[LIVROS] MORTALHA DA LAMENTAÇÃO (Doctor Who) – Resenha

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tradução de Cilon Mello

Um dos meus tipos favoritos de episódio de Doctor Who é sobre os “monstros do cotidiano que não estão lá”. Sabe, aquele tipo de coisa que você vê todo dia (como uma estátua de anjo ou uma sombra que parece diferente), ou faz habitualmente sem se dar conta (como falar em voz alta quando está sozinho, ou ir fazer alguma coisa e esquecer no meio do caminho), e o seriado transforma em um horror inenarrável que sempre esteve (e ainda está) debaixo dos nossos narizes.

Não à toa “Listen” é um dos meus episódios favoritos da série, e o melhor de Peter Capaldi como o alien de dois corações mais querido da televisão, e eu fiquei positivamente surpreso que “Mortalha da Lamentação” seja um livro sobre esse tipo de história.

O monstro do dia, no caso, são as “Mortalhas”. Quantas vezes você já teve a impressão de ver um rosto em objetos aleatórios, como gotas na janela, nuvens, num buque de flores, ou numa pia da cozinha? Dezenas, no mínimo. Claro que isso se deve ao fenômeno da pareidolia… mas e se não for isso? E se na verdade forem uma forma de vida alien que está lá, apenas esperando… esperando o momento certo..? e esse momento surge quanto a maior nação do mundo entra em luto com o assassinato em público de um dos presidentes mais populares da sua história.

O 11º DOUTOR

matt smith doctorMatt Smith interpretou o Senhor do Tempo de 2010 a 2013 (com algumas participações ocasionais em 2014), e eu realmente acredito que, de todos os cinco homens que interpretaram o Doutor de 2005 pra cá, ele foi o mais mal aproveitado de todos. Isso porque, conforme o War Doctor (John Hurt mito) disse, ele é o “homem que esqueceu”, e foi quando o Doutor decidiu se perdoar (ou esquecer, no caso) pelos horrores que ele cometeu na Guerra do Tempo, e ser mais leve.

Como resultado, esse foi o Doutor das crianças, de se maravilhar diante de saídas diplomáticas e das pessoas, sendo o melhor que elas poderiam ser. E Matt Smith realmente brilhou quando teve oportunidade de interpretar neste sentido, sendo o alien só de passagem, que ajudava como podia. Infelizmente, no entanto, não houveram tantos episódios assim para o 11º Doutor, e tivemos muitos episódios e arcos de batalhas épicas, e confrontos de vida ou morte, que claramente não eram tão a cara deste Doutor assim.

Ele veio a ser conhecido como o homem que fazia exércitos fugirem à mera menção do seu nome, mas não era nisso que residia o seu melhor. E, felizmente, Tommy Donbavand parece ter entendido o 11º Doutor melhor do que os roteiristas da série, e aqui o Doutor está em seu melhor, pairando entre a genialidade e o absurdo, sem parecer levar as coisas muito a sério (mesmo que ele sempre leve).

O livro não só captura a essência do personagem, e até a melhora, como você consegue ver claramente Matt Smith existindo em cada cena.

“Pode me chamar de Doutor, embora eu já fui chamado de muitas coisas: Theta Sigma, a “Tempestade que se Aproxima” e, durante um fim de semana muito constrangedor, Mable.”

CLARA OSWALD, sua fiel companion

Clara_oswaldSe você ler minhas opiniões sobre Doctor Who, vai ver que Clara não é minha companion favorita. Ok, às favas com os eufemismos, eu realmente não gosto dela, e não acho que esse seja o tipo de programa para uma personagem assim. Eu consigo ver ela tendo uma série na Nick chamada iClara ou “She’s so Clara!”, mas não como a companion do Doutor, e indiscutivelmente eu preferia que essa aventura do 11º Doutor fosse com sua OUTRA companion muito mais legal: Amy Pond (e o marido, porque o Rory conta como uma extensão da Amy).

Tommy Donbavand, o autor do livro, teve uma ideia muito mais legal no entanto: ele deu algum traço de personalidade para a Clara, algo que os roteiristas da TV há dois anos falham em fazer. Clara ainda é a mesma Clara, você consegue ver os seus trejeitos, e consegue identificar a mesma personagem, mas agora ela é oficialmente a chata que mantém o Doutor na linha. E isso funciona! Até porque, é claramente o que a série de TV esteve tentando fazer sem sucesso, neste livro, Clara funciona perfeitamente.

Ela não é divertida, ela não é muito inteligente nem tão carismática assim, mas ela funciona como personagem porque o autor achou uma função para ela, e isso é impressionante! Porque, sejamos honestos, mais de metade do que segura a personagem na TV é o rosto lindo da Jenna Coleman, e eu tinha certeza que sem isso (“Mortalha da Lamentação” é um livro, afinal) seria um fracasso completo. Mas não é que o rapaz faz funcionar? Steven Moffat precisa ler esse livro…

Ele pensou por um segundo, então se virou para Clara: “Você disse algo cruel para a TARDIS enquanto eu me trocava?”
‘Não! Claro que não!’
‘Você chamou ela de gorda?’
‘O que?’
‘Porque ela não é gorda. Ela é apenas maior por dentro.”
A VIDA, O UNIVERSO E TUDO MAIS
 
-Matt-Smith-doctor-whoMortalha da Lamentação tem uma boa sacada para o “monstro do dia”, uma boa personificação do Doutor, e mesmo a Clara funciona, mas nada disso teria muita valia se não fosse desenvolvido de uma forma interessante. O que é o caso aqui. Existem duas coisas particularmente interessantes na narrativa deste livro, para ser preciso.
 
A primeira é que as Mortalhas são como Dementadores, se alimentam de tristeza, e o livro tem vários capítulos que são mini-contos sobre pessoas comuns vivendo seus piores momentos, que virão a ser explorados pelas Mortalhas. Esses contos são interessantes, e os personagens bem desenvolvidos, e mesmo que nada disso seja realmente importante para o restante do livro em si, são legais de se ler – quase como os contos que abriam os capítulos dos livros de regras dos RPGs do Mundo das Trevas. Similar ao que acontece em “Shada” (resenhado por mim aqui), um grupo de humanos acompanha o Doutor, e embora eles não sejam personagens particularmente brilhantes, esses capítulos de memórias acabam servindo para você se importar minimamente com os personagens.
 
A segunda coisa interessante é que, como um bom episódio de Doctor Who, a história dá uma guinada quase aleatória, e você é jogado no meio de uma ideia tão boa, que daria pra fazer uma série inteira só com isso. Agora, a grande coisa aqui é que essa guinada parece aleatória e non sense, apenas pelo prazer de ser non sense, mas faz todo sentido do mundo dentro do contexto da história.
 
Sim, um planeta de Palhaços é algo totalmente orgânico, e nada forçado dentro da história. Tem coisas que só Doctor Who te faz dizer…
 
Ajuda muito também que a escrita de Tommy Donbavand seja rápida, concisa, e seus diálogos inteligentes,  beirando a comicidade – o que esperamos de um bom episódio de Doctor Who – e que deixa o livro leve e dinâmico, definitivamente é uma leitura fácil e recompensadora. Talvez eu tenha que dizer que a descrição de cenas e ação do autor é abaixo do excelente, e algumas passagens que falam sobre ações são um tanto quanto confusas, e embora não atrapalhem a sua diversão de todo, poderiam ser melhor trabalhadas.
 
Reunindo boas idéias, com uma reprodução dos personagens melhor aproveitada do que em muitos episódios, em uma escrita fácil e gostosa, a “Mortalha da Lamentação” não só é um livro que está altura de ser adaptado como um episódio, como seria um dos grandes episódios do Doutor na TV. Ele realmente entende o que funciona no seriado e fez isso (até melhorou em alguns pontos). Considerando que a escrita do autor só tende a melhorar com a experiencia, eu diria que estou bastante ansioso para ver os próximos livros escritos por ele.
CAPA-Mortalha-da-LamentaçãoDoctor Who – Mortalha da Lamentação

Tommy Donbavand

Tradução: Cláudia Mello Belhassof
Ficção
Formato: 16 x 23
176 páginas

Leia um trecho do livro em PDF

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nota-4
PS: Como bônus para quem é fã, há uma sequencia na qual o Doutor revive as suas próprias memórias mais tristes, e há feelz para dar e vender, que rivalizam em emoção com a cena de “Rings of Akhaten“, a melhor cena de Matt Smith como Doutor, na minha opinião. Isso com a vantagem de não ter música, porque, bem, é um livro.

3 thoughts on “[LIVROS] MORTALHA DA LAMENTAÇÃO (Doctor Who) – Resenha

  1. Eu li o livro amei, não tinha lido um livro do Doutor ainda e não achava que ele iria conseguir passar aquele, não sei como definir, mas é aquela curiosidade, desejo, credibilidade, vontade de saber o que vai acontecer e realmente você consegue ver o 11 Doutor lá, tem uma frases que não se tem duvida que tenha saído da boca dele, muito bom mesmo ^^

  2. Pingback: [LIVRO] “Doctor Who: O Prisioneiro dos Daleks” de Trevor Baxendale (resenha) | NERD GEEK FEELINGS

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