[LIVRO] Trilogia Executores #1: CORAÇÃO DE AÇO, de Brandon Sanderson (resenha)

A série Executores, de Brandon Sanderson, gira em torno dos Épicos, seres humanos comuns que ganharam superpoderes depois do misterioso aparecimento no céu de um fenômeno nomeado Calamidade. Eles possuem um ou mais superpoderes, assim como fraquezas capazes de anular suas habilidades e derrotá-los. Esse poder corrompeu boa parte dos Épicos, que se tornaram pessoas odiosas e cruéis. Os mais poderosos começaram a conquistar e se apropriar de territórios e a submeter os cidadãos comuns às suas vontades. O foco do primeiro livro da trilogia, lançada pela Editora Aleph, é o que se passa na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, tomada pelo temido Coração de Aço.

O prólogo apresenta o incidente em que o protagonista David Charleston (aos oito anos de idade) e seu pai estavam em um banco, e um Épico iniciou um ataque em massa contra os funcionários e clientes ali presentes. Esse primeiro Épico é bem tosco: Dedo da Morte, que aponta seu dedo para as pessoas e transforma o corpo delas em cinzas, com exceção de ossos e acessórios. Porém, garanto que ele é uma exceção, e que os diversos outros apresentados possuem nomes e poderes muito mais interessantes, como o próprio Coração de Aço. Este, além do físico incomumente musculoso, da invencibilidade a qualquer tipo de ataque físico e da capacidade de voar, consegue transformar coisas inanimadas em aço, e expelir de sua mão uma energia de luz amarela que vaporiza/explode/arde aquilo que atinge.

Para impedir Dedo da Morte de demonstrar domínio sobre uma cidade que agora seria sua, o Alto Épico invadiu o banco. Enquanto o mesmo estava distraído atacando os soldados que nele atiravam (sem efeito algum), Dedo da Morte aproximou-se por trás para atacá-lo. O pai de David, com sua esperança de que Coração de Aço fosse bom e diferente dos demais, disparou contra o Épico Menor. Mas Coração de Aço, apesar da impossibilidade de ser ferido, estava com uma linha de sangue abaixo do olho, por conta do tiro que raspara o seu rosto antes de atingir Dedo da Morte. Sua fraqueza havia, de alguma forma, sido alcançada pelo pai de David.

Com sua fúria, Coração de Aço atirou no homem com a própria arma que o atingira. Para manter o segredo de que conseguiram atingir a sua fraqueza naquele dia, e para aniquilar as possibilidades de as pessoas desvendarem sua fraqueza com base no que viram, lançou-se acima do banco para destruí-lo, e matar todos que tentassem sair dali. Nesse momento, David atendeu à ordem de seu pai, ainda vivo, apesar de seu estado de emergência, e escondeu-se no cofre do banco. O garoto foi resgatado horas depois e conseguiu escapar vivo, a tempo de avistar uma Épica, chamada Falha Sísmica, que servia a Coração de Aço, abrir o chão e aterrar todos os destroços do banco debaixo da terra.

Assim, David tornou-se a única testemunha viva da fraqueza de Coração de Aço.

Dez anos se passaram. Naquela noite, o Alto Épico havia transformado a maior parte de Chicago em aço. Nesse período de governo, cavaram-se ruas no subsolo de aço da cidade, e um Épico chamado Punho da Noite eternizou a escuridão no céu, de modo que não havia mais distinção entre dia e noite na cidade. Mas, por mais difícil que fosse a vida em Chicago, seus habitantes ainda podiam contar com alimentação, eletricidade e segurança – apesar da liberdade dos Épicos para martirizarem ou assassinarem pessoas comuns sem dar nenhum tipo de explicação. Enquanto isso, em outros lugares sem um governo estabelecido, havia disputas bélicas entre Épicos pelo domínio de territórios, e quem sofria com todas as atrocidades e limitações propostas por esses conflitos era a população. Mesmo que péssima, a vida em Nova Chicago ainda era muito superior a outras partes dos Estados Unidos.

David passou boa parte desse tempo em um local chamado de Fábrica, que servia às crianças comida e abrigo em troca de trabalho. Motivado pelo assassinato do pai e pelo arrependimento em tê-lo abandonado no chão do banco, comprometeu-se a embarcar em uma jornada de vingança para derrotar Coração de Aço. Por conta disso, desejou vigorosamente unir-se aos Executores, um grupo de pessoas com o objetivo de matar todos os Épicos. David, com sua obsessão em estudar tanto os Épicos quanto os Executores, descobriu que, certo dia, essa equipe atacaria Fortuidade, Alto Épico capaz de ver o futuro com uma certa antecedência (que o permitia prever e desviar-se de tiros, por exemplo) e de pressentir o perigo. No intuito de chamar a atenção dos Executores e se unir a eles, David decidiu intervir no ataque para ajudá-los.

Fortuidade correu para a frente. Eu podia vê-lo me encarando, os lábios crispando-se em desprezo. Ele era um monstro – eu tinha documentado mais de uma centena de assassinatos ligados a ele. E, pela expressão em seu rosto, ele pretendia acrescentar meu nome a essa lista.

Página 48

Essa primeira cena de ação, mesmo que as próximas sejam ainda melhores, já proporciona uma leitura excitante, que não deixa o leitor perdido no que está acontecendo, e que envolve uma série de imprevistos, muito característicos desse livro. O autor forja situações aparentemente sem saída, mas consegue desenvolvê-las e solucioná-las com reviravoltas impressionantes.

O grupo dos Executores é composto por: Prof, o líder; Megan, uma garota da idade de David e membro mais recente; Thia, a intelectual da equipe; Abraham, responsável pelo armamento pesado; e Cody, atirador do apoio de fogo.

Depois que optara por não abandonar David, o garoto, para ter chances de ser recrutado, revela que já havia visto Coração de Aço ser ferido. Aos poucos, sem um recrutamento formal, David começa a fazer parte dos Executores, e opina que era necessário atacar não apenas Altos Épicos sem tanta culpa, mas, sim, aqueles diretamente responsáveis pelas atrocidades cometidas contra a população. Para atrair a presença de Coração de Aço, e ter a oportunidade de derrotá-lo, David sugere que o grupo deve forjar a falsa impressão de que um novo Épico, chamado Holofote, pretende tomar o lugar de Coração de Aço e vir até Nova Chicago com tal finalidade.

Partindo dessa premissa, os Executores passam a estudar as possíveis fraquezas de Coração de Aço e planejam atacar os Épicos aliados a ele para chamar a sua atenção. Consideram até mesmo atacar lugares estratégicos da infraestrutura da cidade, de modo a convencer que todas essas manifestações partiram de agentes de um mesmo Épico rival. Ao mesmo tempo, porém, eles começam a questionar o caos ainda maior que a cidade pode se tornar caso Coração de Aço seja derrotado – sem comida, sem energia, criminosos agindo e Épicos guerreando para tomar o poder de Nova Chicago.

Junto aos depoimentos de David sobre as características e distinções entre os tipos de Épicos, e as anotações sobre os poderes e as supostas fraquezas dos mesmos, um ponto forte do livro são as armas, máquinas e dispositivos avançados. Em especial os dispositivos exclusivos dos Executores, como as luvas que emitem vibrações para desfazer objetos sólidos (inclusive o aço), e jaquetas com aparelhos de campo de proteção, que protegem de quedas e impactos. Há, entre outros, a sincronização de celulares sem o risco de ser espionado, fuzis que cospem uma quantidade imensa de balas, e armas de energia capazes de derrubar paredes. As avançadas tecnologias criam muitas possibilidades para o autor desenvolver a história, e apresentar escapatórias que dificilmente seriam alcançadas se elas não existissem. Felizmente, elas foram muito bem aproveitadas, sem exageros.

De um modo geral, os personagens não são tão aprofundados e originais. Inicialmente, pode-se também ter a impressão de que não há coerência nas personalidades de alguns deles. Em vários momentos, determinados personagens demonstram um comportamento muito diferente do que apresentou anteriormente. É como assistir a um elenco com má atuação e atitudes que simplesmente não convencem, o que pode parecer frustrante. Porém, o motivo dessas mudanças de comportamentos é esclarecido posteriormente, e elas fazem todo o sentido na história.

Os locais da cidade que os Executores percorrem são descritos com maestria, bem como a rotina dos diferentes habitantes (trabalhadores comuns, as camadas mais privilegiadas, e os criminosos das sub-ruas), e a maneira como Coração de Aço deixa claro que ele tem a liberdade de fazer o que quiser com todos eles em troca do que fornece.

Eu evitara essas profundezas por anos. Na Fábrica, eles contavam histórias sobre as pessoas depravadas – os monstros terríveis – que viviam aqui embaixo. Gangues que literalmente devoravam os tolos que se perdiam em corredores esquecidos, matando-os e deliciando-se com sua carne. Assassinos, criminosos, viciados. E não o tipo normal de criminosos e viciados que tínhamos lá em cima. Uns especialmente depravados.

Página 132

[…]

Então, ele apontou e lançou um jato de força amarela flamejante na direção da cidade. A energia atingiu um prédio, abrindo-lhe um buraco e fazendo chamas e destroços explodirem pelas janelas do lado oposto. Enquanto o prédio ardia, as pessoas fugiam dele. […] Ele olhava para a cidade abaixo, o rosto impassível, a luz vermelha brilhando por baixo, iluminando uma mandíbula forte e olhos contemplativos. Ele não deu explicação nenhuma para a destruição daqueles prédios, embora talvez uma mensagem posterior explicasse os pecados – reais ou imaginários – de que os habitantes da cidade eram culpados.

Página 115

O autor guarda determinadas informações de maneira desnecessária, provavelmente para gerar expectativas. Por exemplo, em vários momentos são citados os Cavadores, que ficaram responsáveis por abrir espaço aos vários níveis de ruas subterrâneas, bem como parques, apartamentos e outros estabelecimentos, e que deixaram o serviço incompleto depois que enlouqueceram. Porém, não é explicado por que os Cavadores enlouqueceram, nem David demonstra conhecer ou não esse motivo. Provavelmente, essa revelação será mais relevante para outro momento da história, presente apenas nos próximos volumes da trilogia, mas tomou-se mais da metade do livro para revelar que eles eram humanos normais que receberam seus poderes de escavação de um Épico doador, e não conseguiram lidar bem com essa habilidade. Isso não interveio em nada no andamento da trama, e poderia muito bem ter sido informada logo no início, quando se falou sobre os Cavadores pela primeira vez.

Acontecem sucessivas tentativas enfadonhas de humor, especialmente nas falas de Cody e nas falas, pensamentos e narração de David nas Partes 2 e 3, como o número grande de metáforas tolas. Um diálogo sério e interessante é quebrado por frases de “humor” desnecessárias e nada engraçadas, que não acrescentam nada ao livro, além de permitir que ele seja mais palatável ao estereótipo do leitor jovem. As piadas são péssimas e surgem nos momentos mais inconvenientes possíveis. Seria até mais aceitável que fossem colocadas com menos frequência, e apenas em momentos de conversa do grupo, mas elas surgem até mesmo no meio de momentos de muita tensão.

Se há outro aspecto forçado e superficial além do “humor”, é a atração que David sente por Megan. Também parece ter sido colocada na história apenas para seguir o padrão dos demais livros do gênero, e falha em contribuir para a sua qualidade da maneira como foi abordada. As implicações banais entre os dois em certos momentos também são reprováveis.

As passagens de ação são o que o livro tem de melhor. São muito empolgantes e não há nada de bizarro ou que não condiz com a realidade. Não consegui detectar nenhum acontecimento “fora da curva”, que tornaria a história impossível de se desenrolar caso ela fosse real.

Nós emergimos de um beco com o motor rugindo, então derrapamos até uma barricada. Explodi um buraco no meio de um caminhão para passarmos e, para completar, dei um tiro na perna da armadura energizada. Os soldados se dispersaram, gritando, alguns tentando atirar em nós enquanto disparávamos através da abertura que eu tinha criado. A armadura desabou, e Megan desviou, entrando num beco escuro. Gritos e xingamentos soaram atrás de nós quando algumas das motos que nos perseguiam se chocaram com a confusão.

Páginas 272-273

Os lances de coincidências muito grandes também podem ser um incômodo. Por exemplo, é o caso de David tomar uma atitude sem nenhum motivo, mas que pouco depois se torna uma peça essencial para que ele consiga passar por alguma dificuldade ou fazer alguma descoberta importante.

A linguagem utilizada não traz nada novo ao gênero jovem adulto. Porém, isso está longe de significar algo ruim: a escrita é bastante descomplicada e objetiva, e casa muito bem com a história que conta. Não há tédio, nem enrolação. Fiquei o tempo todo tentando encaixar as peças para descobrir o que aconteceria e o motivo de certas situações, ou para conferir se as minhas apostas estavam certas.

Mais ao final, David reage de uma maneira muito supérflua a um acontecimento que deveria ter sido muito impactante para ele. Isso dá a entender que não foi bem aquilo que houve, mesmo que o próprio personagem não soubesse o que de fato ocorreu. Detalhes assim que permitem adivinhações certeiras por parte do leitor. Pode ser que você pense que certos fatos não têm uma importância muito grande, e até os esqueça ao longo das páginas, mas tudo o que é inserido na trama tem algum propósito. E sempre haverá algum elemento surpresa.

Não tenho muito contato com enredos de super-heróis, então não sei dizer até que ponto Coração de Aço é genérico, mas parece ser uma ótima introdução a livros dessa categoria. Ele pode soar bastante clichê se pensarmos na sua essência: um protagonista que pretende derrotar o super-vilão que domina a cidade americana. Mas acredito que se distingue por ter, em vez de um super-herói, uma equipe de pessoas comuns contra os vilões. E, independentemente de existir ou não muitos outros enredos com esse tema, Coração de Aço não deixaria de ser uma ótima história.

Apesar dos pequenos defeitos que atrapalham em alguns instantes, Coração de Aço é uma narrativa sólida e recheada de ação, com momentos de muita tensão e saídas muito inteligentes. Ao término da leitura, tais defeitos (o humor falho, a atração fútil de David por Megan, as coincidências evidentes) têm sua impressão ofuscada pela grandiosidade da trama em si. Até porque, todos eles se esvaem nos clímaxes do enredo, e dão lugar a uma incrível narrativa que liga todos os pontos da trama. A orelha do livro informa que a obra teve os direitos de adaptação para o cinema adquiridos pela Fox, e essa aposta é muito plausível por conta do ambiente, da dinâmica, do tema e do apelo que Coração de Aço possui.

Boa parte das brechas da trama são concluídas já nesse primeiro volume. Poucas coisas continuam sem uma resposta. Imagino, então, que a continuidade da trilogia (cujo segundo volume, Tormenta de Fogo, foi lançado no ano passado) irá se basear em um cenário completamente novo, mesmo que ligado ao primeiro volume por ser consequência do que ocorreu nele.

Como observação adicional, tenho que a diagramação e a parte gráfica do livro são impecáveis.


Editora Aleph

Brochura

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