[NGF REFLETE] Pumped up kicks – Melhor correr dos tiros

Você certamente já ouviu esta música animadinha:

Eu, particularmente, sempre achei o ritmo bem interessante.

No início, não chegava a dar atenção ao significado da letra. Contudo, decidi atentar para a canção.

Continuo gostando dela, mas devo dizer que isso não a torna menos funesta.

Para mim, assim como para tantos outros jovens e adultos em todo mundo, a canção de acordes alegres era apenas um hit sem sentido, capaz de fazer qualquer um levantar e dançar (ou perto disso).

Mas a história por trás dos acordes coloridos – em tons quase de neon, dentro de minha mente sinesteta –  e muito animados na mente dos ouvintes normais, é bem mais sério do que pode parecer.

Não existe um reconhecimento oficial, mas, assim como a canção Jeremy da banda Pearl Jam, Pumped Up Kicks, de Foster the People, deixa claro todo o direcionamento de um garoto com intenções homicidas/suicidas prestes a cometer atos de barbárie.

Tanto Jeremy  (de Jeremy) quanto Robert (de Pumped Up Kicks) estavam decididos a cometer atos como os que ocorreram em 20 de abril de 1999 em Columbine.

Pois é. Caso você nunca tenha sabido ou notado, Jeremy, uma música fantástica, fala de um menino prestes a cometer um homicídio em massa dentro do colégio. Assim como no caso de Pumped Up Kicks, uma triste, porém realista, canção inspirada em “Tiros em Columbine“.

Minto…

É injusto dizer que qualquer um dos clipes de tão pesada temática tenha sido feito a partir de um documentário que apenas retrata uma verdade.

Após o terrível incidente de Columbine nos Estados Unidos, no ano de 1999, muitos outros similares ocorreram, deixando vítimas diversas e muito choque.

A tragédia (se é que podemos chamar assim, algo que deveria ser mais uma “Crônica de uma Morte Anunciada“), deixou inúmeras marcas na cultura POP, incluindo o famoso filme (com livro homônimo) “Precisamos falar sobre Kevin“.
É claro que todos esses rastros não se referem apenas aos movimentos de violência que ocorrem, mas a todo um motivador desse pensamento que leva aos movimentos de violência.

O que pode levar um adolescente a pegar em uma arma e sair matando colegas e desconhecidos?

Essa discussão é até, de certa forma, tocada sutilmente em Jeremy e em “Precisamos falar sobre Kevin“, quando notamos que, em ambos os casos, antes de serem algozes, os jovens são vítimas de um certo grau de alienação parental não concreto, ou seja, vivem em um lar, não carecem necessariamente de nada essencial, mas não gozam de atenção, carinho e apoio, básicos para o enfrentamento de questões que perturbam a mente de jovens nessa faixa etária.

Existe, também, o ponto da cultura armamentista.

Nos EUA é comum que pais tenham armas em casa, ignorando o fato de que seus filhos possam ter acesso ao objeto. Pior que isso, há pais que, deliberadamente, apoiam a cultura do armamento, e estimulam os filhos a fazê-lo.

No filme “Precisamos falar sobre Kevin“, o menino, cujo comportamento já era bastante estranho, é agraciado com um arco e flecha – claramente uma amenização do que pode ser a atitude de muitos pais, que entregam armas nas mãos de seus filhos desde sempre.

Estou exagerando?

Basta assistir filmes como “Conta Comigo“, “Deu a Louca nos Monstros” e “O Profissional“, ou qualquer um outro clássico dos anos 80/90, e você vai ver alguma criança tendo acesso a uma arma.

Mas por que não em outros países? Por que não no Brasil?

Ora, se o Brasil é um país tão violento, não seria comum que nós tivéssemos atentados iguais, ou até piores que esses inesperados ataques de adolescentes que abrem fogo contra colegas e professores?

Bom, tivemos um caso como esse no Estado do Rio de Janeiro (Realengo, para quem conhece as redondezas), em um colégio público em abril de 2011. Morreram 12 crianças e o atirador, que, conforme vídeos mostravam, estava claramente perturbado e necessitando de ajuda médica.

Mas há uma questão básica: O Brasil, assim como outros países que passam por episódios de violência, sofrem deste mal por razões quase sempre sociais. Os assaltos, o tráfico, os assassinatos, são fruto de uma sociedade mal educada, sem estrutura, sem esperanças, que vive sob as incertezas de uma economia quebrada e estruturas sociais subvertidas.

Talvez seja difícil imaginar isso, mas muitas crianças têm como mais brilhante exemplo de sucesso o aviãozinho do tráfico, que ganha mais do que o pai trabalhador. Não estamos frequentemente sob ameaça à toa: a pobreza traz consigo a violência, quase sempre.

No caso dos EUA, a coisa vai além: Existe uma pressão grande com relação ao tão aclamado Sonho Americano.

Lá, a divisão entre aqueles que chegaram ao sucesso e os LOSERS é grande e muito bem delineada. O bullying é mais sério lá do que aqui, onde há um ou outro xingamento.
De muitas formas, o cidadão americano “médio” tem uma obrigação nata (talvez não declarada verbalmente, mas, ainda assim, bem clara) de estudar, conseguir uma colocação em uma faculdade de renome e um emprego. O Americano Médio sai de casa aos 18 anos, faz faculdade, casa-se antes dos 30, compra sua linda casa e seu belo carro bem rápido.

O Loser?

É um pária social, que não alcançou o American Dream, não foi bom e nunca será bom o bastante, e tem isso atirado contra seu ego diariamente, por familiares, colegas, desafetos e estranhos.

Talvez, o que em outros lugares do mundo poderia se tornar “apenas” uma depressão, nos EUA a pressão social faz tomar a forma de uma explosão de agressividade contra tudo e todos, que jamais conseguiram ser igual ao padrão.

No caso de Pumped Up Kicks, Jeremy ou até “Precisamos falar sobre Kevin“, o sintoma de inadequação pode ter origem em vários fatores, mas parece que o gosto de uma derrota social e um ambiente familiar complicado são ingredientes essenciais.

O que concluímos com isso?

Não sei, caro leitor (leitora).

Não sei se existe uma conclusão para um tipo de evento tão comum (infelizmente), e ao mesmo tempo tão complexo quanto os atiradores que ceifam vidas de inocentes e culpados.

A quem atribuir o peso das vidas tiradas, se em quase todos os casos os agressores tiram a própria vida?

Ao sistema que dá prioridade a valores inversos?

A uma péssima educação familiar?

Ao acaso? Não… certamente não é culpa do acaso.

A verdade (que talvez se aplique tão somente a este texto) é que não aprendemos nada com os erros passados. Não aprendemos nada com erro algum: Tememos armas, mas as buscamos. Tememos a violência, mas ela continua sendo o maior sistema de comunicação humano. Falamos de alienação, mas ainda somos omissos com nossos jovens e até com amigos que um dia, sabemos, irão explodir em sua própria frustração. Fazemos campanhas contra depressão e outros males da psiquê, mas taxamos de loucos os que sofrem, e os condenamos a caminhos que nem sempre gostariam de tomar.

Pedimos paz, mas queremos andar armados.

Um dia, uma bala pode impedir nossos ímpetos. Até lá, vamos contando as tragédias em colégios mundo afora e, quem sabe, no Brasil.


Leituras recomendadas:


Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso, é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros.