[QUADRINHOS] Marvel NOW! – Parte 11: Uncanny X-Force #1, Young Avengers #1, Uncanny Avengers #3, Avengers #3 e FF#3

Esta semana tivemos a muito aguardada (por mim, pelo menos) estréia de Young Avengers, da dupla Kieron Gillen e Steve McKelvie; Uncanny X-Force de Sam Humphries e Ron Garney; e as continuações de Avengers, FF e Uncanny Avengers (que foi lançada com atraso, mas voltou destruindo!, literalmente).

Os reviews abaixo contém SPOILERS.

Young Avengers 001-Zone-000Young Avengers #1

Roteiro de Kieron Gillen
Desenhos de Steve McKelvie
Arte-final de Mike Norton
Cores de Matthew Wilson

Os Jovens Vingadores começou como um grupo formado em sua maioria por filhos de heróis que fizeram parte dos Vingadores, e herdeiros de títulos que suas versões mais velhas e conhecidas usavam. Sua série anterior durou apenas 12 edições, e foi um sucesso de vendas, tendo como roteirista Allan Heinberg, mais conhecido por seu trabalho como produtor e escritor de episódios de séries como The O.C., Grey’s Anatomy e Gilmore Girls. Sua abordagem chamou a atenção não apenas por conseguir criar relações nada forçadas entre estes novos personagens e outros já estabelecidos no Universo Marvel, mas principalmente pela inclusão de um casal gay no grupo.

Depois desta primeira série os Jovens Vingadores tiveram participações pequenas em algumas das grandes sagas da editora, histórias que não estiveram sob o comando de Heinberg, que só voltou a trabalhar com os personagens em Os Vingadores – A Cruzada das Crianças, mini-série que serviu para esclarecer alguns dos mistérios relacionados à origem dos irmãos Wiccano e Célere, e revelar o paradeiro de sua mãe, a Feiticeira Escarlate, que desde o final da saga Dinastia M (falei um pouco dela neste post) estava desaparecida, além de finalizar os plots em aberto deixados por Heinberg em sua primeira fase com o grupo.

Este novo título dos Jovens Vingadores será comandado por Kieron Gillen e Steve McKelvie, dupla criativa responsável pela série Phonogram, lançada pela Image Comics, que é muito elogiada pela crítica (e que infelizmente ainda não li, mas pretendo). Desde então os dois não trabalharam juntos. Ano passado, nas entrevistas que fez para a divulgação do relançamento de Young Avengers, Gillen disse que experimentaria com McKelvie uma nova forma de narrativa para as cenas de ação, que tomariam emprestadas o ritmo dos videoclipes. Desde então a curiosidade por esta nova série só aumentou.

Na capa já é possível notar um arranjo no uso das cores, na disposição dos quadrinhos e na postura dos personagens que evoca um ritmo musical, que particularmente me lembrou as músicas do Daft Punk (mais especificamente as batidas iniciais de “One More Time” – experimente olhar pra ela enquanto escuta o começo da música), antecipando a narrativa experimental que será usada pela dupla.

Capa alternativa da primeira edição por Scott O'Malley (criador de Scott Pilgrim).

Capa alternativa da primeira edição por Scott O’Malley (criador de Scott Pilgrim).

Os primeiros membros com quem temos contato são Noh-Varr (Marvel Boy) e Kate Bishop (Flechete). O primeiro um alienígena da raça Kree vindo de um universo paralelo, a segunda uma garota especialista no uso de arco e flecha, que por um tempo usou o codinome Gaviã Arqueira, até Clint Barton, dono do título, ressuscitar (ele havia sido morto pela Feiticeira Escarlate uns anos atrás), quando foi forçada a bolar um outro. Aparentemente os dois se conheceram em uma balada (talvez esta da capa alternativa ao lado), e terminaram na cama do rapaz, que atualmente vive numa nave orbitando a Terra, após ter sido expulso dos Vingadores por uma besteira que fez durante a crise Vingadores vs. X-Men.

Vale a pena prestar muita atenção nos “objetos cenográficos” das três primeiras páginas, com pôsteres de filmes, aparelhos de som e mobília que acusam o (bom) gosto do rapaz alienígena, e seu fascínio por relíquias da cultura de nosso planeta.

O aspecto musical da narrativa começa já na terceira página, embora, para ser plenamente apreciada pelo leitor, ele deva avançar para as páginas de créditos, onde Gillen indica a trilha sonora da cena em que Noh-Varr aparece dançando (único detalhe que julguei falho nesta edição, pois o escritor poderia ter usado uma nota de rodapé na cena pra evitar que ela fosse revisitada logo após a primeira leitura). E a música casa perfeitamente! Se você bota “Be My Baby” d’As Ronettes pra tocar exatamente no quadrinho em que Noh-Varr põe o LP (!) no toca disco, o refrão entra quando você chega no último quadrinho da página, que tem tudo a ver com o monólogo interno de Kate. É uma sincronia entre duas mídias distintas como poucas vezes se viu!

A sequência do ataque skrull vem logo depois da cena descrita no parágrafo anterior, e no embalo da música que a pontua. Ela foi a primeira a ser divulgada antes do lançamento para exemplificar o ritmo de videoclipe que a dupla usará nas sequências de ação da HQ. Mesmo não sendo inédita para quem acompanhou as notícias sobre o título, é necessário apontar quão brilhante ela é na disposição dos quadrinhos, na economia da execução, e na maneira como ela conduz o leitor de maneira ágil e sem prejuízos. É tudo muito rápido e intenso e feito pra ser lida com o entusiasmo juvenil impulsionado pela música sugerida por Gillen, que é sua principal força motriz. É uma sequência feita para empolgar o leitor com o potencial do título que tem em mãos (ou na tela do notebook, como é o meu caso). É explosiva e linda de se ver, e você vai querer revê-la várias vezes, até mesmo testando novas combinações com outras músicas que julgar em sintonia com o ritmo das imagens.

Young Avengers 001-Zone-004

Após esta abertura que já fisga o leitor, entramos em contato com outros dois integrantes da atual formação da equipe, aqueles que receberão mais atenção nesta primeira história: Hulkling e Wiccano, o casal gay do grupo. Hulkling é um mestiço transmorfo, filho do Capitão Marvel original, da raça Kree (sim, a mesma de Noh-Varr, só que originária deste universo), com a Princesa Anelle, filha do Imperador Skrull, ou seja, ele é o fruto da união entre duas raças alienígenas inimigas (pra quem não sabe, uma das sagas mais famosas da Marvel trata justamente dessa rivalidade entre elas, a famosa Guerra Kree-Skrull). Já Wiccano é um dos dois filhos que a Feiticeira Escarlate criou com seus poderes mágicos (!) quando foi casada com o sintozóide Visão. Enquanto seu irmão Célere é superveloz como seu tio Mercúrio (irmão da Feiticeira e, assim como ela, filho do ex-terrorista mutante e atual x-men Magneto), Wiccano controla magia como sua mãe. Acompanhamos uma sincera e bem escrita discussão de relacionamento entre os dois heróis, que além de trazer algumas referências culturais perfeitas para criar identificação entre os personagens e os jovens leitores, ainda serve para apresentá-los com naturalidade a quem não os conhece.

Julguei sábia a decisão do autor em dar mais atenção para os homossexuais do grupo, pois desta forma ele já deu aos possíveis leitores preconceituosos a chance de abandonarem o título logo no início, enquanto ofereceu aos de mente mais aberta uma abordagem autêntica da questão, sem fazer rodeios para contornar a sexualidade dos personagens criando cenas sugestivas. Portanto, rola, sim!, demonstrações diretas de afeto, o que é ao mesmo tempo uma atitude bem corajosa, e muito adequada para um título claramente voltado para leitores mais jovens (que já estão cansados de ver cenas como a da ilustração abaixo em baladas, ou até mesmo nas ruas).

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Young Avengers 001-Zone-014Neste número ainda temos rápidas aparições de outros dois futuros membros dos Jovens Vingadores. O primeiro é Loki, a atual encarnação adolescente do Deus da Trapaça, com quem Gillen trabalhou brilhantemente em Journey Into Mystery (trabalho sobre o qual comentei rapidamente aqui), que promete ser a grande e bem vinda novidade da equipe. Ao lado dele é (re)introduzida a Miss América Chavez, que é basicamente uma latina gostosa com super-força e poder de vôo que usa um uniforme com temática patriótica (mais uma variação da bandeira dos Estados Unidos). Desconhecia o fato de ela ter aparecido antes deste número de estréia, mas Gillen a escreve como se fosse sua primeira aparição, evitando qualquer estranheza. Além disto, ajuda muito o fato de ela protagonizar, ao lado de Loki, outra sequência de ação estilosa em que acompanhamos três ações ocorrendo paralelamente até que seus efeitos se cruzem nas páginas finais da edição.

Mas tudo isto não funcionaria tão bem se não contasse com os desenhos muito expressivos e limpos de Steve McKelvie. Seu traço lembra o de George Pérez, só que menos “poluído” de detalhes e, portanto, mais arejado, o que tem tudo a ver com uma história com jovens protagonistas, que precisam de espaço pra se expressar, mover, lutar e se fazer notar pelo leitor. Young Avengers é sobre tudo isto e também sobre quão espetacular é ser um jovem super-herói, e porque todos deveriam tentar, metaforicamente falando (a não ser que você tenha um superpoder ou seja o Batman). Grande estréia de um título que já nasceu como um dos melhores da temporada.

Uncanny X-Force 001-000Uncanny X-Force #1

Roteiro de Sam Humphries
Desenhos de Ron Garney
Arte-final de Danny Miki
Cores de Marte Gracia com Israel Gonzalez

Depois de uma fase escrita por Rick Remender que fez sucesso entre os leitores e foi muito elogiada pela crítica especializada, a X-Force tornou-se uma marca com a qual a Marvel deveria lidar com muito cuidado para evitar que enfraquecesse. A solução que encontrou: dividi-la em dois títulos. O primeiro deles, Cable and X-Force, já estreou em novembro do ano passado, e trabalha com a idéia de membros da primeira formação da equipe criando uma nova versão do grupo, que agora é vista como uma célula terrorista mutante, graças a circunstâncias até o momento não totalmente esclarecidas. Seja como for, está sendo um bom reinício (você pode ver meus reviews sobre as três primeiras edições aqui, aqui e aqui). A outra série da X-Force demorou um pouco mais pra sair, e é talvez a que carrega mais expectativas, pois é a que possui o título de sua antecessora. Esta nova encarnação promete muitas mudanças, tanto no que diz respeito a seus integrantes quanto no teor das histórias.

Este primeiro número é mais focado em Tempestade, Psylocke e Pigmeu, que se unem para tentar descobrir o segredo por trás de uma nova droga que vem se tornando um sucesso nas baladas de um clube noturno comandado pela vilã Espiral. Além disto, temos uma breve sequência protagonizada por Cluster ao lado de Fantomex, a primeira uma futura integrante da equipe atual, o segundo o homem de quem ela é um clone (!). E, por fim, o retorno de Bishop, que passou uma temporada no futuro, e possivelmente será o principal inimigo deste primeiro arco.

A capa não deixa espaço para que o leitor se surpreenda com as próximas edições, pois fica claro que Espiral será forçada a fazer parte da equipe, e que em algum momento Cluster também se tornará uma integrante, restando apenas saber sob quais circunstâncias suas entradas ocorrerão.

Outra informação que podemos tirar da capa, algo que também é sugerido por esta primeira história, é que estamos diante da formação mais feminina da X-Force. E vale destacar que este é apenas um de mais dois títulos da Marvel Now com equipes formadas, em sua maioria, se não totalmente, por mulheres, sendo os próximos Fearless Defenders e X-Men, sendo este último mais um que será zerado e passará por uma repaginada (falarei sobre ambos quando forem lançados). Tudo isto demonstra quão pesado a Marvel está investindo em séries que tenham apelo a um número mais variado de leitores (Young Avengers é outra prova disto). Resta saber se os três serão apenas um agrado a mais para os já predominantes leitores masculinos das HQs da editora, ou se a abordagem de algum(ns) será diferenciada o suficiente para atrair possíveis novas leitoras.

Uncanny X-Force 001-001Mas, falemos da história. A trama desta edição ocorre seis meses depois do fim da antiga equipe. Psylocke está passando por uma fase problemática de sua vida em que tudo a irrita com facilidade por sentir-se perdida e sem lugar, o que a revolta. Nunca a personagem xingou tanto em uma só história (o que neste caso significa muitos trechos de suas falas censurados por tarjas pretas). Tudo isto tem relação com a experiência que teve ao lado da X-Force anterior, que foi bem traumática (na edição vemos flashs rápidos relacionando alguns deles, mas isto não impede que o leitor que está começando agora entenda o essencial), com destaque para a relação atribulada que teve com Fantomex, um mutante com três cérebros (!) que foi morto e ressuscitado por um processo de clonagem que deu a cada um dos cérebros um corpo independente, sendo um deles o de uma mulher (!!). Resumindo, ela está mais impulsiva, mais disposta a se meter em situações perigosas, e pronta para atacar inimigos com a intenção de matar.

Ao lado dela se encontra Tempestade, agora usando um moicano, visual que ela já usou durante uma fase mais rebelde de sua vida, e que agora retorna para refletir seu estado interior tormentoso, depois do fim do casamento com o Pantera Negra. Ela ainda está tentando lidar com os sentimentos conflitantes de deixar de ser a rainha de uma nação africana para tornar-se diretora da Escola Jean Grey de Estudos Avançados.

A dupla funciona bem, e boa parte da edição é sobre duas mulheres conversando sobre seus problemas enquanto vivem perigosamente destruindo robôs de segurança da S.H.I.E.L.D. e fazendo manobras arriscadas com seu hoverboard cyber-steampunk envenenado.

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Mais tarde na edição entra o Pigmeu, ex-membro da Tropa Alfa, que como o próprio nome já aponta é um anão. Tudo que você precisa saber sobre ele é que é um mulherengo, morreu uns anos atrás junto com toda a sua equipe, foi pro Inferno (!), onde chegou a ajudar o Wolverine durante uma fase em que ele também foi mandado pra lá (créditos a Jason Aaron por esta), e de alguma forma (que eu desconheço) ressuscitou. Agora ele é o contato do Prof. Logan no submundo (pra quem ainda não sabe, o Wolverine atualmente é diretor da Escola Jean Grey Para Estudos Avançados, a mesma em que Tempestade é diretora, que por sua vez parece estar tendo um caso com ele). Ou seja, mais um que está se adaptando a uma nova fase de sua vida, embora, a julgar por suas companhias na casa noturna onde se encontra com Tempestade e Psylocke, ele não parece estar tão mal quanto suas companheiras de equipe.Uncanny X-Force 001-009

Daí entra a ironia da droga vendida por Espiral, que dá ao usuário a sensação de pertencer a um grupo, a uma unidade, enquanto Tempestade e Psylocke estão justamente em busca de um capaz de acolhê-las e fazê-las sentirem-se bem consigo mesmas.

Também não ajuda muito o fato de Psylocke ter um assunto não resolvido com Espiral. Anos atrás a vilã, que é habitante do Mojoverso, uma dimensão comandada pelo repulsivo Mojo – que é basicamente uma mistura de ditador com showrunner de uma versão interdimensional do Big Brother – transformou Psylocke numa câmera viva. Na época a mutante com poderes psiônicos era cega, o que veio a calhar para Espiral, que tinha uma loja onde vendia próteses cibernéticas de vários membros e órgãos do corpo, incluindo olhos. Assim a vilã substituiu os olhos originais de Psylocke por olhos artificiais que também funcionavam como câmeras, 24 horas transmitindo para o Mojoverso tudo que ela enxergava, o que transformou suas aventuras vividas ao lado dos X-Men num sucesso de audiência naquela dimensão. Claro que também conta vários pontos a mais as horas que ela tomava banho, transava com alguém, ou se despia na frente de um espelho, para a alegria dos aliens punheteiros de outra dimensão. Por isto o ataque exaltado e mortífero que Psylocke lança pra cima da vilã nesta edição.

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E o futuro promete ser ainda mais ingrato pra ninja psiônica, pois no final deste número descobrimos que seu ex-amante, Fantomex, está tendo um caso amoroso pra lá de peculiar (pra não dizer totalmente incestuoso e egocêntrico).

Os desenhos de Ron Garney tem uma estética bem anos 90, e a presença de Espiral, cujo visual é muito reminiscente daquela década, reforça essa sensação nostálgica para leitores como eu, que começaram a ler quadrinhos de super-heróis naquela época. Porém, há uma oscilação na qualidade da arte que prejudica parte do prazer da leitura. Enquanto em umas páginas o visual é arrojado, dinâmico e detalhado, em outras falta mais capricho, tornando o todo inconsistente. Isto não deveria acontecer, principalmente num título que é a nova encarnação de outro que estreou sendo desenhado pelo excelente Jerome Opeña (atual desenhista de Avengers, da qual falarei daqui a pouco).

Sam Humphries não abre mão dos velhos recordatórios para fazer uma apresentação rápida dos personagens, decisão que, ao lado da arte de Garney, faz com que a narrativa soe pouco inventiva e um tanto datada. Felizmente ele é bem econômico ao usá-los, e não os torna redundantes, mas informativos para novos leitores. Paralelo a isto as cores de Marte Gracia e Israel Gonzalez salvam algumas páginas que Garney parece ter feito às pressas.

Avaliação final: boa edição de estréia, mas longe de ser memorável. Os membros podem render boas histórias e conflitos internos com força o suficiente para aumentar o interesse do leitor, mas tudo vai depender se as próximas edições farão a trama decolar. Aqui ela pouco empolga.

Uncanny Avengers 003-Zone-000Uncanny Avengers #3

Roteiros de Rick Remender
Desenhos de John Cassaday
Cores de Laura Martin

O que aconteceria se os poderes do maior telepata do mundo fossem parar nas mãos de um dos piores homens que já existiu? Esta é a pergunta que Remender se propôs responder neste primeiro arco de Uncanny Avengers, como explica na sessão de cartas no final desta edição.

A trama central deste número é relativamente simples: o Caveira Vermelha, usando seus recém-adquiridos poderes telepáticos, controla uma multidão de pessoas no centro de Nova York, voltando-as contra os Vingadores e outras pessoas que não estão sob seu controle (por razões que não são esclarecidas pela história, mas sutilmente sugeridas). Ou seja, não é uma premissa muito original, embora sempre renda aquele velho dilema em que os heróis se vêem forçados a lutar contra inocentes que perderam o controle de suas ações, e para isto são obrigados a dosar no uso de seus poderes a fim de não feri-los fatalmente, enquanto tentam alcançar o verdadeiro arquiteto da crise.

Uncanny Avengers 003-Zone-003O que diferencia a história é a maneira como o Remender decidiu contá-la. Pra começar, nas mãos do roteirista, o Caveira é como um maestro disseminando ódio e preconceito, e coordenando as ações daqueles que foram “infectados” por ele. Ao mesmo tempo que faz isto ele joga em Vampira e Feiticeira Escarlate a culpa do ataque ao centro de Nova York, visto na primeira edição, acusando-as de serem membros da nova Irmandade de Mutantes Malignos, informação que ambas confirmam, pois também se encontram sob o controle telepático do vilão. Assim, a população de Nova York, duas integrantes dos Vingadores, e o grupo de super-humanos sob o comando do Caveira são peões neste xadrez sinistro que ele disputa com a equipe de heróis liderada pelo mutante Destrutor. A situação se complica ainda mais por alguns dos meta-humanos sob seu comando também possuírem poderes que afetam a mente de seus adversários, aumentando o grau de dificuldade para nossos heróis.

E a caracterização do Caveira é muito bem pensada. Nas primeiras edições ficou subentendido que sua obsessão por lutar pelo domínio de uma raça “pura” superior, herdada do nazismo que apoiou durante a 2ª Guerra, foi trocada por sua obstinada luta para eliminar a ameaça dos mutantes – o que carrega uma boa dose de ironia, pois ele declara guerra a uma raça cujo nome científico é Homo Superior, e usa contra ela seres com super-poderes artificialmente gerados a fim de extingui-la. Já neste número, durante seus discursos inflamados, feitos para atiçar a agressividade daqueles que controla telepaticamente, o vilão acaba revelando que suas intenções vão muito além de eliminar os mutantes. Durante os ataques em que vários homens e mulheres – que em nenhum momento dão indícios de serem mutantes – são espancados até a morte pela turba de “fanáticos”, ele chama seus comandados de “células brancas” e os encoraja a atacar as “mutações estrangeiras”. Mais adiante ele instruí para que fiquem atentos à “marca negra do [gene] X” para identificarem seus inimigos. Pouco sutil, né?

Outro bom momento do roteirista é quando usa os recordatórios para dar ao leitor acesso a fragmentos das vidas de algumas das vítimas do ataque, humanizando a tragédia, e impedindo que ela se torne pura violência gráfica, gratuita e “distante” do leitor. E Remenber também faz bom uso do recurso narrativo criando um equilíbrio entre os textos e a ação mostrada em cada quadrinho. Alguns são usados para apresentar os novos personagens, mas tudo é feito com economia e precisão, sem prejudicar o ritmo da leitura, e reduzir o impacto das cenas.

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E a idéia por trás da equipe de meta-humanos do Caveira, se não é totalmente original, é bem pensada: cada indivíduo tem poderes provenientes de terapias genéticas, e posse de artefatos místicos e mágicos reunidos pelo vilão para montar sua própria versão perversa de Vingadores/X-Men.

Outro ótimo toque de caracterização bem trabalhada é a cena em que Wolverine luta procurando conter a impulsividade de seus ataques, impedindo que eles sejam letais, em respeito ao recente falecimento do Professor Xavier (que foi quem ajudou Logan a controlar seu instinto assassino, proveniente da programação do projeto Arma X, cujo objetivo, como o próprio nome indica, era transformá-lo numa arma viva). E mais tarde esse detalhe é fundamental para a cena em que seu autocontrole é posto à prova, quando Wolverine descobre que o Caveira Vermelha fez com o corpo de Xavier. O estado em que ele fica logo em seguida faz valer toda a preparação para a cena:

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Remenber encerra a edição mais intensa de Uncanny Avengers até aqui com recordatórios tão pungentes e reverberantes quanto os que abrem a história, e começa a mostrar a que extremos ele pretende levar seus heróis e vilões. Corajoso e instigante.

Avengers V5 003-Zone-000Avengers #3

Roteiros de Jonathan Hickman
Desenhos de Jerome Opeña
Cores de Dean White e Frank Martin com Richard Isanove

E chega ao fim o primeiro arco de histórias de Hickman em Avengers, e com ele a conclusão do conflito entre os Vingadores e o Jardim, o nascimento de Adam, e a estréia da Capitã Universo. Como se os mistérios já introduzidos nas duas primeiras edições não bastassem, o autor nos deixa com mais alguns, sobre os quais comentarei abaixo.

Apesar de boa parte desta edição ser reservada à primeira grande atuação da nova e expandida equipe de Vingadores, um dos acontecimentos mais importantes – pelo significado e impacto que ele certamente terá em futuras histórias – ocorre nas primeiras páginas: o nascimento de Adam.

Conforme a definição de seu criador, Ex Nihilo, Adam é o ser humano perfeito, criado com as partículas primordiais do universo, ou partículas de Deus, como ele as chama (embora seja um mistério como Ex Nihilo teve acesso a elas). Hickman já havia estabelecido na edição anterior que Adam é capaz de se comunicar numa linguagem que só Ex Nihilo compreendia. Neste capítulo, assim que sai de seu casulo de gestação, Adam volta a usar aquela linguagem, que desta vez é empregada em profusão suficiente para despertar a suspeita de tratar-se de uma mensagem cifrada escrita por Hickman num alfabeto especialmente criado para o personagem comunicar-se. Fica a expectativa do autor revelar a chave para decodificar as falas de Adam futuramente (segundo consta nas sinopses das próximas edições, é esperado que isto corra na 6ª).

E não é apenas a língua usada por Adam que chama a atenção, mas o que ocorre logo depois de seu nascimento. Prenhe de energia, ele a libera numa explosão, seguida de uma projeção residual que lembra uma partitura musical emanando de sua cabeça até ele ficar inconsciente. Abyss identifica a projeção como “código da máquina construtora” (supõe-se que seja aquela grande máquina cheia de bolhas verdes onde Adam foi gerado, e que Ex Nihilo usou para disparar as bombas de criação contra a Terra na primeira edição). Teria ele herdado o poder de criar de seu “pai”? E outra, a forma do tal código é semelhante à vista no último quadrinho da página 6 da edição 2 (confira abaixo), atrás dos vários Jardineiros/Alephs voando pelo espaço. Lá ela se parece com raízes tecnorgânicas conectando fisicamente as naves dos Construtores (Builders, no original). Outra coincidência significativa pode ser vista no símbolo da Capitã Universo, que parece tanto remeter às naves ligadas entre si dos Construtores, quanto à ligação de moléculas e constelações (mais a respeito dela a seguir):

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Entremos agora no campo das especulações. Levando em conta a natureza das partículas usadas para a criação de Adam; a linguagem com que ele se comunica; sua capacidade de projetar o código da máquina construtura; e o fato de ele estar cheio de energia assim que nasce, concluo que ele tem acesso a uma fonte de energia mais “pura”, mais “bruta” e cheia da potencialidade criadora que se perdeu no decorrer de bilhões de anos, desde que o universo foi gerado. É isto que Ex Nihilo parece sugerir quando exalta a origem das partículas que constituem o corpo de Adam. Ele é o homem perfeito e imaculado. Estaria Hickman sugerindo que ele é uma espécie de anjo? Afinal, há todo um simbolismo bíblico por trás dos poderes, da atuação e dos nomes dos integrantes do Jardim (como já havia apontado no review da primeira edição). Independente da forma como todas estas informações serão trabalhadas, o novo personagem promete ocupar uma posição pivotal em futuras histórias, e parece conter um grande poder em si. Por enquanto me pergunto se ele não tem alguma relação com a luz presenciada por Thor e o Gavião Arqueiro num dos flashforwards apresentados nas primeiras páginas da edição 1.

O outro grande mistério introduzido nesta edição diz respeito à natureza dos poderes da Capitã Universo. Sua identidade é relativamente conhecida de leitores de longa data (especialmente quem é da época de Superaventuras Marvel, da Abril Jovem): Monica Rambeau, ex-Capitã Marvel, capaz de transformar seu corpo em qualquer energia do espectro eletromagnético. Ganhou pouco destaque nas histórias da editora nos últimos anos, e só agora parece que receberá mais atenção ao tornar-se a nova hospedeira da entidade cósmica conhecida como Uni-Poder.

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Não se sabe ainda se como Capitã Universo ela preservou seus antigos poderes, nem sob quais circunstâncias tornou-se a nova manifestação da entidade, algo que, espera-se, Hickman esclarecerá no futuro. O que o autor estabelece nesta edição é que Monica tem alguma ligação com Universo, a deusa venerada pelos Construtores, raça alienígena que criou Aleph e, por tabela, Ex Nihilo e Abyss, citada brevemente na edição anterior. Pouco antes de encontrar-se com o Jardim, Monica, aparentemente cedendo sua mente para a divindade manifestar-se, menciona um acidente que parece ter causado a “queda” de Universo para o plano mortal. Servindo-se de seu avatar, Universo pede ao Jardim que mude suas diretrizes, pois considera danificado e insuficiente o sistema que os criou.

O restante da edição resume-se a uma porradaria bem desenhada em que os Vingadores enfrentam o Jardim, a fim de mostrar a atuação dos novos membros. A maioria ganha oportunidades de exporem o essencial de suas personalidades, embora nenhum particularmente se destaque (o autor já disse em entrevistas que as próximas três edições serão mais dedicadas ao desenvolvimento deles). Ainda assim, gosto de Hickman ter optado por dar mais atenção para os personagens menos conhecidos crescerem, deixando os mais famosos em segundo plano, realizando funções menos chamativas.

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Ao final, além de livrarem-se da ameaça do Jardim, é estabelecido que Marte continuará sendo um planeta recém preenchido com vida, tendo sua evolução controlada por Ex Nihilo e Abyss, que provavelmente ocuparão o lugar de deuses daquele mundo. Também fica subentendido que ambos terão muita importância no desenrolar de futuras tramas, devido ao seu papel na criação de Adam, que foi levado para a Terra pelos Vingadores.

Mais uma vez os desenhos de Opeña estão excelentes, e White, ao contrário do que ocorreu na edição anterior, recebeu de Frank Martin e Richard Isanove reforços à altura de seu talento como colorista. Os três conseguiram criar um ponto de equilíbrio entre seus estilos, dando organicidade a todas as páginas, diferente do que aconteceu na edição 2.

E Hickman lança no ar a pergunta que norteará todo seu período no título dos Vingadores: O que torna a Terra especial? E a resposta que impactará com a mesma importância:

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Que eles estejam à altura dos desafios que virão, e que o autor tenha a chance de executar seus ambiciosos planos para este que hoje é um dos títulos mais promissores da Marvel.

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Roteiro de Matt Fraction
Desenhos de Michael Allred
Cores de Laura Allred

Um Johnny Storm que escapou de um futuro sombrio no final da edição anterior anuncia que o impensável aconteceu: Dr. Destino, Aniquilador e Kang, o Conquistador uniram suas forças e fundiram-se numa só entidade de poderes imensuráveis (!), e deu cabo do Quarteto Fantástico. Assim, Matt Fraction enfim estabelece a principal ameaça que a Fundação Futuro terá que encarar agora que está convencida de que o Quarteto não voltará tão cedo de sua viagem pelo continuum espaço-tempo. Mas antes, é necessário que o novo Quarteto recupere sua quarta integrante, Darla Deering, que não aguentou a pressão de tornar-se uma super-heroína, e abandonou a equipe.

FF continua sendo um dos títulos mais deliciosos de se ler, por algumas das razões que listarei abaixo:

  1. Não tem como não gostar de uma edição em que Darla Deering aparece a história inteira enrolada numa toalha (e eu adorei o bilhete que o Homem-Formiga escreve pra ela tentando convencê-la a voltar pra equipe).
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  2. Impossível não adorar uma história em que ocorre a estréia da Gangue da Rua Yancy. As máscaras usadas pelo trio – o rosto do Coisa no traço de Jack Kirby – são geniais por representar a “causa” do grupo, que são claramente versões ficcionais de fanboys conservadores extremistas que xingam muito e ameaçam de morte escritores que mexem demais com personagens antigos, e vão contra as “tradições” e “cânones”.
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  3. FF_3_TheGroup-016Além de ter uma das páginas mais lindas da semana (o ano novo na Times Square nunca foi tão colorido e vibrante como retratado aqui), este número ainda apresenta duas outras com diagramações brilhantes: a página 16 (ao lado), com as três ações paralelas, e a 11, em que o Homem-Formiga salva Darla de um ataque surpresa, aumentando de tamanho muito rápido.
  4. As nuances presentes na linguagem corporal e nas expressões faciais de Mike Allred continuam fantásticas, enriquecendo muito a história, e tornando todos todos personagens mais vivos, quase como se tivessem existências independentes da trama que protagonizam. Sua arte é tão bem feita que, apesar de num primeiro olhar parecer simples demais, você se surpreende várias vezes quando relê a história e descobre um gesto, ou uma ruga de expressão que não reparou antes, e que muda sua interpretação de algumas cenas. E as cores de Laura Allred contribuem muito para potencializar essa vivacidade, com seus tons fortes e chamativos, que complementam a arte de seu marido, servindo também como uma arte-final que dá textura e volume aos rostos. Reparem no belo momento intimista entre Darla e Scott nas páginas 19 e 20, e percebam o quanto as cores de Laura dão tridimensionalidade aos personagens num momento em que é essencial que o leitor acredite na existência deles para se envolver com a carga emocional e a tensão sexual da cena. Sua execução é admirável.

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Por todos os motivos listados acima, é com ansiedade que espero o próximo número, que a julgar pelo teaser pervertido e hilário apresentado no final da edição, promete muitas confusões envolvendo os Molóides (que neste número já mostraram que não são tão inocentes quanto parecem). Se ainda não está lendo FF, faça o favor de começar agora! É sua obrigação como leitor de quadrinhos!

E na próxima semana: Journey Into Mystery #648, Superior Spider-Man #2 e Avengers #4 (porque Jonathan Hickman nunca é demais!).