[QUADRINHOS] Marvel NOW! – Parte 12: Superior Spider-Man #2, Journey Into Mystery #648 e Avengers #4

Foi uma semana de poucas novidades na Marvel NOW. Tivemos a simpática segunda edição de Superior Spider-Man, a sangrenta Journey Into Mystery #648 e a reveladora Avengers #4, que novamente se destacou dando ao leitor mais indícios da grande história que Jonathan Hickman está preparando. Confira abaixo os destaques de  cada uma das edições.

Os review a seguir contém SPOILERS!

SuperiorSpiderMan_2_TheGroup-000The Superior Spider-Man #2

Roteiros de Dan Slott
Desenhos de Ryan Stegman
Cores de Edgar Delgado

Depois de uma primeira edição toda presunçosa, Dan Slott escreve uma história mais simpática, especialmente devido à presença de Peter Parker como “fantasminha camarada”, implicando e criticando cada investida de “Otto Parker” pra cima de Mary Jane, relação em torno da qual gira a trama central deste número.

Se na edição de estréia o autor concentrou-se em mostrar os esforços do Dr. Octopus em transformar seu Homem-Aranha numa versão mais eficaz que a encarnada pelo antigo dono de seu novo corpo, nesta vemos o que o ex-vilão tem em mente para melhorar a vida pessoal de Peter Parker. Para isto, como a capa da edição já deixa bem claro, ele escolhe a tarefa mais óbvia: acertar a relação entre o rapaz e Mary Jane.

Como eu havia explicado no review da primeira edição, há anos que não leio a série do Aranha, mas sei que Peter e Mary, mesmo nutrindo um sentimento muito forte entre eles, vinham mantendo uma relação amigável que não passava disto, algo que Otto Octavius está disposto a mudar. No número anterior ele já começou a mexer um pouco no relacionamento do casal, marcando um encontro com a moça, confiante de que conseguirá reconquistá-la aos poucos.

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Nesta edição acompanhamos as várias tentativas de Otto fortalecer em Mary Jane os sentimentos que ela já tem por Peter Parker. O destaque vai pra falta de tato de Otto para lidar com questões do coração (apesar de no passado ter conquistado a Tia May!). Os passeios que ele programa com Mary Jane, e as estratégias de sedução que ele usa são antiquados e previsíveis, suas palavras são inadequadas, mas, de alguma forma, ele consegue preservar a simpatia dela por Peter, embora também a faça desconfiar de que ele não é mais o mesmo.

Do outro lado temos o verdadeiro Peter Parker, ou a consciência do rapaz, que continua habitando uma parte do cérebro de seu corpo, embora Otto ainda não tenha descoberto isto. Apesar de a idéia não ser nada original, Slott faz ela render vários momentos divertidos. Peter continua irrepreensível em seu senso de humor, com vários comentários sarcásticos e irônicos a respeito da atuação de Otto, seja como Homem-Aranha ou como Peter Parker.

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Assim, passagens como aquela em que o Homem-Aranha é parabenizado por J. Jonah Jameson pelo que fez na edição anterior; os vários passeios de “Otto Parker” com Mary Jane; Otto usando um robô inimigo reprogramado para virar seu assistente nos Laboratórios Horizon; e a ideia que ele têm para ganhar mais tempo como Peter Parker enquanto a cidade continua sob vigilância indireta do Homem-Aranha, se tornam ainda melhores com os constantes comentários do “Peter Gasparzinho”. Boa jogada de Slott para evitar que a revista fosse abandonada pelos fãs do personagem, e que a premissa fosse totalmente levada a sério.

superior_spider_man_2_17Neste número ainda temos a introdução daquela que por enquanto chamarei de “Gangue do Abutre”. Não ficou muito claro se eram robôs ou anões vestidos de “abutrinhos”, mas é graças ao ataque deles que leitores como eu – que não acompanham a série do Aranha há algum tempo – descobrem que Mary Jane agora é dona de um clube noturno cujo prédio já pertenceu ao Abutre. A gangue invade o local para recuperar o que parece ser uma pasta de documentos dentro de um cofre escondido numa das paredes do prédio, e vai embora, não sem antes ameaçar a vida de Mary Jane, obviamente.

Foi mais uma edição tranquilizadora para aqueles que estavam odiando com todas as forças a idéia do Dr. Octopus controlar o corpo do Homem-Aranha. Slott vem mostrando que tem boas idéias para esta nova fase do personagem. E se continuar com a dinâmica entre Otto Parker e Peter Gasparzinho apresentada neste número, tem boas chances de ser um período no mínimo curioso e divertido de acompanhar.

JIM 648-Zone-000Journey Into Mystery #648

Roteiros de Kathryn Immonen
Desenhos de Valerio Schiti
Cores de Jordie Bellaire

Journey está num momento que eu considero um tanto preocupante. Neste número tudo que a protagonista faz é uma extrapolação do que já vimos ela fazer na edição anterior. Muitas espadadas, sangue, tripas robóticas, ranger de dentes, e cenas de violência bem desenhadas por Valerio Schiti, mas, fora isto, resta pouco a dizer sobre o desenvolvimento da personagem e da premissa.

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Lady Sif está presa numa ilha localizada numa dimensão fora de Asgard, que é habitada por guerreiros asgardianos enfeitiçados pelo berserker, enviados para lá por Odin, que resolveu usar a ferocidade destes homens a seu favor, posicionando-os como primeira linha de defesa contra todos os monstros que habitam o lugar. Desde então sua tarefa é impedir que criaturas mais antigas que seu reino “infectem os contos de Asgard”, ou façam coisa pior.

jim_648_06Assim, acompanhamos a heróina numa luta contra o monstrão que apareceu no final da edição anterior, que é derrotado com mais facilidade do que eu esperava. Logo em seguida ela já se mete numa batalha de vida ou morte contra três dos cem guerreiros asgardianos que habitavam aquele mundo de morte e monstros titânicos. Depois de quase matá-los, tudo se revela um mal entendido, e eles sentam pra conversar um pouco. É então que ela fica sabendo da história do local (resumida no parágrafo anterior). E é isto, até que no final Sif, cheia de tesão por destruir e estripar mais alguma criatura gigante, parte pra cima de outro monstro, algo inesperado acontece, e somos levados ao gancho do final da edição quando descobrimos que no próximo número o pau vai comer entre ela, o Homem-Aranha, os três guerreiros asgardianos, e o “pequeno” probleminha que ela trouxe do outro mundo para o centro de Nova York (a cena que precede o encontro de todos é muito boa).

Se você está atrás de uma história de leitura rápida, que te leva pela mão até o final, e não exige muito da sua atenção, esta é a edição ideal para você. Como estamos no meio do arco, e toda a idéia dele é sobre uma personagem consumida pelo erro de uma atitude precipitada, por enquanto vou interpretar como proposital uma edição quase inteiramente dedicada à violência desmedida. Mas torço para que nos próximos capítulos vejamos Lady Sif sendo mais que apenas uma guerreira com sede por batalhas sangrentas, e um pouco menos de matanças bem muito bem desenhadas por Valerio Schiti – que neste número lembrou bastante o Stuart Immonen.

Avengers 004-Zone-000Avengers #4

Roteiros de Jonathan Hickman
Desenhos de Adam Kubert
Cores de Frank D’Armata

Jonathan Hickman é um roteirista que sabe a hora certa de expôr aos leitores sua miríade de idéias fascinantes, ao mesmo tempo que os bombardeia com boas sequência de ação e dinâmica entre os personagens, mas também sabe quando é preciso desacelerar o ritmo frenético de informações e porradaria para concentrar-se na história de um dos heróis. É isto que ocorre neste 4º capítulo, focado em Hipérion.

Apesar desta mudança de foco, o autor não menospreza a inteligência de seus leitores, por isto não interrompe totalmente a história que vinha desenvolvendo desde a primeira edição, deixando-a correr paralela ao conto que revela a origem deste Hipérion.

hyperionExistiu mais de um herói que usou o codinome Hipérion no Universo Marvel. Um dos primeiros – criado na década de 1970 – foi o líder do Esquadrão Supremo, um grupo de heróis de outro universo que foi propositalmente imaginado como uma versão alternativa da Liga da Justiça. O objetivo era bem óbvio: saciar a curiosidade dos leitores da época sobre como seria um confronto entre os Vingadores e os maiores heróis da DC Comics. Desde então este Hipérion e sua equipe apareceram esporadicamente, seja como aliados ou como adversários dos Vingadores.

Supreme_Power_Vol_1_3Em 2003, dentro do Marvel MAX, selo de quadrinhos adultos da editora, J. Michael Straczynski criou a série Poder Supremo, que reimaginou o grupo de maneira mais “realista”, novamente partindo da premissa de que cada membro teria poderes e habilidades correspondentes aos integrantes mais conhecidos da Liga da Justiça. O Hipérion desde universo tinha a mesma origem do Superman, com uma diferença crucial: quando chegou na Terra, ao invés de ser encontrado por um casal de velhinhos bondosos do Kansas, ele foi capturado por militares. Seu crescimento foi supervisionado por militares e cientistas numa base secreta do governo dos Estados Unidos, e sua criação foi cuidadosamente programada para que ele tivesse uma educação que implantasse e reforçasse características nacionalistas, aplicada por agentes especialmente selecionados para atuarem como os verdadeiros pais da criança, e por propagandas de TV especialmente produzidas com este propósito. Ou seja, ele se tornou um “Superman de estimação” do governo americano. Ao longo da série Hipérion descobria que sua chegada no planeta causou o surgimento de outros seres com super-poderes, num mundo muito parecido com o nosso, onde até então não existiam meta-humanos.

Além destas existiram outras versões do personagem, que não ficaram tão conhecidas como as citadas acima. A versão introduzida por Hickman é uma mistura das mencionadas. Seu visual e idealismo saídos da primeira versão, e a idéia de ter sua vida manipulada por uma figura paterna, que tinha grandes planos para usar os poderes do rapaz para moldar seu mundo, levemente baseada na segunda versão, porém sem todo aquele cinismo e autoritarismo típicos das HQs de super-heróis “realistas” que vieram na esteira de Authority e Os Supremos.

avengers_4_10Hipérion agora ocupa o lugar do falecido Sentinela como um correspondente do Superman no Universo Marvel, algo que é estabelecido tanto por sua história de origem quanto por sua convivência com seus colegas de equipe, especialmente no pequeno diálogo entre ele e Thor, que contrasta sua discrição com a personalidade mais extrovertida do Deus do Trovão.

Continuando a trabalhar com temas bíblicos, Hipérion veio de um mundo que ele e seus aliados haviam convertido num paraíso terrestre, até o dia em que sua Terra colidiu com outra de um universo paralelo, evento cósmico que causou a destruição de ambos os universos, e do qual o herói é o único sobrevivente. Quem está acompanhando New Avengers, também escrita por Hickman, encontrará neste trecho o principal ponto de ligação entre as duas séries. É justamente a causa desta catástrofe cósmica que os Illuminati estão investigando e tentando impedir que se repita no outro título (confira minha review sobre ele aqui).

Claro que vale atentar ainda para as outras conexões sugeridas pelas quatro edições de Avengers lançadas até agora. Por exemplo, Ex Nihilo lançou as bombas de criação sobre a Terra na primeira edição com o propósito de aperfeiçoar os seres vivos do nosso planeta remapeando seus códigos genéticos para, segundo ele, torná-los mais adequados para o novo futuro reservado à Terra. Seu plano é muito parecido com o do pai de Hipérion, que educou o filho para transformá-lo numa ferramenta com a qual moldaria a sociedade de seu planeta, e através dela seu mundo, tudo pelo aperfeiçoamento do todo, segundo o código de ética que ensinou ao herói.

Outro detalhe que vale a pena reparar é o simbolismo presente na captura de Hipérion pela I.M.A., logo após ser resgatado do vazio deixado pela destruição de dois universos, e seu resgate da base da organização pelos Vingadores. Aprisionado numa cela subterrânea, sem contato com a luz do sol, sua fonte de poder, Hipérion “nasce de novo” ao conquistar a liberdade dentro deste universo onde, literalmente, é dado à luz. Os Vingadores assumem o papel de “parteiros” do herói. E Hickman facilita esta leitura quando fala de morte e renascimento nas páginas finais, enquanto Hipérion muda sua atitude com relação a um novo problema que lhe confronta, o qual remete a outro que enfrentou em seu mundo, e que promete impactar profundamente no futuro dos Vingadores e da Terra, assim como a informação que é revelada no final desta edição.

Outra idéia saída de mais um título que Hickman escreveu para a Marvel é o novo status da I.M.A. (Idéias Mecânicas Avançadas). Em Fantastic Four #610, penúltima edição do Quarteto pré-Marvel Now, foi revelado que a organização criminosa comprou a nação de Barbuda (sim, o nome é exatamente este no original). Com isto a I.M.A. ganhou imunidade diplomática, permitindo, entre outras coisas, que membros da organização entrassem na Terra Selvagem, como visto nesta edição, para realizar pesquisas científicas sem grandes impedimentos. É mais um fio da imensa teia de tramas que Hickman vem tecendo através do Universo Marvel em títulos como Guerreiros Secretos, Quarteto Fantástico, FF, e as duas pretensiosas e ousadas mini-séries sobre a origem secreta da agência S.H.I.E.L.D., a última delas ainda inacabada, que por si mesmas já revelaram várias informações sobre o passado do Universo Marvel, todas imaginadas por Hickman, que podem vir à tona a qualquer momento dentro das histórias que está escrevendo agora. Esta tendência do autor, que aumenta a coesão entre seus trabalhos, é muito promissora quando consideramos a amplitude dos cenários onde já plantou suas idéias, e a complexidade das conexões estabelecidas entre todas as tramas que desenvolveu, ampliando com isto as possibilidades de novas combinações, algo que já está acontecendo em Avengers e New Avengers.

Seja qual for a maneira como todas estas tramas serão amarradas ou ramificadas no futuro, Hickman já garantiu em entrevistas que já tem histórias planejadas para Avengers e New Avengers para os próximos três anos. Além disto ele deixou bem claro que seu principal objetivo é criar histórias de super-heróis que só podem ser contadas nos quadrinhos, e que exigiriam um orçamento estratosférico se fossem adaptadas para o cinema. Por isto sua intenção não é aproximar o universo dos quadrinhos da versão vista no filme dos Vingadores, mas trabalhar a equipe num quadro mais amplo. O lance dele é tirar proveito do universo de possibilidades que tem em mãos e ousar o quanto puder. Dito isto, esta é uma das melhores épocas para começar a ler as duas principais séries dos Vingadores, pois os próximos anos prometem ser bem empolgantes.

WTF did I just say, Spider-Woman?!!

WTF did I just say, Spider-Woman?!!

Outras considerações e especulações sobre esta edição:

  • O que os ninjas do Tentáculo – organização que já deu muito trabalho pro Demolidor – pretendem fazer com seja lá o quê retiraram do local afetado por uma das bombas de criação de Ex Nihilo?
  • No relatório que a Capitã Marvel faz sobre os outros locais de queda das bombas de criação ela cita a Tropa Alfa. Estaria nos planos do Hickman uma história envolvendo o grupo, ou mesmo uma série escrita por ele?
  • No mesmo relatório é mencionado um tal Projeto: Perseus comandado pela S.H.I.E.L.D. em Perth, na Austrália. Mais uma pra lista de organizações criadas por Hickman na Marvel – que já trabalhou com várias quando escreveu Guerreiros Secretos – e outra pista intrigante sobre futuras tramas. Se o codinome refletir o objetivo do projeto, que “monstro mitológico” ele está se preparando para matar?

E na próxima semana: Avengers #5, New Avengers #3, Thunderbolts #4, Superior Spider-Man #3 e a estréia de Fearless Defenders.