[LIVROS] JONATHAN STRANGE & MR. NORRELL: E, se a prática da magia voltasse? (resenha)

Olá, fotógrafos de toalhas! May the Marvin be with you.

Nos reunimos aqui, hoje, para falar sobre um livro relançado há pouco tempo pela Companhia das Letras e que inspirou uma série da BBC. Pegue suas cartas, seu corvo, um crânio e vem comigo!

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“O senhor é mago?”

Nossa jornada começa, em 1806, na Inglaterra, com a Sociedade Culta dos Magos de York e o Mr. Norrell. A questão é a seguinte: ainda existe magia na Inglaterra? Se sim, por que não a vemos mais ser praticada? Os magos atuais apenas escrevem livros, livros e a prática da magia, os dragões de fogo, cadê? Aí que entra o malandrinho Mr. Norrell “Ei, eu pratico magia!”

Será?

– O senhor é mago? – indagou Mrs. Wintertowne. – Lamento saber. É uma profissão pela qual tenho um especial desagrado. – Olhou intensamente para ele, como se a desaprovação em si mesma bastasse para fazê-lo renunciar de imediato à magia e abraçar outra profissão. p. 86

Bem, sim. Ele prova isso perante a Sociedade Culta dos Magos de York e os obriga a renunciar seus títulos de magos, se mudando para a Londres depois disso onde pretende ajudar o governo na guerra contra os franceses. Vaaaaiiii!

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“Se a lei inglesa desse a Laurence Strange o direito de vender o filho e comprar outro melhor, ele provavelmente o teria feito.”

Strange entra em cena na segunda parte do livro. O outro mago. Jovem, curioso, inteligente, em muitos aspectos lembra o Christopher Chant, da série Os Mundos de Crestomanci escrita pela Diana Wynne Jones. Então, você já sabe: um certo tom de irresponsabilidade, ousadia e cenas cômicas.

Tanto que Strange vai “a campo” ajudar na guerra contra os franceses. Um dos melhores momentos do livro.

– Acredito que Mister Drawlight o tenha informado sobre minha terrível situação – disse Mrs. Bullworth.

Strange fez um gesto com a cabeça que tanto poderia significar uma coisa, como uma outra coisa, como poderia significar nada. p. 413 [trecho, sem dúvida, inspirado em um outro presente em As Aventuras do Sr. Pickwick, de Charles Dickens]

Nessa bagunça toda…

Uma mulher morre. É trazida de volta a este mundo miserável. Porém, com um preço. [Rumple cansou de avisar isso]. Stephen Black também é pego nessa. E aí, você pode me perguntar “O que está acontecendo? Quem? Quando? Qual o problema?”

E as respostas a todas e quaisquer perguntas podem ser resumidas em poucas palavras: O Cavalheiro e Esperança Perdida. O Cavalheiro é um ser mágico com cabelos fofos de algodão. Awn! E ele se diverte fazendo o que bem entende. Aqueles vilões sem uma noção do que é bom ou mau, certo ou errado. Apenas faz o que deseja sem pensar nas consequências ou que os outros não possam gostar. Levando Stephen, por exemplo, para Esperança Perdida sem nem perguntar se ele quer isso.

Mais: Stephen e mais a mulher ressuscitada não conseguem falar sobre o encanto. FUDEU MUITO 😉

Alertou-o de que ouviria uma revelação confidencial de um infortúnio secreto, e Robert pareceu bastante grave e interessado. Mas, quando começou a falar, Stephen verificou, para seu espanto, que abordava um assunto completamente diferente; viu-se fazendo um discurso muito sério e douto sobre o cultivo e a utilização de ervilhas e vagens, assunto sobre o qual nada sabia. p. 268

rei corvo

“The Raven is coming”

Bem, acontece muita coisa na história. São 821 páginas afinal. Guerra, festas, viagens a Veneza, mulher gato, perda de guinéus, desentendimentos, referências mitológicas…E, obviamente, estou deixando muito de fora dessa resenha, a fim de evitar spoilers. Mas, um ponto mais deve ser mencionado: o Rei Corvo. Este ser misterioso que permeia a magia britânica, mas ninguém sabe muito a respeito, porém sem ele não existiria a magia na Inglaterra. Alerto logo que ele aparece mesmo quase no final da história e por pouco tempo, deixando-nos mais curiosos e com aquela expectativa de “Mulher, escreva outro livro!”

Em resumo, se você gosta de leituras como Austen, Dickens, Wynne Jones, magia, fantasia, ironia sutil, um excelente narrador, pegue esse livro sem medo. Páscoa’s advice! P.S.: É claro que Susanna Clarke tem seu próprio estilo, não se trata de uma cópia-mistura dos autores mencionados.

nota-4

– Sim, de fato! É linda! – concordou o cavalheiro, com entusiasmo. – É muito difícil de confeccionar. O pigmento tem de ser misturado com lágrimas de mulheres solteiras de boa família, que devem viver uma longa vida de virtude impecável e morrer sem jamais ter conhecido um só dia de verdadeira felicidade!

– Pobres senhoras! – exclamou Stephen. – Fico feliz que seja tão rara.

– Ah, não são as lágrimas que a tornam rara, tenho garrafas cheias delas, mas a habilidade de misturar a cor.

O cavalheiro mostrava-se tão afável, tão disposto a conversar que Stephen não hesitou em lhe perguntar:

– E o que o senhor guarda nesta linda caixinha? Rapé?

– Ah, não! É uma grande preciosidade minha que desejo ver Lady Pole usar esta noite em meu baile! – Abriu a caixa e mostrou a Stephen um dedo pequeno e branco.

A princípio, isso pareceu um pouco incomum a Stephen, mas a surpresa logo passou, e, se alguém nesse instante lhe tivesse perguntado a respeito, teria respondido que cavalheiros com frequência carregam dedos consigo em caixinhas e que este era apenas mais um dos muitos casos que já vira. p. 164-165