[LIVROS] Angosta – A Cidade do Futuro, de Héctor Abad (resenha)

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Algumas vezes, ler obras de ficção dá aquela sensação segura de “ok, isso é apenas no livro, minha realidade é outra”. Porém, essa segurança some como os perseguidos políticos da cidade de Angosta, lugar ficcional que dá o nome ao livro de Héctor Abad.

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Héctor Abad

O jornalista, escritor, editor e tradutor Héctor Abad, autor de “Fragmentos de amor furtivo” e “Basura”, cria em “Angosta – A Cidade do Futuro” uma distopia tão próxima da realidade das grandes metrópoles da América Latina, que muitas vezes é incômoda a comparação com a nossa realidade. Pois se Angosta é sobre o futuro, suas raízes reais estão no passado e no presente de nossa história.

A cidade de Angosta é o microcosmo da narrativa de Abad, pois seu universo de interações sociais, econômicas, políticas e culturais são focados dentro dos muros da cidade. O autor chega a falar do mundo exterior, mas é dentro da cidade ficcional, falando de suas mazelas, que consegue traçar uma história de valores universais.

Partindo de uma escolha narrativa semelhante à crônica, acompanhamos no livro a trajetória de um  grande número de personagens, que podem até trazer confusão à mente do leitor mais disperso, mas é essencial para o mosaico social criado por Abad.

Angosta é uma cidade localizada próxima à Cordilheira dos Andes, e sua atualidade é um fruto também do seu passado colonial. É dividida em três setores, em três povos: a classe mais baixa, formada pelos tercerones que vivem em Tierra Calliente; a classe intermediária, formada pelos segundones que habita o vale do Turbio; e os privilegiados da casta dos dones, que vivem no planalto de Paradiso.  A política do Apartamento colocou muros e interrompeu o fluxo de pessoas das classes mais baixas para os lugares frequentados pela elite. Essa configuração espacial também nos faz lembrar os espaços atuais das grandes cidades, pois onde não há muros dividindo os condomínios luxuosos das favelas e ocupações, por exemplo, há o muro invisível que divide as pessoas e os lugares através do preconceito e do medo da insegurança.

Na cidade de Angosta procura-se manter uma aura de que não existem preconceitos de qualquer meio, mas quem sofre sabe que não basta apenas a cor da pele, mas também a condição econômica para ser ou não aceito entre os mais privilegiados. Mais uma vez é impossível não voltar à realidade presente, quando se mergulha no futuro distópico de Angosta. Sua cidade dividida em setores comportando pessoas em classes de acordo com suas posses, cores, crenças e valores, me fez lembrar dos espaços segregadores das nossas cidades. Lugares onde os mais privilegiados não querem que sejam frequentados por aqueles que consideram indignos.

Acompanhamos a realidade opressora de Angosta principalmente pelos olhos de Jacobo Lince, um homem beirando os quarenta anos, mas que procura manter um aspecto juvenil (principalmente quando o assunto é mulheres). Mora no decadente hotel La Comedia, mas possui na conta bancária o suficiente para viver entre os ricos. Tem um sebo e prefere viver humildemente, arranhando os juros da polpuda herança deixada pela mãe.

Andamos ao lado também de Andrés Zuleta, um jovem de 25 anos de excelentes qualidades, mas atrapalhado, inseguro da vida e um poeta que guarda para si seus pensamentos a respeito de tudo.

Estes dois personagens acabam tendo suas trajetórias combinadas numa só quando a violência da cidade os aflige. Tanto Andrés quanto Jacobo estão cercados de uma grande variedade de personagens, compondo o aspecto diverso das relações sociais presentes em qualquer grande metrópole. Tipos dos mais diferentes, com experiências de vidas diferentes trazendo as marcas de sua história e compartilhando lições. “Angosta” é um livro que não trata de uma grande narrativa linear, mas sim de um conjunto de crônicas dentro de um mesmo espaço, abordando o cotidiano através da crítica social e do humor, nos possibilitando a reflexão da nossa realidade. Os diálogos em grande parte travam reflexões interessantes sobre a nossa natureza e sobre a maneira como vivemos.

Porém não se trata de uma divisão radical de pequenas histórias. No plano geral, “Angosta” é sobre esses personagens desde o momento em que somos apresentados a eles até o momento em que suas vidas são mudadas pela realidade opressora de Angosta. Aqui mora outro comparativo com nossa realidade. A opressão policial, as torturas e as mortes daqueles que representam um incômodo aos privilegiados, nos lembra dos períodos de regime militar que muitos países da América Latina passaram. A guerrilha fortemente armada, a resistência de grupos “rebeldes”, o terrorismo somado à violência dos bairros mais pobres de Angosta traçam um paralelo com a nossa realidade.

A leitura de “Angosta” agrada aos leitores de narrativas mais contemplativas, mais sintonizadas com os aspectos cotidianos. Pode até parecer cansativo em algumas passagens, porém sua conduta crítica, erótica e violenta nos leva a um universo distópico que deve e merece ser visitado tendo em vista o sucesso que alguns títulos do gênero tem feito nos últimos anos. Angosta é uma cidade do futuro, mas seu presente é o nosso também em alguns aspectos, infelizmente.


nota-4


angosta a cidade do futuro hector abad companhia das letrasCompanhia das Letras

Capa comum

20,6 x 13,8 cm

376 páginas

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