[LIVRO] The Heart of Betrayal, de Mary E. Pearson (resenha)

Descobrindo o mundo em ruínas

“Lembrei-me do que Kaden havia dito, que algo que não faltava em Venda eram pedras e metais. Pelo menos não parecia que alguns vendanos tinham memória curta também. Seus relatos de histórias poderiam não ser precisos, mas ao menos eles os tinham, e alguns como esses artesãos, veneravam-nos o suficiente a ponto de fazerem jóias no formato de lembranças sagradas.”

Pág. 101

The Heart of Betrayal é a segunda obra da série Crônicas de Amor e Ódio, dando continuação ao livro The Kiss of Deception. A história é narrada em um mundo fantástico criado pela autora Mary E. Pearson, repleto de variados povos que se contrastam em língua e costumes, possuindo, entretanto, uma origem mitológica em comum, o que reflete nos conflitos presentes entre os três reinos principais: Morrighan, Dalbeck (considerados civilizados) e Venda (considerado o reino mais hostil). Ao longo da narrativa, referências a criaturas e entidades mitológicas são bastante sutis, resumindo-se a grandiosas ruínas deixadas por civilizações de origem divina, cuja memória é constantemente reavivada através de canções e histórias sagradas.

Nesta continuação, Jezelia, a princesa fugitiva de Morrighan, finalmente é levada pelo assassino Kaden ao Komizar, o grande líder de Venda. Kaden, como parte da guarda de elite, é questionado por não a ter executado sumariamente. Como argumento, ele afirma que Lia poderia ser útil, já que é portadora do Dom, uma habilidade especial herdada de seus antepassados. O príncipe Rafe, cuja missão era encontrar Lia, para que não se distanciasse dela, entrega-se, e é feito prisioneiro. Entretanto, ninguém descobre sua verdadeira identidade. Rafe apresenta-se como mero emissário do reinado de Dalbreck.

“Cantei sobre atos de coragem e mágoas e esperança, vendo sem olhos, ouvindo sem ouvidos, os modos de confiança e uma linguagem de saber enterrados profundamente neles, um modo tão antigo quanto o próprio universo. Contei a eles sobre as coisas que duram, as coisas que permanecem e sobre o dragão que estava despertando.”

Pág. 342

Apesar dos esforços do apaixonado Kaden para proteger Lia, ela é humilhada por Komizar e pelos líderes das catorze províncias de Venda. A única forma de a princesa sobreviver e não tomar nenhuma atitude impensada é depositando esperanças na promessa de Rafe, de que seus cavaleiros de mais alta confiança estariam a caminho para salvá-los.

“Ele se sentou, relaxado, e ficou cara a cara comigo. O brilho da vela iluminava um lado de seu rosto. “E cristav unter quiannad”, disse ele, El um tom reverente. “Um sacrifício sempre lembrado. Meunter ijotande. Nunca esquecido Yaveen hal an ziadre. Nós vivemos mais um dia.”

As palavras penetraram em mim. Eu havia interpretado errado o uso dos ossos.

“O alimento pode ser escasso em Venda”, explicou ele. “Especialmente no inverno. Os ossos são símbolo de gratidão e um lembrete de que nós vivemos somente pelo sacrifício de até mesmo o menor dos animais e por meio do sacrifício combinado de muitos.” (…)

“Eu sinto muito”, sussurrei.

“Pelo quê?”

“Por não entender.””

Pág. 72-73

A trama é conduzida por uma série de mistérios sobre a verdadeira relação entre as cidades. Em um ritmo de narrativa ágil, aos poucos, tudo é revelado. Pearson se utiliza tanto pelo ponto de vista de Lia, quanto de outros personagens como Pauline, melhor amiga de Lia, Kaden e Rafe.

Além da alternância de voz narrativa, parte do quebra-cabeças sobre a verdadeira natureza dos conflitos entre os reinos e o papel de Lia na trama é desvelado através dos fragmentos de canções que encontramos entre os capítulos. Pessoalmente gostei muito de encontrar poemas extraídos de textos sagrados do próprio universo de Crônicas de Amor e Ódio ao longo da leitura. Eles avivam sutilmente a aura lendária da história, revelando que os mitos de Morrighan e Venda são bem mais que meras crenças religiosas.

“”O Komizar não tem uma esposa? Um herdeiro?”

Ele soltou um grunhido. “Nada de esposa, e, se ele tem algum filho que seja, a criança não carrega o nome dele. Em Venda, o poder é passado adiante através de sangue derramado, não herdado.”

Aquilo que Komizar havia me dito era verdade. Isso era tão estranho para os modos de Morrighan, e para os modelos de todos os outros reinos também.

Pág. 69

Depois de algum tempo como prisioneira, Lia desperta a curiosidade de Komizar, ao mesmo tempo em que conquista a atenção dos habitantes de Venda com suas histórias e canções. Pouco a pouco ela se envolve com o povo daquelas terras miseráveis e estéreis compreendendo que, apesar de uma sociedade que se fundamenta na economia da pilhagem, ou seja, bárbaros se comparados com os povos a leste do Grande Rio, são portadores de grande nobreza e senso de honra fundamentada na força. Uma aristocracia embasada no derramamento de sangue dos Komizares mais velhos e fracos.

Enquanto passávamos pelo último corredor até o quarto de Kaden, perguntei a Eben: “O que são aquelas cavernas lá embaixo? Aster mencionou-as a mim.”

“Você está se referindo às catacumbas? Cavernas de Ghols, é como se referem a elas. Nós não descemos lá. A única coisa que há nelas é o fedor terrível, livros velhos e espíritos sombrios.”

Pág. 170

Ressalto aqui a ambientação da história. Em minha opinião, Pearson é extremamente competente descrevendo sempre um mundo cada vez mais atraente e interessante. Em especial, os ambientes ocultos e enigmáticos de Sanctum, uma espécie de cidadela principal do Reino de Venda. Conforme aconteciam catástrofes ao longo de sua história, os habitantes construíram outra cidade sobre ela, criando assim contínuas camadas assombradas pelo passado pouco conhecido. Os corredores infinitos e catacumbas soturnas são envolventes, e o fato de sua origem se fundamentar nos relatos sobre os mitos aumenta ainda mais nosso interesse sobre o real significado daquela civilização.

Quanto ao triângulo amoroso, novamente estamos diante de um jogo em que Lia não possui exato controle e clara compreensão acerca de seus sentimentos. Seja devido a uma simples troca de olhares entre os casais, ou depois de um beijo, todo o quadro pode se inverter. Além disso, neste novo episódio você descobrirá a verdadeira origem de Kaden, e o porquê de sua indissolúvel ligação com Komizar. Acompanhará o amadurecimento de Lia em um mundo que se apresenta tão hostil e miserável quanto auspicioso e surpreendente. Estou certo de aqueles que apreciaram The Kiss of Deception irão se envolver ainda mais com esta nova publicação.


Nota: Esta edição continua com a mesma qualidade gráfica, o mesmo material leve e delicado, a capa dura e papel resistente, um marcador de tecido como na primeira edição, enfim, marcas da qualidade já bem conhecida da Editora DarkSide.


DarkSide Books

Tradução de:  Ana Death Duarte

Capa dura

23 x 16,2 x 3 cm

400 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon

Saraiva

Submarino