[MANGÁ] Born Cartolla (Resenha)

Um universo riquíssimo com muitos conceitos originais e empréstimos pontuais de mitologias e fábulas; uma protagonista poderosa, carismática e misteriosa; e chapéus, muitos chapéus.

Essa é uma forma bem humorado de descrever a obra de Levi Tonin. Born Cartolla é um mangá nacional lançado pela editora AVEC. Atrevo-me a afirmar que é o maior mangá de um autor brasileiro já publicado no Brasil, contando com 408 páginas.

Na obra acompanhamos Galla della Cartolla, Terry Mac Éan e suas desventuras no universo dos viajantes. Viajantes são humanos com poderes mágicos advindos de sua ligação com a natureza, eles andam por aí com seus chapéus, sem carregar nenhuma bagagem, resolvendo problemas relacionados a criaturas mágicas nascidas da mente humana. Parece confuso, mas não desanime, porque a obra funciona dentro daquilo que propõem.

Narrativa e Desenho

Sendo sincero, não consegui terminar a obra em uma única leitura. O excesso de explicações em alguns momentos é cansativo. Ainda assim, essas explicações são necessárias para que o leitor se localize no universo apresentado, e para valorizar as cenas de ação. Um exemplo dessa valorização pode ser visto no atentado contra os Fullgran: sem a introdução do conceito dos chapéus a cena não faria sentido, mas, uma vez com o conhecimento na cabeça (ba dum tss), a cena passa a ser genial, pois se aproveita da exploração do conceito.

A coreografia das lutas é outra coisa a se admirar. Levi trabalha os duelos de forma muito criativa, explorando de diversas formas as habilidades de seus personagens. Algo parecido com que o Eiichiro Oda faz em One Piece. Ideias malucas que vão de sarcófagos enterrados a pelicanos terroristas.

O traço do autor é bem particular, com destaque positivo para seus cenários, os animais e criaturas, as feições dos personagens e as tatuagens da Galla. Não deve ter sido nada fácil desenhar cada uma delas em diferentes poses. Outra coisa a se observar é a forma como ele usa as sombras e as hachuras. Pode haver um estranhamento no começo, mas não é nada que prejudique a leitura.

A única crítica que tenho, referindo-se aos desenhos, é que alguns ângulos de enquadramento não favoreceram o rosto dos personagens, e causam a impressão de que a cara do personagem está mal posicionada. Pensando bem, talvez seja a Sombra Absurda atacando.

 

A Romana Tatuada e o Irlandês Cego

Galla é uma personagem rodeada de mistérios. Seu poder vem do sangue da família Cartolla, e é manifestado através de suas tatuagens. Na mão direita, por exemplo, ela possui a tatuagem de uma âncora, que concede a ela a capacidade de mudar o peso da mão; no pescoço Galla tem a tatuagem de um dragão, que a permite mandar coisas para uma dimensão onde ela controla a passagem do tempo, e essas são apenas duas das mais de trinta tatuagens. Muitos a consideram a viajante mais poderosa de todos. E, apesar de todo o poder, conhecimento, e de sua personalidade serena e gentil, ela também tem momentos de tristeza, culpa e raiva.

Já Terry é, ironicamente, os olhos do leitor no mangá. Através dele somos apresentados ao mundo dos viajantes. Quando era novo, ele perdeu os olhos em um ataque da Sombra Absurda, uma criatura que rouba os sentidos das presas. Galla recupera sua visão e, assim, ele decide acompanhá-la em uma jornada para se tornar um viajante.

A Proposta e o Final

Sem comparar obras, Born Cartolla faz o mesmo que Animais Fantásticos e Onde Habitam fez no cinema: apresenta o universo e os possíveis embates dentro dele, pavimentando caminho para futuros volumes mais movimentados, e faz isso muito bem. Podemos supor que a história se passa em uma versão alternativa do nosso mundo, em algum momento entre 1890 e 1920. Os viajantes são uma “organização” que enfrenta criaturas mágicas, e vem sendo ameaçada por um grupo viajante radical, chamado Belle Máfia.

O final é meio complicado de se entender, pois temos um time skip repentino, uma mudança no design dos protagonistas, e uma revelação sobre o estado de um deles. E, embora os antagonistas tenham sido definidos, não sabemos qual rumo a história vai seguir. Vários mistérios são deixados no ar.

Born Cartolla é a introdução a um universo promissor, com ótimas lutas e cenas de ação, que possui protagonistas cativantes, peca com o excesso de explicações, mas diverte e me deixou com vontade de ler mais sobre os viajantes e seus chapéus.


AVEC Editora

Brochura

408 páginas

22,8 x 15,8 x 3,2 cm

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