[LIVROS] A HORA DOS RUMINANTES de José J. Veiga (resenha)

a hora dos ruminantes

Você sabia que existe um elo perdido entre Franz Kafka e Stephen King, e que esse livro foi escrito por um brasileiro?

O goiano José J. Veiga é mais conhecido por acadêmicos de letras do que pelo grande público, e é por esse erro que a Companhia das Letras relançou uma edição especial desse livro (e outros dele) no centenário do autor. Blablabla, Brasil-sil-sil, etc. Nada disso realmente me interessa ou importa, e eu não poderia cagar menos caso o cara fosse acreano ou russo, o que realmente me importa é o seguinte: APOCALIPSE BOVINO!!!

Acredito que eu tenha sua atenção agora…

silver-spoon-e8-cowsMUITO ANTES DE STEPHEN KING VER O SEU PRIMEIRO PALHAÇO…

… José J. Veiga já escrevia sobre uma cidadezinha do interior da putaqueopariu do oeste, que fica isolada do mundo, e onde coisas muito estranhas acontecem. Eu faço essa comparação porque Stephen King ficou famoso em escrever sobre pessoas presas em um lugar devido a uma circunstancia sobrenatural, sendo que isso é apenas o pano de fundo para mostrar as verdadeiras cores da natureza humana (como em “O Iluminado“, “A Tempestade do Século“, “O Nevoeiro“, “Langoliers“, “Under the Dome” e por aí vai).

Aqui a pegada é mais ou menos a mesma, saca só: Manaraiema é cidadezinha simples, onde Judas nunca perdeu as botas porque era fim de mundo demais para ir lá, que um dia tem sua rotina alterada quando “os homens” chegam e se instalam em sua vizinhança.

“Os homens” (sim, é assim que eles são chamados mesmo) não fazem nada em relação à cidade. Absolutamente nada: eles não se aproximam, não comerciam, não pedem nada, e a muito custo dão bom dia, e olhe lá.

Com esse elemento alienígena inserido em sua realidade, a cidade passa por um ciclo de curiosidade, medo, aceitação e indiferença, sendo que o livro é composto por três ciclos desses progressivamente mais estranhos: “A Chegada”, “O Dia dos Cachorros” e “O Dia dos Bois”. Sim, não tem como negar, todos nós estamos nessa pelo aboicalipse!

É nesse sistema que Veiga lembra Kafka, usando o surrealismo para falar sobre a natureza humana, sua absurda capacidade de se acostumar com qualquer coisa, e até mesmo defender uma realidade com a qual já se acostumou, por mais bizarra ou prejudicial que seja, como já dizia Morpheus em Matrix.

Isso, é claro, não é feito através de atos óbvios, e ninguém diz “nossa, agora estou demonstrando o que é um ser humano”. Ao contrário, são diversas pequenas cenas surreais e panreais (acabei de inventar essa palavra, me processe), que fazem você pensar “isso é absurdo, mas não deixa de ter um fundo de verdade“.

Ou seja, o livro é repleto de metáforas e simbolismos em uma narrativa leve e interessante.

dogs take over the world

Apenas mais um dia comum em Manaraiema

“HÁ UMA HORA E UM LUGAR PARA TUDO”, já dizia o grande pensador Prof. Carvalho

Uma coisa muito importante a saber sobre “A Hora dos Ruminantes” é que ele foi publicado originalmente em 1966, apenas dois anos após a instalação do regime militar de 1964. Sabendo disso, todo o tema do livro sobre medo, paranoia e aceitação da perda das liberdades individuais, vai tomando forma, e é possível dar nome aos bois…

… qual é, vocês não acharam mesmo que eu ia perder a chance de fazer essa piada, acharam?

De modo cru, não faz muito sentido dentro do livro quem são “os Homens”, ou o que cargas d’água acontece no fatídico “dia dos bois”, ou como o livro termina, mas se você fizer esse paralelo de simbolismo com a realidade do regime, e a natureza do povo brasileiro, é então que a magia acontece.

Essa, claro, é apenas uma leitura possível – existem diversas outras, e esse é um dos grandes trunfos da fábula de José J. Veiga. O outro, é claro, é o aboicalipse.

a hora dos ruminantesA HORA DOS RUMINANTES
José J. Veiga

Capa: Kiko Farkas / Máquina Estúdio e André Kavakama / Máquina Estúdio
Páginas: 152
Formato: 14 x 21 cm
Acabamento: Capa dura
Lançamento: 28/01/2015
Editora: Companhia das Letras

Disponível nas seguintes livrarias:

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