[LIVRO] “Tubarão” de Peter Benchley (resenha)

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Um tubarão resolve transformar os banhistas de Amity, um balneário de Long Island, em seu banquete pessoal, aterrorizando turistas e afetando a economia local com seus terríveis ataques neste clássico de Peter Benchley republicado pela DarkSide Books.

Creio não ser preciso falar mais do que isto para apresentar Tubarão, obra que ano passado completou 40 anos, cuja adaptação para o cinema, dirigida pelo então novato Steven Spielberg, completará a mesma idade no próximo dia 20. Por isto comentarei sobre os vários méritos que tornaram o livro um sucesso de público e crítica, ao ponto de ser transformado em filme já no ano seguinte ao de seu lançamento.

O que se destaca no início do livro é o pleno domínio de Benchley sobre a narrativa. Nos dois primeiros capítulos ele apresenta o antagonista e o elenco principal, fluindo entre as subtramas de cada personagem com desenvoltura e elegância, ao mesmo tempo em que apresenta breves “biografias” deles, sem prolongar-se ao ponto de prejudicar o ritmo, que é bem agradável.

Benchley soube explorar muito bem todo o transtorno causado pelos ataques do tubarão, analisando o impacto deles sobre o pequeno balneário; os interesses por trás das tentativas de não divulgá-los; e o conflito enfrentado por Martin Brody, o chefe de polícia e protagonista do livro, que fica dividido entre exercer sua função primária de proteger as vidas dos turistas, e preservar a economia local escondendo deles a ocorrência dos ataques. Assim, o suspense torna-se mais rico e interessante de acompanhar.

Além de carregada de tensão e suspense, a primeira parte de Tubarão tem altas doses de terror. Por exemplo, o final do capítulo 2 é bem gráfico ao descrever o estado dos restos mortais de uma das vítimas do peixe. Uma cena que literalmente revira o estômago e pode dar ânsia de vômito se o leitor for muito sensível a violência explícita.

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É possível que a impressão deixada pelos primeiros capítulos seja a de que Benchley exagerou na dose de sangue e vísceras com o objetivo de nos chocar. Uma das sequências que podem nos levar a esta conclusão é a que relata a morte da segunda vítima. Mas não creio que seja este o caso. Pelo menos pra mim ficou claro que, para cada fatalidade, Benchley levou em conta a irracionalidade do animal. Apesar disto, é inegável o impacto causado pelo segundo ataque. A partir dele o livro fica mais eletrizante, a crise mais alarmante, e as ações dos personagens mais urgentes, contribuindo para que o leitor envolva-se mais com a história.

Semelhante ao filme de 1975, o livro também usa como artifício a velha máxima de que o melhor tipo de terror é aquele que pouco mostra do “monstro”, e concentra-se mais do efeito que sua presença causa em suas possíveis vítimas. Além disto, o enorme tubarão branco é um vilão perfeito e odiável, quase um serial killer, cujo único “padrão” é não “escolher” um só tipo de vítima. Isto torna-o até mais temível que a maioria dos assassinos “humanos”.

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Um dos melhores momentos de Benchley é a sequência que precede o fim da parte 2, e envolve Brody, jornalistas, e uma família de turistas na praia, enquanto um adolescente nada no mar, e se vê prestes a ser atacado pelo tubarão. O domínio do autor sobre o ritmo e as transições de cena é tão afinado, que você consegue facilmente imaginá-la como um filme de suspense bem decupado.

Infelizmente antes de chegar a esta sequência, o leitor tem que encarar o começo arrastado da 2ª parte do livro, onde Benchley preferiu explorar mais do cotidiano dos personagens, e dar um descanso para o tom de apreensão crescente da 1ª. Particularmente achei que o autor foi além do suportável num capítulo sobre um jantar na casa de Martin e Ellen Brody, que serviu mais para reforçar a insatisfação que ela sentia por sua vida amorosa, sendo uma quebra um tanto forçada do ritmo que a narrativa seguia até aquele ponto. E em seguida ainda temos que suportar mais dois capítulos inteiros dedicados às puladas de cerca da esposa do chefe de polícia, que não são a melhor forma de manter o interesse de um leitor que está mais curioso pra saber como Amity resolverá o problema do maldito tubarão que aterroriza suas praias. Resumindo: Benchley perdeu o foco na parte 2 do livro.

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Mas, se por um lado a traição de Ellen pouco acrescenta à trama principal, o envolvimento do prefeito com a máfia contribui para aumentar a urgência na resolução do problema causado pelo tubarão, que acaba personificando a ruína econômica e moral de sua cidade.

Pra não dizer que o adultério não serviu pra nada, na parte 3, Bencley até faz uso dele pra piorar a relação conflituosa entre Brody e Hopper, o amante da esposa, botando ambos no mesmo barco (literalmente) durante a caçada ao tubarão comandada por Quint. No terço final do livro toda a espera do trio pela aparição do peixe gera um cenário de tensão, especialmente entre o policial e o oceanógrafo, e combustível para o suspense, que deixa o leitor se perguntando se algum(ns) deles não voltará vivo da missão.

"Amigo, por acaso você viu um golfinho passar por aqui?"

“Amigo, por acaso você viu um golfinho passar por aqui?”

O pragmatismo e a objetividade de Quint são os elementos que mais se destacam na 3ª parte, além de divertirem muito, dando maior “leveza” ao ato final do livro, e um tom mais aventuresco a ele, mas sem abandonar totalmente os elementos de suspense e terror usados no primeiro terço da obra.

Já os confrontos físicos do trio com o tubarão se assemelham a batalhas contra monstros mitológicos, numa mistura de lendas marítimas com extrapolações de fatos científicos. Até Quint, o experiente lobo do mar, fica desconcertado diante da fera submarina. Olhar para sua bocarra é como encarar um abismo sem fundo que o encara de volta, algo que a capa da Limited Edition da DarkSide simboliza muito bem:

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Dá pra dizer que Tubarão é composto de três contos que se conectam pelo tema e os personagens em comum. A 1ª parte é uma história de terror; a 2ª é um drama familiar sobre crise de meia idade e adultério; e a 3ª é uma aventura sobre três homens lutando para sobreviverem a uma força incontrolável da natureza, e eliminá-la (se possível). Ouso ir além! Tubarão é a “versão peixe” do Godzilla, só que sem os “anabolizantes” radioativos.

Benchley já ganha alguns pontos do leitor na introdução, escrita em 2005, onde ele admite que desconhecia muitos fatos sobre o comportamento real dos tubarões quando o escreveu, e que o peixe do livro é apenas uma versão demonizada do animal verdadeiro, um “monstro de Frankenstein” reencenando vários casos reais de ataques de tubarão numa só ficção. Além disto, não deixa de ser uma feliz ironia do destino que Benchley, cujo sucesso deveu, em parte, ao animal, passou suas últimas décadas de vida como um ativista lutando pela preservação da espécie. Belo ato de redenção, que vale mais do que quaisquer méritos de sua obra ficcional.

tubarao_limited_edition webSobre o trabalho editorial da DarkSide Books, Tubarão segue uma tradição da editora ao publicar livros que foram adaptados para o cinema, que novelizaram algum longa metragem, ou que documentaram alguma produção cinematográfica: lançar duas versões da obra. Portanto, Tubarão ganhou uma Classic Edition (à esquerda), que além de reproduzir o clássico pôster original do filme de 1975, ainda conta com uma “sobrecapa híbrida” desdobrável e dupla face (não sei o nome técnico exato, mas vou chamá-la assim) e encadernação em brochura; e uma Limited Edition com capa dura (à direita), com encadernação costurada, e uma ótima desculpa pra você tirar fotos maneiras como esta:

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O livro está disponível para compra nas seguintes livrarias:

E, como dito acima, a DarkSide Books também lançou outros livros relacionados a clássicos do cinema, além de já possuir um rico catálogo de livros de terror, fantasia e drama. Conheça-os acessando o site da editora, curta seu Facebook , siga seu Twitter e assine seu canal no YouTube. Garanto que valerá a pena! 🙂

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