[LIVRO] Um Martini com o Diabo, de Cláudia Lemes (resenha)

A imigrante irlandesa Loreen, com medo do criminoso que seu filho, Charlie, poderia se tornar, caso ele continuasse a se comprometer com membros da máfia irlandesa, decidiu contar sobre sua relação com o pai do garoto. Quando Loreen tinha aproximadamente a idade atual de seu filho, 18 anos, engravidou, após sofrer constantes abusos sexuais do italiano Tony Conicci em Nova York (e apanhou do mesmo por conta disso). A reação de Charlie foi diferente do que a mãe esperava, já que ele se alimentou de ódio e decidiu vingar-se do pai, em vez de motivar-se a seguir um destino ético.

Um Martini com o Diabo conta, então, o que deveria ser uma história da vingança de um filho descendente de irlandeses contra um pai, chefe da máfia italiana nos Estados Unidos. Charlie planejou mudar-se para Las Vegas – onde Tony possuía um cassino chamado Bayside –, infiltrar-se na máfia com uma nova identidade e, por fim, assassinar o seu alvo.

Mas a maneira fria, suja e violenta como conseguiu chamar a atenção dos italianos deixa claro, desde o começo, que Charlie está longe de ser uma pessoa com nobres intenções. Unida ao dinheiro fácil vindo de pequenos serviços violentos, a noites com prostitutas e à ligação camarada com mafiosos numa posição de prestígio na sociedade, essa sua personalidade logo corrompeu o objetivo do jovem. Além disso, Charlie se viu acolhido por amigos e por uma figura paterna, que dispensaram a carência de sua vida e atiçaram seu orgulho e desejo de poder, condições muito mais satisfatórias do que uma vingança suicida.

Que plano? O que você deveria ter seguido desde que entrou na vida de Tony e tem adiado há anos? Está enganando a si mesmo, Charlie. Seu plano nunca foi matá-lo. […] Se fazendo de justiceiro, vestindo o uniforme previsível e patético do vingador da mamãe, quando na verdade só queria o que acha que é seu por direito, como um menino mimado: um lugar na mesa ao lado do pai.

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Book trailer de Um Martini com o Diabo:

O livro relata a jornada de Charlie como mafioso ao longo de mais de uma década, após passar oficialmente a fazer parte da família Conicci como soldado (capanga). Num contexto de prosperidade nos primeiros anos, e de posterior tensão por conta da ação dos agentes do FBI e do conflito com outras famílias, a trama narra uma sucessão de desdobramentos e revelações que influenciam na decadência pessoal de todos que estão, de alguma forma, ligados à máfia italiana de Las Vegas. Um mundo em que as farsas por trás dos anos de glória conduzem à destruição e morte.

Entre gozos e embriaguez, aos poucos Charlie se depara com reveses cada vez mais sérios, que se opõem às tantas vantagens de fazer parte da máfia italiana e que o distraem de seu antigo desejo de vingança. Um dos destaques do livro é o retrato de sensações, pensamentos e emoções de Charlie, como os efeitos da droga, do amor pela prostituta do cassino e dos danos psicológicos causados por um assassinato. Apesar de suas atitudes precipitadas, é inevitável querer o bem do protagonista diante de seus conflitos internos. Charlie demonstra certa aversão e arrependimento ao fazer algo mal. A aflição e a piedade atingem o leitor quando o mafioso passa por alguma dificuldade, mesmo com seu envolvimento em crimes tão sujos.

Você enterra um cara no deserto e consegue dormir à noite. Mas às vezes cinco, dez anos se passam e você ainda sente a areia em você. Você soca um cara a noite toda, revezando com seus amigos, com frieza, com objetividade… e dorme bem à noite. Mas aí um dia você sente os nós dos dedos doerem e se lembra dele. Essas coisas não vão embora. O sangue pegajoso nas mãos, que seca e cria uma resistência, que demora para lavar e mancha tudo, os gritos, os berros dos caras que você tá torturando, isso não vai embora. Isso vira parte de você e você se acostuma. O pior é que se acostuma. O pior é que vira rotina. Mas nunca vai embora […]

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Charlie, além de um imenso desejo sexual, vê nas mulheres um escape para a pressão presente na vida de gângster. Apesar de constantemente inferiorizadas pelos mafiosos, duas personagens femininas possuem um protagonismo na trama e um impacto inegável na família Conicci e em Las Vegas como um todo: a dançarina e prostituta Rocket/Graeme, com quem Charlie mantém um amor selvagem e delinquente, e Marion, a esposa de Tony. As duas possuem semelhanças, como a beleza estonteante e a maneira como encontram em Charlie uma companhia que ameniza seus transtornos atuais e traumas familiares passados.

Os contratempos de ser um mafioso vão destruindo Charlie e as pessoas mais próximas a ele, e tudo passa, de alguma forma, pelas mãos de Tony, quem ele encara como um refúgio e que de certa forma sempre oferece o apoio e a confiança de que Charlie precisa para seguir em frente. Possessivo e egoísta, Tony manipula todos ao seu redor para cederem às suas vontades sem se darem conta, e usa suas ofertas como uma chantagem para mantê-los sob seu domínio. Porém, mesmo com toda a sua inteligência, o conflito entre as famílias abala intensamente a sua vida pessoal, que vai desde a necessidade de ter um filho para se impor diante de outros chefes, até um acidente de carro causado por um ataque a tiros supostamente cometido por uma família inimiga, os Bonini.

A escritora do livro, a brasileira Cláudia Lemes, apresenta uma trama de máfia italiana que conecta de maneira coerente e violenta diversos temas que podem ser relacionados ao gênero: assassinato, tortura, machismo, incesto, traição, vida na prisão, vícios, ciúmes, suicídio, estupro e até mesmo uma pitada de horóscopo. Com todo esse conteúdo, o livro possui um apelo bastante comercial. Não fossem tantos outros fatores necessários para isso acontecer, Um Martini com o Diabo conseguiria facilmente tornar-se um best-seller.

A escritora não recorre a uma linguagem rebuscada ou a uma narração muito detalhada para tornar a história profunda. Sua escrita é ágil, objetiva, e faz questão de abreviar para poucas palavras acontecimentos que pouco acrescentam à trama, de modo que apenas momentos de destaque sejam priorizados. Não há tédio durante a leitura, repleta de diálogos (e palavrões). É impressionante acompanhar tantos incidentes arrebatadores em um intervalo pequeno de páginas.

Um dente tinha desparecido. O lábio estava cortado em três lugares. Ambos os olhos inchados e negros. Ela olhou para o corpo. Não tinha ideia de onde suas roupas estavam. Seus olhos seguiram a dor que estava sentindo. As queimaduras na pele, que nunca paravam de gritar. As contusões pretas. As marcas vermelhas que o cinto tinha deixado. Ela virou o corpo lentamente e viu a pele em carne viva, as erupções sangrentas nas costas, bunda e coxas. As unhas estavam quebradas. Seus dedos crus.

Página 170

Essa prioridade também pode ser reparada na complexidade dos personagens. Enquanto aqueles com papel menor podem passar despercebidos (como o caporegime Frey, o soldado Petucci e empregados da mansão de Tony), os personagens de destaque possuem uma personalidade bem desenhada, intensa e particular. As situações extremas às quais são submetidos possibilitam mostrar suas diversas facetas, que, ainda que radicais, são relatáveis. Meu sentimento de empatia foi levado à tona o tempo todo, e não apenas por Charlie, Rocket, Marion e as vítimas da máfia – eu me peguei torcendo pelo triunfo até mesmo de Tony.

Além dos personagens eletrizantes e da trama tensa, a construção de ambientes também foi escrita com primazia e dá ao leitor a sensação de estar vivenciando a brutalidade de Las Vegas. Areias do deserto com cadáveres, boates escuras com garçonetes e dançarinas seminuas, e mansões de luxo compõem cenários cinematográficos, que se remetem à ostentação e à soberba daqueles que os frequentam.

Tudo lá era escuridão no começo. Enquanto os olhos dele se acostumavam, ele absorvia o palco que se espalhava pelo recinto, em forma de gotas que se esticavam para várias direções, marcadas com postes em cada ponta. Ao redor das pontas, cadeiras e mais cadeiras de homens de todas as idades e classes sociais. Havia quatro strippers, uma em cada gota, rebolando, mexendo os ombros, fazendo caras e bocas. Charlie não olhou demais, não queria levar uma bronca de Viking, mas olhou o suficiente para entender que eram lindas, que dançavam bem e que os homens sangravam dinheiro em cima do palco. Não era um lugar dos mais vulgares, mas também não era um show caríssimo de dança burlesca. O Sunset Peach era algo entre esses dois extremos: um lugar que aceitava democraticamente um pai de família, um jovem de férias e um pervertido que tinha preferência por colegiais.

Página 59

[…]

Dirigiu pelas ruas de Vegas, sentindo-se em parte coproprietário delas. Era uma cidade que nascia à noite, vibrava com o som dos caça-níqueis e cheirava a corrupção da alma humana. Era sem dúvidas a cidade do pecado, capaz de comer vivo tanto um apostador experiente quanto um novato. Cassinos cuja decoração parecia ter sido feita de forma que cada decorador escolhera uma parte distinta: um show de horrores de metal, tecido, couro e madeira, de todas as cores, estampas e estilos. E de alguma forma funcionava, dava certo.

Via as pessoas nas ruas, os turistas deslumbrados, os homens distribuindo panfletos de shows de strip, as prostitutas em casacos de pele falsa e saltos altíssimos, os rapazes embriagados com as possibilidades que só aquela cidade oferecia. E o coração apertou quando se lembrou da mãe, aquela baixinha de temperamento dócil com a força de mil espartanos, aquela mulher que cuidara dele com um amor quase brutal. Empurrou a dor para algum lugar fundo dentro de si e estacionou em frente ao prédio de dois andares em forma de U no qual Viking morava.

Página 71

Junte esses locais a episódios chocantes, a uma trama bem delineada e realista e a personagens que são capazes de tudo para alcançar seus desejos. Não tem como não ficar envolvido com a história desde o seu prólogo. As constantes mudanças na vida de Charlie expõem as transformações psicológicas pelas quais um garoto ingênuo que vomita ao enterrar um vendedor de drogas passa ao tentar se adaptar à sedutora nova realidade de mafioso. É um homem precipitado, emotivo e muito instigado pelos relacionamentos que o cercam: o companheirismo de Viking mostra seu lado sensível, a brutalidade de Fabricio o faz repugnar a injustiça praticada pela máfia… e a persuasão de Tony corrói sua vontade de voltar para uma rotina normal ao lado de sua mãe por explicitar as reviravoltas de uma vida na máfia que, queira continuar ou não com ela, não abre margens para escapatória. Vegas gruda, Vegas fica.

 


Editora Empíreo

Brochura

22,8 x 15,6 x 2 cm

333 páginas

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