, é mostrado que sua pele ainda guardava resíduos da energia ômega quando Bruce entra em contato com ela, e esta reage à porção presente no corpo do herói, provocando uma descarga que acaba despertando memórias desconexas de sua vida pregressa [ele chega ao passado sem lembranças].

Outro ponto interessante a se destacar é o encontro de Bruce com o que restou de Darkseid no que pode ser definido como “fundo do poço do Multiverso”, onde tempo e espaço se encontram comprimidos, e o vilão sobrevive em meio às ruínas de Apokolips e Nova Gênese, destruídos durante a guerra final que ocorreu entre os dois mundos, e o herói tem flashs de momentos variados de sua vida. Batman acaba chegando lá por dois motivos: primeiro porque, no Ponto de Fuga, no Fim dos Tempos, ele esteve muito próximo do buraco negro aberto na realidade por Darkseid após sua queda, reforçando um vínculo que ele já tinha com o vilão graças à energia ômega presente em seu corpo. E segundo, justamente porque, pouco antes de livrar-se completamente dessa carga energética, ele é forçado a confrontar o âmago do problema, o causador de toda aquela sua crise temporal, para, assim, desvincular-se completamente dele. Batman precisa fugir da atração gravitacional daquele mal em estado bruto que é Darkseid no fundo do poço que ele mesmo cavou.

É irônico também descobrir que o mesmo buraco negro usado por Darkseid como sua tentativa final de destruir o Multiverso é o meio usado pelos robôs arquivistas da Estação Linear para enviar de volta no tempo as informações necessárias para ele ser reiniciado no princípio dos tempos, durante o Big Bang.

Mais irônico ainda é descobrir que Darkseid, indiretamente, foi responsável pela criação de seu maior inimigo, ao mesmo tempo em que Batman, ao enviar o Hiperadaptador de volta no tempo, foi responsável pela gênese do Dr. Hurt, um de seus inimigos mais desafiadores, e que o próprio herói, mesmo contra sua vontade, foi um meio usado por Darkseid para disseminar sua presença através do tempo, criando “buracos nas coisas” para que o vilão indiretamente interferisse nos eventos. “O obscuro gera o luminoso, e o luminoso gera o obscuro,” diz o I Ching, livro seminal da filosofia chinesa, fonte da qual Morrison certamente bebeu ao longo de sua carreira.

Também vale destacar a brincadeira metalingüística existente na idéia em si. Quando “Descanse em Paz” termina, o leitor é deixado “a ver navios”, sem entender vários pontos de diversas histórias anteriores à saga, e pertencentes a ela, que deixou a impressão de “buracos na trama”. Isto fez com que muitos leitores mais atentos repensassem seus conceitos com relação a Grant Morrison, que acabou tirando proveito destes “buracos”, dando um sentido a eles, e tapando a boca de muitos que julgavam a trama confusa e desconexa. Assim Morrison fez com que o tempo também fosse uma armadilha para o leitor, tornando-o mais próximo e envolvido com a situação enfrentada por Batman, e sua incompreensão da mesma.

Vale ainda destacar que Darkseid, sob a óptica de Grant Morrison, age como um vírus, que se infiltra aos poucos, e cuja disseminação é semelhante à dos Sheedas em Sete Soldados da Vitória, que também usaram o tempo como arma estratégica para organizar todas as frentes de infiltração de seu plano para colonizar o presente, e consumir seus recursos.

Darkseid é a anti-criatividade, é a arma definitiva contra a arte, que é tão prezada por Morrison. Tanto que o escritor, em mais de uma ocasião, mostrou vilões capazes de transformar a arte em suas maiores armas, sendo alguns exemplos o artista thanagariano e sua bomba fractal, visto em Homem-Animal, e “A Pintura que Devorou Paris” de Patrulha do Destino, outro trabalho marcante do autor com super-heróis.

Todo o ciclo de viagens no tempo decorrentes do embate final entre Batman e Darkseid apenas atestam a reverência de Grant Morrison por conceitos da filosofia oriental, como o de que bem e mal criam-se mutuamente, tornando impossível definir onde um começa e o outro termina. E, por extensão, a idéia de ciclos que se sustentam através de retroalimentação, ligando o fim ao início, um tema que vem se mostrando cada vez mais evidente em toda a primeira temporada da Corporação Batman.

Corporação Batman

Recém regresso de sua viagem pelo tempo, na última história escrita por Morrison para o título Batman e Robin, o Batman original, agora sem grandes dificuldades, finalmente derrota o Dr. Hurt, o vilão responsável pelos eventos de Descanse em Paz. Com a destruição de seus maiores inimigos, Bruce Wayne decide adotar uma abordagem mais abrangente em seu combate ao crime, transformando o Batman no símbolo de uma corporação global, cuja criação dá início à terceira temporada de Morrison em seu trabalho com o personagem, e a mais um título criado pelo autor para desenvolvê-la: Corporação Batman.

Assim, após tomar ciência da importância de cada fase de sua vida como Batman em sua própria formação (do arco “Batman e Filho” até “Descanse em Paz”), e conhecer cada etapa que levou ao surgimento de seu próprio mito (em “O Retorno de Bruce Wayne”), Bruce Wayne se viu pronto para levar sua luta a um patamar mais elevado. Porém, este enorme passo acaba por gerar, quase que automaticamente, uma ameaça de igual proporção: a organização Leviatã.

Semelhante à corporação internacional do herói, a Leviatã tem influência global, e várias células terroristas ligadas a ela. Morrison, com ela, acaba expondo outra filosofia que move sua série, a dos opostos que geram-se mutuamente e se complementam. Quanto mais abrangente se torna a luta do bem, maior é a resposta do mau. Yin e Yang.

Também é impossível ignorar o que Morrison veio armando ao longo da “Fase Corporação”, na qual a Leviatã aos poucos mostra sinais de que está ligada a eventos que remetem ao início do trabalho do autor com o personagem, além de refletir outros temas marcantes do Universo DC na década passada.

Em dado momento de Corporação Batman, o Dr. Dédalo, um novo vilão criado por Morrison, braço direito do misterioso líder da organização, compara as atividades de seus mais de 500 operativos sob influência de lavagem cerebral ao comportamento de um vírus (Batman Incorporated v1 #6). O conceito remete pelo menos a quatro acontecimentos importantes do Universo DC, ocorridos na última década:

1º) O ataque dos OMACs durante a saga Crise Infinita, cuja origem está diretamente ligada a uma criação do próprio Batman, o satélite Grande Olho, cuja principal função era monitorar as atividades super-humanas em todo o planeta. Durante a saga ele é dominado pelo vilão Maxwell Lord, e transformado no controle central de um verdadeiro exército de humanos convertidos em máquinas assassinas de meta-humanos, os OMACs.

2º) O vírus liberado em Gotham pelo vilão Professor Pyg, a mando do Dr. Hurt, que transformou boa parte da população em psicopatas durante o arco “Batman e Robin Devem Morrer”.

3º) A fórmula de transformação do Dr. Langstron, roubada pela organização de Talia Al Ghul durante o arco “Batman e Filho” com a finalidade de ter seu próprio exército de morcegos-humanos.

4º) A disseminação virótica da Equação Anti-Vida durante a Crise Final, inoculada em praticamente toda a humanidade, que se transformou numa extensão do próprio Darkseid.

Portanto, a principal linha de ação da Leviatã apoia-se tanto na idéia de perverter uma criação do Batman, como na tentativa de ecoar outros casos semelhantes enfrentados pelo herói e seus aliados nos últimos anos.

Além disto, a idéia de usar crianças como assassinas, reforçada em Corporação Batman, é o exato oposto do que Batman fez durante a maior parte de sua carreira: transformar adolescentes em parceiros combatentes do crime. E vale lembrar que Damian Wayne, filho do herói com a vilã Talia al Ghul, estava destinado a seguir a carreira criminosa de sua mãe e de seu avô, Ra’s Al Ghul, até Bruce Wayne convencer o garoto a juntar-se a ele em sua luta contra o crime, transformando-o num inimigo de sua família materna.

Outro dado que deve ser lembrado é que Talia, em um de seus últimos encontros com Damian (fim do arco “Batman vs Robin”), revelou ao filho seu projeto de cloná-lo, a fim de criar um substituto dele que fosse fiel a ela, agora que o considerava perdido para o pai.

Outro detalhe que chama a atenção é a semelhança do objetivo da Corporação Batman com o plano do Dr. Hurt no segundo arco de Morrison, “Os Três Fantasmas de Batman”, em que o vilão transformou três policiais em cópias distorcidas do herói; e também com o plano de Darkseid durante a Crise Final, que visava criar um exército de Batmen sob seu comando ao replicar as habilidades físicas e psicológicas do herói. Ou seja, Batman [consciente ou não da escolha] distorceu os planos de seus maiores inimigos a seu favor, o que não deixa de ser uma grande ironia por parte de Morrison.

Notável também é a forma como toda a Fase Corporação volta a sugerir a existência de uma macroestrutura que muito possivelmente se revelará com maior clareza no final do trabalho de Morrison com o personagem, em que o desfecho poderá ligar-se perfeitamente ao início de sua fase em 2006.

Além disto, Morrison vem plantando novas pistas que sugerem uma ligação cada vez maior entre os novos vilões e os vistos nas fases anteriores, formando uma imensa teia formada por diversas organizações que vêm tentando derrotar Batman há décadas, partindo da Luva Negra, até a Leviatã, que por sua vez tem como principal aliado o Dr. Dédalo, que se revelou o pai de Kathy Kane, a ex-Batwoman (sim, a mesma que aparece em Batman #153, citada várias vezes na primeira temporada do trabalho de Morrison), que no passado foi dona de um circo, provavelmente o mesmo usado pela trupe comandada pelo Professor Pyg em seu primeiro confronto com Batman e Robin (Batman and Robin v1 #3) , e muito semelhante àquele usado pelo Coringa no clássico A Piada Mortal (e nada parece indicar que não seja de fato). De uma coisa dá pra ter certeza, todas estas coincidências foram propositalmente planejadas por Morrison, que adora brincar com idéias grandiosas e intrincadas como esta.

Além disto, no final da primeira temporada de Corporação Batman (pré-reboot da DC), quando finalmente descobrimos quem está por trás da organização Leviatã, a revelação nos leva a reinterpretar inúmeras passagens de diversas histórias anteriores, e assim identificar as sementes que Morrison veio plantando desde seu primeiro arco, numa progressão de eventos que, só agora, passam a ganhar uma coesão que não suspeitávamos. Esta macroestrutura ainda reflete o conceito por trás da super-arma desenvolvida pelo Dr. Dédalo, o Oroboro, baseado no símbolo alquímico da cobra que devora a si mesma, que, por sua vez, é uma metáfora de um ciclo sem fim, onde o final acaba por ligar-se intimamente ao início.

Até aqui tudo aponta para mais um épico de Morrison protagonizado por Batman, talvez a maior história do herói desde o início dessa parceria que tanto rendeu nos últimos seis anos. O autor promete amarrar as várias pontas soltas que criou ao longo de seu trabalho com o personagem nas climáticas doze edições da nova temporada de Corporação Batman, iniciada em maio deste ano. Se Morrison conseguirá fechar com êxito seu “oroboro narrativo”, ninguém sabe, mas diante do que ele fez até agora com o herói, dá pra esperarmos algo à altura do patamar em que ele conseguiu elevá-lo. Poucas vezes um mito moderno esteve em tão boas mãos como nas do escocês careca.

Leituras de referência:

  • Batman 70 Anos – Volume 1 (Panini Comics, 2009) [Batman #153]
  • Batman Ano Um (Panini Books, 2011) [Batman #404 a 407]
  • Batman e Filho (Panini Books, 2011) [Batman #655 a 658 e #663 a 666]
  • Batman: A Luva Negra (Panini Books, 2012) [Batman #667 a 669 e #672 a 675]
  • Batman #80 a 85 (Panini Comics, 2009) [Batman #676 a 683]
  • Crise Final #1 a 7 (Panini Comics, 2009 e 2010) [Final Crisis #1 a 7]
  • Batman #92, 93, 96 a 100, 102 a 106 e 108 (Panini Comics, 2010 e  2011)  [Batman and Robin #1 a 16, Batman #700 a 702]
  • A Sombra do Batman #11 a 16 (Panini Comics, 2011) [Batman: The Return of Bruce Wayne #1 a 6]
  • Corporação Batman Volume 1 e 2 (Panini Comics, 2011 e 2012) [Batman Incorporated v1 #1 a 8 e ‪Batman Incorporated: Leviathan Strikes! #1]

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