[LIVRO/SÉRIES] A História por trás de Game of Thrones

Game-of-Thrones-Season-4-poster-header

O inverno está chegando, pelo menos na televisão mundial – mais precisamente, dia 6 de abril, quando se inicia a quarta temporada de Game of Thrones, para deleite máximo dos fãs do Deus das Tetas e Vinho e companhia. Como parte dos preparativos, e para já ir aguçando a vontade de acompanhar as infindáveis tretas da terra dos dragões e zumbis do gelo, resolvi lançar mão desse espaço para comentar um pouco sobre as bases históricas por trás do maior sucesso da fantasia medieval contemporânea.

As Crônicas de Gelo e Fogo (A Song of Ice and Fire, no original) se passam em um mundo fictício, onde as estações podem durar muitos anos e a magia é uma realidade, mas não é segredo que muito do que acontece em Westeros tem suas raízes no mundo real. Que o mundo de George R. R. Martin, com seus castelos, cavaleiros, nobreza etc. são um reflexo bem próximo da Europa medieval é algo que salta aos olhos do observador mais leigo; entretanto, para quem se aprofunda mais no estudo do passado, as semelhanças entre os Sete Reinos e o passado da Inglaterra se tornam cada vez mais impressionantes.

Para começar, vamos recapitular um pouco a história. Era uma vez um território de litoral tortuoso, separado do grande continente por um Mar Estreito, que foi ocupado nos tempos perdidos de antigamente por uma civilização humana que praticava um culto pagão das florestas (apesar de haver lendas sobre seres mitológicos que precederam esses Primeiros Homens). Há muito tempo atrás, os governantes decidiram fortificar o norte desta terra, fazendo uma fabulosa Muralha que cortava o território de leste a oeste, isolando as terras mais ao norte, para manter os selvagens que lá viviam longe da Civilização. Com o tempo, formaram-se sete reinos, que disputavam pelo poder entre si, até a unificação deles todos por um grande Conquistador que veio cruzando o Mar Estreito. Os descendentes deste Conquistador dominaram o reinado por séculos, até que uma divergência pela sucessão ao trono levou a uma sangrenta guerra civil, na qual o poder era disputado pelas poderosas Casas de York e Lancaster, e… hein? Quem são esses? Não era Stark e Lannister?

Stark-vs-Lannister-e1320447312666

Pois é, meu amigo. Se você achou que eu tava falando de Westeros, caiu na pegadinha da História, pois o resumo acima é sobre a Inglaterra (apesar de se aplicar também às terras do Trono de Ferro). Como você pode ter percebido, um dos paralelos mais imediatos é entre o conflito dos Starks versus Lannisters e a Guerra das Rosas (1455-1487), que se refere à disputa entre as casas nobres de York e Lancaster (veja a semelhança dos nomes) pelo trono britânico, devido ao questionamento da legitimidade do fraco rei Henrique VI, ligado à família Lancaster. (Soa familiar?) Na vida real, este conflito foi resolvido ao se nomear o rei Henrique VII, da família Tudor (de origem galesa), que tinha laços familiares com os Lancasters e se casou com uma York, assim unificando a Inglaterra; na ficção a coisa não se resolve tão pacificamente, pra dizer o mínimo.

 

Não é tão badass...

Não é tão badass…

Claro, não se trata de pura e simplesmente copiar descaradamente a História e mudar só um pouquinho os nomes. Tio Martin é mais criativo do que isso. O que ele fez foi pinçar elementos de diversos momentos da História como inspiração e costurá-los em uma narrativa totalmente nova, mas que ainda assim soe vagamente familiar, como se pudesse ser um relato do passado real. Por exemplo – apesar de a Guerra das Rosas ser uma inspiração importante, muito do conflito que se desenrola em Game of Thrones tem mais a ver com a Guerra dos Cem Anos (1337-1453… acho que esse povo não sabia contar), entre a Inglaterra e a França. Este também foi um conflito por sucessão, desta vez pelo trono francês – quando o rei Carlos IV da França morreu sem deixar filhos, o rei Edward III da Inglaterra, que por acaso era filho de sua irmã, proclamou-se herdeiro, o que faria dele rei de ambos os países. Além de não gostarem da ideia de um rei estrangeiro, os nobres franceses não aprovaram a transmissão do trono através de uma mulher (a mãe de Edward), e portanto apoiaram Felipe VI, primo do falecido Carlos IV, como sucessor. Na verdade a coisa é um pouco mais complicada do que isso (envolve também certos títulos de nobreza da França aos quais a família real inglesa tinha direito, além de pendengas pessoais de Edward III), mas basta saber que foi um conflito longo e sangrento que se desenvolveu entre a Inglaterra e a França por mais de um século.

E o que isso tem a ver com Game of Thrones, se Westeros tem mais a ver com a Inglaterra, e as batalhas da Guerra dos Cem Anos aconteceram mais na França? Talvez não muito em termos de eventos históricos pontuais, mas a “cara” da guerra tem tudo a ver. Quando Ser Gregor Clegane sai tocando o terror nas Terras dos Rios, queimando fazendas, matando camponeses indiscriminadamente etc., sob ordens dos Lannisters e para desmoralizar a oposição, isso reflete muito o que Edward III e principalmente seu filho, Edward o “Príncipe Negro”, fizeram na França – as infames chevauchées, incursões profundas em território inimigo, nas quais eles tomavam uma grande quantidade de terreno de uma vez, destruíam tudo em uma política literalmente de “terra arrasada”, e abandonavam logo em seguida para retornar aos territórios já consolidados. Some-se a isso a Peste Negra e a “pequena era do gelo” (um período de frio intenso que acometeu a Europa na época), com a consequente queda de produção agrícola, e temos um cenário bastante similar ao de Game of Thrones: os camponeses morrendo de fome, preparando-se para um inverno terrível, e ainda sofrendo com as consequências de uma guerra entre reis que no fundo não fazem a menor diferença para eles.

Os resultados da Peste Negra (ou, também, de Gregor Clegane)

Os resultados da Peste Negra (ou, também, de Gregor Clegane)

Mas uma semelhança que escapa a muita gente, por se referir a um período histórico meio obscuro e pouco conhecido, é justamente esse esquema dos Sete Reinos que Martin nos apresenta. Nas Crônicas de Gelo e Fogo, Westeros era dividido em sete reinos até a chegada de Aegon Targaryen, o Conquistador, que dominou a tudo sob o Trono de Ferro, e cuja dinastia governava até a rebelião liderada por Robert Baratheon anos antes do início da série. Ainda assim, no período retratado, a divisão entre os sete reinados (na verdade oito, contando com as terras dos rios) é bem clara, e as famílias nobres que os governam são geralmente descendentes dos antigos reis. Pois bem, na Inglaterra a coisa foi um pouco mais complexa, sendo provavelmente por isso que a referência fica mais fraca. No período anglo-saxônico (aproximadamente de 500 a 850), havia o que ficou conhecido como Heptarquia (“sete poderes”), no qual os descendentes dos anglos, saxões e jutos (povos germânicos que migraram para a Grã-Bretanha) formaram vários reinos – tradicionalmente sete, ainda que haja questionamentos quanto a esse número. Os quatro principais eram Anglia Oriental (leste da Inglaterra), Wessex (sudoeste), Northumbria (norte) e Mercia (região central); a lista de sete tradicionalmente é complementada com Essex, Sussex e Kent (todos no sudeste), apesar de eles terem sido dominados pelos outros reinos durante quase todo o período.

Os Sete Reinos da Inglaterra anglo-saxônica

Os Sete Reinos da Inglaterra anglo-saxônica

O fato é que, ao contrário de Westeros, os sete reinos anglo-saxões não se mantiveram tão independentes assim, e foram dominando um ao outro ao longo do tempo, até que Mercia, o maior deles, praticamente tomou conta da porção anglo-saxônica da ilha (havia também os “bárbaros” celtas, na Escócia e Gales). Ocorreu então que, nos séculos IX e X (cerca de 800-1000), os vikings dinamarqueses começaram a atacar cada vez mais a Inglaterra, até dominarem mais da metade do território anglo-saxão. Eles eventualmente foram rechaçados por uma nova aliança dos reinos (dessa vez liderada por Wessex), bem a tempo de Guilherme (ou William) da Normandia dominar a Inglaterra em 1066, o que efetivamente estabeleceu o país que conhecemos hoje. Curiosamente, isso tem um paralelo em Game of Thrones com os homens das Ilhas de Ferro: reza a história que eles dominaram a porção central de Westeros, estabelecendo lá um grande reinado, logo antes da invasão de Aegon Targaryen. O infame castelo de Harrenhall (no qual boa parte da segunda temporada se passa) foi construído por Harren o Negro, rei das Ilhas de Ferro, para consolidar seu poder na região. Claro, os “homens de ferro” são a versão Game of Thrones dos vikings, seja em sua cultura guerreira, seu foco no mar, seu hábito de saquear e pilhar, ou mesmo sua fé pagã contrastando com a religião dominante do resto do continente (em GoT, o culto do Deus Afogado das ilhas, em oposição à religião dos Sete na maior parte de Westeros).

O temível Kraken dos vikings da casa Greyjoy

O temível Kraken dos vikings da casa Greyjoy

Há muitas outras referências históricas na obra de George R. R. Martin – por exemplo, como eu mencionei lá em cima, há também na Inglaterra uma Muralha (a Muralha de Adriano) que foi erigida no norte da ilha, cruzando-a de fora a fora, para proteger contra os bárbaros celtas (que, aliás, tinham tudo a ver com os “selvagens” de Game of Thrones), só que pelos romanos.  Dá pra perder muito tempo falando também sobre o continente de Essos e como ele é inspirado em Roma, Grécia, Mesopotâmia, entre várias outras referências, ou até sobre o paralelo entre os Dothraki e os mongóis. Mas, por enquanto, vale esse gostinho de Westeros nos livros de História, enquanto esperamos os corvos da HBO nos trazerem novas do mundo de gelo e fogo.

Curta nossa página no [Facebook] e nos siga no [Twitter] para mais bugigangas do universo Nerd Geek!