[LIVRO] Turma da Mônica em Os Azuis, de Mauricio de Sousa e Elisabeth Teixeira (resenha)

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Espelho azul

Sinto muita alegria em poder escrever sobre um dos maiores representantes dos quadrinhos nacionais. Sempre tive imenso respeito por Mauricio de Sousa, não só pela sua posição importante de artista, por sua linguagem simples e acessível com a qual compõe as aventuras da “Turma da Mônica, capaz de atravessar gerações com belas mensagens, mas, também, por ser um dos mais proeminentes investidores, ou melhor, um verdadeiro mecenas da arte literária/gráfica nacional da atualidade.

Publicado caprichosamente pela Companhia das Letras, o livro ilustrado “Turma da Mônica em Os Azuis” é exemplo verdadeiro de expansão do universo mauriciano. A obra é adaptação de uma tirinha clássica publicada em 1971, na edição 15 da revista Mônica. Na melhor linguagem simbólica desde Esopo, passeando pelo gênero ficção científica, ela nos conta sobre o grande mal que parece ser permanente na condição humana: o preconceito racial.

Ilustrada pelas cores e traços finos da premiada artista Elisabeth Teixeira, a narrativa se inicia com uma misteriosa transformação dos habitantes da cidade – com exceção de Mônica – para a cor azul. E não só a cor é mudada, como também o comportamento da população: sem nenhuma causa evidente, as pessoas começam a discriminar os que não possuem o mesmo tom de pele passando a persegui-los. Deste estranho fenômeno se inicia a fuga de Mônica, que é injustamente acusada, inclusive pelos amigos, Franjinha, Cebolinha, Cascão e Magali, de ter a pele alaranjada como se fosse um crime.

Nesta fantástica fábula, Maurício nos chama a atenção para um dos mais complexos problemas do homem: a discriminação. Apesar de a história evidenciar especificamente a discriminação racial, sabemos bem que tal comportamento se estende para além de conceitos pré-concebidos a respeito de raça x ou y. Desde a infância, podemos perceber que há crueldade latente no homem, a vontade de delinear aquilo que é estranho e excluí-lo, senão, persegui-lo e destruí-lo. Tal comportamento original pode ser nutrido por má educação familiar ou ausência dela, pela inveja, por influência externa de más companhias ou por mera escolha (até pela combinação de todos esses fatores). No final das contas, aquele garotinho na sala chamado de esquisito poderá ser empurrado das escadas e sofrer tanto quanto o gordinho ou o amarelo, até mesmo por ser bonito ou mais dedicado aos estudos e se destacar entre os outros. Não é por acaso que os antigos já diziam que há maus gênios e bons gênios pousados em nossos ombros, sussurrando em nossos ouvidos. Ou lobos malignos e benignos lutando em nosso coração.

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Mais uma vez, Mauricio acerta em cheio e nos faz refletir: a luta por um bem-estar social vai muito para além de conscientização geral propagada por mera mobilização ideológica, mas é sim, uma luta interior eterna. Estaremos aprisionados, olhando para sempre aquele espelho multidimensional, como na história. Lá no fundo feito de vidro, nós sempre refletiremos essa indissolúvel luz azul que mora atrás de nossos olhos.


turma da monica os azuis companhia das letrinhas capaCompanhia das Letrinhas

Brochura

31,2 x 21 x 0,6 cm

48 páginas

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