[NERD SCIENCE] Existe um sétimo continente?

No início do mês, o chefinho publicou um post na fanpage do Nerd Geek Feelings com sugestões de temas para abordarmos na Nerd Science. Para minha surpresa o assunto escolhido foi continentes de plástico. Sim, confesso que achei que a maconha cerebral iria ser a vencedora. Então hoje, não falaremos sobre Neurociências, mas sobre um tema que poucas pessoas conhecem: O Continente de plástico. E é claro que vamos desmistificá-lo e talvez te amedrontar um pouco.

Você deve ter aprendido na escola – assim espero – que existem 6 continentes: América, Europa, África, Ásia, Oceania e a Antártida. No entanto, já há alguns anos a mídia tem mostrado o surgimento de um outro “continente”: chamado de Great Pacific Garbage Patch, ou na minha tradução: “Grande Lixão do Pacífico”. Descoberta 1988, essa área atualmente ocupa cerca de 700 mil km². Ou 700.000.000 m² de lixo. Esta extensão seria o equivalente à soma dos territórios dos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. Ou simplesmente o estado do Texas.

Na verdade, o termo continente de plástico é empregado de forma incorreta. Basta compararmos a Oceania, que tem 8.526.000 km². Ademais, trata-se de uma área que não é detectada por satélites, sendo avistada apenas por expedições. Além disso, novos estudos demonstraram que o “Grande Lixão do Pacífico” não é estático devido à presença de algumas correntes marítimas.

Mas isto não tira a importância do velho e crescente problema da poluição causada pela ação humana, e que pode culminar com a morte da fauna marinha. Todos os anos milhares de animais são encontrados mortos por terem se alimentado ou serem feridos por plástico e seus debris. Gostou da palavra, então anote e incorpore ao seu vocabulário .

Se tiver estômago, veja abaixo o que um simples canudo ou garfo pode fazer a uma inocente e simpática tartaruga marinha:

Um exemplo dos animais atingidos por nossa ignorância e prepotência são os albatrozes. Todo ano centenas de milhares destas grandes aves morrem por terem sidos “alimentados” por seus pais com tampas de garrafas PET (Polietileno tereftalato) e outros derivados de plástico. O que acontece é que essas tampas não afundam e são confundidas pelas aves como alimentos. Observe na imagem abaixo um albatroz encontrado morto em uma praia do Havaí. Em seu estômago podem ser vistas diversas tampas de garrafas e até um isqueiro. E uma caneta Bic de tinta azul, é claro.

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Um albatroz-de-laysan (Phoebastria immutabilis) encontrado em uma praia do Havaí.

Mas, Doc, como tanta porcaria vinda das costas marítimas pode se acumular num lugar específico no imenso oceano? A resposta está no que os oceanógrafos chamam de giros oceânicos. Os giros são grandes regiões de corrente marítima circulares geradas por ventos e pela rotação da Terra. Com isso há um grande vórtice que concentra qualquer plástico e debri em seu interior, ou até mesmo em locais de águas calmas próximas a ele. Além disso, o próprio vórtice pode quebrar o plástico em pequenos fragmentos com menos de 5mm de diâmetro, agravando mais ainda a poluição nos oceanos.

Destruindo mais uma vez este mito do continente de plástico, devemos considerar que existem outros giros oceânicos: os do Pacífico Norte e Sul, Atlântico Norte e Sul e finalmente o do Oceano Índico. São 5 regiões que têm o potencial de acumular tudo o que não for biodegradável. Logo, quintupliquemos este problema global de poluição.

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Os cinco giros oceânicos: Pacífico Norte, Pacífico Sul, Atlântico Norte, Atlântico Sul e o do Oceano Índico.

Vamos agora a outro ponto interessante: o perigo que podem representar à vida.  Estas regiões de lixo plástico podem sim ser um ambiente propício para a o crescimento de bactérias, fungos ou até a replicação de vírus. Como se as coisas não pudessem piorar, estes lixões podem absorver poluentes orgânicos provenientes de esgoto, como bifenilos policlorados, diclorodifeniltricloroetano (DDT), hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e outros compostos com nomes tão complicados que provavelmente você irá esquecer ao chegar ao fim desta frase. Fato é que, tais poluentes são extremamente tóxicos e nocivos, tanto à vida marinha quanto à humana.

Diante deste cenário quase apocalíptico, façamos uma singela pergunta: existe alguma solução para este problema? A resposta é sim e ainda não. Por que? Porque não paramos de produzir toneladas de lixo não-biodegradável todos os dias. Uma simples garrafa PET pode levar até 400 anos para se decompor.

Por mais que existam ONGs – como a The Ocean Cleanup – que tentam recuperar estas áreas de plástico, levará uma eternidade para capturar tanto lixo.

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Projeto de limpeza da água marinha pela ONG The Ocean Cleanup no Great Pacific Garbage Patch

Sendo assim, a saída mais óbvia seria estimular e conscientizar a reciclagem no dia a dia. Mas realista e pessimista como sou, ouso dizer que esta medida seria apenas mais uma gota no oceano, ou, apenas mais tampa no oceano de plástico.


Referências

Eriksen M, Lebreton LCM, Carson HS, et al (2014) Plastic Pollution in the World’s Oceans: More than 5 Trillion Plastic Pieces Weighing over 250,000 Tons Afloat at Sea. PLOS ONE 9:e111913. doi: 10.1371/journal.pone.0111913

Maes C, Blanke B, Martinez E (2016) Origin and fate of surface drift in the oceanic convergence zones of the eastern Pacific. Geophys Res Lett 43:3398–3405. doi: 10.1002/2016GL068217

Society NG, Society NG (2014) ocean gyre. In: Natl. Geogr. Soc. http://nationalgeographic.org/encyclopedia/ocean-gyre/. Accessed 14 Nov 2016

Waters H (2013) Laysan Albatrosses’ Plastic Problem. In: Ocean Portal Smithson. https://ocean.si.edu/slideshow/laysan-albatrosses%E2%80%99-plastic-problem. Accessed 20 Nov 2016

A Sea Of Plastic | Popular Science. http://www.popsci.com/sea-plastic. Accessed 20 Nov 2016a

Plastic “continents”: Is there a way out? — ScienceDaily. https://www.sciencedaily.com/releases/2016/07/160728143752.htm. Accessed 22 Nov 2016b