[LIVRO] The Kiss of Deception: Ruínas e eternidade – e o primeiro beijo

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“Atrás de nós, Terravin ainda era uma joia. Não idílica. Imperfeita. Mas perfeita para mim. Perfeita para nós. Parei no cume da colina e olhei para trás, onde apenas pequenos vislumbres da baía ainda eram visíveis entre as árvores. Terravin. Agora eu entendia os monumentos. Alguns eram feitos de suor e pedra. Outros eram feitos de sonhos, mas todos eram feitos das coisas que não queríamos esquecer.”

Pág. 255

The Kiss of Deception” foi uma agradável surpresa e uma ótima companhia nesta última semana de leitura. Na caprichada edição da Darkside, com excelente arte gráfica e bela tipografia (incluindo letras capitulares, que particularmente adoro), a autora Mary E. Pearson nos conta a história de Arabelle Cellestine Idris Jezelia, ou simplesmente Lia, como prefere ser chamada, princesa do poderoso reino de Morrighan. A jovem possui personalidade temperamental e convicta, e, sendo a primeira filha do rei, carrega consigo, além do peso natural da própria nobreza, a responsabilidade do Dom: benção mística que, segundo a tradição religiosa, consagra uma geração após outra com a capacidade de clarividência. Devido às ameaças de bárbaros que se organizam provocando terror nas fronteiras, Lia é prometida em casamento ao príncipe do reino de Dalbreck, sem ao menos conhecê-lo. Movida pelo impulso e insatisfação, Lia não se submete ao matrimônio. Junto a Pauline, companheira e confidente inseparável, decide escapar para um povoado fugidio a sudeste, longe de suas obrigações aristocráticas. Lá encontra Berdi, uma estalajadeira que a abriga e lhe oferece trabalho. Assim inicia nova vida, sem depender de nada além do que seu próprio esforço. Todavia, como se por trapaça do destino, em uma noite servindo bebida aos soldados, Lia conhece dois belos jovens: Kaden e Rafe. Aos poucos se envolve num triângulo amoroso, sem saber que, na verdade, um deles tem o propósito de assassiná-la. Assim se inicia um perigoso jogo de astúcia e engano, em que o amor apaga a margem do tabuleiro e confunde o movimento das peças.

A voz narrativa do livro foi uma das coisas que mais me chamou a atenção. Há tempos não me deparava com uma história em que houvesse mudança de voz de personagem. Nesta, de maneira geral, existe variação entre a de Lia, Kaden e Rafe. Pearson é habilidosa ao mostrar os anseios, os conflitos e a intimidade emocional de cada um. Pessoalmente, cheguei a rir de mim mesmo em alguns instantes, por já me ter encontrado em dilemas internos similares. A história não pecou em se comunicar de maneira familiar com este leitor. Além da mudança de voz narrativa, a forma como ela utiliza a variação das diversas línguas e dialetos de povos bárbaros e civilizados me levou à sensação, a todo instante, de participar de uma cultura rica e viva.

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The Kiss of Deception” é ambientado em um período histórico similar, em diversos aspectos, ao nosso medievo europeu. O continente imaginário se estende por cenários que variam entre cidades amaldiçoadas, terras de gelo insistente e perene, desertos estéreis e inóspitos, e todo um mundo tão atribulado por problemas de escassez e guerras quanto o nosso. Povoado por homens e mulheres, cujas vidas são subitamente arrebatadas de assalto pela ambiguidade entre a honra necessária e a crueldade inescapável.

… E bem aqui começa a parte em que preciso confessar como a história acertou feito flecha na minha medula.

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Ao longo das páginas, no intervalo entre capítulos, a edição contém diversos fragmentos de poemas e cantigas, também alguns trechos de textos sagrados. Todos insinuando o espírito que originou a grandeza e a decadência daqueles povos. Conforme submergi no rastro deixado pelos Antigos, compreendi o trajeto de autoconhecimento percorrido por Lia. Durante aquela viagem, atravessamos construções antigas e monumentais, vestígios de uma civilização superior, descendente dos deuses eternos. As ruínas espalhadas pela paisagem revelavam pouco a pouco a real grandeza do universo em que eu ousara adentrar. Acredito que, como a mim, Pearson levará os mais atentos a uma jornada por um mundo cujos desejos humanos e ideais de liberdade plena serão confrontados com as fontes inexoráveis de todos os temores: a dor e a mortalidade. Se você prestar bem a atenção, se ouvi-la com cuidado, ela mostrará como a ancestralidade e sacralidade se estendem muito além de meros hábitos e ritos festivos dos povos, sejam os do extremo norte, como Gastineux, ou os bárbaros, em Venda. Se compreendi bem, a jornada de Lia revela que a origem de um reino e seu senso de superioridade não se reduz à fome de poder ou vaga crueldade, e que traição e inveja são condições tão naturais quanto a necessidade da honestidade e da lealdade.

E quanto ao amor? Ainda não posso afirmar o que aprendi em definitivo sobre o amor, pois, como Lia, iniciei há pouco esta caminhada. Então, espero ansioso pelo próximo volume, e quem sabe consiga, acompanhando Lia, chegar ao final em nossa busca. De fato me senti atraído por sua paixão e esperança em encontrar amor verdadeiro. Pois, para mim, “Crônicas de amor e ódio” é uma história que não cabe apenas num único primeiro beijo.


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Capa dura

23,4 x 16,2 x 3,2 cm

384 páginas

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