[QUADRINHOS] Marvel NOW! – Parte 1: Uncanny Avengers #1, Iron Man #1, Thor – God of Thunder #1, Fantastic Four #1 e All-New X-Men #1

Pra quem não sabe, a iniciativa Marvel NOW é uma das respostas da editora lar dos X-Men e dos Vingadores ao reboot do Universo DC ocorrido ano passado. A primeira delas foi o mega-evento Vingadores vs. X-Men (para saber mais sobre ele clique aqui), que ocupou mais da metade deste ano, e se espalhou por vários dos títulos mais vendidos da Marvel. Com o fim da saga, uma história que resolveu diversas linhas narrativas que vinham se desenrolando nos últimos anos, a equipe editorial da Marvel encontrou o momento perfeito para dar uma reconfigurada em suas principais séries, algo que começou a ter seus frutos revelados no final do mês passado, e se estenderá até fevereiro de 2013.


Diferente dos Novos 52 da rival, que começou praticamente tudo do zero, o Marvel NOW foi mais um troca-troca entre roteiristas e desenhistas que já trabalhavam com a editora, acompanhado do zeramento de vários títulos ligados especialmente às franquias Vingadores e X-Men, justamente as duas mais afetadas pela saga que levou a esta nova fase. Porém tudo isto foi feito sem desconsiderar as histórias que vieram antes, ao contrário do que fez a DC com a maioria de seus títulos (sendo Batman e Lanterna Verde as únicas exceções). Assim, a Marvel demonstrou que já tinha confiança o bastante nas histórias que vinha contanto, e nos profissionais que já estavam sob suas asas, dando apenas a oportunidade para que cada um desse o seu toque trabalhando com outros personagens, e a chance de apresentar novas abordagens para séries que estavam sob o comando de outro colega de trabalho.

Começando hoje farei uma série de breves análises sobre as primeiras edições dessa nova fase da Marvel. A idéia é que seja semanal, acompanhando os lançamentos previstos para as próximas semanas.

Confiram abaixo o que achei de cada um dos títulos já publicados (vale sempre lembrar que há muitos SPOILERS referentes aos últimos acontecimentos do Universo Marvel lá fora):

Uncanny Avengers #1

Roteiros de Rick Remender
Desenhos de John Cassaday

Uma das questões mais pertinentes levantadas durante a saga Vingadores vs. X-Men foi do quanto os Vingadores, apesar de existirem praticamente desde a época do surgimento dos X-Men, nunca terem tomado nenhuma iniciativa mais direta para ajudar seus colegas super-heróis na luta contra o preconceito sofrido pelos mutantes, mesmo tendo em várias ocasiões membros mutantes nas muitas formações que a equipe já apresentou.

Com isto em mente, e motivado pelo sacrifício do principal defensor da convivência pacífica entre humanos e o mutantes, ao final da saga o Capitão América surge com a idéia de formar uma equipe de Vingadores que tenha metade de seus membros vindos dos X-Men, e a outra metade de membros provenientes dos Vingadores, oferecendo, através disto, um exemplo desta convivência tão defendida pelo Professor Xavier, e tendo como foco o combate a crimes que atentem contra essa possibilidade de paz entre as duas raças.

Uncanny Avengers começa com os X-Men enlutados pelo falecimento recente do Professor Xavier durante os momentos finais de Vingadores vs. X-Men, e o surgimento do que pode ser uma nova ameaça dentro do cenário global que se encontra em formação após a saga, quando milhões de novos mutantes começaram a surgir ao redor do mundo. A história abre com uma página que mostra explicitamente quão impiedoso e cruel é o vilão do primeiro arco da HQ, tudo desenhado em detalhes no traço limpo do excelente John Cassaday, que ainda exibe seu talento já muito conhecido em ótimas sequências de ação durante a história.

Rick Remender, um roteirista que vinha fazendo um bom trabalho no título Uncanny X-Force, conseguiu dar um ritmo compassado e envolvente neste primeiro capítulo, que se dedica mais a analisar o novo cenário com o qual Vingadores e X-Men estão tendo que lidar. A equipe ainda está em formação durante essa primeira edição. Vemos o Capitão América tentando recrutar Alex Summers, o Destrutor, irmão mais novo de Scott Summers, procurando convencê-lo de que ele é o candidato perfeito para assumir a liderança da equipe, e limpar a imagem dos mutantes perante a opinião pública mundial, através de um trabalho cooperativo entre membros dos X-Men e dos Vingadores. Inicialmente ele não quer assumir tal papel, especialmente pelo fato de ser irmão daquele que tornou-se um dos mutantes mais odiados da atualidade após matar Xavier e quase destruir o mundo, quando incorporou a Força Fênix. Mas ocorre uma crise em que ele tem que agir rápido e acaba, a contragosto, participando da primeira missão da nova equipe.

O final da edição revela a mente por trás da tal crise, o que acaba sendo uma dupla surpresa para os leitores, pois não apenas mostra que o inimigo da vez também é um exemplo pervertido de cooperação entre humanos e mutantes, como prova quão longe ele está disposto a ir.

Ótima estréia para o título que promete ser o “blockbuster” da temporada, especialmente pelo fato de ter John Cassaday nos desenhos, um mestre da composição de cenas de ação explosivas e grandiosas, e uma narrativa limpa e dinâmica que faz o leitor fluir naturalmente entre um quadrinho e outro.

Iron Man #1

Roteiros de Kieron Gillen
Desenhos de Greg Land

Após passar por uma das melhores fases que já teve desde sua criação, sendo escrito por Matt Fraction e desenhado por Salvador Larroca, o Homem de Ferro agora passa para as mãos de Kieron Gillen e Greg Land. O primeiro destacou-se escrevendo o título Uncanny X-Men nos últimos dois anos, em histórias que mantiveram um bom nível, apesar de eu considerar sua fase no título Journey into Mystery o melhor trabalho que fez para a editora até o momento (a série era protagonizada por Loki, o irmão de Thor, cuja versão atual é um garoto trapaceiro que causa altas confusões enganando  deuses, demônios e criaturas mitológicas para provar que pode ser mais que o vilão detestável que era em sua encarnação anterior, numa das abordagens mais bacanas, divertidas e cativantes do personagem).

Esta nova fase começa partindo da idéia de que Tony Stark, durante a saga Vingadores vs. X-Men, foi forçado a expandir um pouco mais seu horizonte de crenças, tendo que abrir mão de confiar apenas na ciência pra resolver a “Crise Fênix”, e unir sua tecnologia à magia e ao misticismo, conhecimentos estes que se mostraram fundamentais para salvar o mundo da ameaça cósmica.

Graças a esta “crise de fé” o herói milionário decide se afastar dos negócios e viajar pelo mundo para ter um contato maior com este seu novo eu, e lidar com estas novas questões que surgem na mente de um homem que sempre acreditou apenas no poder da ciência. Porém, antes que isto ocorra, uma antiga ameaça ressurge, e força Tony Stark a entrar em ação, e estrear a mais nova versão do Homem de Ferro, agora composta de “metal inteligente”.

Basicamente é a isto que se resume a primeira edição. Não é uma estória tão instigante quanto poderia, e o fato do roteiro usar uma ameaça tecnológica que foi explorada até as últimas consequências durante a fase anterior do personagem acaba causando a sensação de estar lendo mais do mesmo.

A grande novidade da vez, a tal armadura de metal inteligente, não desperta grande interesse. Parece uma atualização bem mais ou menos de algo saído da década de 1990.  E não ajuda nem um pouco o fato de Greg Land ser um desenhista que não possui a mesma habilidade que Salvador Larroca para criar designs mais arrojados de armaduras e outros aparelhos de alta tecnologia em sintonia com as tendências do nosso tempo.

Mas, esta é a primeira edição, e Gillen já disse em entrevistas que pretende expandir, literalmente, o horizonte de Tony Stark, levando-o a uma viagem através do Universo Marvel (há histórias que se passarão em outros planetas programadas para as próximas edições). Portanto, tem chances de melhorar. E, novamente citando seu trabalho em Journey Into Mystery, o roteirista costuma apresentar histórias iniciais apenas boas, que vão melhorando a cada edição conforme são introduzidos novos conceitos, personagens e subtramas. Resta torcer para que o mesmo ocorra aqui, pois o Homem de Ferro merece e deve ser muito bem tratado nos quadrinhos, pois um novo filme do personagem está a caminho.

Thor, God of Thunder #1

Roteiro de Jason Aaron
Desenhos de Esad Ribic

O Thor estava numa fase boa com histórias escritas por Matt Fraction, mas não particularmente memoráveis, na minha opinião.

Agora com a Marvel NOW Jason Aaron assumiu o título, e resolveu partir para um caminho que aponta para uma série de histórias das mais inusitadas do personagem.

Começa que toda esta primeira edição é protagonizada por Thor, e somente por ele, interagindo com coadjuvantes desconhecidos. Não há sinal de outros personagens clássicos de suas histórias, como os Três Guerreiros (Volstagg, Hogun e Fandral), Lady Sif, Balder, Odin e Loki. Acompanhamos apenas o herói em três períodos distintos de sua vida.

E este é outro detalhe narrativo que chama a atenção. A trama gira em torno de um assassino serial de deuses (!) que vem exterminando panteões inteiros ao longo de milênios. Começa na juventude de Thor, na época dos vikings, quando nosso herói tem contato com a primeira vítima do tal assassino. Depois passa para o presente, quando o Deus do Trovão vai atender um pedido de ajuda em outro planeta da nossa galáxia, e descobre que aquele mundo não possui deuses. Este seguimento rende uma das melhores e mais impactantes sequências da primeira edição, digna de um conto escrito por H.P.Lovecraft, mestre do terror cósmico. Por fim o último segmento se passa no futuro, onde encontramos o herói já idoso, fisicamente muito parecido com seu pai, Odin, habitando uma Asgard cujo único deus residente é ele próprio.

Nos três segmentos Thor encontra novas pistas sobre o tal serial killer de deuses. A idéia central é jogar o Deus do Trovão numa trama parecida com a vista em filmes como Seven ou Zodíaco, e adaptá-la numa escala à altura de uma divindade. Daí toda a investigação durar milênios, e passar por vários pontos do universo.

Aaron já disse que cada uma das próximas três edições se focará em uma das três versões de Thor apresentadas nesta primeira edição, e que a última do primeiro arco, que será composto de cinco capítulos, será focada no tal assassino de deuses. E não apenas isto, o autor também revelou explorará outros panteões de deuses espalhados pelo universo, o que levará o leitor, ao lado do herói, para outros mundos. E a julgar pelo trabalho de arte visto neste primeiro número, a viagem promete ser de encher os olhos.

O que diferencia este título dos demais é que ele passa a sensação de que estamos vendo um material originalmente imaginado para uma graphic novel. Há um tom mais maduro e uma narrativa construída com mais apuro, e os desenhos de Esad Ribic (já aclamado por seu trabalho na mini-série Loki, que compartilha semelhanças com este trabalho) reforçam ainda mais esse diferencial. Seu traço aqui lembra muito o de Moebius, e auxiliado pelo excelente trabalho de colorização de Dean White, a impressão de que estamos lendo uma história com tratamento de luxo fica ainda mais forte. Não descarto a possibilidade de que foi justamente este o formato original concebido por Aaron para a história, e que ele apenas procurou adaptá-la para uma série mensal em capítulos de 22 páginas quando foi convidado para escrever o título.

Thor God of Thunder é uma das grandes promessas da temporada, e pode ser o início de uma das melhores e mais memoráveis fases do Deus do Trovão. Apreciei muito os demais trabalhos que o roteirista fez para a Marvel nos últimos anos, e confio em sua capacidade de levar o personagem além dos limites já explorados por outros escritores nas últimas décadas. Até aqui não me decepcionei com ele.

Fantastic Four #1

Roteiros de Matt Fraction
Desenhos de Mark Bagley

O Quarteto Fantástico acabou de passar por uma fase espetacular nas mãos de Jonathan Hickman, que levou a sério a tarefa de torná-la a maior história em quadrinhos do mundo em termos de escala (“To me… my Galactus!”). Portanto a responsabilidade de Matt Fraction aqui é grande.

Sabiamente o escritor começa já atiçando a curiosidade do leitor, jogando-o, logo na primeira página, para um ano no futuro, onde vemos o Reed e Sue Richards (Sr. Fantástico e Mulher Invisível), Johnny Storm (Tocha Humana) e Ben Grimm (o Coisa), acompanhados de Franklin e Valeria Richards dentro de uma nave sendo bombardeada por raios cósmicos. Isto mesmo, eles estão sofrendo o mesmo acidente que deu origem a seus poderes. Detalhe: Ben Grimm não está em sua forma de monstro de pedra. Apresentada fora de contexto, a cena dura uma página, pois na seguinte voltamos ao presente, onde Franklin acorda assustado de um pesadelo, e dá a entender que na verdade ele estava sonhando com o tal acidente. Mas, ao longo da edição ficamos em dúvida se aquilo é só um sonho ou uma premonição.

Em seguida acompanhamos o final de uma missão do Quarteto que não dá muito certo. Nela o Sr. Fantástico é ferido, o que desperta a curiosidade de Sue, que julgava impossível que o marido sofresse aquele tipo de ferimento, já que ele seria facilmente evitado graças a seus poderes de maleabilidade. Claro que isto intriga o naturalmente curioso Reed, um dos melhores e mais respeitados cientistas do planeta, e ele vai investigar o motivo. O que ele descobre promete ser o grande problema que ele e sua equipe enfrentarão nesta fase atual.

O bacana desta primeira edição é que ela já apresenta a premissa da nova temporada sem muita enrolação. Descobrimos que agora o Quarteto Fantástico e as crianças da Fundação Futuro passarão uma temporada viajando pelo universo, e a edição termina com a equipe selecionando heróis que ficarão como substitutos do Quarteto durante sua ausência na Terra, o que culminará em outro título da Marvel NOW escrito por Fraction: FF, que girará em torno desta nova equipe.

É um começo modesto, mas promissor, especialmente levando em consideração o que o autor fez durante sua fase no Homem de Ferro, onde soube trabalhar muito bem toda a relação do herói com a tecnologia. Com o Quarteto ele ganhou a chance de lidar não apenas com a alta tecnologia deste e de outros mundos, mas também com conceitos mais abrangentes de ficção científica e aventuras fantásticas. Que ele siga o exemplo do Hickman e torne-se também um imaginauta ao lado de nossos heróis, pois este foi um dos principais fatores que tornaram a fase anterior dos personagens um êxito em matéria de criatividade e diversão.

All-New X-Men #1

Roteiro de Brian Michael Bendis
Desenhos de Stuart Immonen

Com Ciclope, o maior líder mutante dos últimos anos, sendo procurado por crimes contra a humanidade, os X-Men estão passando por um dos momentos mais críticos de sua existência. Pra piorar Hank McCoy, o Fera, está passando por uma nova mutação que ameaça sua vida. Enquanto isto Ciclope, agora um fugitivo, formou uma outra equipe de X-Men que está rodando o mundo e recrutando alguns dos novos mutantes que estão surgindo aos milhões em todo o planeta, desde que o gene mutante foi reativado através da fragmentação da Força Fênix no final de Vingadores vs. X-Men.

Tudo isto acaba contribuindo ainda mais para que o temor e o preconceito contra mutantes volte a ser um dos maiores problemas enfrentados pelos X-Men, e cabe a eles encontrarem a melhor forma de lidar com isto, a começar por buscarem uma solução para conter as ações de Ciclope, que aos olhos deles estão somente piorando a situação, e caminhando para um possível genocídio, caso as duas equipes tenham que se enfrentar.

A solução encontrada pelo Fera é inusitada e arriscada: voltar no tempo e trazer para o presente a primeira formação dos X-Men, confiando que as versões mais jovens de si mesmos botem um bocado de juízo na cabeça do Ciclope. Só lembrando que além de Ciclope, a equipe original ainda contava com o próprio Fera, antes de ser coberto de pêlos azuis e ter uma fisionomia mais bestial; Homem de Gelo, ainda muito imaturo e longe de explorar todo o potencial de seus poderes; o Anjo, antes de passar por todas as mutilações e transformações que sofreu com ao longo dos anos; e, claro, a Garota Marvel, Jean Grey, anos antes de tornar-se a Fênix e o grande amor de Ciclope, morta alguns anos atrás.

A idéia do Bendis é tão arriscada quanto a decisão de Hank ao trazer a si mesmo e seus outros companheiros do passado para o presente. As consequências podem ser catastróficas, pois estamos falando de viagens no tempo e paradoxos temporais (pense apenas na possibilidade de Ciclope matar sua versão mais jovem, mesmo que por acidente, ou qualquer uma das versões mais jovens de seus ex-colegas de equipe). Mas é justamente este risco o que torna o título um dos mais curiosos da Marvel NOW. Ver as versões atuais dos personagens convivendo com as mais jovens promete grandes conflitos não apenas verbais (uma das especialidades do Bendis são os diálogos muito bem escritos) mas físicos, os quais, auxiliados pelo excelente trabalho de Stuart Immonen nos desenhos, têm tudo para serem emocionantes e enérgicos.

E, claro, vale sempre lembrar que Bendis foi o grande responsável por revitalizar a franquia Vingadores. Espera-se que ele consiga resultados semelhantes com os X-Men, que ainda terão outro título escrito por ele, Uncanny X-Men (já em sua terceira encarnação, depois de ser zerado ano passado), com lançamento programado para fevereiro de 2013, que focará na equipe do Ciclope do presente.

E por hoje é só, pessoal.

Semana que vem: Captain America de Rick Remender e John Romita Jr. e Indestructible Hulk de Mark Waid e Leinil Francis Yu. Continuem conosco!