[LIVRO] “Star Wars – Marcas da Guerra” de Chuck Wendig (resenha)

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Com a morte de Palpatine e Vader, e a destruição da 2ª Estrela da Morte, a Aliança Rebelde teve sua maior vitória contra o Império Galáctico, mas isto está longe de significar o fim da guerra. Este é o mote de Star Wars: Marcas da Guerra, obra de Chuck Wendig lançada este mês pela editora Aleph, que relata os dias posteriores ao Episódio VI.

Desde as primeiras páginas do livro, fica bem claro que foram dias de muita tensão e caos político e social os posteriores à Batalha de Endor. Um dos pontos que são muito bem abordados por Wendig é a dificuldade da Nova República manter a ordem na galáxia após a queda do Império – que mantinha os crimes sob controle com seu punho rígido e opressor. Disto surge uma das muitas questões levantadas pela obra: até que ponto é justificável a imposição da ordem por meios violentos e inflexíveis após uma grande revolução política? Aliás, há realmente algum momento em que tal violência é necessária?

Este clima de reorganização e desorientação é captado eficazmente pelo texto de Chuck Wendig, que usa uma abordagem mosaica, desvendando aos poucos o panorama da galáxia. O autor se revela hábil em conduzir-nos por cada trama, alternando os pontos de vista, a fim de inteirar-nos de cada lado do conflito. Assim, os imperiais e os ex-rebeldes – atuais novos republicanos – têm suas motivações expostas a partir de conflitos menores que refletem a guerra galáctica.

Essa é uma lição que devemos aprender. Os imperiais são como a gente. […]

Marcas da Guerra, em sua essência, conta histórias de pessoas tentando voltar à normalidade de suas vidas antes da guerra, embora muitas tenham nascido durante o conflito que se estendeu por décadas. Em grande parte do livro acompanhamos os acontecimentos do ponto de vista dos habitantes da Orla Exterior, a “periferia” da galáxia. Essa visão mais distanciada dos grandes acontecimentos dá um aspecto mais humano à guerra galáctica e suas consequências. Com este enfoque mais “global”, Wendig nos aproxima dos personagens enquanto lutam para sobreviver ao período caótico que a galáxia vive.

Nesta altura creio que alguns de vocês já estejam se perguntando: Tá, mas que fim levou Leia, Luke e Han? O que eu posso dizer, sem dar spoilers, é que alguns deles aparecem pontualmente, sendo usados por Wendig apenas pra compôr o panorama geral da trama principal, que é ambientada em Akiva, um mundo da Orla Exterior. Não vi isto como um demérito, pois deu espaço para os novos personagens crescerem e ganharem vida própria, dando tempo de eu me interessar e me envolver com suas histórias.

Dito isto, Marcas da Guerra gira em torno da piloto rebelde Norra Wexley; de seu filho adolescente, trambiqueiro e gênio da robótica Temmin; da caçadora de recompensas Jas; do agente de lealdade imperial vira-casaca Singir; e da almirante imperial Rae Sloane.

A Força das Mulheres

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Almirante Rae Sloane

Mais do que nos contar uma grande aventura ambientada no universo de Star Wars, Marcas da Guerra contribui com a necessidade, a cada dia mais urgente, de representatividade das mulheres em obras de ficção científica. Logo no início somos apresentados às respeitáveis Rae Sloane e Norra Wexley.

Sloane é quem mais se destaca, pois, é uma mulher negra numa posição de poder, mas que, ainda assim, sofreu discriminação dentro do Império, que nunca lhe deu a oportunidade de participar de batalhas relevantes da guerra galáctica. Disto advém a motivação de Sloane, que no contexto pós-morte de Palpatine encontra a chance de provar seu valor para os imperiais remanescentes. Felizmente Wendig soube trabalhar muito bem Sloane, permitindo que sentíssemos toda a pressão sob a qual a personagem está durante a primeira reunião do Conselho do Futuro Imperial em Akiva.

No caso de Norra, é através dela que acompanhamos a difícil fase de readaptação de uma combatente após participar de um grande conflito. Além de ter que conviver com todos os traumas gerados pelo conflito, Norra ainda tem que reaprender a lidar com Temmin, de quem se afastou por três anos. Isto gerou uma mágoa entre eles, que origina alguns dos conflitos internos do grupo de que fazem parte. E Norra ainda tem que lidar com um conflito entre seu dever como rebelde e seu papel de mãe, quando ocorre uma situação em que ela é a única disponível para resolver: resgatar o capitão Wedge Antilles, que é capturado pela almirante Sloane no início do livro.

Além de Sloane e Norra, também conhecemos em Akiva a caçadora de recompensas Jas Emari. Contratada para matar um político imperial, isto a faz cruzar o caminho de Sloane e, mais adiante, o de Norra, Temmin e Sinjir.

Mas o livro não somente apresenta personagens femininas bem concebidas e trabalhadas, como também brinca com as expectativas do leitor. Em certa altura da história, Wendig faz uma revelação a respeito de um dos personagens que subverte o estereótipo que está ali representando. E o melhor: sem fazer um estardalhaço disto. O mesmo valendo para o casal de mulheres que faz aparições rápidas no início do livro.

Altas Confusões em Akiva

Importante destacar que Wendig já começa Marcas da Guerra com muita ação. Não demora para sermos jogados no meio de emocionantes combates espaciais e aéreos, os quais são narrados com precisão, jamais ignorando o elemento humano deles. Dessa forma, não testemunhamos apenas naves atirando umas nas outras, mas o que se passa na mente de seus pilotos.

Outro ótimo exemplo de uma sequência de ação escrita de maneira rápida e dinâmica é a perseguição de speederbikes em Myrra, quando Wendig usa com muita destreza suas palavras para transmitir a velocidade e urgência da situação enfrentada por Norra e Temmin.

Mesmo o aspecto político da narrativa oferece tensão o suficiente para manter o leitor interessado em seu desenrolar, pois de seus debates podem partir atitudes que levarão a grandes confrontos bélicos capazes de mudar destinos e afetar incontáveis vidas. O peso dessa responsabilidade é bem transmitido pelo texto de Wendig, quando enfoca figuras como Sloane, Ackbar e Mon Mothma.

E outra coisa que Wendig sabe fazer muito bem é mover os personagens como num complexo jogo de tabuleiro. Cada trama se desenvolve com relativa independência no início, mas sempre deixando margem para intuirmos sua possível conexão com o cenário maior.  Neste quesito o capítulo 14 merece destaque. É nele que Wendig promove o encontro de todos os personagens principais, dando uma verdadeira aula de narrativa bem feita, conforme vai alternando entre várias ações ocorrendo em diversos focos narrativos que se cruzam. Tudo isto feito com o cuidado de contar cada subtrama do ponto de vista de um deles, mas sem abrir mão da perspectiva externa. E, o mais importante, narrado com o dinamismo que a urgência crescente dos acontecimentos exige, o que torna a leitura empolgante.

Expandindo (ainda mais) o universo

Durante todo o livro temos uma visão ampla do conflito galáctico graças a Wendig, que nos conduz de um cano ao outro da galáxia, mostrando inúmeros focos e aspectos da guerra. Assim, testemunhamos conflitos armados, familiares, políticos, todos direta ou indiretamente movidos pela queda do Império e a formação da Nova República.

Grande parte disto é contado em “mini-episódios” focados em personagens distintos espalhados pela galáxia, que dão um “sabor especial” à leitura, tornando bem variado o quadro que Wendig vai pintando em Marcas da Guerra.

Entre os personagens destas breves expansões estão adolescentes imperais, órfãos rebeldes, caçadores de recompensa, irmãos que se posicionam de lados opostos da guerra e, claro, os Acólitos do Além, um grupo misterioso que está atrás do sabre de luz de Vader. São tantas as subtramas que Wendig vai abrindo nos interlúdios, que o livro passa a impressão de ser o ponto de partida de diversas obras do novo cânone. Muitas claramente não serão continuadas na Trilogia Aftermath.

Novos Republicanos vs Imperiais

  • O Império finge empenhar-se pela lei e ordem, mas, no fim das contas, empenha-se em vestir a opressão com a fantasia da justiça.

Em sua essência, Marcas da Guerra é uma longa lição sobre a capacidade de indivíduos acenderem numa população farta da corrupção e opressão de seus governantes a chama da insurgência e do protesto nascidos da revolta contra decisões políticas que afetam todos os níveis de suas vidas. Eis algo que a população brasileira, em especial, precisa aprender e praticar com urgência.

Porém…

Infelizmente o livro sofre de um problema recorrente nas obras literárias ambientadas no universo  de Star Wars: muitas menções a raças alienígenas e veículos espaciais pouco descritivas, que exigem do leitor algum conhecimento a respeito da aparência deles, ou uma consulta à internet para visualizar alguns personagens e naves citados. Isto prejudica a fluidez da leitura em alguns trechos, especialmente na primeira metade do livro. Daí o porquê de ele não levar a nota máxima. Mas, apesar disto, Marcas da Guerra é uma história muito envolvente, dinâmica e empolgante quando o leitor ambienta-se com seu universo e personagens, conforme relatei acima. E, por todos os motivos já listados, é um livro indispensável para os fãs desde universo em constante expansão.


Para aqueles entre vocês que, mesmo após ler esta resenha, ainda está em dúvidas sobre comprar ou não o livro, deixo abaixo um texto do próprio Chuck Wendig onde ele faz algumas considerações a respeito da repercussão da obra, e de suas intenções com ela (contém alguns spoilers):

Também recomendo que assista o último episódio do programa Abdução, no qual o Daniel Lameira e o Mateus Erthal falam sobre o livro:


nota-4


star wars marcas da guerra editora alephAleph

Brochura

16 x 23 cm

464 páginas

Onde comprar: Fnac | Saraiva | Submarino

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