[QUADRINHOS] Marvel NOW! – Parte 2: Captain America #1, Indestructible Hulk #1, Iron Man #2 e Journey Into Mystery #646

Continuando a série de análises que comecei na semana passada (se você ainda não leu, confira a parte 1 clicando aqui), nesta vou falar dos dois principais lançamentos da semana, Captain America de Rick Remender e Indestructible Hulk de Mark Waid

, da segunda edição de Iron Man do Kieron Gillen, e do início da fase de Journey Into Mystery escrita por Kathryn Immonen.

A ideia aqui não é economizar palavras, mas oferecer informações que sirvam tanto para apresentar os títulos comentados, como para contextualizá-los àqueles que só conhecem os personagens citados graças aos filmes do Marvel Studios, que são bem mais populares que as histórias em quadrinhos de onde saíram. O objetivo também é atrair antigos leitores dos quadrinhos da editora que já não acompanham o universo Marvel há algum tempo, tudo visando instigar a curiosidade de todos e, quem sabe, trazer novos e antigos leitores de volta para este universo tão fascinante.

Infelizmente é inevitável a presença de SPOILERS nos reviews a seguir.

Iron Man #2

Roteiros de Kieron Gillen
Desenhos de Greg Land

Apesar da idéia desta série ser apenas fazer um levantamento das impressões das primeiras edições de cada nova série da Marvel NOW!, me senti na obrigação de escrever sobre a segunda edição de Iron Man por motivos que ficarão mais claros a seguir.

A primeira edição da série não me agradou tanto pela idéia que Gillen teve de trazer de volta a tecnologia Extremis como a ameaça enfrentada pelo Homem de Ferro em sua estréia no título do herói. Mas nesta edição a forma como ela é usada na história compensou minha decepção com a anterior.

Antes vale uma recapitulação sobre o que é e de que forma Extremis foi importante na vida de Tony Stark nos últimos anos.

Resumidamente, a tecnologia extremis é um vírus bio-eletrônico que, quando inoculado num ser humano, “hackeia” o sistema de reparos do corpo e o substitui pelo seu, numa espécie de upgrade bio-tecnológico. Feito isto ele dá ao “infectado” a capacidade de curar-se mais rápido, um sistema imunológico mais eficiente, e órgãos aperfeiçoados. No caso de Tony Stark, além destas melhorias ele também ganhou a habilidade de estabelecer uma interface direta com outras máquinas e especialmente com sua armadura, além de processar informações fornecidas por ela em seu subconsciente na velocidade da luz. Basicamente sua mente tornou-se um sistema operacional com alto nível de eficiência, ganhando um controle mais pleno da armadura e de outras tecnologias das Indústrias Stark (numa história ele chegou a ter acesso simultâneo à rede de satélites das Indústrias Stark espalhados pelo planeta, a fim de rastrear um inimigo, com todas as informações baixadas deles sendo processadas diretamente em seu cérebro).

O conceito foi introduzido pelo aclamado escritor Warren Ellis no primeiro arco em 6 partes que produziu ao lado do ilustrador Adi Granov. A idéia desta história era não apenas levar o Homem de Ferro a um novo nível de poder e controle de sua tecnologia, como recontextualizar sua história de origem (pra vocês terem uma noção, a origem clássica se passava durante a Guerra do Vietnã, algo que não cola hoje em dia, pois o personagem não envelheceu quase nada em seus quase 50 anos de existência). É importante destacar a influência que este arco teve sobre a produção do primeiro filme, pois a origem recriada por Ellis foi fielmente adaptada pelo filme de Jon Favreau.

Outra influência foi o visual da armadura criada por Adi Granov para o arco. Seu trabalho foi tão apreciado na época que os produtores do filmes o chamaram para criar o design da armadura usada no primeiro filme do herói, e continuou como responsável pelo design das armaduras vistas em Homem de Ferro 2 e Vingadores.

Como havia dito na parte 1, graças ao sucesso do primeiro filme a personalidade de Tony Stark nos quadrinhos passou a refletir gradualmente a vista nos filmes, numa das melhores jogadas do escritor Matt Fraction, que tornou o personagem tão carismático quanto sua versão interpretada por Robert Downey Jr., e com isto criou uma sintonia entre as duas mídias, facilitando a adaptação de novos leitores atraídos pelo personagem a partir dos filmes.

E numa daquelas “ironias multimídias” que só é possível nos tempos em que vivemos, em Homem de Ferro 3, filme que sairá no próximo ano, a tecnologia Extremis será uma das novidades apresentadas pela história, fechando um ciclo de retroalimentação entre os quadrinhos e o cinema. Não se sabe ainda como o conceito será incorporado à trama, que também contará com a primeira aparição de um dos maiores inimigos do Homem de Ferro nos quadrinhos, o Mandarim.

Voltando à Extremis, num dos últimos arcos de Matt Fraction no título, Tony extraiu de seu corpo qualquer vestígio da tecnologia após ser pressionado pelo governo, graças a maquinações de alguns de seus inimigos, que o acusaram de não estar apto a controlar uma arma como o Homem de Ferro (durante a saga Essência do Medo, a fim de obter uma intervenção mais direta de Odin para ajudá-lo a criar armas “abençoadas” poderosas o bastante para derrotar inimigos com poderes divinos, ele embebedou-se pela primeira vez depois de anos de sobriedade como ex-alcoólico, numa espécie de ritual de sacrifício oferecido ao Pai de Todos para alcançar um “milagre”). Apesar de ter se livrado das acusações após salvar o mundo da ameaça do Mandarim, Tony não reimplantou a tecnologia em seu corpo, e até o momento não fez questão de reutilizá-la.

No arco atual escrito por Kieron Gillen, Stark preferiu desenvolver uma nova tecnologia para sua armadura, que agora não apenas é composta de metal inteligente, como também possui o chamado design modular, que permite a acoplagem de inúmeros acessórios dependendo do tipo de combate em que ele está envolvido. Como a tecnologia ainda está em desenvolvimento ele precisa carregar consigo um “mini-contêiner” voador que armazena os tais incrementos. Uma espécie de linha de montagem portátil que vai encaixando os gadgets na armadura de forma semelhante à vista nos filmes do Marvel Studios.

Uma das idéias mais interessantes no novo arco de Gillen, que começou a ficar mais clara nesta segunda edição, é a maneira como Tony Stark está se adaptando à sua fase atual, mais disposto a abraçar novos conceitos e menos “crente” apenas na tecnologia. Por isto sua primeira iniciativa é reinventar o Homem de Ferro, algo que, sim, ele já fez diversas vezes, mas não da forma como é apresentada aqui (até onde eu me lembro). Desta vez ele resolve reconstruí-lo do zero, inclusive criando um sistema operacional com inteligência artificial partindo dos princípios mais básicos de sua programação, ao invés montá-lo a partir de outro já existente (o que rende um bom alívio cômico durante uma conversa com Pepper Potts, enquanto ele faz uns ajustes na I.A.).

Talvez essa “sobriedade” e sua negação a estabelecer uma relação mais íntima com a tecnologia seja a forma que o personagem encontrou de não se ver preso apenas a ela como forma de decifrar e assimilar o universo.

Nesta edição também foi introduzido O Círculo, uma versão tecnológica dos Cavaleiros da Távola Redonda, liderada por um empresário idealista chamado Arthur, o responsável pelo roubo do Extremis na edição anterior. Sua ideologia desperta curiosidade. Ele acredita que a era dos cavaleiros de armadura voltou, e que eles, como tais, devem defender os humanos mais fracos contra a ruína que pode vir de um futuro em que a tecnologia ameaça tornar a humanidade menos humana. Por isto ele desafia Tony Stark para um duelo em que tecnologia e humanidade devem trabalhar em harmonia para que o adversário seja derrotado. O prêmio do torneio é o Extremis, que Arthur prefere chamar de Graal, para completar suas referências às lendas arthurianas. Tudo isto é exposto em apenas duas páginas de ótimos diálogos entre Tony e Arthur, que é um dos destaques desta edição.

Outro ótimo momento da história é a metade final, em que ocorrem os duelos entre os cavaleiros de armaduras, outra referência da era medieval adaptada para nosso mundo high-tech. Neste seguimento vemos as disputas do Homem de Ferro contra três dos cinco cavaleiros, acompanhadas da narração de um deles, que analisa o desempenho de cada um dos envolvidos nas lutas, e cuja identidade só descobrimos no final. Aqui é posta em prática a filosofia de Arthur, que acredita que o ideal não é ter a melhor armadura de combate, mas possuir os melhores pilotos. Daí surge outra ótima idéia de Gillen, que apresenta pilotos que não são exímios usuários da alta tecnologia de suas armaduras, mas experientes praticantes de artes marciais. Isto dá a eles uma flexibilidade maior no uso dos recursos. Mas, conforme a história avança, notamos que cada um é limitado no uso de suas armas, até que Lancelot entra no torneio…

Lancelot usa impulsores e raios cinéticos para multiplicar a potência de seus golpes, criando um equilíbrio entre as artes marciais e sua armadura tecnológica por meio da tecnologia Extremis, que aperfeiçoa a integração de seu corpo com a armadura através da interface mais eficiente fornecida por ela.

O único ponto negativo são os monólogos dos recordatórios que acompanham a ação, que na primeira leitura me pareceram um tanto confusos. Por não ficar muito claro quem é o autor deles no início, a narrativa fica um pouco “emperrada” em algumas páginas. Mas acredito que a confusão foi intencional. Numa segunda leitura não apenas fica mais clara a autoria deles, como torna as batalhas mais interessantes do ponto de vista tático/analítico, como se elas fossem dissecadas ao mesmo tempo em que acompanhamos seu desenrolar. Assim ler a história a partir do ponto em que começam os torneios acaba se tornando um exercício de atenção e análise semelhante ao que ocorre dentro da própria narrativa. Se este era o objetivo do autor, então está de parabéns.

Portanto, agora posso dizer que no caso deste título da Marvel NOW! a primeira impressão não foi a que ficou. Felizmente Gillen tem, sim!, idéias boas o bastante pra desenvolver uma fase que pode ser tão marcante quanto a anterior do personagem. Vale a pena acompanhar as próximas edições.

Journey Into Mystery #646

Roteiros de Kathryn Immonen
Desenhos de Valerio Schiti

Journey Into Mystery, pra quem não sabe, é um título que começou em 1952 como uma antologia de histórias em quadrinhos de terror, que não muito tempo depois virou uma antologia de histórias de ficção científica e monstros gigantes, até que na edição nº 83 ele começou a apresentar em suas páginas as primeiras aventuras da versão super-heroica de Thor, o deus nórdico do trovão. Graças ao sucesso delas a partir da edição 126 ela foi rebatizada de The Mighty Thor.

Depois disto Journey teve mais duas “ressurreições,” uma na década de 1970, quando voltou a apresentar histórias de terror, e outra na década de 1990, durante o período em que Thor foi dado como morto ao lado dos Vingadores e do Quarteto Fantástico como consequência de sua batalha final contra o vilão Massacre. Este fato deu origem à fase Heróis Renascem, em que todos estes heróis tiveram suas cronologias reiniciadas num universo paralelo. Durante sua ausência do universo Marvel tradicional, Journey foi ressuscitado para contar histórias sobre como ficou a vida dos demais deuses e guerreiros de Asgard após a “morte” de Thor. Este material nunca saiu no Brasil, e aparentemente não teve muita relevância cronológica.

Daí, em 2010, veio a mini-saga O Cerco (da qual falei brevemente aqui), cuja principal morte foi a de Loki, que sacrificou-se para salvar o mundo de um enlouquecido e descontrolado Sentinela, uma espécie de Superman com esquizofrenia e dupla personalidade (uma era um super-herói e a outra um vilão) que perdeu o controle de sua contraparte maligna, e virou uma entidade com poder o bastante para destruir o mundo (sempre ele).

Mas Loki é o deus da trapaça, e é claro que ele havia arquiteto um plano complexo para não ficar fora do jogo por muito tempo. Portanto, não demorou até que Thor descobrisse que seu irmão de alguma forma havia reencarnado na forma de um menino que ganhava uns trocados fazendo jogos de azar na rua. Logo ele foi levado para Asgard e convencido de que era a reencarnação do maior inimigo e irmão de Thor. Desde então ele começou uma série de tentativas para convencer a todos de que não era mais “do mal”, mas apenas uma nova versão do Deus da Trapaça que queria o bem estar dos asgardianos, nem que para isto fosse preciso bolar algumas trapaças estratégicas para garantir que tudo ficasse bem para eles.

Durante a saga A Essência do Medo o título The Mighty Thor, que já estava na edição 621, foi renomeado de volta para Journey Into Mystery na edição seguinte, e passou a ser protagonizado pelo Kid Loki. Como eu havia adiantado na parte 1 desta série, esta fase foi totalmente escrita por Kieron Gillen, que reinventou o personagem tornando-o mais carismático, não apenas ao retratá-lo como um moleque malandro e cheio de lábia, como também por torná-lo o catalizador de uma série de eventos que se tornaram cada vez mais ramificados, interconectados e imprevisíveis durante sua passagem pelo título. Outro fator que ajudou muito foi a introdução da menina Leah, uma parceira que logo tornou-se uma espécie de interesse romântico do personagem, mas daquele tipo de “romantismo” infantil, em que os dois passam mais tempo implicando um com o outro do que trocando palavras melosas e beijos e abraços, e que sempre rendia diálogos e momentos leves e divertidos. Foi a melhor dinâmica de personagens criada para a série.

Resumindo, ao longo das 31 edições escritas por Gillen, o garoto se viu envolvido numa complexa rede de trapaças executadas por ele que o tornaram alvo de diversos deuses, demônios e outras criaturas mitológicas. A maior diversão proporcionada pelas histórias, além da interação de Loki e Leah, era tentar descobrir como ele se livraria da nova enrascada, e em qual outro problema maior ainda ele iria se meter como consequência da resolução do anterior.

Como Gillen menciona no posfácio de Iron Man #2, lançada esta semana, sua passagem por Journey Into Mystery funcionou com a precisão das engrenagens de um relógio bem montado. Cada história e elemento introduzido foi bem planejado de forma que a última edição não apenas ecoasse fatos vistos na primeira que ele escreveu para o título, como também respondesse perguntas que ele propôs aos leitores no primeiro capítulo, fechando um ciclo para o personagem e para o título.

Toda esta introdução foi apenas para salientar a responsabilidade que Kathryn Immonen tem em mãos. Apesar de sua fase no título não ter Loki como protagonista, mas Lady Sif, a guerreira asgardiana que por muito tempo foi o interesse romântico de Thor, há uma expectativa que ela tente manter o nível de qualidade apresentado por seu predecessor em sua abordagem da personagem. E a julgar por esta edição há indícios de que podemos confiar pelo menos em suas capacidades como contadora de histórias.

De início não tem como ignorar a sacadinha do previously personalizado, algo que foi implementado por Gillen, que reutilizava cenas da edição anterior com diálogos reescritos de forma irônica e bem humorada, numa brincadeira metalinguística que permitia aos próprios personagens comentarem o que se passou até ali em suas histórias. O desta edição de estréia foi usado apenas para apresentar brevemente sua protagonista. Vejamos se a escritora atual saberá usar o recurso de maneira tão divertida quanto seu colega.

O começo não é nada tímido. Immonen já joga a guerreira asgardiana em breves mas poderosos confrontos físicos com inimigos maiores e aparentemente mais fortes que ela. Há um bocado de tática e um tanto de diplomacia estratégica empregadas nos embates.

Outro detalhe que também ajuda são os breves mas importantes “momentos domésticos” entre Sif e Gudrum, esposa de Volstagg, o Volumoso (um dos Três Guerreiros, parceiros de muitas aventuras de Thor). Cercada dos vários filhos do casal, a heroína protagoniza um bate papo entre “donas de casa,” mas adaptado para a escala de figuras mitológicas, e levando em consideração que Sif está longe de ser uma mulher caseira tradicional. Esta passagem possui um tom aconchegante que já traz o leitor para o lado dos personagens, e ajuda-o a envolver-se com seus questionamentos e aspirações.

Sif se mostra cansada de envolver-se em batalhas mais “reativas” do que preventivas, o que sempre obriga os asgardianos a lidarem com constantes reconstruções de seu reino, além de perdas como a vista no início da edição, quando parte da biblioteca do reino é destruída. Por isto ela parte numa jornada cujo objetivo é tornar-se uma guerreira melhor e mais forte, motivada pelo conhecimento de uma antiga técnica usada por seus antepassados durante as batalhas, o Berserker Spell (feitiço da fúria, em tradução livre), descrito em antigos pergaminhos como “a ferocidade nascida da devoção.” Uma devoção totalmente focada na destruição completa do inimigo, em que os usuários da técnica tornam-se devotos da morte em batalha gloriosa e violenta.

Nesta história de estréia vemos trechos breves da jornada de Sif em busca da portadora do segredo que almeja desvendar. São eles os responsáveis pelas sequências de ação, que servem para mostrar o domínio de Valerio Schiti sobre o ritmo dos quadrinhos, cuja arte é o maior destaque aqui. Belos e muito agradáveis de se ver, seus desenhos possuem composições harmônicas, traços finos, elegantes e detalhados na medida certa. Seu trabalho valoriza muito a história, e são bem utilizados tanto nos momentos mais “calmos” como nos de ação e humor.

É um primeiro capítulo que promete dar mais peso a outra coadjuvante das histórias de Thor, e torná-la mais rica e interessante, algo que particularmente aprecio muito, pois como leitor é essencial que eu acredite na existência daqueles seres de tinta nos minutos que dedico a eles.

Captain America #1

Roteiros de Rick Remender
Desenhos de John Romita Jr.

Recém saído de uma fase que contou com o número impressionante de 100 edições escritas por Ed Brubaker, cujo trabalho com o personagem foi um dos mais elogiados da última década, o Capitão América agora vai para as mãos de um escritor que fez sua fama dentro da Marvel sem muito alarde, com alguns bons momentos em títulos como Uncanny X-Force e Secret Avengers. Rick Remender não é uma unanimidade, portanto é uma aposta arriscada para trabalhar com um personagem tão importante da editora. Dentre os trabalhos que fez particularmente gosto apenas de Uncanny X-Force, onde violência e idéias mais ousadas e insanas estavam liberadas, e ele fez bom uso desta liberdade maior produzindo histórias enérgicas do grupo mutante responsável por eliminar ameaças antes que elas fugissem do controle e pusessem em risco o mundo inteiro.

Nesta primeira edição Remender já começa arriscando tanto quanto sua escolha como escritor, apresentando um episódio da infância de Steve Rogers que revela-o como vítima de violência doméstica cometida por seu pai contra sua mãe. A seqüência dura três páginas, e é interrompida para jogar o leitor bem no meio de uma missão em andamento do Capitão América. A cena inicial chama mais atenção ainda quando analisada dentro do contexto da primeira história, pois ela não é sequer citada em nenhum momento, dando a entender que será algo a ser explorado em edições futuras. Seja como for, considerei corajosa esta retcon do autor, e suas possíveis implicações.

No restante da edição o tom é mais leve, e encontramos um Steve Rogers mais descontraído, bem humorado e “atiradinho,” características que são bem desenvolvidas em seu diálogo com Sharon Carter, no qual descobrimos outro dado importante sobre nosso protagonista: ele está completando 90 anos. Isto garante algumas boas piadas envolvendo sua idade e suas manias “de velho,” e a introdução de outra boa idéia que pode render um bocado de situações interessantes nos próximos capítulos: a proposta de casamento de Sharon.

Neste primeiro número o autor também demonstra que tem planos para desenvolver Steve tanto no aspecto pessoal quanto no super-heróico de sua vida (uma característica de seu trabalho também vista nas histórias de Uncanny X-Force). Assim, apesar da sequência empolgante de ação no início da história, ele também protagoniza um monólogo reflexivo em que se mostra preocupado por ter se desacostumado a levar uma vida normal (“Estou desaparecendo dentro do uniforme.”).

Outra característica do estilo de escrita de Remender é a evidente influência de Frank Miller. Nas sequências em que a ação e a tensão imperam, a narração em primeira pessoa adapta-se à situação, e torna-se mais econômica e truncada para refletir as rápidas impressões físicas e psicológicas do personagem nas situações de urgência. Apesar desta técnica ser empregada há décadas, quando bem utilizada, o que é o caso aqui, ajuda o leitor a envolver-se mais com a trama, e preocupar-se com os apuros enfrentados pelos personagens.

Outro tema nada original que o escritor reutiliza de forma eficiente é o medo do desconhecido, aqui representado pelo momento em que o Capitão se vê deslocado para outra dimensão e vítima de um experimento que ele não compreende de início, tendo que lidar com tudo isto dopado, graças às drogas injetadas nele por seu inimigo, um velho conhecido, que aqui parece estar mais insano como jamais esteve.

E para os fãs do mangá Lobo Solitário, o final deste primeiro capítulo ainda traz uma sutil homenagem a ele, que promete escancarar-se na próxima edição, e render mais algumas boas histórias.

John Romita Jr. mostra sua habitual competência nos desenhos, mas quem realmente brilha oferecendo atmosfera, volume e textura à história é Dean White, um dos melhores coloristas da atualidade. Seu trabalho já havia vinha se destacando em Uncanny X-Force, e tanto aqui como em Thor, God of Thunder, ele recebe a chance, muito merecida, de trabalhar com personagens do primeiro escalão da Marvel.

Destaco ainda a carta ao leitor escrita por Rick Remenber no final da edição, onde ele diz que inspirou-se numa fase do Capitão América escrita e desenhada por Jack Kirby na década de 1970, que misturava espionagem, ficção científica e psicodelia. Uma mistura muito bem vinda, na minha opinião, para um personagem que vinha merecendo há algum tempo histórias mais imaginativas e menos influenciadas por filmes de ação com pegada mais realista e analogias a acontecimentos de nosso mundo (algo que funcionou muito bem na fase do Brubaker, mas que já vinha se tornando repetitivo em suas últimas histórias). Ótima mudança de direção.

Indestructible Hulk #1

Roteiros de Mark Waid
Desenhos de Leinil Francis Yu

O Hulk é um personagem que já passou por muitas transformações desde sua estréia nos quadrinhos em 1962. Começou como um monstro cinza irracional que depois tornou-se verde (tudo por conta de um erro da gráfica que imprimiu as primeiras histórias do personagem, e que acabou incorporado à sua mitologia). Em algumas histórias o Hulk era incapaz de dizer uma frase inteira, em outras ele assumia a  personalidade do Sr. Tira Teima, uma versão mais impulsiva e casca-grossa de Bruce Banner, seu alter-ego. E também houve aquelas em que Banner conseguiu preservar sua mente como a dominante sobre o corpo super-poderoso do Gigante Esmeralda.

O Hulk já foi um monstro perseguido pelo exército; um herói que integrou equipes como os Vingadores, os Defensores, e até mesmo uma das versões mais inusitadas do Quarteto Fantástico; e, por fim, tornou-se imperador de um mundo alienígena, para onde foi enviado por outros super-heróis da Terra a fim de impedi-lo de continuar uma onda de destruição que havia iniciado. Esta fase, em especial, rendeu um dos poucos momentos em que o monstro encontrou a felicidade, quando, após derrubar o governo de um imperador sanguinário, casou-se com uma guerreira, e teve um filho com ela. Porém, esta felicidade não durou muito graças à tragédia ocorrida logo depois, quando a capital de seu império foi destruída pela explosão do motor da nave em que viajou da Terra até aquele mundo, matando sua esposa e o bebê que ela carregava no útero. Sabendo que a nave foi obra de Tony Stark e Reed Richards, dois dos responsáveis pelo plano de exilá-lo, ele decidiu voltar para Terra para vingar-se daqueles que arruinaram sua maior conquista, levando consigo os sobreviventes do planeta destruído, e declarando guerra a praticamente todos os super-heróis de nosso mundo. Guerra esta que ele perdeu.

Daí pra frente o personagem passou por uma série de outras histórias que levaram ao surgimento do Hulk Vermelho (!), de Skarr, o filho do Hulk (!!), que ele acreditava ter morrido na explosão que matou sua esposa alienígena, e até mesmo de uma Mulher Hulk Vermelha (!!?). Infelizmente (ou não, dependendo do gosto de cada leitor), terei que passar por cima de um bocado de cronologia aqui, pois esta é uma fase que não acompanhei de perto, e não fiz muita questão, devido à qualidade questionável das histórias.

O Hulk voltou a chamar minha atenção durante a breve fase em que seu título principal, The Incredible Hulk, foi zerado e passou a ser escrito por um dos meus roteiristas preferidos atualmente, Jason Aaron, que apesar de não ter ignorado totalmente a maioria das bagunças feitas com o personagem nos últimos anos, fez questão de tirar sarro de algumas delas, algo que refletiu em todas as 16 edições que roteirizou. É provavelmente a sequência de histórias mais ensandecidas protagonizadas pelo Gigante Esmeralda, que começou com Hulk e Bruce Banner fisicamente separados, graças às maquinações do próprio Hulk, que já estava cansado de ser barrado pelo “fresco” do Dr. Banner. Graças à esta separação Banner transformou-se literalmente num cientista louco, com direito a ir viver numa ilha habitada por monstros criados por ele utilizando radiação gama.

Esta sequência inteira de histórias teve como mote uma longa disputa entre o monstro e o cientista, e apresentava um chute ao balde atrás do outro. Não dava pra levar nada a sério, e este foi justamente o objetivo do escritor, que priorizou a diversão acima da seriedade e até mesmo da lógica (num dos últimos arcos de Aaron no título as histórias deixavam ganchos que eram quase completamente ignorados na edição seguinte, e lembravam muito os erros de continuidade entre um filme e outro da série Evil Dead). Pra não perder a deixa do parêntese anterior, foi uma viagem alucinante e muito divertida, que rendeu uma das fases mais curiosas do personagem. Há quem aposte que está destinada a tornar-se, se não um clássico, ao menos um período cultuado do Hulk daqui a alguns anos.

Especulações à parte, no final de seu período como escritor, Aaron deixou o personagem pronto para começar uma nova etapa de sua vida, com Banner e Hulk novamente dividindo uma mesma existência física, e um tendo que ceder ao outro o controle do corpo.

Boa parte da história de Indestructible Hulk #1 parece uma sequência de um filme do Quentin Tarantino adaptado para o mundo dos super-heróis. Acompanhamos uma conversa entre Maria Hill, atual diretora da S.H.I.E.L.D., e Bruce Banner, numa lanchonete em uma cidadezinha no meio do nada.

O primeiro detalhe que chama atenção é que o cenário onde o diálogo ocorre está abarrotado de gente. Toda hora alguém se levanta, se espreme entre as cadeiras para se locomover, e a qualquer momento um dos clientes pode dar um esbarrão no Banner, ou uma garçonete pode se desequilibrar e deixar algo cair sobre ele, e irritá-lo, e todos já sabemos o que acontece em seguida, certo? Fora estes detalhes, ainda há o nervosismo de Maria Hill, que fica olhando para um relógio de tempos em tempos, o que carrega ainda mais na tensão de toda a longa sequência em que Banner expõe suas idéias a ela.

Agora falemos do que levou Banner a abordar alguém que poderia facilmente mobilizar uma equipe inteira de agentes da S.H.I.E.L.D. para capturá-lo ali mesmo. Primeiro ele diz que finalmente aceitou que o Hulk não pode ser “curado”, que ele é como uma doença crônica, como a diabetes ou a esclerose múltipla. Uma condição que não deve ser curada, mas controlada e monitorada. Consciente disto ele resolve começar uma nova fase de sua vida com o objetivo de compensar todos os problemas e toda a destruição causada por seu monstro interior. “Usar a Hora do Banner mais produtivamente.”

Banner já está cansado de ver Reed Richards e Tony Stark salvando o mundo com sua genialidade quando ele próprio tem tanta capacidade quanto eles para entrar para história como um dos maiores gênios da humanidade. Por isto ele decide que está na hora de fazer coisas boas para a humanidade, inventando, consertando e melhorando coisas.

Porém, para isto, ele precisa de recursos para montar um laboratório que lhe dê condições de realizar novos avanços científicos, e de uma equipe que encare o Hulk não como uma bomba, mas como uma arma que deve ser apontada na direção correta quando ele se manifestar. É aí que entra a grana e os agentes da S.H.I.E.L.D.

Depois disto a edição concentra-se na primeira missão improvisada de Hulk como agente da S.H.I.E.L.D. Seu primeiro adversário é o Pensador Louco, um cientista. Aqui entra um comentário sutil de Waid sobre a fase anterior escrita por Aaron. Hulk luta novamente contra um cientista louco, mas enquanto lá era o próprio Banner que estava louco, e procurava um meio de recuperar o monstro para reestabelecer sua sanidade, aqui o monstro ganha a permissão de sua contraparte cientista para eliminar a ameaça de outro, que emprega a ciência para fins escusos, o que vai contra as pretensões atuais de Banner. Agora que sua sanidade está reestabelecida é a hora de “curar” o mundo usando sua própria “doença” como “vacina” para a eliminação dessas anomalias maléficas da ciência. Uma metáfora inteligente, feita sem alarde, é o que temos aqui.

Outro ponto a ser destacado é o próprio envolvimento do Hulk com a S.H.I.E.L.D. que soa como uma jogada do próprio Waid para aproximar o personagem dos quadrinhos de seu status no universo Marvel dos cinemas.

E não posso deixar de elogiar a arte de Leinil Francis Yu, que aqui usa um traço mais solto e selvagem que combina com a ferocidade do Hulk, especialmente nas cenas de ação. Mas também empregou um estilo mais contido e detalhista na hora de desenhar as máquinas do Pensador Louco e todos os figurantes da cena do restaurante, dando rostos às possíveis vítimas de um Hulk descontrolado num ambiente fechado e lotado, algo que confere mais urgência e tensão à cena.

É uma grande estréia de Mark Waid nos roteiros, que em poucas páginas deu conta de apresentar sua visão do personagem, expôr a forma que pretende explorá-lo, e mostrar que pode ser um roteirista ainda melhor do que já é. Sem dúvida um dos melhores profissionais do ramo em atividade no mundo dos quadrinhos. Sempre bom vê-lo nos créditos de qualquer HQ.

E na próxima semana: a estréia de FF #1 de Matt Fraction e Michael Allred, e as edições nº 2 de Uncanny Avengers, All-New X-Men e Thor, God of Thunder. Não deixem de conferir!