[LIVRO] Thomas e sua inesperada vida após a morte, de Emma Trevayne (resenha)

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Agradável passeio noturno por um cemitério em Londres

“Thomas tinha a impressão de que havia duas metades suas andando de volta pela ponte, encolhidas pela enormidade do rio e dos edifícios adiante. Como a própria cidade, dividida em duas por uma linha grossa.”

O cemitério talvez seja o último lugar em que alguém queira estar. Ao longo de minha vida, visitei alguns para prestar últimas homenagens a amigos ou parentes. Não sei se você concorda comigo, mas tais experiências foram suficientes para não desejar nunca mais ter de estar em um lugar assim.

O que não é uma opção para mim, para Thom era necessidade. No livro “Thomas e sua inesperada vida após a morte”, de Emma Trevayne, o protagonista é um menino próximo aos seus doze anos que vive a dura vida em Londres no período da Revolução Industrial. Sendo tão pobre, os cemitérios se tornaram sua fonte de sustento. Toda noite, o menino saía com Silas, seu pai, a procurar túmulos para escavar e coletar bens com que os mortos eram enterrados. Achar ou não um relógio ou uma presilha de ouro podia significar um prato de comida ou mais um dia de barriga vazia.

Em uma das incursões noturnas, Thom se deparou com um cadáver que tinha exatamente as suas proporções e formas. Era como se olhasse para um espelho. O nariz, os dedos e até a marca de nascença eram iguais. Além disso, junto ao corpo, havia um bilhete endereçado a ele mesmo, convidando-o para uma sessão de invocação aos mortos. Deste inexplicável e perturbador encontro, o pequeno Thomas se vê diante de uma realidade que se estende para além de sua miserável vida.

Esse é o segundo livro de Emma Trevayne que li, e afirmo: ela manteve a leveza e fluência narrativa, bem similar ao “Voos e sinos e misteriosos destinos”, também publicado pela editora Seguinte (escrevi uma resenha sobre ele para o blog Papel Papel). Mesmo lidando com um ambiente difícil e perigoso da revolução industrial londrina, a coragem e a confiança de Thomas, junto ao amor de seus pais, expresso pela melhor educação que lhe podiam dar, provocam o equilíbrio que dão o tom agradável à leitura.

Não gosto de entregar a surpresa de leitura de ninguém, mas é irresistível para eu deixar de dizer que, assim como o livro anterior, o novo também trata da raça mágica das fadas e seu próprio mundo, que, em algum dia muito distante, dentro da mitologia de Trevayne, se distanciou do nosso próprio. Outra impressão agradável durante minha leitura foi a lembrança em alguns pontos das obras “Lugar Nenhum” e “Filhos de Anansi”, ambas escritas por Neil Gaiman. Aqueles que leram, acredito que também terão a bela surpresa.

Ademais, por todo o tempo que caminhei junto a Thom em busca de sua própria natureza, senti a dor dos calos provocada pela escavação de solo congelado. E, enquanto atravessei os becos mais escuros, Trevayne me mostrou que a morte e os temores que ela nos sugere são bem pouco diante do que a vida pode nos ensinar. Nem eu nem você sabemos o que vem depois daquela curva de depois de amanhã. Só resta então aproveitar a vista e caminhar.



thomas e sua inesperada vida apos a morteSeguinte

Brochura

20,8 x 13,4 x 1,8 cm

240 páginas

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