[LIVROS] Grande editora proíbe a utilização da palavra “porco” em seus livros

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tradução de Cilon Mello

Quando você acha que já entendeu como funciona e se preparou para o pior, um Cumpadi Washington selvagem aparece e grita na sua cara: “Sabe de nada, inocente!”. Pois foi exatamente isso que aprendemos esta semana, quando foi divulgado no programa britânico Radio 4’s Today – o qual justamente discutia os desdobramentos do caso Charlie Hebdo – que a Oxford University Press (nada menos do que a editora da Universidade de Oxford) está proibindo seus autores – caso tenham alguma esperança de serem publicados – de citarem a terrível palavra “porco”, e qualquer coisa relacionada a ela, como “salsicha” ou “Bacon”. Qualquer coisa que possa ser entendido como porco, na verdade.

Acontece, apenas, que a Oxford University Press (OUP) não só é associada a uma das maiores universidades da Terra, e supostamente uma referência de conhecimento e cultura, como também, por si própria, é uma das maiores editoras de livros acadêmicos e didáticos do mundo – o que só torna a coisa pior, muito pior. Se tem uma editora que influencia a educação ocidental, é essa.

Agora, você pode estar se perguntando por que uma instituição séria, e desse tamanho, se prestaria a uma imbecilidade destas, certo? Afinal, deve ter um grande motivo plausível por trás de uma grande imbecilidade, certo? Com a palavra, o porta-voz da editora:

peppa sincera“Muitos dos materiais educacionais que publicamos no Reino Unido são vendidos em mais de 150 países, e como tal, precisamos considerar uma gama de diferenças culturais e sensibilidades. Nossas linhas editoriais são intencionadas a possibilitar que nossas publicações sejam disseminadas para o publico mais amplo possível.”

Ou seja, para não ofender ninguém. Mas quem diabos na Terra, em sã consciência, poderia se sentir ofendido pela mera menção da palavra “porco” ou algo relacionado a isso? Ora, imediatamente os olhares se voltaram para judeus e muçulmanos, cujas religiões possuem restrições quanto a consumir alimentos oriundos destes animais.

O porta-voz do conselho judeu na Inglaterra respondeu a isso com a seguinte frase: “As leis judaicas proíbem comer a carne do animal, não mencioná-la ou o animal do qual ela vem.”

Do outro lado, o representante do partido trabalhista muçulmano respondeu: “Eu concordo absolutamente. Isso é um non sense ultrajante. E quando as pessoas vão tão longe assim, acabam desrespeitando toda a discussão [religiosa].

Bem, a imbecilidade humana – se for imbecil o suficiente – consegue realmente unir os povos. Quem diria, hã?

Camisinhas de bacon. Não sei porque eu postei isso aqui.

Camisinhas de bacon (não sei porque eu postei isso aqui)

Entretanto, essa história não termina com um final feliz. Embora oficialmente judeus e muçulmanos sejam contrários a esta palhaçada, na prática não é bem assim que a banda toca. A Oxford University Press não fez isso de zoeira, ou porque alguém tomou todas e saiu mais loko que a tia do Batimá de uniciclo, eles fizeram isso porque é a realidade em que vivemos.

Se acumulam histórias que as pessoas estão cada dia mais bundadoídas e burras, independente de cor, classe social ou religião. Como quando um casal foi expulso do ônibus na Inglaterra por cantar uma música da Peppa Pig para sua filha de 15 meses, porque os passageiros muçulmanos do ônibus acharam ofensivo – dadas as restrições do Islã com o consumo do animal (eles deviam achar ofensivo alguém deixar a filha assistir essa bosta de desenho, isso sim).

No interior de Israel, já se arrasta por alguns anos na justiça a discussão sobre a legalidade de se vender carne de porco – até o ponto que chegou a uma solução de que poderia sim, desde que não mostrasse o animal ou o mencionasse diretamente, e fosse apenas nas periferias da cidade.

Então, o que mais dói não é a decisão estupida da OUP, e sim que a decisão estupida deles é, na verdade, uma decisão comercial fundamentada na realidade em que vivemos.

Por isso eu volto a afirmar que O Demolidor” é o filme mais visionário de todos os tempose previu perfeitamente como as coisas terminariam: “O mundo se tornou uma versão covarde dele mesmo, comandado por um bando de bichonas“. Até porque, acho que foi a última vez que alguém pôde dizer “bichona” no cinema sem ser processado ou começar uma cruzada religiosa. Ou porco.

piglet[1][1][1]

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