[LIVRO] Warriors, de Sol Yurick (Resenha)

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Tenho muitas coisas a falar sobre esse livro. Ao final da leitura, tive o que em inglês chamam de “mixed feelings”. Odiei a obra, mas também adorei. Então, senta que lá vem história…

Eles são mais perigosos que o sistema, mais violentos que o Estado e muito mais numerosos que a polícia. Membros de todas as gangues de Nova York se reúnem no Bronx para acabar com suas rivalidades e, juntos, lutarem contra O Homem”. Tenha muito cuidado ao voltar de madrugada para casa.

THE WARRIORS é o romance que deu origem ao filme Os Selvagens da Noite, um verdadeiro clássico sobre a violência das gangues e a implacável justiça das ruas. Ainda mais cruel que no cinema, e com certeza muito mais realista, o livro THE WARRIORS foi originalmente escrito em 1965, e até hoje permanecia inédito no Brasil. A DarkSide Books tem o orgulho, sem falar na coragem, de finalmente lançar no país esta obra-prima da literatura marginal. Uma aventura frenética e perturbadora, capaz de brigar de igual pra igual com Laranja Mecânica, de Anthony Burges, numa luta de facas literária.(SINOPSE DA DARKSIDE)

Basta ir a qualquer grande livraria para notar que algumas edições de livros em inglês são verdadeiras obras de arte. Capa caprichadíssima, material da melhor qualidade e, muitas vezes, com apetrechos extras para conquistar o público. A falta de algo assim no Brasil faz com que muitas editoras percam clientes (pelo menos os que sabem ler em inglês), que preferem comprar aquela mesma edição importada e linda do que um simples livro nacional. Mas quem já conhece a DarkSide™ sabe que eles não padecem desse mal. As edições recebem sempre um tratamento sem igual no mercado editorial nacional. São livros que dão gosto comprar, não só pelo conteúdo em si, mas para exibir em casa como um belo adereço artístico. Warriors tem capa dura e impressão com partes envernizadas. Todo o livro, como você pode ver pelas fotos, tem aspecto envelhecido, detonado. Além disso, vem com alguns mimos: dois bottons (um dos Orphans e um dos Electric Eliminators), um marcador de livros e um patch com a imagem da capa. Como produto, é impecável. Contudo, tendo em vista o que as gangues, por mais fictícias que sejam, representam, eu nunca usaria algo assim.

Agora vamos à obra em si. Primeiramente, devo dizer: nunca vi o filme cult baseado no livro. Ao começar a leitura, decidi fazer a crítica assim mesmo, sem parâmetro comparativo. Então falarei aqui do livro, não do filme. A tradução é de Fábio M. Barreto. Há dois prefácios, um escrito por Férrez (escritor) e outro por Beto Estrada (Matando Robôs Gigantes), seguidos por uma extensa introdução pelo próprio Sol Yurick. A introdução é uma leitura um pouco maçante, pois o autor faz questão de destilar em excesso seus conhecimentos acadêmicos, o que cansa um pouco. A parte interessante é onde ele comenta sobre as influências (o livro foi baseado na obra grega Anábase, de Xenofonte – que o autor faz questão de dizer que ninguém conhece), e sobre o filme (achou uma péssima adaptação, mas disse que gostou do fato dela ter lhe rendido bastante grana e reconhecimento, o que permitiu com que seus livros fossem publicados mais facilmente).

A premissa da história é bem simples: todas as gangues da cidade se reúnem em um parque, com a intenção de fazer uma trégua, e até mesmo criar uma espécie de união. Mas ao discursar, o líder Ismael é mal interpretado e tudo sai terrivelmente errado. Começa um quebra pau generalizado, com facas, socos e chutes, porretes e armas de fogo. A polícia logo chega e todas as gangues fogem do local. Distantes de casa e no meio dessa verdadeira guerra caótica entre as gangues, além da polícia no encalço, os Coney Island Dominators (sem seu líder, que caiu em batalha) terão que atravessar a cidade para voltar pra casa. Apesar do aspecto violento, a ideia de um grupo de adolescentes se aventurando pela cidade chega a lembrar de filmes clássicos do gênero, como “Conta Comigo”. Mas essa sensação logo é dissipada pelas ações do grupo.

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Os membros da gangue, composta por negros e latinos, são verdadeiros criminosos. Entre as cenas mais tensas, há o estupro grupal de uma garota (depois tentam fazer o mesmo com uma senhora bêbada, que encontram sozinha em um parque), e o assassinato de um cara que apenas os encarou na rua. A gangue é composta por garotos descontrolados e imaturos. Muito imaturos. Ficam o tempo todo medindo a sua masculinidade, com medo de serem humilhados ou considerados mais fracos que o outro, tentam se impor sobre tudo e todos a todo o tempo. Entre as cenas mais patéticas, está essa: para medir quem é mais “macho”, os membros da gangue tiram seus membros das calças e testam quem pode urinar mais longe, pois alguém em algum lugar disse que o cara que consegue urinar mais longe é o mais… Macho. Enfim, essa é a história toda. Na segunda metade do livro o grupo se separa e, em minha opinião, essa é a melhor parte, onde o autor se demora um pouco mais sobre cada personagem, principalmente sobre Hinton, que fica sozinho perambulando pela cidade, e aparece no realista e triste desfecho da trama.

Com a questão da glamourização violência, o livro lembra um Laranja Mecânica sem pretensões literárias. No mais, é altamente descritivo, composto por sequências de frases curtas e diálogos rápidos. O narrador adquire uma postura típica de um membro da gangue ao mostrar os fatos. Assim como eles, é extremamente machista (segundo ele, as mulheres usam “maquiagem de puta’’, são “vacas”, e parecem curtir quando são estupradas). O livro foi escrito em 65, antes de todo o movimento hippie e o lance de paz e amor existirem. De todo modo, tal discurso, desde aquela época, é idiota e danoso. Não quero bancar o moralista que faz críticas literárias, mas o lance é que não entendi o ponto, o motivo de o narrador adotar esse ethos. Particularmente, comigo não colou. Pois, ao combinar o tom da narrativa com a falta de qualidade literária, o resultado é medíocre. Um contraponto é que tudo isso pode funcionar de maneira metalinguística: o discurso narrativo e a história em si se fundem para expor um comportamento, uma ideia que permeia o livro e representa a gangue em questão. Ao pensar assim, a obra sai da mediocridade e merece atenção. Mas, para enxergar isso, alguns malabarismos intelectuais, além de muita força de vontade, fazem-se necessários. Portanto, tal possibilidade fica ao critério de quem lê – e as divagações técnicas terminam por aqui.

Conclusão: Posso pensar em pelo menos três motivos para que você leia esta obra. (1) Se você curte o filme, leia o livro. Pelo que entendi, é bem mais visceral e detalhado. (2) É uma obra que destoa das centenas de publicações bonitinhas e fofas que inundam o mercado, é um contraponto de literatura marginal a todas essas cópias de cópias de cópias que circulam por aí, por isso já vale a atenção.

E (3) o final… O final é arrebatador. Sol Yurick trabalhou como assistente social e teve contato com vários adolescentes que participavam de gangues e serviram de inspiração para o livro. Não é por acaso que os membros da gangue são latinos e negros, minorias relegadas aos cantos mais escuros e esquecidos dos subúrbios, que se aglomeram em conjuntos habitacionais onde a assistência social não existe e o Estado é uma lenda. Não é por acaso que os adolescentes chamam os membros da gangue de irmãos e irmãs, e também há os que são chamados de pai, mãe e os tios. Essa tentativa de encontrar nas ruas a família que não tiveram em casa tem seu motivo escancarado no final. Ao narrar a volta de Hinton para a casa, detalhadamente, é impossível não sentir empatia e notar de onde vem toda a revolta. E afinal, esse “Conta Comigo” dos infernos acaba sendo uma aventura e tanto, por mais torta e errada que possa parecer.


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DarkSide Books

Tradutor: Fábio M. Barreto

Acabamento: Capa Dura

256 páginas

14 x 21 cm

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