[QUADRINHOS] Marvel NOW! – Parte 15: Nova #1, Savage Wolverine #2, Indestructible Hulk #4, Captain America #4, Thor God of Thunder #5, Avengers #6 e The Superior Spider-Man #4

Numa semana com edições escritas por feras dos quadrinhos atuais como Jason Aaron em Thor, Mark Waid em Hulk, Jonathan Hickman em Avengers e Rick Remender em Capitão América, até Jeph Loeb reaprendeu a escrever bem pra não fazer feio na estréia de Nova, enquanto Frank Cho deu seguimento a seu divertido arco em Savage Wolverine e Dan Slott continuou vindo com boas idéias para seu Superior Homem-Aranha.

Foi com muito prazer que escrevi as reviews desta semana, e é com igual satisfação que os apresento para vocês. Leiam abaixo o que rolou, com os inevitáveis SPOILERS.

Nova v5 001-000Nova #1

Roteiros de Jeph Loeb
Desenhos de Ed McGuinness
Arte-final de Dexter Vines
Cores de Marte Gracia

Nova é um dos heróis cósmicos da Marvel. Ele faz parte da chamada Tropa Nova, que é basicamente uma força policial intergaláctica cuja base original era no planeta Xandar, onde ficava a fonte de poder dos membros da Tropa, a Força Nova, gerada por um computador vivo chamado Mente do Mundo Xandariana. Sim, o conceito é uma variante (alguns dirão um plágio descarado) daquele por trás da Tropa dos Lanternas Verdes da DC Comics.

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Richard Rider, o Nova anterior

A Tropa Nova já teve quatro versões, com o surgimento da maioria delas coincidindo com a reconstrução de Xandar e a restauração da Tropa. Sua última versão foi desmantelada quando Richard Rider, o Nova anterior, absorveu a Força Nova de todos os membros da Tropa para conter Thanos dentro do chamado Cancerverso, um universo paralelo onde a própria morte foi extinta, e a vida espalhou-se pelo cosmos como um tumor. Não li esta história, que foi apresentada na mini-série em 6 edições The Thanos Imperative publicada entre 2010 e 2011 (até o momento não publicada no Brasil), mas o que nos importa saber é que Richard Rider aparentemente morreu no processo, e com ele a Força Nova e a Mente do Mundo.

Sam Alexander, o Nova atual, ainda não teve sua origem detalhada, e apareceu muito pouco antes desta nova série (apenas no início e no final de Vingadores vs X-Men e nas edições especiais Marvel Point One e Marvel Now! Point One).

PointOne01-008

Sam Alexander como Nova em sua primeira aparição na edição especial Marvel Point One, de novembro de 2011.

Devo confessar que nunca acompanhei nenhuma série do Nova anterior, e só passei a ler a série desta versão mais recente do herói por causa do atual panorama que a Marvel está traçando para seu universo, cuja tendência é desembocar na saga cósmica Infinity (falei um pouco sobre ela na parte 13). Portanto, num primeiro momento, estou trabalhando com a suposição de que é importante acompanhar as novas séries dos heróis cósmicos da editora para encontrar pistas sobre o desenvolvimento da futura saga.

Jeph Loeb reservou a primeira edição para contar a origem do Nova atual. Pra começar o autor encontrou uma forma bem esperta de explicar como ainda existe um Nova após a fonte de poder da Tropa se perder com a morte de Richard Rider, e a solução é bem simples: existia uma equipe secreta, os Novas Negros, responsável por realizar missões sigilosas. Como a existência dos Novas Negros aparentemente era mantida em segredo até dos Novas Dourados (dos quais Richard Rider fazia parte), logo, supõe-se que eles tenham uma fonte de energia diferente do resto da Tropa, talvez como uma medida de segurança para evitar que alguém descubra a existência deles. É também possível que a energia venha diretamente do uniforme, ao invés de depender de uma fonte central que alimenta seus trajes remotamente. Isto explicaria os poderes do Nova atual, que independeria da existência da Força Nova.

Mas, saindo um pouco do campo das especulações, é preciso elogiar a jogada de Loeb para o começo da série. O Nova atual sequer aparece neste primeiro número, que tem boa parte dele dedicado a esclarecer a origem dos poderes desta nova versão do herói, e sua relação com o pai, que promete ser um dos temas centrais da série, pelo menos neste primeiro arco.

Difícil errar quando uma história que promete jogar o protagonista em aventuras por todo o universo começa com os dois pés no chão, e mais focada nas relações familiares e sociais do personagem central, e na tarefa de estabelecer o cenário mundano do qual Sam “escapará” para salvar a Terra e o Universo de grandes ameaças. Sim, é o caminho mais seguro, mas alguns clichês ainda se mostram bons o bastante para serem reutilizados, e Loeb soube empregá-los muito bem aqui.

Nova v5 001-008

Pai, filho, e o legado que promete ser o laço que fortalecerá o respeito entre eles.

Sam não nutre muito respeito por Jesse, seu pai, que trabalha como faxineiro no colégio onde estuda. Só isto já gera uma série de outros problemas que o garoto tem que enfrentar no seu dia-a-dia, desde o valentão que fica atazanando sua vida por ele ser filho do cara que limpa os banheiros da escola, até o inspetor – cujo visual é claramente baseado no Sr. Strickland, da trilogia De Volta Para o Futuro – que fica atormentando o garoto por causa da incompetência do pai em concluir suas tarefas,  o que leva Sam a acobertar Jesse terminando os serviços que ele deixou incompletos (como limpar os banheiros) para que não perca o emprego. Resumindo, é uma relação bem desgastante a deles.

O relacionamento entre pai e filho ainda conta com outro complicador, que é o passado que Jesse alega ter vivido: sua juventude como um membro da Tropa Nova. Sam não acredita nas histórias do pai, mesmo ele guardando na garagem de casa seu capacete da Tropa, que deve ser apenas um brinquedo inútil aos olhos incrédulos do filho. Isto porque a imagem que Jesse tenta vender ao filho é o total oposto da posição que ocupa hoje (uma história bem parecida com a do pai da Esmagadora, revelada em Avengers #5, que também não acreditava nas histórias do avô da heroína quando este contava suas aventuras espaciais). Afinal, como diabos um sujeito que já lutou contra alienígenas em outras galáxias termina como o faxineiro de uma escola? É insultante para Sam que o pai insista em narrar suas fantasias como se realmente tivesse vivido todas elas, enquanto não é capaz nem de realizar seu trabalho direito, e livrar o filho do estresse que passa todos os dias no colégio. Também fica subentendido que a família é mais sustentada pela mãe do que por Jesse.

Jesse Alexander em uma de suas aventuras como membro dos Novas Negros, aqui auxiliado por Rocket Racoon e Gamora dos Guardiões da Galáxia.

Jesse Alexander em uma de suas aventuras como membro dos Novas Negros, aqui auxiliado por Rocket Racoon e Gamora dos Guardiões da Galáxia.

Apesar de suas poucas aparições, o restante do núcleo familiar de Sam promete ser tão importante quanto seu pai. Sua mãe, ao contrário do filho, tem muito respeito por Jesse, e deixa subentendido que ela acredita nas histórias dele, e insiste que o garoto aceite a realidade dos sacrifícios que o pai fez para ficar com sua família (deixar de ser um herói para viver como uma pessoa comum). Já Kaelynn, sua irmã caçula, acredita totalmente nas histórias de Jesse, o que rende um dos momentos mais tocantes da história, quando Sam fica prestes a arruinar a crença da irmã, mas se contém a tempo, por entender quão importante é para a menina acreditar nas aventuras do pai.

O ponto de partida escolhido por Loeb é animador. Creio que será interessante ver o amadurecimento de Sam, e a influência disto sobre a sua relação com o Jesse. Promete ser emocionante o momento em que o garoto reencontrar pai, e admitir que esteve errado este tempo todo, após ter vivido aventuras tão emocionantes quanto as dele, quem sabe até ao lado do velho.

Pra completar, as rápidas aparições de Gamora e Rocket Racoon já começam a traçar as conexões entre as séries cósmicas da Marvel, e o vindouro título dos Guardiões da Galáxia. Nova tem tudo pra ser uma série bacana de acompanhar, ainda mais tendo os simpáticos e expressivos desenhos de Ed McGuinness e as belas cores de Marte Gracia, tornando a leitura ainda mais agradável.

Savage Wolverine 002-000Savage Wolverine #2

Roteiro e desenhos de Frank Cho
Cores de Jason Keith

Neste número Frank Cho deu uma maneirada nas cenas de violência, e investiu mais no humor, o que deu um ar mais leve e descontraído para a história. Funcionou muito bem!

A história é uma comédia de ação. Ver o Wolverine se ferrando toda hora em suas tentativas de salvar Shanna de algum perigo, e no final acabar sendo salvo por ela é divertido pra caramba! A cereja do bolo é a cena abaixo, que é bem simbólica, considerando tudo o que acontece entre eles nesta edição:

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Só achei estranho este comentário de Shanna sobre a altura de Wolverine, como se já não tivessem se encontrado diversas vezes no passado. Mancada do Frank Cho.

Savage Wolverine 002-016Fora todas as altas confusões de Wolverine e Shanna, neste número também ocorre a aparição de mais um “perdido” na Ilha Proibida: Amadeus Cho, a sétima pessoa mais inteligente do mundo, segundo Reed Richards, e ex-companheiro do Hércules! A despreocupação do personagem durante toda a história é prova de quanta confiança ele tem em suas capacidades de sobreviver, mesmo num ambiente hostil como a Terra Selvagem. Vai ser interessante vê-lo interagir com Wolverine e Shanna, que são bem mais impulsivos, enquanto ele é mais analítico e racional, e prefere fazer apenas o necessário para livrar-se das enrascadas em que se mete. Tanto que em pouco tempo Amadeus já dá um jeito de ser visto como um deus pela tribo de neandertais que o atacou. Além disto, ele protagoniza outra das cenas mais engraçadas da história, reproduzida ao lado.

Notei uma queda na qualidade dos desenhos de Cho, mas nada que comprometa o ritmo da história, que acaba se beneficiando da simplicidade e falta de capricho dos traços, pois é uma trama bem mais dinâmica que a do primeiro número.

Resumindo, aventura rápida, divertida, estilo Sessão da Tarde. Um título que até aqui vem sendo ótimo justamente por não tentar ser mais do que pura diversão.

Indestructible Hulk 004-000Indestructible Hulk #4

Roteiro de Mark Waid
Desenhos de Leinil Francis Yu
Arte-final de Gerry Alanguilan
Cores de Sunny Cho

A sequência de abertura desta edição é uma das melhores até agora: Bruce Banner acorda após sua primeira boa noite de sono desde o acidente que gerou o Hulk, se arruma e sai para o meio de uma cidade habitada por manequins (!). Ele finalmente está em paz consigo mesmo e cada vez mais confiante de suas capacidades para gerenciar sua vida como cientista e como monstro, equilibrando seus dois lados. Nestas primeiras páginas Mark Waid novamente encontra mais uma forma de reapresentar o personagem e seu status atual sem soar repetitivo, uma das especialidades do autor (quem aí se lembra do “Meu nome é Wally West. Eu sou o Flash. O homem mais rápido do mundo.” e suas variantes quando ele escreveu a série do herói da DC?). Mais tarde descobre-se que o intrigante cenário é o novo lar de Bruce Banner providenciado pela S.H.I.E.L.D.: uma cidadezinha abandonada onde antigamente o governo americano testava armas nucleares (ah, as boas ironias do destino!). Em seu subsolo foi construído o novo laboratório do Dr. Banner.

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Se você vai dar um laboratório isolado do resto do mundo para um cientista que pode virar o Hulk, é melhor não esquecer da conexão com a internet.

Nesta edição também ocorre o primeiro encontro de Banner com sua equipe de cientistas, pra quem ele explica que todos estão ali pra ajudá-lo a ganhar seu primeiro prêmio Nobel, inventando coisas para o bem da humanidade. É nesta conversa que está uma das melhores cenas de humor negro da série, algo em que Banner tem se tornado mestre (“… because it’s really hard to find qualified technicians whose pants wouldn’t have exploded just now.”).

Um detalhe curioso é a descoberta de que Banner tem uma lasca do martelo de Thor, e que está disposto a encontrar formas de desvendar as propriedades do metal Uru e criar aplicações para ele. Tenso!

Já a parte do “Hulk breakes, Bruce builds” vem se refletindo na própria estrutura das edições da série até aqui, com metade da história dedicada aos esforços de Banner, e a outra à nova missão do Hulk, que pode parecer esquemática na teoria, mas na prática Waid faz de maneira muito satisfatória.

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Só mais um probleminha bobo pro Hulk resolver.

O restante da edição é uma sequência de porradaria subaquática em que Hulk tem sua resistência a uma pressão atmosférica titânica posta à prova enquanto enfrenta um exército inteiro de terroristas Lemurianos, que termina com uma sequência sufocante, e um bom gancho para o próximo número, o qual fechará este primeiro arco.

A qualidade dos desenhos de Leinil Yu está a cada edição melhor. Além de continuar desenhando construções de alta tecnologia de maneira grandiosa (o Dreadnought é o melhor exemplo aqui), suas expressões faciais melhoraram consideravelmente (gosto muito da cena de abertura, com o close de Banner acabando de acordar).

Mesmo depois de apenas quatro edições, já é possível dizer que estamos acompanhando uma das melhores fases do personagem, que poucas vezes foi tão bem caracterizado e desenvolvido como aqui.

Captain America v7 004-000Captain America #4

Roteiro de Rick Remender
Desenhos de John Romita Jr.
Arte-final de Klaus Janson
Cores de Dean White e Lee Loughridge

Soube que um bocado de fanboys conservadores chiaram muito (e provavelmente xingaram em igual medida no Twitter, fóruns e redes sociais) com o final da edição anterior. Pois eu digo que estão errados em pensar que o Rick Remenber está apenas fazendo sua própria versão do Superior Homem-Aranha, botando o Capitão América à beira de ter seu corpo dominado por Arnim Zola. Esta é somente uma parte de seu plano para testar os limites da força, resistência, persistência e heroísmo de Steve Rogers num cenário a cada dia mais desesperador.

Se na edição 2 o autor surpreendeu anunciando que dali pra frente a história se passaria um ano após a 1ª edição, nesta ele pisa mais fundo no acelerador e joga mais uma bomba no colo do leitor: ONZE ANOS se passaram desde o final de Captain America #3!

É por jogadas arriscadas como esta que Remenber vem conquistando o meu respeito a cada nova edição . Se tem algo que admiro muito num autor, não importa se é de quadrinhos, livros, séries de TV ou cinema, é a ousadia de fugir do que se espera, e testar novas situações com um personagem ou um gênero já estabelecido. Se na review da primeira edição eu elogiei sua ideia de tirar o Capitão América de sua zona de conforto e levá-lo para um mundo que ele não compreende, passadas quatro edições, devo dizer que esta premissa ainda tem muito o que render.

Neste número encontramos um Steve Rogers cada vez mais cansado e desgastado por sua luta para sobreviver à Dimensão Z, onde, por mais de uma década, vem ajudando a comunidade alienígena que o acolheu, enquanto luta contra a influência do “vírus-consciência” de Zola, que a todo instante ameaça assumir o controle de seu corpo. Além de todas essas preocupações, Steve também precisa cuidar de Ian, treinando-o para que se torne mais forte e capaz de continuar vivo caso o pior aconteça com ele, que ainda tenta, com muito esforço, manter acesa a esperança de encontrar um meio de voltar para a Terra.

Captain America v7 004-003Um detalhe notável já nas primeiras páginas é o aspecto assumido pela Dimensão Z depois de mais de uma década. O mundo está cada vez mais alienígena: chuvas luminosas, plantas estranhas, lulas-piranhas voadoras. Ela parece uma extensão da mente doentia de Arnim Zola, resultado de seu desejo de ter domínio completo sobre aquele mundo e seus habitantes. E Remenber tira proveito deste aspecto do cenário para metaforizar a paisagem mental do Capitão sob influência do “vírus Zola” (confira ao lado).

Por isto a idéia do Capitão levar no peito uma cópia da consciência de Zola é tão boa, porque ela completa o quadro da batalha psicológica e física que o autor vem armando e expandindo desde a primeira edição. Conviver intimamente com uma parcela de seu inimigo cria um conflito bem mais íntimo e pessoal entre o herói e o vilão, além de oferecer ao primeiro uma compreendão mais profunda das motivações do segundo.

Captain America v7 004-015E na trama paralela ambientada na adolescência de Steve Rogers, Remenber continua a desmistificar o personagem apresentando mais detalhes de sua origem humilde e mundana. Acompanhamos um episódio bem dramático de sua vida nesta edição, que tira proveito do ponto em comum com a situação vivida no presente. Sem dinheiro, com a mãe doente e acamada, o aluguel dois meses atrasado, e sob o risco de ser despejado, o jovem Steve vive talvez a primeira situação desesperadora de sua vida. A partir disto descobrimos que ele nem sempre foi perfeito, e já tomou atitudes socialmente reprováveis dominado pelo medo de perder um ente querido. É mais uma parede do edifício de virtudes do Capitão America que é erguida diante do leitor. Assim, enquanto de um lado o autor desconstrói o herói, levando-o a passar por várias provações a fim de demonstrar o que persiste de sua essência ao final, do outro ele nos dá a chance de desvendar os fatos que fortaleceram seu núcleo moral ao ponto de ser quase impossível quebrá-lo e corrompê-lo.

Com uma abordagem que é ao mesmo tempo respeitosa, audaz e inovadora, Rick Remenber vem conquistando seu lugar ao lado de autores como Mark Waid, Jason Aaron, Grant Morrison e Geoff Johns, que também se tornaram especialistas na investigação do que há de imutável nestes personagens – a ponto de persistirem por décadas – e na renovação do interesse, respeito e admiração de novos e velhos leitores por seus heróis. É de se lamentar que alguns cabeças-duras insistam em não querer entender que é graças a histórias como esta que seus personagens preferidos continuam em tão boa forma como na época de suas primeiras aventuras. São novos desafios que os ajudam a se adaptar a novos tempos. Que aprendam a renovar suas mentes com seres fictícios que já fazem isto há décadas.

Captain America v7 004-005

Thor - God of Thunder 005-000Thor: God of Thunder #5

Roteiro de Jason Aaron
Desenhos de Esad Ribic
Cores de Ive Svorcina

Numa edição inteira dedicada ao vilão de seu primeiro arco, Jason Aaron começa a revelar as motivações de Gorr e pistas de seu passado e origem, conforme o Carniceiro de Deuses dá os últimos passos rumo a uma nova fase de seu grande plano.

Apesar dos três confrontos de Gorr com Thor através do tempo chegarem a seus respectivos clímaxes, com boas e violentas cenas de batalha, o destaque é mesmo para o que se descobre sobre o deicida, e as implicações que isto terá no próximo arco do título.

Pra começar, Gorr revela que veio de um mundo esquecido, onde era considerado um pária, e que não conheceu o pai. Ao longo da história também é dito que ele deixou de acreditar que os deuses se dispõem a ajudar os mortais quando estes necessitam de seu auxílio, algo decorrente de um momento crucial de seu passado (não revelado) em que ele precisou da ajuda de um deus, e não a recebeu (“Where were the gods when I needed them most?”).

Outra informação curiosa é quando, no presente, o Carniceiro de Deuses diz que está há 2000 anos matando deuses com as próprias mãos. Sempre que se fala neste período de tempo a partir dos dias atuais é quase automático pensar num certo “Filho de Deus” que veio ao mundo, e que muitos consideravam a encarnação do próprio Deus. Estaria Aaron sutilmente sugerindo que Gorr teve alguma relação com a morte de Jesus Cristo?

Mas a controvérsia maior é reservada para a sequência de abertura. Gorr volta 14 bilhões de anos no tempo e chega ao Vazio, o Universo recém-nascido. Lá encontra os primeiros seres vivos criados pelo Primeiro Deus, que é retratado como um bebezão brincando de criar vida e manipular seus corpos como se fossem massinha de modelar. Ele não demonstra um pingo de piedade e compaixão por suas criações, todas aberrações, que parecem implorar para morrerem logo. Fica por conta do leitor interpretar as intenções de Aaron ao escrever esta cena. Seria uma declaração velada de seu ateísmo? Seria um alerta para os riscos que os homens da ciência correm quando se consideram deuses por serem capazes de moldar o “barro da vida”? Ou é uma forma de levar seus leitores a questionarem se Deus é tão bom quanto pensam? E se o criador da vida for tão indiferente às suas criações quanto certos cientistas são com suas cobaias?

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Gorr se encontrando com o Primeiro Deus.

Um detalhe acrescentado ao perfil de Gorr, que deu ao personagem um pouco mais de complexidade, é sua hesitação na hora de enfrentar os vikings que chegam à caverna onde torturou o jovem Thor por 17 dias (!). Apesar de toda a crueldade demonstrada nos assassinatos de deuses, Gorr evita o máximo possível matar seres mortais, pois simpatiza com eles – dá pra dizer até que sente compaixão por eles – especialmente por sua incapacidade de livrar-se do medo de viver num mundo sem deuses. Segundo o deicida, mortais temem mais esta idéia do que a própria morte.

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A hesitação do Matador de Deuses diante de meros mortais.

É neste ponto que também descobrimos a outra lição que o Carniceiro de Deuses aprendeu durante seu segundo confronto com Thor no passado, fundamental para a continuidade de sua missão: a necessidade de ter devotos, um exército deles, dispostos a morrer por sua causa e abrir mão de suas vidas para salvar a dele, como os vikings fizeram ao testemunhar Thor quase sendo morto por Gorr. Daí os Berserkers Negros serem partes do deicida. Como o Primeiro Deus, Gorr aprendeu a gerar vida.

E esta é outra boa sacada de Aaron. Gorr começou sua jornada como um mortal, mas ao tomar para si a missão de livrar o universo de todos os seus deuses, acabou, no processo, se tornando tão poderoso quanto os deuses que já matou, e ironicamente parece caminhar na direção de conquistar, intencionalmente ou não, sua própria divindade. Mesmo que até aqui não tenha admitido, seria isto que ele pretende fazer usando o coração quente de um deus antigo, uma ou duas luas, espaço para construir e alguns escravos?

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O Thor do presente e o do futuro se unem para enfrentar os Berserkers Negros de Gorr.

Mesmo tendo o papel de protagonista “roubado” nesta edição, Thor tem mais uma parte de seu quadro psicológico revelada, quando é sugerido pela história que ele não se lembrava, até pouco tempo atrás, de seus primeiros embates com Gorr pelas feridas profundas sofridas por seu ego. Ser torturado e quase morto por uma criatura mortal,  e salvo no último instante por guerreiros tão mortais quanto seu inimigo não deve ser fácil para um deus tão orgulhoso quanto ele, especialmente em sua juventude. Ou seja, para Aaron, deuses também sofrem de neuroses e bloqueios de memória devido a acontecimentos traumáticos.

Avengers v5 006-000Avengers #6

Roteiro de Jonathan Hickman
Desenhos de Adam Kubert
Cores de Frank Martin

Numa história que estimula a mente do leitor a criar associações de idéias para encontrar todas as conexões entre personagens e conceitos introduzidos nas edições anteriores e nesta, Jonathan Hickman facilita o processo criando uma sessão de hipnose comandada por Shang-Chi para ajudar Tamara Devoux, a Capitã Universo, a lembrar-se do acidente que a transformou no novo avatar da deusa Universo.

Ok, antes de prosseguirmos uma correção: ao contrário do que eu havia afirmado no meu review de Avengers #3, a Capitã Universo não é Monica Rambeau, ex-Capitã Marvel, atualmente usando o codinome Fóton, que se destacou pela última vez na série Nova Onda (que é altamente recomendável, com Warren Ellis nos roteiros e Stuart Immonen nos desenhos). Tamara é uma personagem nova cuja primeira aparição foi mesmo em Avengers #1. Perdão pelo erro de interpretação!

Avengers v5 006-011

Durante a terapia efetuada por Shang-Chi descobrimos que Tamara ficou 10 anos em coma após o acidente de carro que sofreu com Ella, sua filha, então com 7 anos. Um dos mistérios relacionados ao acidente é o paradeiro da menina, que, mesmo com todos os recursos que possuem, os Vingadores não conseguiram descobrir que fim levou. O outro diz respeito ao motivo porque a deusa Universo escolheu Tamara como sua hospedeira.

O estado de coma em que ela entrou criou um ponto de entrada, um “nada”, dando a Universo a chance de reacender a vida no corpo de Tamara, preenchendo-o com “tudo”. Por isto a fixação que a Capitã Universo tem pela história da Criação, pois o acidente de Tamara é uma rima visual da origem do Universo. Nele vida e morte se misturam, Tamara “corre para a luz” dos faróis do carro e encontra a escuridão da inconsciência, o “nada”. Dez anos depois uma nova luz vem em sua direção, a deusa Universo, para a qual ela corre, recuperando a consciência, e no processo tornando o próprio Universo consciente através dela.

Avengers v5 006-016

O fato de Tamara estar “quebrada” e morrendo, após o trauma causado pelo acidente, parece ter criado uma sincronia entre ela e a deusa Universo, que também está avariada e morrendo. Este estado “moribundo” é explicado pelo fato de a entidade ser a personificação do Universo 616 propriamente dito, que está de fato “quebrado” desde a Incursão vista em New Avengers #1, quando uma Terra vinda de outro universo quase chocou-se com a “nossa”, algo que, se ocorresse, levaria à destruição de ambas, e seus respectivos universos. Isto porque, segundo a Capitã Universo, a Terra é o eixo em torno do qual o Multiverso gira (ideia MUITO parecida com a usada pela DC Comics para explicar a arquitetura fundamental de sua versão do Multiverso). Portanto, qualquer trauma sofrido pela Terra afeta a saúde de todo o Multiverso. Por isto o Universo 616 sentiu a necessidade de tornar-se consciente e manifestar-se sob a forma da Capitã Universo. É preciso evitar que o pior aconteça.

Avengers v5 006-017

Daí chegamos à outra peça da máquina narrativa que Hickman vem construindo até aqui: Adam. Após explicar o por quê de ter vindo para a Terra, Universo oferece a Tony Stark a chave para a tradução/decodificação da língua/código usada por Adam para se comunicar desde a edição 2. Primeiro descobrimos que, ao contrário do que Tony acreditava, o nome do rapaz não é Blackveil (Véu Negro, em tradução livre), mas Nightmask (Máscara Noturna, segundo a tradução adotada aqui no Brasil para o nome do personagem no qual foi baseado). Depois, o próprio revela o que estava anunciando desde a edição 3: a chegada de algo chamado Evento Branco (White Event, no original).

Avengers v5 006-021

Agora uma aulinha de história dos quadrinhos antes de prosseguirmos. O Evento Branco é um fenômeno cósmico que ocorreu pela primeira vez na Terra-148611, localizada no chamado Novo Universo. Neste mundo não existiam mutantes, nem alienígenas, deuses, e seres mitológicos, ou seja, era um planeta como o nosso, até o dia em que tal evento ocorreu, dando a alguns seres humanos super-poderes. Máscara Noturna é um dos humanos do Novo Universo que ganhou poderes na ocasião, no caso dele a habilidade de entrar no sonho das pessoas e ajudá-las a se curarem de traumas e doenças mentais. Tudo isto ocorreu numa linha de quadrinhos da Marvel publicada entre 1986 e 1989, independente do universo tradicional, criada para contar histórias mais realistas sobre um mundo como o nosso em que pessoas com super-poderes começam a aparecer.

O parágrafo anterior foi só pra contextualizar os personagens e conceitos que Hickman está trazendo para o Universo 616 sob novas roupagens. Até o momento o Máscara Noturna atual só tem o nome como ponto em comum com a versão original do personagem, mas isto pode mudar nas próximas edições. Quanto ao Evento Branco é algo cujo efeito já descobriremos a partir da próxima edição, mas já é possível supor que novas versões de outros personagens do Novo Universo surjam como consequência.

Talvez o que mereça um pouco mais de esforço especulativo seja a causa do Evento Branco, que parece ter relação com o fato do “Sistema estar quebrado.” Mas o que seria este Sistema? O próprio Universo 616!

Voltando a Avengers #3, e usando a tabela de decodificação dos Códigos da Máquina Construtora, que Hickman nos deu de presente no final desta edição, temos as seguintes traduções das falas codificadas de Adam naquela edição:

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Na cena em questão Adam havia acabado de sair de seu casulo de gestação quando recebeu uma carga de informação diretamente transferida para o seu cérebro. É depois disto que ele diz que os Construtores (Builders, no original) abandonaram a “Máquina” por ela estar quebrada. Em seguida ele parece se corrigir, ou talvez esclarecer este ponto, e implicar que o próprio Universo é a Máquina, e que este dano provocou o Evento Branco. De quem ele recebeu esta mensagem? Seria dos Construtores? De uma Terra de outro universo que já testemunhou tal evento?

Deixemos estas questões para que o futuro as responda, e analisemos os fatos. Acho importante reforçar que pistas sobre a ligação dos Códigos da Máquina Construtora com a Capitã Universo foram espalhadas desde o início. A aparência deles remete a diagramas representativos de átomos e ligações moleculares, que por sua vez se assemelham aos desenhos do uniforme da heroína. E já que falei de átomos, vale lembrar que o corpo do Máscara Noturna foi feito a partir das partículas mais antigas do universo, segundo Ex Nihilo disse em Avengers #3. Isto explicaria sua suscetibilidade para receber o alerta a respeito da saúde do universo direto em sua mente, pois, de certa forma, Adam está ligado a ele desde o Big Bang.

Não sei vocês, mas é por edições como esta que está cada vez mais difícil conter a ansiedade enquanto espero os próximos capítulos de Avengers e New Avengers. Até lá, confiram abaixo as traduções das outras falas codificadas das edições anteriores, e especulem comigo:

Avengers #2

Página 19. Quadrinho 8, Balão 1: I live.

Balão 2: Thell them.

Avengers #3

Página 19. Quadrinho 1: Hello Mother!

Avengers #4

Página 21. Quadrinhos 1 e 3: Daddy!

Avengers #5

Página 11: Nightmask.

Avengers #6

Página 13. Quadrinho 6: The System is broken.

Quadrinho 10: It’s coming.

 Página 18. Quadrinho 3: Nightmask: “Hello mother.”

Captain Universe: “Nightmask.”

 Página 20. Quadrinho 1: The White Event.

Quadrinho 2: The System is broken.

Quadrinho 3: It’s coming.

Página 23, canto inferior direito: The Machine is broken.

SuperiorSpiderMan_4_TheGroup-000Superior Spider-Man #4

Roteiro de Dan Slott
Desenhos de Giuseppe Camuncoli
Arte-final de John Dell
Cores de Edgar Delgado

Tá, eu admito, Otto Parker conquistou minha atenção! Podem xingar, me chamar de vira-folha e o que for, mas estou gostando bastante de acompanhar a saga do ex-vilão que assumiu o papel de seu maior inimigo e converteu-se em herói. Primeiro porque a premissa vem rendendo umas idéias bem bacanas, e depois, porque Dan Slott está fazendo um estudo de personagem bem interessante no título.

10.25.07DanSlottByLuigiNovi

Dan Slott.

Às vezes eu tenho a impressão de que o autor se identifica mais com Otto Octavius do que com Peter Parker, e por isto bolou todo esse esquema pra fazer o vilão gordinho (assim como ele, como vocês podem constatar na foto ao lado) assumir o papel do herói, e satisfazer suas fantasias, mostrando o que ele faria se tivesse o mesmo físico, boa aparência e poderes de Peter. Assim, temos um novo herói, usando o corpo do antigo, e usando seu tempo como Aranha e cientista o máximo que pode para melhorar a segurança de sua cidade. O Superior Homem-Aranha é um workaholic, nada mais apropriado para uma das maiores metrópoles do mundo.

Logo no início da edição descobrimos que o Homem-Aranha virou um Big Brother de Nova York, com oito milhões de olhos eletrônicos, um para cada habitante da cidade, vigiando cada esquina dela através de suas aranhas robóticas. Nesta edição elas ainda ganham um upgrade: um programa de reconhecimento facial para ajudarem a localizar um serial killer que acabou de fugir de um hospício.

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O Superior Homem-Aranha e suas aranhinhas.

O dito cujo se chama Massacre (não confundir com aquele vilão ultrapoderoso, resultado da fusão das psiques do Professor Xavier e de Magneto, que causou muitas confusões na saga homônima publicada em 1996, “matou” os Vingadores e o Quarteto Fantástico, e obrigou Franklin Richards a criar o universo paralelo da fase Heróis Renascem), um sujeito que após sofrer um acidente teve uma parte do cérebro danificada e desde então é incapaz de sentir empatia por qualquer pessoa. Resultado: ele sai por aí matando pessoas aleatoriamente. O Homem-Aranha, quando ainda era o verdadeiro Peter Parker, capturou o criminoso e internou num hospício.

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Massacre massacrando.

Durante a fuga Massacre mata uma amiga de Peter Gasparzinho, o que o deixa muito próximo de reassumir o controle seu corpo, tamanha é a determinação com que ele decide ir atrás do psicopata. Porém, no último instante, Otto acaba incorporando o sentimento e “filtrando-o” através de suas más inclinações, tomando a decisão de encerrar de uma vez por todas a carreira do criminoso.

Pouco antes disto o Octopus-Aranha demonstra estar mais próximo de detectar a presença da consciência de Peter em seu cérebro quando reclama de uma “voz incômoda” em sua cabeça.

SuperiorSpiderMan_4_TheGroup-005E neste número também tivemos a primeira aparição da Tia May na nova fase, que está fazendo fisioterapia para se recuperar do ferimento que sofreu em uma das pernas após sobreviver a um acidente de avião (!) em Amazing Spider-Man #695, que eu não li (mais uma que te devo, Wikipedia!). Mas o que realmente chama a atenção é a preocupação de Otto Parker pela saúde dela. Vale sempre lembrar que no passado o Dr. Octopus chegou a se casar com May, que conquistou sua simpatia desde então. Agora que ele está no corpo do sobrinho dela qualquer demonstração a mais de carinho e preocupação corre o risco de parecer estranha aos olhos dos outros. E é claro que isto soa um sinal de alerta no Peter Gasparzinho.

Mas o pior estava por vir. Otto Parker, querendo ajudá-la a voltar a andar logo, cria um exo-membro cibernético para servir de sustentação para a perna machucada, que só funciona se for ligado diretamente na espinha dorsal da velhinha! É o mesmo princípio por trás do funcionamento dos tentáculos cibernéticos do Dr. Octopus.

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Coitada da Tia May…

É depois da cena acima que o “Doutor” Otto Parker leva mais um golpe no seu ego. Após passar uma vida inteira orgulhosamente ostentando o título de doutor, ele descobre que Peter Parker não tem nenhum doutorado.  É claro que ele não aceita isto e resolve arrumar mais um espaço na sua agenda lotada pra resolver este problema o mais depressa possível.

Mesmo apresentando um bom desenrolar do que já vinha desenvolvendo nas edições anteriores, este número apresentou uma queda de qualidade, em parte por conta da mudança de desenhista. Não sei se é intencional, ou consequência da mudança, mas neste número o Homem-Aranha parece bem mais “parrudo” do que o normal. Pode ser que a idéia seja mostrar que Otto está modelando o físico de Peter na mesma medida em que está mudando sua atitude como Homem-Aranha para manter a cidade mais protegida. Mas também não descarto que Giuseppe Camuncoli não foi cuidadoso o bastante para respeitar o físico mais atlético do personagem.

O Aranha parrudo de  Giuseppe Camuncoli.

O Aranha parrudo de Giuseppe Camuncoli.

Sobre a cena final, só digo que depois de tantos retornos, mais este do personagem em questão não teve o mesmo impacto que suas reaparições anteriores.

Na próxima semana: Guardians of the Galaxy #0.1, Uncanny X-Men #2, Young Avengers #2, FF#4, Thunderbolts #5, Avengers Arena #5 e Journey Into Mystery #649.