[NA TRILHA] A trilha psicótica de Bernard Herrmann

Olá, amigos. É com prazer que anuncio a nova coluna mensal do Nerd-Geek Feelings, dedicada aos grandes compositores de trilhas sonoras. Afinal de contas, filmes tornam-se inesquecíveis não somente por suas histórias, suas cenas ou seus atores, mas também por sua música. Tente imaginar Star Wars sem o tema composto por John Williams. Não dá, né? Então a cada encontro, falaremos sobre os grandes temas musicais da história do cinema e seguiremos na trilha de seus compositores.

Psicose é um dos filmes mais memoráveis do diretor Alfred Hitchcock. Não há como falar do filme e não lembrar desta cena:

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Mas esta cena só tem seu impacto aumentado por causa dessa música:

A história dos bastidores do filme Psicose é tão interessante que já rendeu livros e um filme para o cinema (Hitchcock, 2012). Vamos aqui destacar o processo de inserção da trilha sonora no filme, composições que ficaram a cargo de Bernard Herrmann.

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Bernard Herrmann

Nascido no dia 29 de junho de 1911, Bernard Herrmann formou-se na Juliard School, famosa escola de música e artes cênicas de Nova York. Aos vinte anos, Herrmann era fundador e regente de uma orquestra de câmara. Tinha uma personalidade bem próxima a de Hitchcock: “perfeccionista, agressivo, briguento e pedante”. Antes de Psicose, Herrmann já havia trabalhado com Hitchcock compondo as trilhas de O Terceiro Tiro (1955), O Homem Que Sabia Demais (1956), O Homem Errado (1956) e Um Corpo Que Cai (1958).

Durante a exibição de um dos cortes brutos de Psicose, ainda faltava os efeitos sonoros e a música. Hitchcock sempre fazia suas próprias anotações a respeito dos efeitos sonoros e da música em seus filmes. Para François Truffaut, o diretor havia dito que não gostou das trilhas de Miklos Rosza em Quando fala o Coração (1945) e de Franz Waxman para Rebecca, a Mulher Inesquecível (1940) e Janela Indiscreta (1954). Em Psicose, Hitchcock queria diminuir o uso da música.

Em várias cenas, Hitchcock descreve com exatidão os efeitos sonoros que gostaria de ouvir em Psicose.

Durante o assassinato, temos que ter o barulho do chuveiro e dos golpes da faca. Precisamos ouvir a água descendo pelo ralo da banheira, especialmente quando a câmara fecha nele… quando Marion é esfaqueada, o som do chuveiro tem que ser contínuo e monótono, quebrado apenas pelos gritos de Marion.

Como puderam perceber, a descrição não faz nenhuma menção à colocação da música. Na verdade, Hitchcok não queria música nenhuma na sequência do Motel Bates. Em uma conversa com Brian De Palma, Herrmann contou:

Eu me lembro de estar sentado numa sala de projeção depois de ver o corte bruto de Psicose. Hitch andava nervosamente de um lado para o outro dizendo que estava uma porcaria e que iria cortá-lo para o formato de seu programa de TV. Estava louco. Não sabia o que tinha em mãos. Falei: ‘Espera um pouco, tenho umas ideias. Que tal uma orquestração só com cordas? Eu era violinista, você sabe…’ Ele estava fora de si na época. Tinha bancado o filme com seu próprio dinheiro e temia um fracasso. Nem queria que eu botasse música na cena do chuveiro. Você pode imaginar?”

Ignorando as sugestões de Hitchcock, Herrmann criou para Psicose, segundo as palavras de Stephen Rebello, autor de “Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose“:

Uma obra-prima para violoncelo e violino, música em ‘preto e branco’ que pulsava sonoramente ao mesmo tempo que corroía as terminações nervosas. A composição provou ser um resumo de todo o trabalho feito por ele para filmes anteriores do diretor, dada a forma com que transmitia o abismo da psique humana, temor, desejo, arrependimento, enfim, os mananciais do universo hitchcockiano.

O roteirista Joseph Stefano descreveu a trilha como “os violinos que gritavam”. Hitchcock ficou tão satisfeito com a trilha sonora composta por Herrmann que chegou a dobrar  salário do compositor.

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Herrmann e Hitchcock

Entre seus vários trabalhos, Bernard Herrmann trabalhou ao lado de Orson Welles compondo as trilha sonoras de Cidadão Kane (1941) e Soberba (1942). Depois de Psicose, trabalhou em outros filmes de Hitchcock como Os Pássaros (1963) e Marnie – Confissão de Uma Ladra (1964). Foi parceiro de François Truffaut em Farenheit 451 (1966) e A Noiva Estava de Preto (1968). Compôs as trilhas dos filmes Sisters (1973) e Trágica Obsessão, ambos de Brian De Palma.

No dia 23 de dezembro de 1975, Herrmann havia concluído seu último trabalho: a trilha sonora do filme Taxi Driver (1976) de Martin Scorsese. Nesse mesmo dia, assistiu ao corte bruto de Foi Deus Quem Mandou (1976) de Larry Cohen, seu próximo trabalho. Naquela noite, Herrmann jantou com Cohen e depois voltou para o hotel. Bernard Herrmann morreu enquanto dormia, vítima de uma doença cardiovascular. Tanto Cohen quanto Scorcese dedicaram seus filmes à memória de Bernard Herman.

Confira abaixo o tema do filme Psicose, composto por Bernard Herrmann, executada pela BBC Concert Orchestra sob a batuta de Keith Lockhart:

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Referência: REBELLO, Stephen. Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose. Rio de Janeiro, editora Intríseca. 2013.


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