[LIVROS] O Chamado de Cthulhu: A Base da Mitologia Lovecraftiana

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“A coisa mais misericordiosa do mundo é, segundo penso, a incapacidade humana em correlacionar tudo o que sabe.”

Assim começa “O Chamado de Cthulhu”, uma das obras mais conhecidas de H.P. Lovecraft, semente de sua maior criação: os Mitos de Cthulhu. A frase que abre o conto é praticamente um convite sutil de Lovecraft para o leitor explorar suas demais obras, traçando ligações entre elas. Além de ser um comentário do autor sobre o peso do conhecimento que atormenta as mentes daqueles dotados de um intelecto acima da média.

O conto é uma verdadeira síntese do estilo de escrita pelo qual Lovecraft ficou conhecido e foi aclamado como um dos maiores autores de terror. Todo envolvido num clima conspiratório, “Cthulhu” é contado sob a forma de uma narrativa multifacetada, que alterna entre trechos de notícias, diários, relatórios e cartas, os quais dão à trama um aspecto documental e realista, que até hoje impressiona. O amarramento que Lovecraft faz entre as diferentes peças narrativas torna o pequeno conto – que tem apenas 35 páginas – uma história maior, mais complexa e, o mais importante, expansível, aspecto que o autor, ao longo dos anos, exploraria em outros contos, tornando “Cthulhu” a base de uma das mais ricas mitologias já criadas na literatura.

Uma das grandes sacadas de Lovecraft é fazer do narrador de “Cthulhu” um materialista/racional, tornando sua análise dos fatos a mais imparcial e científica possível, conferindo à narrativa um tom ainda mais sinistro e realista.

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“Na casa em R’lyeh, Cthulhu, morto, aguarda sonhando.”

Cthulhu é uma divindade pertencente a todo um panteão de deuses extraterrestres que povoaram boa parte dos contos de Lovecraft, conhecidos como Grandes Anciões, Deuses Antigos ou Outros Deuses. Uma criatura cuja presença no mundo, mesmo “morta”, influencia várias pessoas ao redor do planeta por intermédio de seus sonhos, enquanto jaz sepultada nas ruínas submarinas de R’lyeh.

O "alien invasor" do final de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons.

O “alien invasor” do final de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons.

Vale aqui apontar uma possível referência a Cthulhu em uma das obras de Alan Moore, a igualmente seminal e influente Watchmen. Pra quem já leu sabe que em sua conclusão a história apresenta uma imensa criatura tentacular, que é teletransportada para o centro de Nova York por Ozymandias, o que gera um ataque psiônico que mata instantaneamente milhares de pessoas próximas ao ponto de impacto e aterroriza os sobreviventes com sonhos e visões aterradoras. Agora leia este trecho de O Chamado de Cthulhu e tire suas próprias conclusões:

“[…] e no outro lado da Terra poetas e artistas sonharam com uma estranha e úmida cidade ciclópica enquanto um jovem escultor, em um acesso de sonambulismo, moldou as formas do temível Cthulhu.”

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Tiamut, o Celestial Sonhador

Uma outra possível referência a Cthulhu em outro universo dos quadrinhos pode ser encontrada na mitologia dos Celestiais, deuses alienígenas criados por Jack Kirby para a Marvel Comics, que fazem parte do panteão de entidades cósmicas do universo ficcional da editora. Um deles, Tiamut, o Celestial Sonhador, considerado o mais poderoso entre seus pares, foi um rebelde entre os Celestiais, e por isto foi sentenciado a dormir eternamente sob o Monte Diablo, localizado na costa da Califórnia.

Já a ideia de uma cidade submarina que emerge do oceano, presente na conclusão do conto, pode ser uma das inspirações do final do filme O Segredo do Abismo (The Abyss, 1989), escrito e dirigido por James Cameron, no qual vemos uma cidade alienígena inteira emergir das fossas oceânicas.

Cthulhu desenhado pelo próprio Lovecraft

Cthulhu desenhado pelo próprio Lovecraft

Há ainda em Cthulhu uma leitura psicanalítica, se analisarmos que o monstro do título surge das profundezas do oceano, que pode ser uma analogia ao inconsciente coletivo proposto por Carl Gustav Jung, sendo a entidade uma manifestação das criações mais atemorizantes provenientes deste manancial do qual se alimenta a criatividade humana. A própria maneira como a criatura atrai pessoas mística e misteriosamente, num “semi-transe”, a locais e artefatos que escondem ligações com sua origem extraterrestre, permite esta interpretação.

Além disto, a conexão entre Cthulhu e o mundo dos sonhos, traçada por Lovecraft no conto, ofereceu ao autor a base para a criação de sua segunda mitologia, o Ciclo dos Sonhos, também composto de vários contos que conversam sutilmente entre si, ambientados na Terra dos Sonhos, os quais foram, em sua maioria, amarrados no livro A Busca Onírica por Kadath (do qual falarei num próximo texto). Na verdade as duas mitologias se entrelaçam de tal forma que acabam formando uma só.

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A publicação mais recente do conto no Brasil foi feita pela Editora Hedra, no livro O Chamado de Cthulhu e Outros Contos, de 2012. Nele, além do conto que dá nome ao livro, estão presentes os contos “Dagon”, “Ar Frio”, “O Que a Lua Traz Consigo”, “O Modelo Pickman”, “O Assombro das Trevas” e o até então inédito “A Música de Erich Zann.”

Dagon por Demitry Belmont

Dagon por Demitry Belmont

“Dagon” é um dos primeiros contos escritos por Lovecraft já adulto, e também um dos primeiros a serem publicados. Nele já podemos encontrar elementos que comporão, mais tarde, sua rica mitologia povoada por monstruosidades cujo aspecto se assemelha a seres submarinos.

“Ar Frio” é um conto de horror com toques de ficção científica que traz o desconhecido para um subúrbio de Nova York, o que torna tudo mais impressionante, especialmente graças à descrição detalhada e atmosférica que Lovecraft faz do local.

“O Que a Lua Traz Consigo” pode ser considerado quase um “teaser” da mitologia dos Grandes Anciões, embora nenhum deles seja citado nominalmente. É mais uma daquelas histórias que dão indícios da existência de monstruosos habitantes nos oceanos do mundo.

Em seguida vem aquele que Lovecraft considera um de seus melhores trabalhos: “A Música de Erich Zann,” sobre um jovem estudante de metafísica que conhece o personagem-título, um compositor vítima de transtornos nervosos cuja música parece combater ameaças de outras dimensões. Destaca-se aqui a forma como o autor leva o leitor a impressionar-se com uma música que ele jamais ouve, mas que é descrita de maneira visceral, fantasmagórica e demoníaca. Novamente, apesar de nenhuma entidade extraterrestre ser descrita ou nomeada, o conto dá indícios de que tem ligação com a influência dos Grandes Anciões no planeta.

"O Modelo Pickman" por Dan Harding

“O Modelo Pickman” por Dan Harding

“O Modelo Pickman” é a segunda incursão de Lovecraft no mundo artístico, desta vez focando-se num pintor cujas obras parecem inspiradas por bem mais do que apenas ideias vindas de sua mente e talento perturbadores. É outra trama que traz o horror para um cenário urbano. Este conto é importante, pois tem conexão direta com A Busca Onírica por Kadath, onde Pickman reaparece.

“O Assombro das Trevas”, apesar de ser a continuação do conto “The Shambler from the Stars”, de Robert Bloch, funciona como narrativa independente, além de ter conexões com outras obras de Lovecraft, como Nas Montanhas da Loucura, e Um Sussurro nas Trevas – ambas também publicadas recentemente pela Hedra. A trama gira em torno de um artefato antigo conhecido como Trapezoedro Reluzente, guardado no interior sombrio das ruínas de uma igreja, capaz de abrir portais para outras dimensões. Além de oferecer uma fascinante mistura de ficção científica e terror, o conto também foi o último escrito por Lovecraft, que morreu pouco mais de um ano depois de concluí-lo.

A edição da Hedra ainda traz como apêndice uma carta de Lovecraft ao amigo A. R. Michael onde ele conta sobre sua vida, seu gosto por coisas estranhas e antigas, seus hábitos e atividades recreativas, e algumas das influências de sua obra, além de explicar como se deu o despertar de sua paixão pela literatura. A carta é escrita num tom confessional, e é um documento que esclarece muito da obra de Lovecraft.

O outro apêndice da edição é o texto “Notas Sobre a Escritura de Contos Fantásticos”, que é basicamente um manual escrito por Lovecraft detalhando o processo criativo que usava para compôr seus contos, e falando um pouco mais sobre os autores que o influenciaram.

o-chamado-de-cthulhu-h-p-lovecraft-editora-hedraOferecendo ao leitor uma edição muito bem planejada, traduzida com muito respeito à obra original, e um projeto gráfico elegante e de bom gosto, que respeita a sutileza da obra de Lovecraft, O Chamado de Cthulhu e Outros Contos, da Editora Hedra é um ótimo ponto de partida para quem deseja conhecer o universo fantástico criado por um dos mestres do terror literário, justamente por englobar obras de diversas fases de sua carreira.

O livro pode ser adquirido diretamente pelo site da editora.

Veja abaixo algumas interpretações artísticas de Cthulhu: