[MÚSICA] 20 anos Sem Renato Russo (O Trovador Solitário) – “Morre um Rebelde”

Eu sei, eu sei… é semana da criança…

Mas não poderia deixar de falar dele.

Cresci ouvindo Legião Urbana. Ou melhor, desde sempre lembro-me de escutar a voz grave e melancólica vinda das fitas K7 de minha irmã mais velha. 

morrer-thumb-800x1064-127335

É claro que, quando bem pequena, eu não entendia exatamente tudo o que aquele cantor de voz triste dizia – isso por volta de 1994.

Até hoje acho que não entendo tudo. Ninguém entende.

Renato Manfredini, ou Renato Russo, como era conhecido por toda legião de fãs que sua “filosofia” cantada arrastou, tinha razões que nem mesmo a mais afiada lógica poderia explicar. Para citar um exemplo bobo de como seria complicado tentar entender as referências trazidas por Renato, basta atentar para os nomes de grande parte de suas músicas – que pareciam não ter relação com suas letras (sempre carregadas de significados mais profundos que a superfície deixava transparecer). Falar de Renato Russo é tarefa para um biógrafo. Tratar das coisas que Renato tentou comunicar pode ser assunto não para um post, mas uma série de artigos infinitos.

Cabe a mim, portanto, como legionária, ao menos lembrar das coisas que fizeram do carioca amante de Brasília se tornar um Mito.

ME DIZ PORQUE QUE O CÉU É AZUL…

Renato Manfredini Júnior era filho de Renato Manfredini e de Maria do Carmo Manfredini. Renato era descendente de italianos provenientes da comuna de Sesto ed Uniti, Cremona; e nordestinos.

renatorussocriana

Até os seis anos de idade, Renato viveu no Rio de Janeiro junto com sua família. Começou a estudar cedo no Colégio Olavo Bilac, na Ilha do Governador, Zona Norte da cidade. Em 1967, mudou-se com sua família para Nova York, pois seu pai, funcionário do Banco do Brasil, fora transferido para agência do banco em NY, mais especificamente para Forest Hills, no distrito do Queens. Foi quando Renato foi introduzido à língua e a cultura norte-americana. Em 1969, a família volta para o Brasil, indo Renato morar na casa de seu tio Sávio na Ilha do Governador, Rio de Janeiro.

tumblr_lzadk3lzfn1rnz911o1_400

Em 1973, a família trocou o Rio de Janeiro por Brasília, passando a morar na Asa Sul. Em 1975, aos quinze anos, Renato começou a atravessar uma das fases mais difíceis e curiosas de sua vida, quando fora diagnosticado como portador da epifisiólise, uma doença óssea. Ao saber do resultado, os médicos submeteram-no a uma cirurgia para implantação de três pinos de platina na bacia. Renato sofreu duramente a enfermidade, tendo que ficar seis meses na cama, quase sem movimentos, e permanecendo ao todo cerca de um ano e meio em recuperação.  Dá pra calcular que, embora tivesse o corpo parado, sua mente trabalhava o tempo todo. Talvez a “primavera” cultural de Renato Russo tenha chegado nesse momento de sua vida, já que durante o período de tratamento, Renato teria se dedicado quase que integralmente a ouvir música, iniciando sua extensa coleção de discos dos mais variados estilos. Simultaneamente à cura da epifisiólise.

Sua inteligência chamava a atenção de quem passasse por ele, e assim o jovem ganhava destaque. Em 13 de março de 1978, Renato foi escolhido entre os professores do Cultura Inglesa para saudar o príncipe Charles, quando este participou da inauguração da nova sede da escola, ao visitar o Brasil naquele ano. Renato tinha apenas 17 anos, mas seu inglês impecável lhe favoreceu no momento da escolha.

… MAS ACONTECE QUE TUDO TEM COMEÇO…

Foi justamente no ano de 1978 que Renato formou a banda Aborto Elétrico, junto com Felipe Lemos (bateria) e Flávio Lemos (baixo elétrico), e com o sul-africano André Pretorius (guitarra). A formação foi vigente por apenas 4 anos, em razão de desentendimentos frequentes entre Renato e Felipe Lemos. O Aborto Elétrico deixou sementes que mais tarde resultariam na Legião Urbana e no Capital Inicial (formado por Fê e Flávio, junto ao guitarrista Loro Jones e ao vocalista Dinho Ouro-Preto).

Uma das mais belas resultantes do Aborto Elétrico, cuja letra foi escrita por Renato, foi Fátima:

SOMOS OS FILHOS DA REVOLUÇÃO

10_mini

Com o fim da banda, Renato Russo dedicou-se, sem muito sucesso, à carreira solo, sendo o “Trovador Solitário”, até que finalmente se uniu à Marcelo Bonfá, Eduardo Paraná e Paulo Guimarães (tecladista, conhecido como Paulo Paulista), nascendo assim a formação original do Legião Urbana, em agosto de 1982. Dentre as influências de Renato estão The Cure, The Doors (que por sua vez têm influência da literatura de Aldous Huxley), Ramones, Sex Pistolls, Rolling Stones e o filósofo Jean-Jacques Rousseau (que serviu de inspiração inclusive para seu nome artístico). 


Após alguns shows, Eduardo Paraná e Paulo Paulista saíram da banda, e só em 1983 que a banda assumiu sua formação icônica, com a entrada de Dado Villa-Lobos nas guitarras.

Em 23 de julho de 1983 a Legião Urbana faz um show no Circo Voador que mudaria pra sempre seu curso: após a apresentação, eles foram convidados a gravar uma fita demo com a EMI.

VOCÊ ME DIZ QUE SEUS PAIS NÃO ENTENDEM, MAS NÃO ENTENDE SEUS PAIS…

28803

Ao contar para a mãe sobre sua orientação sexual, Renato foi corajoso. Justamente quando a AIDS parecia ser uma espécie de Cavaleiro do Apocalipse, dada a quantia de pessoas que começava a contrair a doença, Renato assumiu a homossexualidade – lembrando que eram justamente os homossexuais as maiores vítimas da terrível doença naquela época.

Renato Russo sempre surpreendeu… foi aos 18 anos que o jovem cantor fez a mãe empalidecer ao revelar que era homossexual.

De acordo com relato de Dona Carminha, Renato simplesmente disse: “Mãe, não vou casar com a Ana Paula, porque acho os homens interessantes” (referindo-se à então namorada, uma fotógrafa),

“Meu chão foi lá embaixo”, lembra hoje a professora aposentada Maria do Carmo Manfredini. “Parei um minuto para rezar: Meu Deus, o que faço agora?” Dona Carminha, então, respondeu a Russo, angustiado com o silêncio da mãe: “Está bem, filho, mas só não me traga homem para dentro de casa”.

Não se pode dizer que Dona Carminha foi preconceituosa para aquela época. Pelo contrário, creio.

PARECE COCAÍNA, MAS É SÓ TRISTEZA

É muito claro para qualquer fã ou simpatizante de Legião Urbana que Renato sofria profundamente com uma depressão que possivelmente nunca foi tratada. Há relatos de que o cantor, muitas vezes, atrasava shows, tinha medo de se expor, isolava-se. Antes de entrar no palco em uma de suas últimas apresentações, Renato teria se enrolado num lençol como uma criança. Foi difícil convencê-lo a sair.

Especula-se que Renato sofria de fobia social também. Não seria difícil de acreditar, levando em conta o quadro depressivo.

lista-1

Um recado de misantropia e uma lista com sugestões de leitura.

Em 1991 foi lançado o “V“, álbum mais melancólico e pesado (em muitos sentidos). Não foi por acaso.

Renato, nesta época, já havia sido diagnosticado com HIV (em 1989). Para piorar, o cantor se afundou em problemas com Álcool e no sofrimento de um relacionamento nunca resolvido. E por ser intenso, Renato deixou sangrar sua sensibilidade para as composições que fazia.

Em 1993, contente com os resultados na cura do alcoolismo depois de uma internação, foi gravado “O Descobrimento do Brasil“, considerado o álbum mais alegre da banda, com músicas cheias de saudosismo e esperança no futuro. As esperanças do Rebelde estivessem renovadas. Basta notar o tom bucólico, quase ingênuo do álbum e das músicas dele.

legic3a3o-floresblogMas, para todo aquele que sofre da depressão, os provérbios se invertem. Para o líder da Legião não foi diferente. Após a bonança veio a tempestade. Literalmente.

Após mais um grande período de problemas psicológicos e já abatido pela AIDS, Renato soprou seus últimos versos nos ventos caóticas de “A Tempestade“, último álbum da banda com Renato Russo ainda vivo, lançado em 1996.

21 dias após o lançamento de “Tempestade”, em 11 de outubro de 1996, Renato Russo morreu.

A dor de Renato é tão clara em suas letras que, aos fãs, seus lamentos doem.

A maior parte das músicas compostas pelo Trovador Solitário deixavam patentes seu sentimento de inconformismo com relações interpessoais, amorosas e com a forma como o mundo era visto por certas pessoas.

renato-russo-2O Rebelde nunca se calou, nunca mediu suas catarses.

É curiosa a forma como hoje todos se mostrem tão revoltados com coisas importantes ou banais. Claro, a internet está aqui para nos dar voz, para que possamos expor pensamentos (de forma exagerada, muitas das vezes). Mas o Rebelde foi além e conseguiu deixar escrita no papel os demônios que lhe ocupavam a alma, os anjos tristes que passeavam ao seu lado, os monstros de sua própria criação.

E talvez nisso residisse mais a beleza do poeta.

Sua dor, seu sentimento de inadequação com o mundo, as lágrimas colocadas em forma de letra e melodia, a raiva expressa nos acordes mais poderosos, as frases que só faziam sentido após reflexões, as declarações de amor tão profundas e quase pintadas na cor do desespero de quem implora uma chance a mais; todas essas coisas e muitas mais faziam que os versos do Trovador fossem algo mais que apenas versos.

Talvez só quem tem um temperamento mais melancólico seja afeito às canções mais tristes como Vento no Litoral, Livro dos dias e Mil pedaços. Mas uma das ideias da arte não é justamente causar essa relação de identificação?

Renato tinha o grande sentimento de solidão que o assolava em cada pequena coisa, cada pequeno ato, cada olhar. Mas, na verdade, por tocar tantos corações igualmente melancólicos, O Trovador Solitário nunca esteve só. Sua depressão sempre dialogou (e dialoga) com seus fãs…

Todo bom legionário sentiu as dores de Renato, cada um ao seu jeito.

Nota da legionária: Ainda hoje me peguei chorando, ao re-escutar as músicas que formaram os pensamentos da minha mente confusa de doze anos de idade. 

MINHA LARANJEIRA VERDE, POR QUE ESTÁS TÃO PRATEADA?

Nem todas músicas de Renato, contudo, eram eivadas de dor e sofrimento. Mesmo mantendo um tom de crítica – sua marca registrada em tudo – ele nos contemplou com músicas leves.

Eu costumo dizer que algumas músicas do Legião Urbana tem gosto e cheiro de tangerina numa tarde de verão. Mesmo “Barcos” ou “Love in the Afternoon”, que falam de perdas, tem um tom mais doce, menos sofrido. Assim também são “Sereníssima”,  “Giz”, “Os Anjos”, “Mais uma vez” (lançado em 2003, no CD Renato Russo Presente), “Teorema”, entre outras. Renato também sorria…

Nem tudo era dor. Ou melhor: “Tudo é dor, mas toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”

Nota da Legionária: De acordo com o próprio Renato, essa frase foi tirada de um livro sobre Budismo que ele encontrou num hotel em que se hospedou. O mais legal é pensar que ele levou o livro com ele… 😛
g10678w250

MEU FILHO VAI TER NOME DE SANTO

tumblr_m5m9aue7pa1rx9iw8o1_400

Como já havia dito, Renato sabia que seu filho teria nome de Santo. Bom, de fato… Mesmo que você não conheça, EXISTE um Santo Italiano (nascido na região de Veneza) chamado Giuliano.

São Giuliano era conhecido como o Hospitaleiro.
225px-saint_julian_taddeo_gaddiE… claro… Renato gostava de “Meninos e Meninas”. A mãe biológica de Giuliano, Raphaela Manuel Bueno, era modelo, tiete da Legião.

A moça engravidou nas primeiras semanas do namoro com o cantor e desapareceu em seguida, sem dar qualquer notícia. A jovem apenas reapareceu quando Giuliano tinha três meses. Raphaela entregou a criança a Renato, alegando que estava sem condições de criá-lo. O cantor levou-o na hora para Brasília. Naquele mesmo ano, 1989, Raphaela faleceu num acidente de trânsito. Embora pouco conhecida, Raphaela foi um dos amores da vida de Renato.

QUANDO TUDO ESTÁ PERDIDO, EU ME SINTO TÃO SOZINHO…

Renato Russo faleceu no dia 11 de outubro de 1996, às 01h15 da madrugada, em consequência de complicações causadas pela AIDS.  Deixou o filho, na época com apenas 7 anos de idade. O corpo de Russo foi cremado e suas cinzas foram lançadas no Parque Burle Marx.

No dia 22 de outubro de 1996, onze dias após a morte do cantor, Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá, ao lado do empresário Rafael Borges, anunciaram o fim das atividades do grupo. Estima-se que a banda tenha vendido cerca de 20 milhões de discos no país durante a vida de Renato.

legiaoblog

Em 2003 foi lançado o CD “Renato Russo Presente” com gravações inéditas de músicas famosas, uma música inédita (Mais uma vez) e três entrevistas de mais ou menos 14 minutos cada uma. Gosto do nome desse CD, especialmente porque ele não fala em um Renato Russo Vivo. Renato faleceu há 20 anos e levou com ele um talento sem-fim e toda genialidade de quem foi muito mal compreendido, mas será eternamente alvo de interpretações.

Ele morreu. 

Mas está Presente. 

renato-russo-ao-vivo-show-pb

Fontes:

Minha memória repleta das palavras do poeta;

http://www.terra.com.br/istoegente/34/reportagens/rep_renato.htm

Wikipédia

Abaixo uma singela Galeria:

Este slideshow necessita de JavaScript.