[NERD SCIENCE] Zumbis existem? É claro que sim!

Recentemente a nossa equipe cresceu com a adição de novos redatores, parte deles convidados por nós, outra parte selecionada durante a Iniciativa NGF. Mas, isto não quer dizer que nos daremos por satisfeitos. Prova disto é esta nova coluna, que será comandada por alguém nada menos que respeitável. Aí vai um breve currículo dele:

  • Formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF)
  • Mestrado, doutorado e pós-doutorado em Neurociências pela UFF
  • Membro da Liga SUPERextraordinária (Blog da Revista Superinteressante)

Portanto, saiba que esta coluna não está sob a responsabilidade de um nerd qualquer. O cara é um verdadeiro “crânio”. O que é uma boa deixa pra eu passar a palavra ao dono desta coluna. Fique agora com o Doc:

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Não, este não é o Doc! Este é o Rick e… bom, acho que a amiga dele não está muito bem de saúde… :/

Olá Nerd/Geek!
Seja bem vindo ao meu mundo.

Você deve estar se perguntando quem é esta nova criatura que vos escreve. Meu nome é Gustavo, mas alguns me chamam simplesmente de Doc. Esteja à vontade para escolher.

Deixe-me fazer uma breve introdução: sou Biólogo, cinéfilo, músico, louco por livros e séries. Mas a minha verdadeira paixão é a Ciência. E é dela que iremos falar todos os sábados na coluna Nerd Science. Tudo apresentado de uma forma descontraída, bem humorada e ao mesmo tempo com informações relevantes. Isto eu lhes asseguro. Prezo muito pela qualidade das fontes e, como pesquisador, desde sempre tive esta preocupação. Caso esteja passando alguma informação equivocada sintam-se livres para entrar em contato comigo através dos meios eletrônicos disponíveis no final da coluna. Também os encorajo a mandar perguntas e dúvidas. Ficarei extremamente feliz em respondê-las.

Nesta primeira publicação resolvi falar sobre um assunto intrigante e ao mesmo tempo bizarro. Zumbis. Não me refiro às criações de George A. Romero (A Noite dos Mortos-Vivos, entre outros), de Robert Kirkman (The Walking Dead) e tantas outras. Clássicas figuras do cinema de terror, estas criaturas têm o corpo em decomposição, maltrapilhos, com andar descoordenado e sedentos por carne humana. Especialmente o intestino grosso. Aliás, não sei o porquê desta preferência.

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Robert kirkman e seus zumbis no set de filmagem de The Walking Dead

Mas não são destes de que quero falar. Os zumbis aos quais me refiro são pessoas comuns. Mas é claro que não saudáveis. Elas sofrem de um distúrbio psiquiátrico chamado de Síndrome de Cotard (SC). Descrita em 1880 pelo médico francês Jules Cotard, também é conhecida como delírio de Cotard, síndrome do cadáver ambulante (adoro esse nome) ou delírio de negação. A pessoa acometida por esta doença sente realmente que está morta ou que simplesmente não existe. Surreal, não é? Realmente parece um personagem de ficção. Entretanto, é pura verdade.

SINTOMAS

Mesmo sendo raros os casos, são inúmeros os sintomas descritos pelos pacientes e que estão publicados na literatura científica.

Segue a lista de sintomas relatados por pacientes:

  • Falta ou morte de alguma parte do corpo, como o cérebro por exemplo;
  • Perda completa do sangue e fluidos;
  • Insensibilidade à dor;
  • Falta de apetite. Na verdade a pessoa insiste que não precisa comer, pois já está morta;
  • Sensação da carne se separando dos ossos;
  • Órgãos ou o corpo inteiro em estado de putrefação;
  • Ilusões;
  • Experiência de quase-morte semelhante à de pacientes que estiveram em coma;

Mas há sempre algo a mais quando se envolve o cérebro. Na contramão destes sintomas, existem pessoas que se sentem imortais. Claro é um sintoma mais raro ainda, contudo já foi descrito e documentado em artigos científicos.

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O paciente muitas vezes observa um reflexo no espelho de seu rosto em decomposição

CAUSAS

Em muitos dos casos o paciente sofreu ou ainda sofre de depressão severa associada a outros distúrbios, como a hipocondria, por exemplo. Também é encontrado em pacientes psicóticos e esquizofrênicos. A SC pode ocorrer após um trauma cerebral (lesão no lobo parietal) ou ainda em pacientes com doença renal crônica.

Interessante também que um dos efeitos colaterais do antiviral aciclovir é justamente a Síndrome de Cotard. Lembrando que o aciclovir é utilizado no tratamento de: catapora, herpes genital, herpes labial e herpes zoster. Deu medo agora né?

TRATAMENTO

Os sintomas da doença podem desaparecer com o tempo. Mas em ocasiões mais severas é feito um acompanhamento psiquiátrico juntamente com o tratamento utilizando drogas antidepressivas e estabilizadoras do humor. Muitas vezes a terapia com eletrochoque é também utilizada.

Sim. Eu escrevi certo. A terapia com eletrochoque foi reintroduzida há algum tempo e é utilizada quando o tratamento medicamentoso em distúrbios psicóticos não é eficaz.

SÍNDROME DE COTARD NA TV

Se você também é um série maníaco e, assim como eu, ficou puto da vida revoltado com o cancelamento de Hannibal, provavelmente irá se lembra de que esta síndrome foi citada nos episódios 5 e 10 da primeira temporada. Não se lembra? Vou refrescar sua memória. Neste episódio, o Dr. Lecter diagnostica a jovem Georgia Madchen (Ellen Muth) com a Síndrome de Cotard e também prosopagnosia (incapacidade de reconhecer a face das pessoas).

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Georgia Madchen. A garota com SC que morreu por causa de um pente

Madchen apresentava uma pele deteriorada e teve de ficar um bom tempo numa câmara hiperbárica.

NOVO ACHADO

E como se a coisa não pudesse ficar mais bizarra. Em 2013, cientistas da universidade de Liège, na Bélgica, ao investigar o cérebro de paciente com SC ficaram impressionados com os dados encontrados. Utilizando a Tomografia por Emissão de Pósitron, ou simplesmente PET, um exame capaz de visualizar as áreas ativas no cérebro, os pesquisadores notaram que o padrão de áreas ativas e inativas do paciente com SC era semelhante ao de pessoas em coma ou que estivessem dormindo. O centro cerebral relacionada à consciência do paciente tinha pouca ou nenhuma atividade. O que pode explicar a sua dissonância da realidade.

DESPEDIDA

Prezados. Espero que tenham gostado desta “pequena” história de zumbis na vida real. Posso ter cometido alguns enganos ou gafes. Mas espero sinceramente que tenha contribuído de alguma forma ao conhecimento de vocês.

Se tiverem alguma dúvida, ou quiserem me xingar podem fazê-lo pelo Twitter. Ou podem me enviar um e-mail que responderei com certeza.

Então um forte abraço e até o próximo sábado.


REFERÊNCIAS

Charland-Verville V, Bruno M-A, Bahri MA, et al (2013) Brain dead yet mind alive: a positron emission tomography case study of brain metabolism in Cotard’s syndrome. Cortex J Devoted Study Nerv Syst Behav 49:1997–1999. doi: 10.1016/j.cortex.2013.03.003

Debruyne H, Portzky M, Eynde FV den, Audenaert K (2009) Cotard’s Syndrome: A Review. ResearchGate 11:197–202.

Grover S, Aneja J, Mahajan S, Varma S (2014) Cotard’s syndrome: Two case reports and a brief review of literature. J Neurosci Rural Pract 5:S59-62. doi: 10.4103/0976-3147.145206

Helldén A, Odar-Cederlöf I, Larsson K, et al (2007) Death delusion. BMJ 335:1305. doi: 10.1136/bmj.39408.393137.BE

Morgado P, Ribeiro R, Cerqueira JJ (2015) Cotard Syndrome without Depressive Symptoms in a Schizophrenic Patient. Case Rep Psychiatry 2015:643191. doi: 10.1155/2015/643191

Ramirez-Bermudez J, Aguilar-Venegas LC, Crail-Melendez D, et al (2010) Cotard syndrome in neurological and psychiatric patients. J Neuropsychiatry Clin Neurosci 22:409–416. doi: 10.1176/jnp.2010.22.4.409

Solimine S, Chan S, Morihara SK (2016) Cotard Syndrome: “I’m Dead, So Why Do I Need to Eat?” Prim Care Companion CNS Disord. doi: 10.4088/PC


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