[LIVRO] Um Olhar Breve Sobre “Speech Sounds”

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O conto de ficção científica Speech Sounds, escrito em 1983 por Octavia Butler, é ambientado no caminho para Pasadena. O conto foi publicado na revista Wastelands: Stories of the Apocalypse. Embora não tão conhecido como tantas outras produções artísticas do gênero, Speech Sounds traz à tona temas que tocam no mais íntimo da estrutura psicológica e organizacional humana, no que concerne às suas relações interpessoais, ética e noção de valores.

Speech Sounds foi escrito sem que a autora desse relevante importância a detalhes “científicos” propriamente ditos, posto que não há explicações maiores acerca de que razões podem ou não ter sido causadoras da doença mencionada no conto e de seus transtornos.

Poder-se-ia imaginar que a ficção se passa em época próxima ao ano de sua feitura, mas não há clara confirmação – e a situação apresentada é de completo caos: por razão, de certa forma desconhecida – uma doença capaz de causar até mesmo mortes – as pessoas perderam a capacidade de se expressar ou compreender umas às outras, fazendo do mundo um verdadeiro inferno.

Sem possibilidade de estabelecer comunicação há três anos, os seres humanos foram-se desumanizando, quebrando regras, perdendo-se em sua própria desorganização e falta de moral, desrespeitando instituições antes vigentes e essenciais para a organização social, montando, por falta de opção, uma situação de total marginalidade.

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Caricatura de Octavia Butler

A história é contada pelos olhos de Valerie Rye, uma professora de história que perdera a capacidade de ler – sua maior paixão – , embora não seja ela a narradora. Aliás, ao fazer de Rye os olhos do leitor, sem contudo dar a ela o dom de sequer narrar os acontecimentos que ocorrem à sua volta e seus processos mentais, Butler cria quase concretamente a ideia de inabilidade comunicacional, gerando essa sensação de limitação no leitor. Notemos que Rye pode falar. As faculdades afetadas nela foram outras. E, mais do que isso: embora o narrador seja onisciente, os únicos pensamentos que ele pode expor são os da protagonista, reforçando a ideia de que seria Rye a real narradora – de forma efetiva e verbal -, não fosse a situação de incomunicabilidade vigente. Esse artifício narrativo parece usado para reforçar a sensação de impotência perante a tão estranha doença.

O conto já é iniciado de forma curiosa, quando o narrador não demonstra, ao falar do conflito que ocorre dentro do ônibus onde está a protagonista, nenhum tipo de estranhamento diante do fato nada corriqueiro de homens que agridem um ao outro, dando início a uma grande briga, não conseguirem se comunicar verbalmente de forma compreensível.

É curiosa a abordagem que Octavia Butler faz do problema / doença, uma vez que não existe uma preocupação em saberem-se ou explicarem-se as causas que podem ter tido como consequência a doença da comunicação.

Os efeitos da doença, descritos em Speech Sounds, seriam de proporções globais, embora a autora não vá muito além neste mérito:

“As it swept over the country, people hardly had time to lay blame on the Soviets (though they were falling silent along with the rest of the world).”

Quando Butler fala do “resto do mundo”, aponta a possibilidade de uma situação de pandemia: descrita como uma doença ou condição que afeta uma enorme parcela da população. Muitas pandemias atacaram a humanidade em diferentes épocas; as piores conhecidas foram a Malária, a Aids, a Cólera e a Gripe Espanhola.

Doenças que se espalham rapidamente e afetam números grandes de vítimas são dificilmente controláveis e, esse panorama preocupante, pode gerar nas pessoas um sentimento – tão contagioso quanto a doença – de completo caos.

Explica-se no conto que as pessoas sofrem com diferentes sintomas: algumas perdem a capacidade de falar, outras já não sabem ler, algumas não mais escrevem e há aqueles que morrem em razão da moléstia. Mas, ainda assim, não há um perfil profilático do evento. De forma alguma há a citação de um vírus, uma bactéria ou um desastre natural ou químico que possa ter vindo a causar a catastrófica torre de babel moderna.

Layout 1E essa não informação, ou falta de preocupação com as origens do problema, remete ao livro escrito pelo autor português José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira. No citado livro, temos a exploração crua das consequências de uma pandemia de cegueira – uma cegueira leitosa que rouba do indivíduo a luz, não pelas trevas, mas pela total imersão na cor branca – que transforma o mundo num completo caos. No entanto, assim como Octavia Butler, Saramago não se ocupa em demasia de que razões podem haver levado a humanidade a padecer da moléstia, mas sim dos resultados ocasionados pela perda de uma faculdade tão fundamental – a visão, no caso de Ensaio Sobre a Cegueira – por parte das pessoas, e a reação social frente ao quase completo quebramento das instituições e leis. Da mesma forma, a autora de Speech Sounds não se atém ao fato que gerou o problema, mas que problemas foram gerados por um fato desconhecido: a perda progressiva da humanidade (as características que faz cada pessoa um ser humano, dotado de faculdades humanas e morais “refinadas”) à medida que a língua se perde e torna-se cada vez mais distante daquela realidade. Talvez quisessem ambos os autores discutir não uma pandemia, mas o comportamento humano quando inserido na vida coletiva e colocado sob condições extremas, questionando, assim, até onde vai a força da organização social.

Mesmo diante da perda de valores e do desapego crescente à vida (própria e alheia), há em Speech Sounds uma noção que chama a atenção de quem lê: há a consciência (ao menos em Obsidian e em Rye) de que a concepção dentro daquele contexto conturbado – praticamente “apocalíptico” – seria mais do que inadequado.

Embora não haja apreço com relação à vida – isto fica claro quando Rye encontra as duas crianças e cogita deixá-las sozinhas, jogadas à própria sorte, que provavelmente as levaria à morte – existe uma preocupação quase antitética com relação à geração de novas vidas.

Há que se ressaltar o questionamento a respeito da organização da sociedade no contexto do conto. Longe estamos de uma utopia, como se faz claro, posto que a utopia prevê uma idealização do “estilo de vida”. Aqui, temos justamente o contrário: não existe uma situação idealizada, mas um modo de vida perigoso, complicado e penoso, em que a perda – da identidade, de bens materiais e de pessoas amadas – é iminente. Poder-se-ia então classificar esta história como sendo uma distopia. Mas até que ponto o conto Speech Sounds poderia ser considerado um conto distópico, considerando-se que não temos um panorama social organizado em camadas dadas por uma hierarquia; tudo o que se tem é a defesa da própria integridade por meio da força bruta. Uma distopia requer algum grau de organização entre os indivíduos, uma forma de poder, centralizado ou não e regras mínimas de sobrevivência a serem seguidas como leis.

George Orwell and 1984 Quotation

Curiosamente, temos em Obsidian uma tentativa de reimplantação de uma estrutura balanceada, uma vez que o (ex) policial tenta manter a ideia de ordem, ao vestir ainda seu uniforme e passar o seu tempo tratando se “ajustar” às coisas. No entanto, ainda assim, não há ordem ou formação de estrutura social. Assim sendo, seria próprio classificar este conto como uma distopia? Talvez o mais adequado mesmo seria crer neste conto como o demonstrativo da desfragmentação da evolução do homo sapiens; uma desfragmentação tão intensa que Rye chega a comparar as crianças que encontra como futuros “símios sem pêlos”, dada sua observação do ruir do mundo a seu redor.

Não à toa, aliás, Rye tem esse pensamento sombrio acerca do futuro das crianças. Em seu conto, Butler, talvez não por acaso, coloca a linguagem como base para a sociedade e como instrumento cognitivo (para a organização de ideias e compreensão de questões básicas ou complexas). Essa ideia de linguagem como instrumento de formação cognitiva era já defendida por Vygotsky, conforme podemos ver no trecho do livro Linguagem e Cognição: As reflexões de L.S. Vygotsky sobre a ação reguladora da linguagem (Morato, Edwiges, editora Summus, 2002, SP):

“Se o mundo se nos apresenta simbolicamente, parece intuir Vygotsky, não há possibilidades de conteúdos cognitivos integrais de linguagem fora dos processos interativos humanos. Assim é que a linguagem surge, para ele, num primeiro momento como construção da atividade consciente, e depois (num sentido reflexivo), como seu instrumento – o que coloca Vygotsky entre os que relacionam internamente, linguagem e pensamento.”

Encontramos também a ratificação dessa ideia no livro 1984 escrito pelo consagrado autor George Orwell, em que a “novilíngua” (mais sobre ela neste artigo) – sistema linguístico progressivamente restritivo vigente naquele universo – torna-se cada vez mais limitada, com o intuito de cercear o pensamento dos membros do partido externo, impedindo o desenvolvimento de ideias críticas.

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A partir desses pensamentos, não é difícil imaginar que o foco de Butler seja realmente enfatizar a importância da língua na concretude da estrutura social por nós montada, usando as vestes de um conto de ficção científica para tal intuito.

Consideremos também a ideia de animalização do ser humano à medida que as pessoas mantém fortemente a necessidade de satisfação de seus desejos sexuais, enquanto a intelectualidade deteriora-se mais e mais. Também a violência é um sinal desta perda de ética/moral inerente ao homem, posto que já há não há freios, em Speech Sounds, para atos de natureza hedionda como espancamento, estupro e até mesmo assassinatos. A violência e o sexo, instintos humanos primitivos, afloram diante do desgaste das relações interpessoais.

blindness_01Speech Sounds é um conto de ficção científica, que trata do caos humano e a busca  por uma renovação. O fato de Rye encontrar crianças saudáveis e tomar a decisão de tornar-se guardiã delas é uma indicação não só de esperança renovada para a humanidade – o resgate da possibilidade de um futuro – como esperança para Rye. Mais que isso, o conto de Octavia Butler pode ser lido como uma ficção científica feminista, pois, vemos que apenas a mulher – Rye – é capaz de falar, com exceção do menininho saudável que aparece ao fim do conto.

Dessa forma, no conto de Octavia Butler, a autora enfatiza a perspectiva das reações humanas, destruindo, por meio da capa ficcional, as camadas que estruturam os estratos sociais, tocando fundo em princípios morais e éticos, desnudando, assim, os instintos primitivos do homem. A perda da mais básica capacidade de interação interpessoal trata de desumanizar as pessoas, como expõe Butler, tornando-as um caos em si mesmas e criando a desordem no meio que as cerca.

Leia Speech Sounds e outros contos de Octavia Butler neste link (em inglês).