[LIVRO] Um Estranho Numa Terra Estranha, de Robert A. Heinlein (resenha)

Filho de cientistas terráqueos em expedição no planeta Marte, Valentine Michael Smith perdeu seus genitores muito cedo, e foi criado e educado pelos nativos daquele mundo. Já adulto, ele foi levado de volta para o planeta natal de seus pais. Esta é a história de como Mike conheceu a humanidade.

Não é à toa que Um Estranho Numa Terra Estranha é considerada uma das obras-primas de Robert A. Heinlein. Suas quase 600 páginas são diretamente proporcionais às questões que levanta, e ao quanto elas nos fazem pensar a respeito de nossas crenças, ideologias, comportamentos e estruturas sociais.

A divisão de sua trama é bem curiosa. A 1ª parte gira em torno da enfermeira Gillian (Jill) Boardman e do jornalista Ben Caxton, que se envolvem numa trama de conspiração governamental e espionagem, enquanto tentam ter acesso a Mike, que é mantido preso num hospital sob o controle de militares subordinados à Federação Mundial de Estados Livres, após ser trazido para a Terra. Ele aparece pouco no primeiro terço do livro, sendo mais um objetivo perseguido por Jill e Ben do que um personagem.

Mesmo aparecendo pouco no início, o comportamento alienígena de Mike foi muito bem definido por Heinlein neste trecho. Em suas primeiras participações na história, ele chama atenção tanto por sua dificuldade de se expressar em inglês (língua original do livro), quanto por suas técnicas de meditação, que ele usa como defesa psicológica, “compartimentando” sua mente em níveis distintos a fim de ocultar a maioria deles em camadas mais profundos de sua psique. A forma como Heinlein descreve os processos mentais de Mike é um dos pontos altos do início do livro.

O autor também soube contrapôr a ingenuidade de Smith à mesquinhez burocrática dos jogos políticos que o mantém aprisionado no hospital onde Jill trabalha. É esta situação que arma o conflito dela e de Ben contra a Federação Mundial de Estados Livres (uma espécie de ONU futurista), que move a parte 1 da história.

Nela também há uma nada disfarçada crítica à classe política. Heinlein aponta para a fragilidade e mediocridade de alguns políticos, ao definir que Joseph Douglas, o secretário geral da Federação, é submisso à esposa, que por sua vez guia suas ações com base nos conselhos que recebe de sua astróloga (!). É uma caricatura, que combina com o tom satírico de boa parte do texto da obra.

Mais adiante, um quarto personagem importante, tão excêntrico quanto Smith (e até mais magnético que ele, vale dizer) entra na trama: Jubal E. Harshaw, o “bacharel em direito, doutor em medicina, doutor das ciências, bon vivant, gourmet, sibarita, autor popular extraordinário e filósofo neopessimista […]” (p. 115). Jubal é um patriarca machista, mas muito divertido, cujo jeito de falar conquista nossa simpatia pela determinação e assertividade com que diz cada palavra. Eis um homem que exala confiança e carisma, apesar de todos os seus defeitos e extravagâncias. Sim, às vezes ele trata suas secretárias como “objetos”, mas há carinho no modo como as respeita sem abusar delas, que por sua vez se organizam para servi-lo e se ajudarem nesta tarefa.

Jubal tem uma atitude paternal com relação a todos que acolhe em seu lar, o que ajuda-o a conquistar nosso respeito, simpatia e admiração. É um senhor cínico, inteligente e sempre disposto a encarar de frente os “donos do poder”, o que o torna um dos “motores” da trama, posto que Jill e Mike são personagens mais passivos, embora igualmente carismáticos (mas não tanto quanto Jubal). E é dele uma das melhores análises da personalidade de Mike:

“Sua impressão imediata era de que Smith era legalmente insano e, do ponto de vista médico, psicopata sob todos os padrões normais, a vítima de uma psicose situacional dupla de extensão única e monumental, primeiro por ter sido criado por não humanos, segundo por ter sido atirado numa outra sociedade alienígena.”

Página 125

Com Jubal, temos um quarteto de personagens transgressões, dispostos a se voltar contra o governo e suas intrigas (mais adiante somos apresentados a outros, mas não tão atuantes quanto eles). Paralelo a este conflito, acompanhamos o drama de Mike, um “primo distante” de “Mogli” e “Tarzan“, retirado de seu planeta adotivo e levado ao mundo natal de seus pais.

Durante a leitura de Um Estranho Numa Terra Estranha, foi inevitável pensar em O Homem que caiu na Terra (que resenhei aqui). Há uma semelhança entre as obras na forma como seus autores trabalharam seu personagens-título, quase como se uma fosse a “continuação temática” de outra (neste caso, a segunda, que é posterior à de Heinlein). Por exemplo, enquanto em O Homem que caiu na Terra tínhamos um alienígena tentando salvar a humanidade de si mesma, preservando seus recursos naturais, em Um Estranho Numa Terra Estranha testemunhamos a forma religiosa com que Mike vê a água, por vir de um planeta tão escasso desse recurso natural como Marte. Um bom observador nota o alerta sutil de Heinlein para quão pouco valor já dávamos na década de 60 a um recurso que muitos ainda se iludem acreditando que seja inesgotável.

O livro começa a mostrar a que veio a partir da 2ª parte, quando Jubal decide aprender mais a respeito dos poderes de Mike. É deste ponto em diante que o Homem de Marte passa a interagir mais com os outros personagens, e descobrimos mais peculiaridades de seu comportamento, e mais vislumbres da cultura marciana por intermédio dele. O trabalho de Heinlein é genial, desde a construção dos diálogos, que apresentam, no caso de Mike, erros gramaticais que levam em conta sua adaptação à língua inglesa, passando por sua dificuldade em compreender conceitos inexistentes na sociedade marciana, que o educou e moldou sua mente e comportamentos.

Um ponto que chama muita atenção – até pelo quanto Heinlein o enfatiza na obra – é a visão de Mike a respeito da mortalidade, assim como a revelação de que os marcianos praticam um tipo de canibalismo ritual, sob a justificativa de não desperdiçarem os restos mortais dos entes desencarnados. Tudo isto pode chocar uma sociedade que desenvolveu repulsa a quase todo o processo natural da morte de um corpo (mais sobre isto no excelente Confissões do Crematório, resenhado aqui), mas para Mike é algo muito parecido com os ritos fúnebres de algumas tribos indígenas de nosso mundo.

O canibalismo ritual, aliás, é tema de um dos capítulos mais interessantes do livro, onde Jubal e Duke debatem sobre quão civilizada, ou não, é tal prática, na óptica de Mike. Todo o texto carrega em si uma bem exposta lição sobre preconceito e a construção de crenças que julgamos “naturais” (quando elas não são). Heinlein foi cuidadoso ao não citar nominalmente nenhuma religião, mas fica claro qual ele usa como exemplo de “canibalismo simbólico”, para reforçar o argumento de Harshaw, quando tenta provar a Duke que não estamos tão distantes quanto gostaríamos dos povos que praticam o canibalismo “literal”.

Também é digno de nota a decisão de Heinlein estabelecer que o conhecimento é holístico na cultura marciana, não existindo, assim, separações entre conceitos humanos, como filosofia, religião e ciência. Isto gera uma dificuldade a mais para Mike compreender a sociedade humana e seu conhecimento analítico, por vir de um mundo onde sequer há palavras para categorizar tais conhecimentos. Isto rende alguns dos trechos mais interessantes do livro, quando Heinlein descreve as interpretações do que Mike está testemunhando. Dá realmente pra sentir que estamos entrando em contato com uma mente alienígena através de seu texto.

Aqui acho importante salientar que a maior parte do livro é composta por longos diálogos entre os personagens. Para que isto funcionasse em português foi essencial o trabalho de tradução de Edmo Suassuna, que o fez excepcionalmente, adaptando pra nossa língua a cadência quase frenética das falas de Jubal, e o jeito estranho e alienígena de Mike se expressar usando uma língua que ainda está aprendendo a usar. Tudo isto foi levado em conta por Edmo, que tornou a leitura tão fluída e prazerosa quanto possível. Heinlein, por sua vez, imprimiu personalidade nas falas de cada um dos integrantes do elenco, sendo possível deduzir maneirismos e gestos, entonações e feições, mesmo quando não são descritos pelo texto. Esse é aquele tipo de livro que você lê sem cansar-se.

A sofisticação de Um Estranho Numa Terra Estranha não reside nos conceitos de ficção científica imaginados por Heinlein, mas nos diálogos que discutem, de maneira quase trivial, questões filosóficas, políticas, religiosas, sociais e científicas, enquanto tenta desvendar Mike e a cultura que o adotou, ao mesmo tempo que ele tenta entender a nossa. Aliás, é curioso como, alguns anos depois, Stan Lee usou uma abordagem semelhante, porém mais pop e visual, em sua curta e memorável passagem pela primeira série solo do Surfista Prateado, quando, partindo do ponto de vista alienígena do herói solitário, questionou e refletiu a respeito dos problemas humanos. Heinlein é um pouco mais profundo em seu enfoque – como é de se esperar de uma obra literária – e mais provocativo, estimulando no leitor a sede de questionar “verdades” tidas (ou vendidas) como incontestáveis.

Heinlein tem um jeito irônico de criticar a burocracia e suas camadas, que separam um cidadão “comum” de um ocupante de um alto cargo político. É algo semelhante ao humor de Douglas Adams. Heinlein, porém, é menos escrachado e mais sofisticado no uso do recurso, embora igualmente inteligente. Ele reserva os absurdos para quando descreve as ações da seita religiosa fictícia conhecida como fosteritas. Uma mistura de televangelismo com práticas ultraviolentas de baseball, que se assemelha às seitas descritas por Philip K. Dick em “Androides sonham com ovelhas elétricas?” (resenhado aqui).

Se antes de Jubal entrar na história ela já é interessante, após sua introdução, além de divertida, ela se torna mais dinâmica e instigante. Por intermédio dele, Heinlein aprofunda-se nas questões filosóficas, religiosas e científicas, graças ao desejo do médico / filósofo / milionário de entender a mente de Mike. Seus diálogos com o Homem de Marte estão entre os melhores momentos da obra, tirando proveito da dificuldade de Mike entender conceitos fundamentais da humanidade, como religião, criação, Deus, verdade e mentira, e a própria definição do que é o Homem, para investir nos questionamentos em torno do significado de tais conceitos, não só para um alienígena, mas, especialmente, para um ser humano. À sua maneira, Jubal é nosso representante na trama engenhosa de Heinlein.

Conforme Mike amadurece, seus poderes se desenvolvem e tornam-se mais variados, e sua maneira de assimilar o mundo e as pessoas fica mais distanciada e analítica, mesmo durante uma troca de carícias ou um ato sexual – quando parece manter uma porção de sua mente isolada e envolvida em confabulações consigo mesma a respeito das informações que reuniu para tentar “grokar” melhor o mundo e o comportamento dos terráqueos. Durante a leitura, foram muitas as vezes em que seu comportamento e o nível de seus poderes me remeteram ao Dr. Manhattan de Watchmen. Além disto, vale lembrar que, na graphic novel, Manhattan se exila em Marte. Portanto, não descarto a hipótese de Um Estranho Numa Terra Estranha ser uma das fontes de inspiração de Alan Moore. Embora Mike pareça envolver-se mais com Jill e os demais com o passar do tempo, sempre fica a sensação de um distanciamento entre ele e os demais que nunca cessa. Sua mente alienígena constantemente o deixa a um passo de tornar-se indiferente à vida humana, embora tenha muito interesse em “groká-la” em plenitude.

Numa altura da trama, Mike e Jill partem do “ninho” de Jubal, e passamos a acompanhar o amadurecimento do casal. Aqui entra outra ideia fascinante: a convivência com o Homem de Marte passa a afetar profundamente o comportamento e a mentalidade de Jill, ao ponto de ela livrar-se de vários preconceitos relativos à sua sexualidade, ao mesmo tempo em que se torna mais “alienígena” ao conseguir “grokar”, com algum distanciamento, a humanidade como uma coletividade da qual faz parte. Essa “mutação” da psique humana de Jill para uma psique semi-marciana preocupa Mike, visto que sua companheira é um dos “filtros” que ele usa pra entender a humanidade.

É depois que Mike parte com Jill para explorar o mundo que Heinlein escancara o papel do amor livre na trama. Filosofia que ele equipara a uma religião, ao usar uma amiga fosterita de Mike e Jill para defender as práticas dos adeptos da Revelação Foster, e sua pregação sobre o usufruto sem culpa dos prazeres carnais como presentes de Deus para nós, uma das formas mais diretas e literais de exercermos o “Amai-vos uns aos outros!”

A liberdade sexual é um tema que permeia todo o livro. Mike relaciona-se, em diferentes graus de intensidade e intimidade, com Jill e as três secretárias de Jubal. Isto foi abordado com “naturalidade” por Heinlein, devido à falta de preconceitos de Mike, que enxerga todos – homens e mulheres com os quais se envolveu – como “irmãos de água”. Isto os iguala aos olhos de Mike, que os vê como passíveis de “compartilhar”, ou seja, de ter relações sexuais com ele, pois o Homem de Marte encara tal prática como tão natural quanto comer e dormir, sem o filtro de tabus sociais por meio dos quais a enxergamos. É uma defesa bem clara ao “amor” livre, tão em voga nos anos 60. Não foi à toa que Neil Gaiman definiu o livro como “fundamentalmente dos anos 1950“, embora esteja bastante sintonizado com o zeitgeist da década seguinte, demonstrando quão visionário foi Heinlein ao escrevê-lo (tanto que ele preferiu adiar seu lançamento por conta disto, conforme é explicado no excelente artigo de Ugo Bellagamba e Eric Picholle no final do livro).

Aliás, ainda falando sobre o papel da sexualidade na obra, é curioso como Heinlein, num momento, parece condenar os atos dos fosteritas, e em outro os interpreta com piedade e compreensão, salientando a carência afetiva que alguns, como Patty, buscam suprir através de rituais sexuais (ela, por exemplo, os vê como uma forma de “doar-se” para seus irmãos de crença, sendo esta uma expressão de seu amor e devoção). Patty se entregou tanto à religião criada pelo Reverendo Foster que deixou seu falecido marido tatuar todo o seu corpo com cenas representativas de vários momentos da vida de Foster, de seu nascimento à sua morte.

Chega a ser mais curiosos ainda os interlúdios em que Heinlein narra as ações de Foster e Digby – seu sucessor recém-desencarnado – num pós-vida onde o primeiro treina o segundo para ser um anjo. Numa trama que, em seu terço final, se mostra tão sexualizada, há um bocado de ironia nestes segmentos mais “espirituais” e transcendentes.

Um dos pontos decisivos do livro é aquele no qual Mike, enfim, sente-se como um humano, e entende uma fala de Jubal (“O homem é o animal que ri“). Este é um daqueles trechos marcantes de uma obra em que o leitor e o personagem compartilham do mesmo instante de epifania. É algo que vale a pena experimentar sem saber de que forma acontece. Direi apenas que é um dos muitos motivos que fizeram o livro ganhar tantos prêmios, e ser aclamado como uma obra divisora de águas e transformadora de paradigma.

É notório o quanto essa transformação de Mike está profunda e intrinsecamente ligada à religiosidade. Quando Mike se vê como o ser humano que deveria ser, ele sente-se conectado à sua espécie biológica, tão forte e afetivamente (re)ligado a ela que, logo após sua epifania, ele expressa a Jill a necessidade de transmitir isto para seus irmãos de água e de humanidade. Este é o início do conflito que marca o restante da obra. Antes disto há um fascinante diálogo filosófico entre Mike e Jill sobre automatismos comportamentais, e sobre o motivo pelo qual ele demorou tanto para assimilar sua própria humanidade, e enxergar-se como membro da espécie humana.

“Eu era como um cachorrinho criado longe dos cachorros, que não poderia ser igual aos donos, nem nunca aprendeu a ser cão. Então eu tive que ser ensinado. […]  Hoje recebi meu diploma… e ri.”

Página 401

ATENÇÃO: deste ponto em diante analisarei fatos que ocorrem nos capítulos finais do livro. Caso não se importe com spoilers, pode continuar a leitura.

A grande sacada de Heinlein foi descrever as ações de Mike sem qualquer traço de maldade ou egoísmo. Ele é a personificação utópica de um ser capaz de expressar bondade e amor tão plenamente que tal expressão tem um efeito hipnótico involuntário, pois seu amor e bondade são as chaves para abrirem as mentes dos adeptos de sua versão da Verdade, que só pode ser inteiramente compreendida e sentida após o aprendizado da língua marciana, que funciona como um decodificador de fatos que transcendem os condicionamentos sociais e individuais, que por sua vez tornam a maioria dos seres humanos escravos de ideias e crenças fragmentadas, incompletas e corrompidas pelo individualismo e egoísmo analíticos de seus pregadores. Mike representa figuras como Cristo e Buda, em seu modo humilde e aparentemente ingênio de expressar-se e interpretar conceitos e crenças humanos. Ele consegue enxergar além dos preconceitos humanos, justamente por vir de uma cultura totalmente alienígena que, ironicamente, é toda voltada para processos interiorizadores de apreensão e compreensão da realidade imediata e do universo, e sua relação com o Cosmos e suas inteligências, sejam estas locais ou alienígenas. Heinlein, por ser capaz de deixar tudo isto implícito e passível de interpretação dedutiva, não pode ser definido como nada menos do que um gênio do tempo em que esteve entre os encarnados da Terra.

Você pode discordar da filosofia praticada pelos irmãos de água de Mike, caso firam suas crenças pessoais. Mas, se você é o tipo de leitor que tenta manter-se aberto a novas perspectivas, várias das ideias defendidas por ele, e tornadas mais cristalinas num dos melhores diálogos do livro – aquele entre Ben Caxton e Jubal no fim da parte 4 – vão, no mínimo, levantar algumas questões. Devo advertir, ainda, que há o risco de inclinar-se a aceitar algumas práticas que, inicialmente, você julgava absurdas e imorais. Não pude deixar de admitir, em vários momentos, que a essência da crença de Mike oferece base para justificar a prática de nudismo social, poligamia e casamento comunal, pois todas elas são reflexo do conceito central da Igreja de Todos os Mundos fundada por Mike: “Tu és Deus”, uma paradoxal fusão do monoteísmo e do panteísmo, que defende a tese de todas as criaturas serem manifestações do Deus único, que também é coletivo, plural, individual, mas cuja individualidade é momentânea, até que a criatura conquiste consciência plena – no caso dos irmãos de água através do aprendizado da língua marciana, que é sinônimo de integrar-se / religar-se ao Deus no qual Mike crê, e que ele próprio é, assim como seus adeptos. Essa integração / religação, por sua vez, é um processo de inclusão social tão profundo que a personalidade do convertido é reconstruída praticamente do zero, e “substituída”, ou “transubstanciada” para um padrão supostamente mais elevado, no qual ele/ela é capaz de sentir-se em eterna e plena felicidade, ao ver-se como parte de uma entidade coletiva que manifesta o amor sem restrições impostas por códigos morais humanos, imperfeitos demais para abarcar o amor infinito que o Deus de Mike, e ele próprio, reserva àqueles que se entregam de corpo e alma à irmandade da água do Homem de Marte.

“Às vezes mal sussurravam. Depois podiam falar um pouco mais alto. Faziam isso num ritmo, num padrão, como uma cantata… só que não parecia ensaiado; passava mais uma sensação de que eram todos uma só pessoa, cantarolando o que tivesse vontade.”

Página 433

Através do ensino da língua marciana, Mike, atrai adeptos à sua Igreja de Todos os Mundos. É possível traçar um paralelo entre este método e o vírus metalinguístico de Snow Crash (mais sobre ele aqui), que iguala o ensino de uma língua à conversão de indivíduos a uma religião que prega amor incondicional e irmandade entre os “irmãos de água”. Neste caso específico, um amor sem restrições quanto à forma de expressá-lo, que pode ser tanto a prática de poligamia, bissexualidade, sexo grupal, até canibalismo ritual dos irmãos que desencarnam. Ben Caxton chama a religião de Mike de “comunismo marciano”, pois todos os adeptos dividem entre si suas posses e riquezas. Ou seja, não deixa de ser um comunismo utópico.

Tendo Mike como seu líder religioso, há um outro agravante: ele possui um magnetismo tão forte que poucos resistem à influência “virótica” de suas ideias (o que nos remete a grandes líderes da história da humanidade igualmente “magnéticos”, cujos resultados foram tão variados quanto desastrosos). As defesas físicas e, especialmente, psicológicas de seus irmãos são derrubadas ao ponto de, em pouco tempo, aderirem a práticas vistas pela sociedade como tabus, entre elas o nudismo e relacionamentos abertos.

Na reta final da obra, Mike converte-se numa entidade quase etérea, que poucas vezes se manifesta, mas cuja presença dissemina-se nas mentes daqueles que tornam-se adeptos de sua Igreja. O efeito disto é uma mente compartilhada formada pela quase-fusão de todos os convertidos, que agem como se estivessem o tempo todo em felicidade plena, que parece real pela maneira jovial e um tanto atrevida com que se comunicam. Mas, em essência, o comportamento de todos soa mais imaturo do que iluminado por uma compreensão profunda do universo. Aos meus olhos, me pareceu que Heinlein usou este fato para demonstrar os riscos de uma entrega tão completa a uma religião. Mike acaba tornando todos que se abrem para seus ensinamentos seres híbridos, que servem como “ponta de lança” dos marcianos na Terra. E somente no fim Mike se dá conta de que foi usado pelos alienígenas que o criaram para submeter seus seguidores à filosofia marciana, ao mesmo tempo em que enviava informações sobre a cultura terráquea para seus mentores alienígenas. É uma colonização sutil, em forma de religião, o que Mike opera na reta final do livro, sem que ele próprio se dê conta até ser tarde demais.

Outro feito literário de Heinlein ocorre no relato de Ben Caxton a respeito de sua visita à “igreja” de Mike. Nos capítulos dedicados a ele, seu texto nos bota na pele de um ser humano em seus esforços para compreender o funcionamento de uma cultura alienígena. Conforme eu ia avançando na leitura desse trecho, mais clara ficava a impressão de que Mike não estava apenas ensinando uma nova língua, ou pregando uma grande Verdade capaz de fazer com que seus adeptos se sentissem verdadeira e profundamente como irmãos, e partes de uma entidade coletiva e divina. Mike estava implementando um processo de colonização da Terra por marcianos, convertendo seus “irmãos de água” para o “comunismo marciano” com suas promessas de amor livre; uma vida sem doenças (um dos convertidos diz que aprendeu a curar seu próprio câncer com a força do pensamento); rejuvenescimento a partir da vivência de uma felicidade plena, capaz de operar milagres como materializações e desaparecimentos que desafiam a ciência. Mike passa a soar mais como um instrumento de dominação usado pelos marcianos do que como um messias com poderes divinos. Um instrumento que seduz com tamanha força, que a personalidade dos convertidos dissolve-se numa entidade coletiva “divina” que os leva a adotarem como cumprimento a sugestiva – e um tanto perturbadora – frase que ecoa ao longo de toda a obra: “Tu és Deus.” (aqui foi inevitável a lembrança da antológica cena de Crise Final, de Grant Morrison, na qual Darkseid domina a humanidade usando a Equação Anti-Vida – imagem abaixo) Uma reinterpretação de uma das afirmações mais enigmáticas e significativas de Jesus Cristo, aquele também conhecido como Filho de Deus, e como o próprio Deus encarnado entre nós.

Por tudo que expus até aqui, Um Estranho Numa Terra Estranha é uma ficção que merece o reconhecimento, pelos alertas que faz, e pelas provocações contidas no texto inteligente, irônico, ágil e perspicaz de Heinlein, que não economizou esforços na tarefa de induzir seu leitor a pensar tanto quanto Jubal em sua relação com Mike, um ser tão único, tão além das perspectivas humanas, mas que parece entender-nos mais profundamente do que nós mesmos. Você pode ver Mike como um novo Cristo, ou apenas como um alienígena disfarçado de humano tentando dominar o planeta pregando amor livre. Por trás de toda a grande história há grandes ideias, e este livro tem um bocado delas. Mas não se engane: Um Estranho Numa Terra Estranha não se enquadra apenas na categoria de ficção científica. Um dos maiores erros que você pode cometer é começar sua leitura encarando-o como tal. Aqui cabe um conselho: leia-o sem preconceitos, e sem tentar classificá-lo dentro de um só gênero, e tire suas próprias conclusões!

Um Estranho Numa Terra Estranha é um livro que reflete muito bem o aspecto multifacetado de seu personagem-título. É uma obra cativante e envolvente, que consegue fascinar e aprofundar-se em reflexões filosóficas, mas também perturbar por meio de algumas possíveis conclusões a que podemos chegar durante a leitura.


Editora Aleph

Tradução: Edmo Suassuna

Brochura

576 páginas

23 x 15,6 x 3,2 cm

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