[LIVROS] “Psicose”, de Robert Bloch

“Meu filme Psicose veio todo do livro de Robert Bloch.”

– Alfred Hitchcock

Psicose é um dos filmes mais cultuados da história do cinema, e uma referência obrigatória da obra cinematográfica do Mestre do Suspense, Alfred Hitchcock. Para se ter uma noção da amplitude da obra, mesmo para quem nunca viu o filme, com certeza, em algum momento, já se deparou com essa cena, ou ouviu sua inconfundível trilha sonora:

Em 2013, a editora DarkSide relançou a obra que deu origem ao filme. “Psicose”, do autor Robert Bloch, chegava às livrarias 50 anos depois do livro ter esgotado no Brasil. Uma oportunidade mais que excelente para todos aqueles que tornaram-se fãs do filme, mas não tinham acesso ao material original.

A editora caprichou no relançamento do livro: disponibilizou no mercado duas edições, uma em capa dura com o logotipo criado pro Tony Palladino, e outra em brochura.

Sem título

Por mais que você já tenha visto o filme, já saiba de todos os detalhes da história, “Psicose” é um verdadeiro page-turner. Quando você começa a lê-lo, não para mais. Muito disso se deve também à escrita simples de Bloch, com descrições diretas e caracterizações precisas.

Não quero aqui simplesmente dizer se a obra é boa ou não (porque é), mas compartilhar a minha experiência de leitura (recorde, feita  em apenas 2 dias), quando tentei me imaginar lendo a história como se estivesse tendo contato com ela pela primeira vez.

Dessa forma, me imaginei na época em que o livro foi lançado, no ano de 1959. Lendo-o muito antes de ser descoberto por Alfred Hitchcock, que mandou sua equipe comprar todos os livros lançados para que ninguém soubesse o final antes de filmá-lo.

Psicose” conta a história de Norman Bates, um homem de meia idade que vive com uma mãe dominadora e gerencia um motel isolado a margem de uma rodovia. Numa determinada noite, Mary Crane, num momento de loucura (ela havia roubado quarenta mil dólares do seu patrão e pretendia construir uma nova vida ao lado de seu amado Sam), resolve passar a noite no motel da família Bates. Mary não imagina que ali, durante o banho, teria seus sonhos interrompidos quando a mãe de Norman a matasse de forma brutal.

Confesso que mesmo querendo fugir das referências do filme, foi quase impossível não ler o livro e não ter em mente as cenas criadas por Hitchcock. Por mais que Bloch descreva Norman Bates como um homem careca, de meia idade, “de face gorda e de óculos”, na minha mente, Norman tinha as feições de Anthony Perkins, assim como todos os personagens tinham os rostos dos atores da versão cinematográfica.

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Anthony Perkins como Norman Bates. “Incapaz de fazer mal até mesmo a uma mosca…”

A diferença entre o livro e o filme são poucas. Bloch começa a narrativa com Norman Bates focando na relação doentia que possui com a mãe. O autor nos faz confidentes de Norman de uma forma que o filme de Hitchcock não nos permite ser. Nas vezes em que Norman está pensando ou confrontando a própria mãe, ficamos cientes dos seus planos e segredos, e do que ele pensa sobre a própria mãe, que o humilha, chamando-o de “garoto” e jogando na cara toda sua frustração.

“Nunca teve iniciativa de sair de casa. Nunca teve iniciativa de arrumar um emprego, ou de se alistar no Exército. Nem mesmo de arranjar uma namorada…”

“A senhora é que nunca deixou!”

“Está certo, Norman: fui eu que não deixei… Ma se você fosse homem, teria feito o que queria.”

Enquanto no filme, Mary (que foi rebatizada como Marion, interpretada pela atriz Janet Leigh) é morta a facadas pela mãe de Norman durante uma chuveirada, o livro traz uma descrição mais violenta do assassinato. A morte do detetive Arbogast também é descrita de maneira diferente, e confesso que a forma como ocorreu no filme ficou bem melhor.

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“Mary começou a gritar. A cortina se abriu mais e uma mão apareceu, empunhando uma faca de açougueiro. E foi a faca que, no momento seguinte, cortou o seu grito.”

A história de “Psicose” é baseada em fatos reais. Em 1957, Ed Gein foi preso em Wisconsin por ter assassinado duas mulheres. Assim como Norman, Gein tinha uma relação doentia com sua mãe dominadora. Realizava experiências com os corpos de suas vítimas e com os cadáveres que retirava do cemitério. Os crimes de Ed Gein não apenas influenciaram Robert Bloch na escrita de “Psicose“, mas também inspirou os filmes “O Massacre da Serra Elétrica” (1974) e “O Silêncio dos Inocentes” (1991).

Com personagens interessantes, narrativa fácil e muito suspense, “Psicose” de Robert Bloch me fez querer ler sem parar. Tenha certeza que, você amante do gênero, terá em mãos uma obra única. Não apenas uma trama policial, mas um enredo onde o psicológico é essencial em tudo. No começo, entramos na mente de Norman, para ao final, ele estar ali, dentro de nossas cabeças.

nota-5