[QUADRINHOS] Marvel NOW! – Parte 7: Thor, God of Thunder #3, Captain America #2, All-New X-Men #4, Indestructible Hulk #2, Avengers #2

E para encerrar os reviews da Marvel NOW! de 2012 falo hoje de mais 5 títulos, aqueles que considero os “pesos-pesados” lançados na última semana: Thor, God of Thunder #3, Captain America #2, All-New X-Men #4, Indestructible Hulk #2 e Avengers #2.

Adianto que são por títulos como os analisados nesta parte que continuo lendo quadrinhos de super-heróis. Mais detalhes a seguir:

O texto a seguir contém SPOILERS!

Thor 003-Zone-000 Thor, God of Thunder #3

Roteiros de Jason Aaron
Desenhos de Esad Ribic
Cores de Ive Svorcina

Se tem uma coisa que aprecio muito é um escritor que se mostra à altura de suas pretensões, que é exatamente o caso de Jason Aaron escrevendo Thor. Tanto ele quanto seu parceiro artístico, Esad Ribic, estão fazendo um trabalho exemplar ao evocar a proporção e a longevidade da ameaça enfrentada pelo Deus do Trovão neste primeiro arco.

A apresentação que Aaron escreve sobre a Cidade Onipotente é o tipo de texto que chegar superar, mesmo que por muito pouco, a arte que busca criar uma representação visual da escala do que é descrito. Apesar do design magnífico de Ribic, minha impressão é que faltou um pouco mais do assombro que o texto de Aaron procura despertar no leitor.

Mas Ribic ainda se mostra a escolha perfeita para este primeiro arco, desenhando painéis com traços simples, finos e muito precisos ao retratar cenários titânicos e fantásticos habitados por deuses cada vez mais exóticos visitados por Thor em sua caçada a Gorr, o Matador de Deuses.

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A questão da memória dos deuses é abordada com maior profundidade nesta edição. Esta “visão prilegiada” que o autor oferece ao leitor é um dos pontos altos destas primeiras edições. Ele sabe entrar na pele de um deus e transmitir a amplitude das experiências e dificuldades enfrentadas por um ser tão antigo quando tenta lembrar-se de seus milênios de vida (“mesmo na mente de um deus, não há espaço para tudo”). Se para nós já é difícil ter acesso a lembranças dos primeiros anos de nossa infância, imagine isto multiplicado por mil. Aaron sabe como evocar isto. E o autor também consegue comover o leitor, como no triste relato que Thor faz sobre a última vez que encontrou-se com Falligar, uma das vítimas do Matador de Deuses.

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As breves insersões de passagens das versões jovem e idosa de Thor enfrentando as criaturas de Gorr continuam em ótimo timing com o ritmo da trama principal da edição, desta vez focada na versão presente de Thor. E o vilão aqui sabiamente não é mostrado, ao contrário do ocorrido na edição anterior. Ele é o tipo de personagem cuja ameaça que representa cresce com sua ausência, e Aaron sabe trabalhar isto muito bem. Mesmo após apresentar a aparência do antagonista, o escritor consegue criar uma atmosfera de inquietação em torno da menção ao nome de Gorr que faz com que nos esqueçamos que sua presença física não causa tanto temor quanto o resultado de seus “teocídios”. Assim, Thor, God of Thunder permanece como um dos títulos imperdíveis da Marvel NOW!

Captain America 002-Zone-000Captain America #2

Roteiros de Rick Remender
Desenhos de John Romita Jr.
Arte-Final de Klaus Janson
Cores de Dean White com Lee Loughridge e Dan Brown

E Remender continua surpreendendo em seu trabalho com o Capitão América, surpresa que, nesta edição, já começa na primeira página, quando somos informados que a história a seguir ocorre um ano depois do que vimos na primeira edição. Steve Rogers está um caco após uma luta constante pela sobrevivência num ambiente totalmente hostil, exótico e imprevisível, o qual reforça a idéia de um perigo sem fim, e faz com que o leitor preocupe-se com a segurança dos personagens.

Com o sempre bem-vindo auxílio de John Romita Jr., o autor consegue, em poucos quadrinhos, transmitir o carinho entre o Steve e Ian, este último um personagem a quem fomos apresentados rapidamente na edição anterior, e com quem passamos a nos preocupar em pouco tempo, tamanha é a ternura e inocência que conseguimos enxergar no menino quando este dá um sorriso de encorajamento e admiração àquele que considera seu pai, depois de passar por tanto ao lado dele.

Captain America 002-Zone-004

Essa economia com que o necessário é transmitido ao leitor também torna claro o peso e as dificuldades enfrentadas pela dupla. Dá pra sentir a exaustão de Steve Rogers através das palavras e do cansaço impresso em seu semblante (e aqui insisto em chamá-lo por seu nome real ao invés de seu codinome, pois é uma visão muito humana e intimista do personagem a que temos aqui). O que comprova que Remender refinou o uso dos recordatórios em Uncanny X-Force e Secret Avengers, seus trabalhos anteriores, tornando-os cada vez mais precisos, algo fundamental numa história em quadrinhos.

O autor novamente usa flashbacks da infância de Steve nesta edição. Primeiro para contrastar a dureza da situação presente com as dificuldades experimentadas pelo protagonista quando garoto no Brooklyn, sofrendo preconceito após a morte de seu pai. Remender também usa este recurso para reintroduzir o personagem para leitores novatos e conquistar o respeito deles, apresentando-o como um soldado cuja determinação e persistência diante das adversidades foram fortalecidas e lapidadas pela vida que teve.

Também merece elogios quão inescapável Remender e Romita descrevem e retratam a Dimensão Z, tornando cada luta de Steve e Ian uma prova árdua de autosuperação frente a criaturas que parecem saídas de pesadelos kirbyanos, e a influência de Jack Kirby se mostra mais presente, tanto no design das monstruosidades como na potência das cenas de ação. E é igualmente elogiável a maneira como Romita consegue se beneficiar desta influência clara sem necessariamente emular o traço de Kirby e empregar técnicas semelhantes às dele, preservando seu estilo e tomando emprestado apenas o ritmo da narrativa.

Captain America 002-Zone-012

E novamente o trabalho de colorização é exemplar, agora sob os cuidados de um trio de profissionais, encabeçado pelo excelente Dean White, que fazem o leitor sentir a hostilidade e aspereza de cada ambiente, os grãos de areia se chocando contra a pele de Steve e Ian, e o calor reconfortante de uma fogueira acesa numa noite fria em um deserto cujas silhuetas não deixam esquecer dos perigos que espreitam por trás de cada saliência aguda das rochas ao redor.

E o que dizer do final que é claramente uma homenagem a Game of Thrones? Excelente!

All New Xmen 004-Zone-000All-New X-Men #4

Roteiros de Brian Michael Bendis
Desenhos de Stuart Immonen
Arte-final de Wade von Grawbadger
Cores de Marte Gracia

Impossível não elogiar as páginas iniciais em que Ciclope analisa rapidamente todas as possíveis origens dos jovens X-Men diante dele, pensamentos que culminam num fluxo de consciência que invade a mente de Jean Grey e desencadeia a breve luta entre ele, Magneto e os X-Men originais. Grande momento da dupla criativa, que não decepciona no restante da edição.

O traço de Immonen, arte-finalizado por von Grawbader e colorido por Gracia continua irrepreensível. De todas as equipes artísticas que tiveram que lidar com o prazo apertado de produzir material para publicação quinzenal, esta é sem dúvida uma das que se saíram melhor na tarefa, pois não há o menor indício de queda de qualidade em nenhuma das edições já lançadas até o momento. Cada quadrinho é de encher os olhos de admiração pela beleza quase poética em alguns momentos.

All New Xmen 004-Zone-006

Mas, voltando à história, nesta vemos um pouco mais de Christopher Muse, o rapaz com poder de cura, e Eva Bell, a garota que pode parar o tempo, ambos recrutados na primeira edição para se tornarem integrantes da equipe de Ciclope, que será melhor apresentada na nova encarnação do título Uncanny X-Men, a ser lançado em fevereiro. Novamente Bendis mostra o pleno domínio que tem sobre os diálogos, e em pouco tempo estabelece uma conexão emocional entre os personagens que soa natural e muito autêntica.

E Jean Grey continua se destacando cada vez mais, o que indica que ela será uma das figuras centrais do título. Além de já ter manifestado poderes telepáticos mais cedo do que devia, ao ler a mente de Ciclope nesta edição ela descobriu mais sobre seu futuro namorado, algo que certamente repercutirá em seu relacionamento com sua versão mais jovem. Isto novamente levanta a questão de como a viagem no tempo dos X-Men originais será resolvida. A cada nova edição de All-New X-Men eles ficam mais perplexos diante das descobertas a respeito de seu futuro, informações que dificilmente esquecerão, e que só me fazem pensar na solução mais batida: as memórias serão apagadas por algum telepata antes de voltarem para o período ao qual pertencem. Não gostaria de ver algo tão previsível. Mas também não duvido que essa bagunça crie uma nova linha temporal, outra idéia que não seria uma novidade, pois o que não falta na história dos X-Men são passados, presentes e futuros alternativos. Resta aguardar.

All New Xmen 004-Zone-012

Apesar das preocupações quanto à condução, o título está rendendo muito neste começo, como comprova a ótima sacada de diagramação das páginas 12 e 14, que fazem um belo trabalho para contrastar as duas equipes de X-Men, a original e a facção do “Ciclope do Mal”, como ele é chamado pela versão adolescente do Homem de Gelo, mais um momento inspirado da equipe artística. Por passagens assim All-New X-Men está entre os melhores títulos mutantes sendo publicado pela Marvel ao lado de Wolverine and The X-Men, Uncanny X-Force e X-Factor. Que continue assim.

IH-02-000Indestructible Hulk #2

Roteiros de Mark Waid
Desenhos de Leinil Francis Yu
Arte-Final de Gerry Alanguilan
Cores de Sunny Gho

Neste número Bruce Banner quase literalmente repete a Tony Stark, que acabou de descobrir que ele foi contratado pela S.H.I.E.L.D., o discurso que fez a Maria Hill na edição anterior, reapresentando os argumentos que usou para convencê-la da eficiência de seu plano para tornar-se um cientista tão efetivo em construir coisas quando o Hulk é para destruí-las. Tony fica claramente  com um pé atrás a maior parte do tempo, mas só descobrimos que seu temor é não é exatamente altruísta no final da edição.

Indestructible Hulk #2 apresenta a primeira batalha de egos da série, vista em três frentes: a intelectual, a emocional e a física. Boa parte da edição é sustentada com diálogos bem escritos, em que Banner aos poucos vai passando do educado anfitrião que tenta provar a Stark sua capacidade de dar um passo adiante rumo a uma nova e bem intencionada fase de sua vida. A história é inteira construída para o momento em que Bruce Banner expressa todo o seu ressentimento relacionado à forma como Tony o tratou a vida inteira. Daí já dá preverem o que acontece em seguida.

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É interessante notar o quanto Stark começa a sentir-se intimidado por esta nova versão de Banner quando percebe os primeiros indícios de que seu colega cientista parece ter encontrado um meio de explorar todo o potencial de sua inteligência há muito tempo desperdiçada. Fica implícito que Stark sempre enxergou no amigo esta capacidade de tornar-se um cientista melhor do que ele, e Mark Waid sabe expôr muito bem isto sem dizer com todas as letras. Assim como é admirável a forma como ele escreve Bruce Banner dissecando Tony Stark com palavras de precisão cirúrgica que expõem as falhas e limitações de uma das mentes mais brilhantes do Universo Marvel. É um estudo muito inteligente de personagens o que o autor faz nesta história, que termina numa cena breve mas reveladora, em que testemunhamos o momento no qual Stark deixa cair sua máscara de autoconfiança e orgulho diante de um espelho, quando tenta se recompôr após uma dura lição.

Mark Waid é um autor que, após décadas de experiência escrevendo quadrinhos, consegue propôr novas idéias e trabalhar com caracterizações e clichês do gênero sem soar como apenas mais do mesmo. É uma evolução do estilo tradicional de histórias de super-heróis que não chega a ser totalmente inovadora. Ele preza mais pela inteligência das idéias do se preocupa em distorcer as regras do gênero e encontrar novas formas de trabalhar com a linguagem dos quadrinhos. Talvez seja este o principal fator que o torna tão querido pelos leitores, por não tirá-los da zona de conforto no que diz respeito à forma a que estão mais habituados. Prova disto é como ele divide a história entre páginas cheias de diálogos, que dão substância e profundidade a seus personagens, e outras em que a ação e a porradaria impera. Eis um autor que satisfaz o desejo de seu público, mas sem rebaixar o nível do material que produz.

Avengers 002-Zone-000Avengers #2

Roteiros de Jonathan Hickman
Desenhos de Jerome Opeña
Cores de Dean White com Justin Sponsor e Morry Hollowell

Se a primeira edição teve como tema a natureza expansiva das idéias, nesta Hickman exemplifica através da história o aspecto estrutural das mesmas, seja contando a origem dos Jardineiros/Alephs criados pelos Construtores, a raça de seres inteligentes mais antiga do Universo, como um sistema de controle da estrutura do espaço e do tempo; ou detalhando a criação e explicando o funcionamento da “Máquina de Vingadores”, que é a forma como o grupo foi reimaginado e reconstruído por Tony Stark e Steve Rogers, uma arma de defesa global, ou, nas palavras de Rogers: “um dispositivo comunitário construído para salvar todos nós.”

Com isto Hickman vem se tornando a cada novo trabalho uma espécie de Christopher Nolan dos quadrinhos, um autor com apreço considerável pela arquitetura de suas histórias. Tal característica de suas obras vem se desenvolvendo desde seu trabalho em Secret Warriors, quando o autor apresentou aos leitores um organograma demonstrativo dos arcos que havia planejado para ela, incluindo a rede de relações entre seus personagens e organizações, uma versão mais complexa do que vimos na edição anterior e nesta, na página em que todos os membros dos Vingadores são representados apenas pelos ícones de cada herói, organizados em torno do símbolo da equipe.

Mas não é apenas de forma que a história vive. Nesta Hickman cria um “episódio de recrutamento”, um dos temas em comum desta primeira leva de títulos de equipes da Marvel NOW! Porém logo fica clara a diferença entre um autor qualquer e um do quilate de Hickman, que o faz com elegância, precisão e ainda reserva espaço para boas tiradas de humor (a do recrutamento do Homem-Aranha é minha preferida, o que só faz lamentar mais o tratamento que estão dando ao personagem em seu título solo).

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Também descobrimos nesta edição a origem do Jardim, que é diretamente relacionada à origem do Universo (!), novamente indicando que as pretensões de Hickman é trabalhar com grandes conceitos que enfatizem a idéia de expansão dos Vingadores como uma idéia em fase de crescimento, um organismo coletivo objetivando realizações maiores. E se no Quarteto Fantástico as ameaças enfrentadas pela equipe vieram num crescendo que levou o grupo a evoluir para a forma da Fundação Futuro, que por sua vez encontrou como seu maior desafio uma batalha em larga escala envolvendo uma Armada Kree, os Inumanos, a Onda de Aniquilação da Zona Negativa, e um grupo de Celestiais Loucos, eu mal posso esperar para descobrir o que Hickman tem em mente para levar os Vingadores ao limite, e forçá-los a evoluírem como um engenho coletivo de defesa da Terra, que pode facilmente englobar mais do que nosso planeta. As possibilidades são inúmeras.

Mas, voltando aos vilões do arco atual, é curiosa a relação de opostos que Hickman sugere entre Ex Nihilo e Abyss através da cor dos ovos dos quais nasceram, carregados por Aleph, que para a minha surpresa revelou-se como uma espécie de pai-mãe de ambos (pra quem não se lembra, no review da primeira edição especulei que talvez Abyss pudesse ser a mãe de Nihilo). Se isto terá alguma implicação para a história, não dá pra saber. Ainda assim, são detalhes que enriquecem o material, dando a ele novas camadas de leitura.

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Infelizmente nem tudo foi perfeito neste número. Apesar do excelente trabalho de colorização de Dean White marcar presença na maioria das páginas, a homogeneidade das cores se perdeu nesta edição, que contou com a colaboração de outros dois coloristas. Enquanto as páginas de White continuam irrepreensíveis em sua excelência, dando tridimensionalidade e textura aos cenários e personagens, aquelas não coloridas por ele exibem uma discrepância muito grande se comparadas às de White. Justin Sponsor e Morry Hollowell sequer tentaram se aproximar da paleta de cores e efeitos de iluminação usados por White, algo que poderia justificar-se caso as páginas feitas por eles fossem as de flashback, o que não é o caso. Este mês, em Captain America #2, White também dividiu a colorização com outros dois colaboradores, mas diferente do que aconteceu aqui, lá Lee Loughridge e Dan Brown foram cuidadosos o bastante para aproximarem suas paletas daquela usada por White.

Apesar deste pequeno deslize, Avengers continua sendo um título obrigatório não apenas para o fã do Universo Marvel, mas para qualquer leitor de quadrinhos que aprecie histórias contadas com inteligência e capricho, algo que não falta aqui.

E por enquanto é só, pessoal! Dia 02 de janeiro volto para falar dos finais dos primeiros arcos de All-New X-Men e Iron Man e da estréia de New Avengers, de Jonathan Hickman. Até lá, e um ótimo 2013 para todos nós! 🙂