[NGF REFLETE] Os “sete escudos do ego” e a sétima arte.

Previously on Lost, falávamos sobre o quanto aprimorar a percepção era importante para a expansão da consciência, e de como ter a correta percepção do mundo à nossa volta poderia gerar resultados positivos em nossas vidas, além de trazer evolução espiritual.

Dizíamos que, no processo de iluminação, a única coisa que acontecia era a mudança de assimilação, e que nada desaparecia em verdade, porque nunca houve nada, exceto ilusão.

Tendo em vista estas considerações, gostaria de fazer um convite a você, caro leitor: não gostaria de se apaixonar pela sua realidade? E estou falando daquilo que você entende como real, tangível, concreto, palpável, aquilo que você absorve de instantâneo antes de qualquer crivo. Topa?

Se você tiver medo, “tudo bem” (?). Pode mesmo dar certo frio na barriga deixar de fantasiar a própria realidade, seja não aceitando o que quer que se tenha vivido ou as consequências dos seus atos, ou ainda querendo viver a vida de outra pessoa, em vez de abraçar o PRESENTE. O ser humano está sempre em busca de subterfúgios para escapar do que é verdadeiro e viver num mundo paralelo e melhor do que tem agora, não é mesmo?

Além do mais, todo mundo já passou, ou conhece alguém que já passou, por momentos difíceis na vida, onde tudo que se queria naquela hora era estar coberto e deitado no sofá, tomando sorvete e assistindo a um episódio da história sem fim de uma série tipo Grey’s Anatomy, ou a um anime entusiástico como Naruto ou Dragon Ball Z. E, apesar de este escapismo ser reconfortante, sabemos que viver assim para sempre é impossível… É no sofá da nossa casa (ou em frente à tela de um computador, ou na cama com a cabeça enfiada no travesseiro) que passamos a desenvolver alguns mecanismos de defesa.

Estes mecanismos de defesa, originados no ego, são necessários para a nossa alma, porque servem como uma proteção àquilo que nos agride e que, num ponto extremado, poderia resultar no fim da nossa existência, literalmente. Só que eles também podem ser danosos a longo prazo. Desta forma, é bom saber reconhecê-los, para superá-los posteriormente, cortando o mau hábito pela raiz, e para que consigamos evoluir.

A psicologia explica, e a sétima arte nos dá exemplos:

ATENÇÃO: os textos abaixo contém alguns SPOILERS dos filmes usados como exemplo.

1) A Negação

Chega até ser risível a facilidade com que este mecanismo pode ser identificado. A gente vive fazendo isso o tempo todo. Se aquela verdade parece inaceitável, a gente nega. A negação faz com que a gente não enxergue uma determinada realidade e, assim, qualquer alerta de perigo é descartado imediatamente.

Em “A Origem” (Inception, 2010), Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, um ladrão especializado em extrair informações das pessoas através dos sonhos. No filme, Dom, sentindo-se culpado por não ter feito sua esposa Mal (Marion Cottilard) desistir de cometer suicídio, a enterra num nível tão profundo de subconsciência, que começa a perder a capacidade de distinguir o que é real do que é onírico.

2) A Repressão

A repressão já não é assim tão fácil de se notar, é como um “segundo estágio” da negação, em que nosso cérebro já “deletou” da memória aquilo que aconteceu.

Em outra obra, também estrelada pelo galã de Titanic, “A Ilha do Medo” (Shutter Island, 2010), dirigida por Martin Scorsese, DiCaprio é Andrew Laeddis, um médico que, “sem querer”, descreve-se assim num prontuário médico:

“O paciente é inteligente: um veterano de guerra condecorado e delirante; presente na libertação de Dachau. Ex-delegado federal. Tem propensão a violência; não tem remorso pelos seus crimes, pois nega que eles aconteceram. Altamente desenvolvido, com narrativas fantásticas, o que impede que ele veja a verdade de suas ações. ”

Na realidade, a coisa aqui é que Andrew Laeddis tinha dupla-personalidade, era um louco vivendo num hospício, e fora submetido a um enorme psicodrama para lembrar do trauma causador desta doença: sendo um patriarca ausente, certo dia ele se depara com sua esposa maníaco-depressiva na casa de campo, completamente encharcada, com seus três filhos mortos afogados no lago; por sua mulher ter sido a responsável pela morte das crianças, inconformado, ele a mata.

3) O Deslocamento

O deslocamento é a transferência de sentimentos de uma pessoa ou fato, para uma outra situação. Tipo quando você recebe aquele esporro no trabalho, mas não pode descontar em quem paga o seu salário (NOTA: o que é uma falsa crença, porque quem sempre paga o salário é quem realiza as ações necessárias para atender a uma necessidade humana – e, neste caso, você mesmo) e quebra o pau em casa com o companheiro na “saúde e na doença, na alegria e na tristeza”.

O próximo exemplo foi sugerido por nosso editor-chefe, Rodrigo Ferreira.

Em “Um Dia de Fúria” (Falling Down, 1993), estrelado pelo Michael Douglas e dirigido pelo Joel Schumacher, o personagem principal não é o que se pode chamar de alienado ou alucinado. O que acontece com Foster, o protagonista da obra, é como uma catarse de sentimentos negativos, acumulados numa sociedade que nutre em seu seio o medo do hoje e o receio do futuro (causas da depressão e da ansiedade). Só que ele transfere a revolta dele em “parcelas” ao longo de todo o filme, combatendo e tentando eliminar alguns “sintomas” do que ele julga ser socialmente reprovável em seu julgamento.

A explosão de Foster não se dá contra o caótico trânsito, pela perda de seu emprego, ou até mesmo por seus problemas familiares e particulares. Ela ocorre e é inflamada pela vida: o cotidiano presente e a prisão que enjaula o ser humano em uma mesma vala de sentimentos e inquietações, o mesmo despertar do desprazer num domingo à noite, quando aproxima-se o início da semana seguinte; a mesma dúvida da aceitação e o sentimento de pertencimento, que precisa ser preenchido todos os dias, a velocidade de tudo o que rodeia a pessoa: a caminhada de um mundo que não oferece descanso por um segundo sequer.

A melhor cena é ele disparando uma bazuca contra uma obra que está interrompendo o fluxo de trânsito. Lembra disso?

4) A Regressão

Neste mecanismo de defesa o que acontece é que a pessoa “decide” regressar a um estágio da vida que oferecia mais conforto e segurança do que aquele em que se encontra agora. Às vezes, até mesmo retomando comportamentos característicos da infância.

Em “A Beleza Americana” (American Beauty, 1999), com grande atuação de Kevin Spacey, Lester Burnham, um homem de meia-idade, sofre uma forte crise de identidade ao ser despedido do trabalho e regride a um comportamento adolescente. Recusa-se a procurar um emprego condigno; vai trabalhar numa lanchonete; passa a fumar maconha e a ouvir discos da sua juventude; tem fantasias sexuais com a adolescente amiga da filha, e ainda passa a fazer musculação querendo impressioná-la.

É triste, mas poderíamos considerar o filme como uma espécie de sinfonia sobre um momento temoroso para o ser humano, quando muitos se deparam com o fato de que um monte de exigências do ego já não poderão ser atendidas, quando já não será mais possível alimentar falsas esperanças sobre o futuro.

5) A Projeção

Dentre os “sete escudos do ego” este talvez seja o mais difícil de ser identificado, principalmente da parte de quem está projetando. A projeção é o ato de deslocar determinados sentimentos e fantasiar algumas ações em outra pessoa.

Recorda-se daquele dia em que as suas melhores roupas ainda estavam no varal, e você teve que vestir a primeira coisa que apareceu na sua frente porque já estava atrasado para o trabalho, e que depois passou o dia inteiro pensando que todo mundo olhava para você e pensava que você era a pessoa mais ridícula/ cafona do planeta azul?

Foi mal, mas você projetou nelas seu próprio sentimento de insegurança e inferioridade. E é lamentável que muita gente se isole do mundo pelo preconceito de que a sociedade não é capaz de acolher, e que sempre está a julgar.

No clássico do terror dos anos 90, “Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado” (I Know What You Did Last Summer, 1997), numa noite, quatro adolescentes bêbados atropelam um andarilho e, desesperados, decidem dar cabo do morto lançando o corpo dele ao mar… e mantendo segredo. Um ano depois do ocorrido, eles se reencontram na mesma cidade e recebem um bilhete anônimo de alguém que diz saber o que eles fizeram. A partir daí, um começa a desconfiar do outro, e todos pagam o preço de sua negligência.

6) A Racionalização

Na racionalização, o “escape from reality” se dá pela busca de explicações lógicas para determinado acontecimento, onde se busca afastar os possíveis sentimentos de perda, rejeição, arrependimento, vulnerabilidade etc.  Quase sempre, nós usamos esse artificio para justificar nossas escolhas malfeitas e arrependimentos, e jogamos a culpa em alguém pelas consequências.

No lindíssimo “Uma Prova de Amor” (My Sister’s Keeper, 2009), Sara (Cameron Diaz) e Fitzgerald (Jason Patric) são informados que Kate (Sofia Vassilieva), sua filha, tem leucemia e possui poucos anos de vida. O médico sugere aos pais que tentem um procedimento médico ortodoxo, gerando um filho de proveta que seja um doador compatível com Kate.

Dispostos a tudo para salvar a filha, eles aceitam a proposta. Assim nasce Anna (Abigail Breslin), que logo ao nascer doa sangue de seu cordão umbilical para a irmã. Anos depois, os médicos decidem fazer um transplante de medula de Anna para Kate. Ao atingir 11 anos, Anna precisa doar um rim para a irmã. Cansada dos procedimentos médicos aos quais é submetida, ela decide enfrentar os pais e lutar na justiça por emancipação médica, de forma que tenha o direito de decidir o que fazer com seu corpo.

Para defendê-la, ela contrata Campbell Alexander (Alec Baldwin), um advogado que cuidará de seus interesses. O ponto aqui é que tanto os pais de Anna quanto a própria menina buscam justificativas a todo momento para defender seus próprios pontos de vista, mas, na realidade, é somente quando eles se deparam com o fato de que os argumentos utilizados por eles pouco importam, face à realidade invariável de que Kate irá morrer, que a beleza acontece – eles deixam o egoísmo de lado, para ser novamente (ou finalmente) uma família feliz.

7) A Sublimação.

Dentre os vários mecanismos de defesa, a sublimação, possivelmente, é o mais comum e mais “socialmente aceitável”. Ela acontece quando o sujeito reorienta um sentimento negativo/ destrutivo em algo produtivo.

Não consigo pensar em algum exemplo melhor do que “Creed”, uma continuação ou um quase spin-off da série de Rocky Balboa do Stallone. Em “Creed”, Adonis é filho de uma relação extraconjugal de Apollo Creed, o primeiro e maior adversário de Rocky (e que viera a se tornar mais tarde um bom amigo).

Adonis tem emprego formal, mas sente o desejo impetuoso de se tornar um grande boxeador como fora o pai; e quer fazer isso sem o emprego da força de seu sobrenome. Deseja alcançar seu objetivo por seus próprios meios. E vai atrás de Rocky na Filadélfia, para pedir que o veterano passe a treiná-lo.

No fundo, Adonis se sente rejeitado pelo pai. Seu falso orgulho mascara o pesar e o medo de nunca se tornar vitorioso. Então, quando decide que deve honrar e respeitar a sua própria história; aceita e reconhece as imperfeições de Apollo Creed; e encara de frente as situações humilhantes da infância, identificando-as como parte de um processo necessário para que ele pudesse se tornar um adulto mais forte e resiliente, e chegar onde chegou, a obra de arte dá um show de emoção. E fica impossível se segurar na cadeira sem se empolgar e ficar consternado com tanta paixão.

Então, imagine como seria maravilhoso se nós não tivéssemos mais que fugir. Como seria bom se pudéssemos identificar nossas falsas crenças e pensamentos que nos causam dor, tristeza, angústia, solidão e sofrimento. Seria fabuloso, não seria? Se nós pudéssemos transcender o que nos puxa para baixo para uma realidade que, de verdadeiramente, não tem absolutamente nada…

A vida acontece agora, e o que nós temos em mãos só acontece neste momento. Vale a pena encará-la como Adonis Creed fez com a vida dele, não vale?