[QUADRINHOS] Marvel NOW! – Parte 4: Avengers #1, Thunderbolts #1, Iron Man #3 e All-New X-Men #3

Esta semana tivemos uma das estréias mais aguardadas da Marvel NOW!, Avengers de Jonathan Hickman, que já começou mostrando que está disposto a expandir o conceito da equipe, e torná-la ainda mais pertinente no Universo Marvel. Mas não nos adiantemos, pois também é preciso falar sobre Thunderbolts #1, que apresentou uma das equipes mais inusitadas desta nova fase da editora, e as edições 3 de Iron Man e All-New X-Men. Sem muita enrolação, prossigamos.

Lembrando, como de praxe, que SPOILERS rolarão inevitavelmente.

Thunderbolts-Zone-000Thunderbolts #1

Roteiros de Daniel Way
Desenhos de Steve Dillon
Cores de Guru eFX

A primeira encarnação dos Thunderbolts surgiu em meados da década de 1990 como consequência da saga Massacre. Enquanto heróis como os Vingadores e o Quarteto Fantástico foram dados como mortos após o confronto final com o vilão que deu nome à saga, um grupo de vilões tirou proveito do vácuo deixado pela ausência das duas equipes e se fez passar por heróis. Sua atuação como tais foi tão bem planejada que em pouco tempo os Thunderbolts tornou-se um dos grupos mais queridos de um mundo que, repentinamente, perdeu  a proteção de seus maiores heróis. Alguns dos integrantes se adaptaram tão bem à rotina heróica, e ao fato de serem aclamados por seus feitos, que acabaram gostando da idéia de ajudar pessoas e continuaram atuando como heróis, mesmo depois de serem desmascarados, quando os Vingadores voltaram do universo paralelo onde estiverem durante sua ausência. Porém a outra parte da equipe não conseguiu domar sua má índole, e prosseguiu em seus planos maléficos.

Os Thunderbolts originais, criados por Kurt Busiek e Mark Bagley.

Os Thunderbolts originais, criados por Kurt Busiek e Mark Bagley.

Com o passar dos anos os Thuderbolts tiveram várias formações, mas a idéia básica de antigos vilões se tornando heróis perdurou por um tempo, até a saga Guerra Civil, quando o governo dos Estados Unidos permitiu que Norman Osborn ficasse encarregado da formação e controle de um grupo de vilões, empregados pelo governo para ajudá-lo a caçar os heróis que passaram a atuar clandestinamente, quando se posicionaram contra a Lei de Registro de Super-Humanos.

Os Thunderbolts de Norman Osborn, pós-Guerra Civil.

Os Thunderbolts de Norman Osborn, pós-Guerra Civil.

Esta formação durou até a saga Invasão Secreta, quando os Thunderbolts se destacaram em sua atuação contra os Skrulls, sendo considerados, ao lado de Norman Osborn, os principais responsáveis por impedir que a raça alienígena dominasse nosso planeta. Daí pra frente os Thunderbolts se tornaram os Vingadores Sombrios, enquanto uma nova equipe foi formada para atuar secretamente, também sob a liderança de Norman Osborn, em missões de espionagem, e fazendo outros trabalhos sujos para o ex-Duende Verde.

Thunderbolts liderados por Luke Cage.

Thunderbolts liderados por Luke Cage.

Depois da saga O Cerco, quando Osborn perdeu seu poder após forçar uma guerra contra os asgardianos, uma nova versão dos Thunderbolts foi criada e ficou sob o comando do vingador Luke Cage. Eles continuaram como vilões sob o comando do governo para fazer o bem em troca de redução de penas e outros privilégios. Não acompanhei esta última fase da equipe, mas, de início, ela não parece ter relação direta com a equipe atual (o que meio que torna inútil toda esta minha introdução, mas, enfim…).

Para a estréia da nova versão dos Thunderbolts, Daniel Way preferiu enfatizar quão fodões, seguros de si e despreocupados são todos os integrantes desta nova formação. Assim, temos aparições rápidas e retratos superficiais de cada um deles. Nelas o escritor já mostra que optou por um caminho mais caricato e com toques de humor negro (em alguns pontos de caráter duvidoso).

Os encontros entre eles e o General Ross, idealizador da nova versão da equipe, são muito forçados. Ele aparece como uma versão em quadrinhos do Coronel Kilgore de Apocalipse Now, conversando tranquilamente em meio a tiroteios como se nada de grave estivesse acontecendo ao seu redor. Isto, somado à violência gráfica da história, que embora não seja nada fora do comum (apenas muito sangue jorrando de cortes, buracos de bala e perfurações de adagas), reforça a imagem que o escritor criou para si de seguidor do “estilo Garth Ennis.” Resta saber se ficará mais gore do que isto nas próximas edições, quando botarem todos esses caras num mesmo lugar enfrentando, espera-se, inimigos que justifiquem a união de indivíduos tão altamente perigosos quanto eles.

O General Ross em seu habitat natural se encontrando com o atual Venom.

O General Ross em seu habitat natural se encontrando com o atual Venom.

É necessário destacar as boas sacadas deste novo título dos Thunderbolts, começando pela mais óbvia: o novo líder ser um personagem cujo apelido é também o nome da equipe. É como se o General Thaddeus E. “Thunderbolt” Ross sempre estivesse destinado a assumir este papel, pois o personagem existe há mais tempo que os Thunderbolts, embora até então ninguém tivesse pensado em ligá-lo diretamente à equipe. Assim, é um tanto irônica a escolha dele para reuni-los e liderá-los, tornando-o uma espécie de dono dos demais membros, seus próprios Thunderbolts.

Outra boa idéia é a trama central desta edição ser focada no diálogo entre Frank Castle e o General Ross. Ambos possuem formação militar, mas enquanto o Justiceiro na maior parte de sua carreira foi apenas um homem “normal” combatendo criminosos “normais” (estou estrategicamente descartando aqui as fases em que ele foi um anjo e uma versão “monstro de Frankenstein” de si mesmo), Thadeus Ross até pouco tempo atrás foi o militar que tinha como maior objetivo de sua vida capturar e/ou matar o Hulk, até, através de uma série de circunstâncias que não cabem neste texto (porque desconheço seus detalhes), ganhar a mesma maldição de seu maior inimigo, tornando-se o Hulk Vermelho. Após gerar muitas confusões e enfrentar praticamente todos os principais heróis do Universo Marvel, ele acabou virando membro dos Vingadores a convite do Capitão América, numa espécie de coleguismo entre militares, e também como forma de ajudá-lo a redimir-se de todos os problemas que causou nos primeiros dias após sua transformação.

Um momento de desabafo de Ross sobre sua nova "condição."

Um momento de desabafo de Ross sobre sua nova “condição.”

O melhor momento da conversa dos dois é quando Ross finalmente admite o quanto o Departamento de Defesa dos EUA sente que deve ao Justiceiro pelo trabalho de limpeza que fez ao longo de seus anos de atuação, eliminando definitivamente centenas, talvez milhares de criminosos, evitando, com isto, a morte de boas pessoas. Daí sua tentativa de recrutá-lo para os Thunderbolts, claro que à sua maneira, contando com um bocado de “persuasão personalizada.”

Além de Ross e o Justiceiro muito pouco é mostrado e explorado sobre os demais membros. Sabemos apenas que a equipe ainda contará com: Venom (que não é mais Eddie Brock há algum tempo, mas Flash Thompson, o valentão que pentelhava Peter Parker no colegial e acabou virando um militar condecorado, até perder as pernas num conflito, e ser selecionado como novo hospedeiro do simbionte alienígena); Deadpool, o mercenário com a língua maior que o calibre de suas armas, fator de cura acelerado e cara deformada; e Elektra, a mercenária grega gostosa ex-amante do Demolidor, cujo par de armas preferido são suas adagas. A equipe ainda contará com outra vilã do Hulk que sinceramente desconheço, que aparentemente servirá como uma espécie de coringa do Ross a ser usada em alguma situação emergencial. Portanto, é uma seleção de membros que, embora inusitada, é promissora. Resta saber se um roteirista irregular como Daniel Way dará conta de explorar o potencial dos personagens, as motivações de cada um e as possibilidades de interação que apresentam.

Só um Hulk mesmo pra dar conta de domar esse pessoal.

Só um Hulk mesmo pra dar conta de domar esse pessoal.

Já os desenhos do Steve Dillon estão apenas razoáveis, e cada vez mais distantes da qualidade que possuíam na época que desenhou Preacher, obra máxima de Garth Ennis. Muitos leitores não gostam de seu traço por ele ir muito “direto ao ponto,” sem usar técnicas de luz e sombra elaboradas, e sem invencionices na escolha de ângulos de “câmera,” além de não ter uma diagramação de páginas particularmente arrojada. Apesar de todos estes fatores, ainda acho ele um desenhista adequada para um título cuja ação pede cenas de violência mais cruas e sem rodeios.

Apesar de uma estréia um tanto “morna” e sem grandes momentos e idéias, esta primeira edição cria uma expectativa para a próxima, quando, espero, veremos como funcionará a interação dos novos membros da equipe. Torçamos para que Way saiba jogar com as cartas que tem em mãos.

Iron Man-Zone-000Iron Man #3

Roteiros de Kieron Gillen
Desenhos de Greg Land
Arte-final de Jay Leistein
Cores de Guru eFX

Na parte 2 desta série de reviews me precipitei dizendo que a tecnologia Extremis foi eliminada como ameaça, mas havia me esquecido de um detalhe estabelecido na primeira edição da série: durante o evento organizado para vendê-la havia quatro compradores, e até o momento descobrimos quem era apenas um deles, Arthur, líder do Círculo, apresentado na edição anterior. Portanto, este primeiro arco de Gillen continuará lidando com a busca de Tony Stark pelos demais possuidores da tecnologia, e suas tentativas de retomá-la ou destruí-la.

Apesar de continuar como um tipo de McGuffin do arco atual, Gillen continua disposto a mostrar quão versátil é a Extremis, e aqui apresenta mais uma de suas múltiplas possibilidades de aplicação. Se no capítulo anterior vimos como ela maximiza a interface homem/máquina, aqui vemos o que ela pode fazer se utilizada para curar doenças em estágio avançado.

Outra idéia expandida pelo autor é a armadura modular. Na edição anterior vimos uma demonstração prática de como funciona o esquema de reconfigurá-la conforme o tipo de combate ou situação enfrentada. Aqui o cenário muda completamente, e o Homem de Ferro parte para uma missão de espionagem, o que gera situações muito bacanas, como descobrir de que forma toda a nova parafernália tecnológica é usada para infiltração e disfarce instantâneo, usando reflexão da luz ambiente, scanner 3D de longa distância e hologramas.

Tony Stark pagando de espião high-tech.

Tony Stark pagando de espião high-tech.

Gillen também merece elogios por demonstrar que tem consciência dos questionamentos levantados pelos conceitos que introduziu. Por exemplo, nesta edição ele usa Pepper Potts para dar voz às questões já levantadas por alguns leitores com relação à nova armadura de metal inteligente. Muitos, incluindo eu, confesso, acharam um retrocesso da parte de Tony Stark optar por um traje high-tech que precisa ser mecanicamente reconfigurado numa linha de montagem portátil, ao invés de usar a capacidade metamórfica do metal inteligente. Em poucas linhas Tony Stark se faz entender, e mostra que não está afim de acomodar-se com uma tecnologia “faz-tudo,” mas ser forçado a fazer escolhas e conviver com elas. É assim que um personagem adquire relevo, expondo de maneira inteligente sua mudança de postura.

E Tony Stark está agindo com mais desenvoltura nos diálogos desta edição, o que demonstra que o autor está cada vez mais à vontade com o personagem. Todas as tiradas de humor entram na hora certa, com destaque para a piada que ele faz sobre a Viúva Negra, em um de seus monólogos internos durante sua missão Além disto, Gillen vem encontrando formas cada vez mais orgânicas de dar ao leitor insights sobre o funcionamento da mente do protagonista através do uso econômico e muito eficiente da técnica narrativa de fluxo de consciência.

E os desenhos de Greg Land vêm melhorando a cada edição. Embora ainda apresente sua parcela de poses estranhas e expressões faciais inadequadas para algumas situações e diálogos retratados, suas cenas de combate e máquinas estão mais cinéticas e com design mais arrojado e caprichado. Que continue por este caminho.

X-men 2-Zone-000All-New X-Men #3

Roteiros de Brian Michael Bendis
Desenhos de Stuart Immonen
Arte-final de Wade von Grawbadger
Cores de Marte Gracia

Mantendo o ótimo nível visto nas edições anteriores, All-New X-Men chega a esta terceira mostrando que a intenção do Bendis é trabalhar cada grupo de personagens separadamente, para depois pô-los em confronto. A primeira edição foi mais focada no grupo de X-Men residentes da Escola Jean Grey para Estudos Avançados, a segunda nos X-Men do passado, e esta terceira na facção liderada pelo Ciclope do presente.

A história abre revelando o curioso lugar escolhido por Ciclope para servir como base da nova Escola Xavier, que servirá de lar para os novos mutantes que vem recrutando: a instalação anteriormente usada pelo Projeto Arma X, o mesmo que revestiu com adamantium o esqueleto de Wolverine, e converteu vários mutantes em armas vivas. Apesar da desculpa usada por Ciclope ser a de que este é o último lugar onde alguém iria procurá-lo, a verdadeira intenção é bem mais reveladora: transformar um lugar onde mutantes foram vítimas de experimentos e torturas, em um local onde jovens mutantes possam aprender a usar seus poderes. Isto bate com a nova motivação do personagem, que desde o final da saga Vingadores vs. X-Men vem buscando meios de se redimir, especialmente por sua culpa no assassinato daquele cuja ideologia guiou boa parte de sua vida como mutante defensor da aceitação de sua raça pela sociedade: Charles Xavier.

Nesta edição Bendis também volta um pouco no tempo para mostrar como foi o reencontro de Ciclope com Emma Frost. A relação do casal já não é mais a mesma desde que ele a traiu na reta final de Vingadores vs. X-Men, quando roubou dela a parcela que possuía dos poderes da Fênix para ficar mais poderoso e enfrentar a união dos dois grupos de heróis que se voltaram contra ele. E não ajuda muito o fato de Ciclope culpar a influência da Força Fênix pelas atitudes que tomou naquela ocasião, algo que gera outro bom momento da história, quando Magneto tem uma conversa franca com o rapaz. É mais um dos diálogos bem escritos de Bendis, em que o ex-vilão admite que tem consciência dos atos de violência e crueldade que cometeu no passado, e que, por mais que ele já tenha tentado convencer-se de que foram realizados por alguém dominado por uma fúria cega, no fundo era o que ele queria fazer realmente. Ou seja, pra ele, Ciclope quis matar Xavier, independente de ser ou não o hospedeiro de uma força cósmica imensurável, algo que o ex-pupilo de Xavier ainda não está disposto a aceitar.

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Magneto jogando uma real em Ciclope.

Mas este novo capítulo de All-New X-Men não mostra apenas discussões de relacionamento. Na frenética cena de resgate de Emma Frost descobrimos que o envolvimento dela, Ciclope e Magia com a Força Fênix desregulou seus poderes mutantes. Ciclope perde o controle de suas rajadas, não conseguindo focá-las em apenas um ponto e dispará-las em linha reta (daí a capa desta edição, com a rajada explodindo pra todos os lados); Emma descobre que não tem mais telepatia, ficando apenas com o poder de transformar seu corpo em diamante; e Magneto, mesmo não tendo se envolvido diretamente com a Força Fênix, de alguma forma teve seus poderes afetados por estar próximo de seus hospedeiros, o que o impede de usá-los como deseja, algo que fere profundamente seu orgulho. Curiosamente no caso de Magia ocorreu o oposto, e agora seus poderes funcionam melhor do que nunca.

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Toma cuidado na hora de espirrar, Ciclope!

Nesta altura já virou lugar comum elogiar o trabalho de Stuart Immonen nos desenhos, que melhoram a cada edição, assim como o capricho da arte-final de Wade von Grawbadger e a colorização de Marte Gracia, que valorizam ainda mais seus traços. Sem dúvida uma das melhores equipes de arte da Marvel NOW! até aqui.

Apesar de ser mais uma edição de preparação, Bendis está conduzindo a história num ritmo muito agradável, e sempre oferecendo pequenos conflitos e novas informações para atiçar a curiosidade do leitor. Mas tudo promete esquentar pra valer na próxima edição, quando o arranca-rabo antecipado e muito aguardado desde o início deste arco de estréia finalmente ocorrerá. Muitas rajadas ópticas vindo por aí!

Avengers-Zone-000Avengers #1

Roteiros de Jonathan Hickman
Desenhos de Jerome Opeña
Cores de Dean White

Como todas as grandes idéias, os Vingadores começaram com uma premissa bem simples: reunir os maiores super-heróis da Marvel numa só equipe com o objetivo de combater ameaças que eles eram incapazes de derrotar sozinhos. Como todo bom escritor que se preze deveria saber, os mitos de criação do universo figuram entre algumas das melhores produções artísticas da humanidade, antes de serem histórias em torno das quais religiões surgem. São poderosos o bastante para evocarem profundas reflexões em quem entra em contato com eles, e como uma reação em cadeia fractal reversa, tais reflexões da origem do macrocosmo podem gerar explosões criativas no micro em direção ao cenário maior que se abre quando voltamos nossos olhos para fora de nosso mundinho de individualidades, planetas e sistemas solares, e olhamos para as galáxias, para os aglomerados que estas formam, até chegarmos ao limite do nosso e esbarrar na fronteira do universo vizinho, e assim por diante, chegando ao ponto em que nos damos conta de que há um Multiverso de possibilidades lá fora. Parece que foi pensando nisto tudo que Jonathan Hickman muito sabiamente escolheu começar sua primeira edição como escritor de Avengers mostrando a origem do Universo Marvel e as reverberações de sua explosão inicial, de um simples ponto luminoso no espaço à complexidade de formas que assumiu ao condensar-se em aglomerados de matéria, que por sua vez geraram formas de vida cada vez mais variadas, as quais trouxeram inteligência ao Cosmo e com ela conflitos, que em algum momento levaram ao surgimento de heróis para resolvê-los pelo bem de todos e pela preservação da espécie à qual pertencem.

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Sim, estou ciente de que o parágrafo anterior ficou grande demais, mas é difícil falar de uma abordagem tão ampla e rica em significados como a usada por Hickman aqui, sem deixar-se levar pelas reflexões e leituras que ele leva o leitor a fazer em apenas 25 páginas. O escritor que salvou o Quarteto Fantástico da estagnação, e tornou o título do grupo novamente aquele palco de amplitude cósmica pelo qual desfilou grandes idéias bem executadas de nomes como Stan Lee, Jack Kirby e John Byrne, aqui faz talvez seu trabalho mais denso e intrincado, embora, numa primeira leitura, ele pareça muito simples.

Vejamos: a introdução possui a mesma grandiosidade e simbolismo de um mito bíblico. Fala de uma luz criadora, de uma guerra nos céus e de uma queda.

Ex Nihilo é o cabeça de um novo grupo de vilões que faz sua primeira aparição aqui. Não é à toa que seu nome é uma expressão latina que significa, literalmente “do nada” como em algo ou alguém surgido de lugar algum. É exatamente assim que ele se manifesta, sem apresentar qualquer pista de onde veio, apenas do por quê de ter vindo: julgar nosso mundo (objetivo muito semelhante ao do Celestial Arisham, criado por Jack Kirby para o título The Eternals, que veio à Terra anos atrás para decidir se a humanidade seria ou não extinta por sua raça de engenheiros genéticos). Num toque de ironia, ele carrega impressa no corpo (ou traje, isto ainda não ficou muito claro) a letra ômega (Ω), que como todos devem saber é a última letra do alfabeto grego, e simboliza, o fim de uma era ou ciclo. O que é muito significativo, pois estabelece outra referência bíblica, pois no Novo Testamento, Deus é definido como o “alfa e o ômega, o princípio e o fim, o primeiro e o último.” E atentem para o poder de Ex Nihilo: ele não apenas é capaz de gerar vida espontaneamente, como seu ataque à Terra consiste no lançamento de “bombas de criação” de sua base em Marte: armas que, quando detonadas num centro urbano, que é o que ocorre na história, inicia um processo de terraformação e aceleração da evolução da vida no local atingido, destruindo edifícios com o crescimento acelerado de plantas e outros seres vivos no ambiente (como curiosidade vale apontar que seu efeito é muito parecido com o causado pelo uso da Semente da Vida, vista no arco “A Saga do Anjo Negro”, do título X-Force, que também foi desenhado por Jerome Opeña, responsável pelos desenhos desta primeira edição).

Dicas breves são apresentadas sobre a possível origem e natureza do grupo comandado por Ex Nihilo, a começar pelo nome: Garden, o Jardim, como em Jardim do Éden, o Paraíso Perdido do mito de Adão e Eva. Seus demais integrantes são:

Aleph: um robô cujo nome vêm da primeira letra do alfabeto proto-canaanita, um dos primeiros alfabetos inventados pelo homem (a história é mais complexa que isto, portanto recomendo uma pesquisa mais aprofundada se o assunto despertar-lhe interesse), que no caso do personagem parece representar o princípio de uma grande mudança ou “recodificação” (um termo usado pelo próprio personagem em dado momento da trama) a ocorrer após uma destruição em escala mundial, uma idéia que ele martela praticamente a cada aparição que faz.

Aleph e Ex Nihilo.

Aleph e Ex Nihilo.

Abyss: Uma mulher capaz de gerar um tipo de cela de sombras e espaço nulo, além de ter uma voz com alto teor de persuasão. Seu nome, Abismo em inglês, pode ter relação com o nada de onde Tudo surgiu. Talvez ela até seja a mãe de Ex Nihilo, embora não haja nenhuma pista neste sentido.

Abyss

Abyss

Notável é a forma como, em poucas páginas, Hickman já estabelece o suficiente de cada um dos três novos personagens para que o leitor entenda o básico da dinâmica entre eles. Ex Nihilo é um idealista, um “vilão” que faz o possível pra poupar a vida de seus adversários, e prefere, no lugar de matá-los, transformá-los em seres melhores. Ele vê as coisas como elas podem ser. Aleph é uma máquina de visão limitada, que vê as coisas como elas não mais deveriam ser, e busca apenas um objetivo que é sua razão de ser: aniquilação total. Entre os dois está Abyss, a mais racional do trio, que vê as coisas como elas são de fato.

Mas, vamos deixar os vilões um pouco de lado e voltar aos Vingadores. Toda a premissa desta nova série partiu da última página da série anterior da equipe, quando o Capitão América confessou ao Homem de Ferro que tinha medo do que o futuro reservava ao grupo. Como um homem cujo trabalho é enxergar tendências e antecipar crises e problemas futuros a fim de criar soluções antes que eles tomem forma, Tony Stark, muito sucinto, pergunta a Steve Rogers “o que faremos agora?”, e responde sua própria pergunta com uma frase igualmente simples: “Nos tornamos maiores.”

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A idéia de Hickman, e consequentemente do Homem de Ferro, apoiado pelo Capitão América, é tornar os Vingadores um grupo cuja área de atuação e intervenção seja diretamente proporcional à escala da crise que devem enfrentar. Assim é iniciado um projeto chamado Avengers World (Mundo dos Vingadores), que basicamente envolve o recrutamento de vários super-humanos do mundo inteiro para se tornarem membros-reserva dos Vingadores, convocados conforme o tipo e o nível da crise em andamento. O objetivo básico do projeto é apenas introduzido nesta edição, cuja trama é mais focada no primeiro confronto entre os Vingadores veteranos e o Garden.

Porém, mais interessante que acompanhar o confronto principal desta primeira edição é observar o tema recorrente ao longo de toda a história. Vejam, por exemplo os seis quadros apresentados nas páginas 4 e 5, que mostram, na primeira delas, crises em formação, e na segunda crises já em andamento ou em estágio avançado, ecoando a idéia que percorre praticamente todas as páginas, de pequenas fagulhas que geraram grandes explosões, de idéias simples que se tornaram grandes idéias. E não deixem de reparar em como as páginas finais fecham com chave de ouro esta série de analogias aos mitos da criação do mundo, quando o Primeiro Vingador “acorda o mundo” e expande o conceito de equipe, da qual foi integrante desde sua primeira formação, tornando-a maior em resposta à grande ameaça que cresce no horizonte.

Esse é o tipo de página que me deixa arrepiado quando leio pela primeira vez.

Esse é o tipo de página que me deixa arrepiado quando leio pela primeira vez.

Não sei vocês, mas sempre me emociona ver um escritor talentoso como Hickman elevando o nível da narrativa, e carregando-a de significados e possibilidades de leitura, ao mesmo tempo que não força o leitor a mergulhar fundo nos subtextos para apreciar a história que está contando. É assim que grandes clássicos se formam, e felizmente, ao lado de Thor, de Jason Aaron, parece ser o caso aqui. Desde já o melhor título da Marvel NOW!

Semana que vem: as estréias de Cable & X-Force e Avengers Arena, e as edições nº 2 de Fantastic Four e Captain America. Não percam!

3 thoughts on “[QUADRINHOS] Marvel NOW! – Parte 4: Avengers #1, Thunderbolts #1, Iron Man #3 e All-New X-Men #3

    • Oi, Isaque!

      Voltarei a escrever sobre Marvel quando concluir a saga Infinity. Estive afastado das leituras por uns meses, mas já estou me atualizando. Devo fazer um post especial analisando a saga inteira, incluindo as edições que levaram a ela, como fiz ano passado com Vingadores versus X-Men.

      Obrigado pelo incentivo. 🙂

      • Claro,é que você faz ótimas reviews e ficava me perguntando pq parou,e olha que levou mais de um ano pra achar onde tinha te perguntado sobre isso pra saber se tinha me respondido,até Rodrigo e que a força esteja com você.

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