[LIVRO] Star Wars: Legado de Sangue, de Claudia Gray (resenha)

“O sol está se ponto na Nova República. – Disse Leia. – É hora de a Resistência se erguer.” – página 359.

Os áureos letreiros flutuantes no vazio do espaço, acompanhados da música tema composta por John Williams, podem ter sido o grande trunfo da franquia iniciada em 1977 nos cinemas, cujo universo expandido atual é infinitamente rico e criativo. Ao não revelar a história pregressa dos rebeldes que planejavam roubar os planos de construção de uma arma com poder de destruição planetária, George Lucas deu asas à imaginação de uma numerosa quantidade de espectadores. A partir daquele momento, questionamentos sobre os motivos, a ordem e a autoria dos eventos revelados em “Uma Nova Esperança” e, posteriormente, nos demais episódios de STAR WARS, passaram a “martelar” as mentes de pessoas curiosas.

STAR WARS: LEGADO DE SANGUE escrito por Claudia Gray é um romance de ficção que PRECISA SER LIDO por qualquer fã da série interessado em conhecer o que se passou nas quase duas décadas de intervalo entre os longas-metragens “O Retorno de Jedi” e “O Despertar da Força”.

No livro protagonizado pela Princesa Leia Organa, atual representante popular no Senado da Nova República, conspirações internas e externas ameaçam o governo democrático instituído após a guerra civil galáctica, num conjunto de eventos que, em última instância, resultam na formação da RESISTÊNCIA.

SINOPSE OFICIAL:

Quando a Rebelião Rebelde derrotou o Império nos céus de Endor, Leia Organa acreditava que um longo período de paz iria começar. Mas o que se seguiram foram décadas de brigas e rixas partidárias no Senado da Nova República. Leia, agora uma senadora influente, está perdendo a fé na política enquanto vê seus colegas no Senado, desesperados por mudanças, tomarem medidas que podem destruir o Governo igualitário recém-criado. A última princesa de Alderaan torna-se a única esperança da democracia em seu momento mais frágil. Mas o passado e o futuro com o lado sombrio da Força a perseguem. O treinamento Jedi de seu filho Ben a preocupa, especialmente depois que ele e Luke param de lhe mandar mensagens, e um dos maiores segredos da família pode vir à tona e colocar em cheque sua credibilidade.

A INÉRCIA DO SENADO GALÁCTICO, O BIPARTIDARISMO E A ANGÚSTIA DE LEIA ORGANA.

“É essa a ‘vida pacífica’ que eu tenho que viver se quiser evitar morrer de queimassangue? Essa… mediocridade silenciosa a serviço da corrupção? – Greer Sonnel, página 351.

Um longo período de paz se seguiu após as batalhas em Endor. Toda uma geração prosperava sendo guiada pelas determinações do Senado Galáctico. As guerras que haviam dividido a galáxia esmaeciam na memória das pessoas, tornando-se lendas. Contudo, conflitos haviam começado a se formar dentro do Senado.

Na ausência de Mon Mothma, ex-líder da Rebelião e primeira chanceler da Nova República, duas facções extraoficiais, mas poderosas, haviam surgido: os POPULISTAS, que acreditavam que cada planeta deveria manter quase toda a autoridade e autonomia, e os CENTRISTAS, que favoreciam um governo galáctico mais forte e um poderio militar mais sólido.

A falta de uma liderança influente era algo bastante sentido. Sem alguém capaz de conectar as distâncias filosóficas e criar consenso, o processo político que havia constituído a Nova República estava revelando as suas fraquezas. Qualquer debate na tribuna do Senado tornava-se uma discussão interminável sobre o “tom” ou o “comportamento” e nunca envolvia assuntos importantes. À medida que as divisões entre os mundos da galáxia continuavam aumentando, o desejo de Leia em abdicar de sua posição como senadora aumentava. Palavras educadas escondiam coações implícitas; faltava confiança entre os mundos e o clima de tensão era familiar a uma época anterior…
É dessa maneira que inicia a história de LEGADO DE SANGUE, uma premissa bastante ousada.

“– Quero deixar o Senado. Deixar completamente o governo. – Uma sensação jubilosa, desconhecida floresceu dentro de Leia. Talvez fosse assim a sensação de liberdade. – Eu quero renunciar. ” – Leia Organa, página 26.

Mas, com um pouco mais de reflexão, parece-me que qualquer livro que esteja baseado no mundo estendido de “Guerra nas Estrelas” necessariamente precisa ter um quê de destemor – propor algo novo a uma história de sucesso que, de certa maneira, definiu o cinema e o entretenimento como os conhecemos hoje não é tarefa fácil. Então, por que a proposta de LEGADO DE SANGUE se difere a dos demais títulos?

A resposta ideal talvez seja: por possuir sutilezas, fugas do maniqueísmo recorrente à série e algumas boas surpresas. Poucas sensações são mais satisfatórias do que terminar um quebra-cabeças e ver a última peça se encaixar perfeitamente, não é mesmo?

E MUITAS EMOÇÕES…

Também com interações entre Leia e seu marido, agora um renomado piloto estelar, Han Solo. É provável que tenha sido uma maneira de compensar a pouquíssima quantidade de tempo de tela em que vimos este casal junto em “O Despertar da Força”. No momento em que a narrativa inicia, ambos vivem vidas separadas e se correspondem regularmente através de mensagens holográficas. Logo de início, um diálogo sincero revela bastante afeto e intimidade, apesar dos anos de afastamento.

“Comparado à estagnação no Senado? O mundo de Han soava como o paraíso.

– Liberdade e aventura. – Ela suspirou. – É. Estou preparada.

Han a observou por alguns momentos, e então começou a sorrir.

– Você sabe que, depois de três meses na mesma nave, nós vamos nos matar?

Leia debruçou-se para mais perto do terminal para que ele pudesse ver a travessura em seu sorriso.

– Mas esses três meses serão bem divertidos, não? ” – página 30.

O CONVITE À AÇÃO.

No dia seguinte à cerimônia em honra a Bail Organa, pai adotivo da Princesa Leia e um dos fundadores da Aliança Rebelde, a chegada do emissário Twi’lek do planeta Ryloth, Senador Yendor, faz com que nossa heroína tenha de fazer uma dura escolha: ou viver uma vida de aventuras espaciais ao lado do amor de sua vida ou agir em função de suas ideologias e dar fim à inércia instaurada no comando do cosmos.

Yendor pede ao Senado Galáctico que tome medidas contra um cartel de crime Nikto liderado por Rinnrivin Di, sucessor aos Hutts, que está interrompendo o comércio de Ryloth mundo afora. As tensões crescem entre os dois partidos majoritários da Casa.

LEIA DECIDE AGIR.

Após algum debate, propõe uma missão investigativa no planeta Bastatha, suposta base do terrorista Rinnrivin. Enquanto os Centristas relutam em ajudar um senador populista, o jovem e carismático Ransolm Casterfo, de Riosa, voluntaria-se para acompanhar Leia em um show de bipartidarismo.
Aliás, eu poderia ter começado o texto assim: “Toda grande democracia do mundo é bipartidária”. Mas seria inexato. De fato, todas as democracias do mundo, grandes ou pequenas, são bipartidárias, ainda que haja dezenas de partidos. Pelo visto, esta alegação infundada também poderia ser o mote de “LEGADO DE SANGUE”. Mas se tocasse neste assunto, numa das épocas em que a intolerância está mais do que manifesta no universo internético, acabaria sendo mais odiado do que o Darth Vader e do que a prequela bastante controversa da franquia.

OS ELEMENTOS RECORRENTES DA FRANQUIA EM SUA MELHOR FORMA.

Embora os méritos do prequel sejam duvidosos, pode-se dizer que excelentes argumentos narrativos são inegáveis: as manobras e artimanhas políticas que culminaram na ascensão do império, o upgrade de carreira do outrora senador, chanceler Palpatine e, a seguir, imperador Darth Sidious, e a transformação de um ingênuo e inteligente menino, Anakin Skywalker, em um dos vilões mais interessantes da história. Ingrediente tão bons ao bolo quanto os seus pares precursores e icônicos podem ser encontrados em LEGADO DE SANGUE:

1) O estopim de uma guerra espacial;

2) As bases de uma história de cavaleiros da Idade Média;

3) O arquétipo do bem contra o mal;

4) A saga do herói que se vê numa aventura repentina, vence diversos obstáculos e retorna amadurecido para o seio de seu lar;

5) Um pouco de mitologia com pitadas de faroeste – o que, causando surpresa a mim mesmo, fez-me fez associar esta novela a da Torre Negra de Stephen King…;

6) A presença de um mentor, encarnado no anti-herói mais interessante de que já tive conhecimento: o contrabandista, piloto e rebelde, e que você já deve imaginar agora quem seja… não, não vou dizer o nome dele. Você já sabe de quem estou falando…;

7) Um personagem-camaleão cuja principal característica é mudar seu comportamento para se adequar a cada situação. Alguém em quem não se sabe se deve confiar;

8) Bons vilões do lado sombrio;

9) Alusões veladas ao nazismo e à Guerra Fria;

10) Ah, OK! Aqui faltam os sabres de luz… mas, como provado em Rogue One, embora este item seja bastante representativo à franquia, não é indispensável. Em diversos momentos, de forma sútil, Claudia Gray soube usar a Força sabiamente: às vezes, simplesmente, surgindo como uma forte intuição de seus personagens e que acaba se revelando determinante no desenrolar da trama.

E FALANDO NAS PERSONAGENS…

Outra razão para que STAR WARS: LEGADO DE SANGUE seja uma leitura interessante são as suas personagens. Claudia Gray utilizou um extenso rol de personagens carismáticos e envolventes.

Ainda que as novas figuras sejam mais complexas que aquelas de personalidades definidas em cima de arquétipos da psicanálise já conhecidas por grande parte dos “Star Warriors”, este novo amálgama é bastante cativante, e os laços de empatia que nos unem a ele contraem-se mais e mais ao passo que o número de páginas aumenta. LEGADO DE SANGUE é estrelado por:

Leia Organa – humana sensitiva à Força e princesa do extinto planeta Alderaan. Tornou-se membro do Senado Imperial, e posteriormente, general da Aliança para Restauração da República. Nascida, Leia Amidala Skywalker, é uma pessoa generosa, sensata e bastante ativa entre os POPULISTAS.

Joph Seastriker – piloto humano de Gatalenta – um mundo conhecido por seu chá, seus retiros de meditação e sua longa e erudita poesia – que sonhava quando criança viajar pela Galáxia a bordo de um caça X-Wing. Serviu como tenente da Nova República durante vinte e quatro anos depois da Batalha de Endor. Junto de Leia, Greer Sonnel e Ransolm Casterfo, Seastriker parte para a missão investigativa do quartel criminoso de Rinnrivin Di.

Green Sonnel

Greer Sonnel – assistente pessoal da senadora Leia Organa, responsável por guiar a Estrela Brilhante em missões diplomáticas. Uma ex-competidora de campeonatos de corrida, que se viu obrigada a encerrar sua carreira cedo demais… Foi apadrinhada por Han Solo. A raça de Greer, nativa do planeta Pamarthe, é conhecida por ser misteriosa e perigosa.

Korr “Korrie” Sella – outra funcionária de Leia, estagiária. Responsável pelo preparo de hologramas que permitem à senadora reconhecer todo e qualquer participante em eventos oficiais.

Ransolm Casterfo – político CENTRISTA natural do planeta de Riosa. Experimentou muitas dificuldades e tragédia durante sua infância. Seus pais foram recrutados para trabalhar na construção da primeira Estrela da Morte e mais tarde morreram devido às suas duras condições de trabalho. Apesar de seu ódio por Darth Vader e pelo Imperador Palpatine, Casterfo admirava a centralização do Império e, em seus anos adultos, iniciou uma ampla coleção de artefatos imperiais, incluindo cartazes, fragmentos de armaduras e capacetes.

Rinnrivin Di – Nikto, elegante e baixo, de cor coriácea avermelhada. Senhor do crime responsável pelo alto comando de um quartel que tem por objetivo as pistas de transporte comercial em torno de Ryloth. Até mesmo o grupo de Jabba (por quem Rinnrivin nutria ódio mortal), tinha-o como rival.

Lady Carise Sindian – senadora por Arkanis, um mundo centrista; tem a mesma idade de Ransolm Casterfo, embora pareça mais nova. Sempre trajada de túnicas extravagantes, longas e prateadas, que exibem riqueza e poder de seu mundo. “Herda” de Leia o título, formal e sem valor, de líder do planeta Birren.

C-3PO – O droide de protocolos desenvolvido para interagir com seres orgânicos, programado para realizar traduções e agir conforme as regras de etiqueta. Em LEGADO DE SANGUE, sua personalidade amedrontada e mau-humor continuam sendo os alívios cômicos da narrativa e seu papel é decisivo ao desfecho.

“Mas… – Korr Sella, filha de Sondiv e estagiária do gabinete, com apenas 16 anos, conteve-se e e se encolheu. – Desculpe-me, princesa Leia. Eu me intrometi.

– Você vai descobrir que eu não me atenho a protocolos Korrie. – Pelo canto do olho,

Leia viu C-3PO girar o torso em sua direção, sem dúvida chocado ao pensar em qualquer um, em qualquer lugar, ignorando protocolos. – O que você ia dizer? ” – página 25

E SE ESTES AINDA NÃO SÃO BONS MOTIVOS PARA LER STAR WARS: O LEGADO DE SANGUE…

Saiba, que algumas das ideias conceituais e elementos narrativos da história brotaram diretamente da mente criativa de Rian Johnson, o diretor do próximo Episódio VIII, e que foi recomendado à Disney por J. J. Abrams. Sim, senhor, muito obrigado!

Se você gostou de Mad Max: Estrada da Fúria, sugiro que preste muita atenção aos nomes dos alienígenas e dos planetas no livro. Se é fã de Star Trek e não tem aquela… rixa mesquinha com os adorares de Star Wars, e quiser embarcar nesta deliciosa aventura irá encontrar uma ou outra referência também.

Os familiarizados com o “Despertar da Força” e com o título “Marcas da Guerra” de Chuck Wendig (cuja resenha você encontra aqui) também podem reconhecer alguns outros rostos familiares…

Por último e menos importante, se cabe um único desapontamento, é o fato de que o que se passou entre Luke Skywalker e o filho de Leia não foi revelado. Ambos são mencionados algumas vezes, mas suas citações não contribuem em nada para o desenrolar da trama. Deve ter sido alguma artimanha da Disney para aumentar a ansiedade do seu público-alvo e as bilheterias do novo filme – este segredo provavelmente será revelado no cinema no dia 14 de dezembro.

Seja como for, LEIA O LEGADO DE SANGUE. Sinta-se à vontade para imergir de cabeça num excelente livro e desligar do mundo por horas a fio. Esteja preparado para absorver algumas respostas para dúvidas que podem ter lhe afligido por anos. Sem falsa modéstia, garanto que depois disso irá me agradecer pela indicação! Obrigado, de nada.


OBS.: Abaixo, reproduzo parte da explicação da editora Aleph, responsável pela publicação de O LEGADO DE SANGUE sobre o que se tornou canônico e o que já não é mais considerado como tal, desde que a Disney comprou Lucasfilm/ Star Wars.

“Em 2014, a Lucasfilm lançou o novo conceito de STAR WARS, aplicável a filmes, HQs, livros, videogames e séries televisivas relacionados à franquia, formando um só cânone. Juntos, todos esses registros contam uma única história no universo de STAR WARS, complementando e continuando os filmes lançados no cinema entre 1977 e 2005, além de servirem como preparação para os tão esperados novos filmes, a começar com STAR WARS: O Despertar da Força em 2015. Todas as obras publicadas antes de 2014 passam a ser classificadas como Legends: histórias que não serviram como base para o cânone estabelecido pela Lucasfilm para STAR WARS, mas cuja importância e qualidade continuam sendo apreciadas.

Participando dessa nova e empolgante fase de STAR WARS, a Editora Aleph pretende lançar todos os romances adultos do novo cânone, bem como uma seleção dos títulos Legends mais relevantes. Convidamos os leitores a embarcar conosco nessa jornada rumo a uma galáxia muito, muito distante.

E trata-se de uma viagem que não tem ponto de partida nem direção definidos. Não importa por qual obra você decida começar, seja por uma das novas ou uma das Legends. Temos a certeza de que viverá uma grande aventura.
Que a força esteja com você.

EDITORA ALEPH.”


Editora Aleph

Tradução: Marcia Menbi

Brochura

22,8 x 15,6 x 2,2 cm

360 páginas

Onde comprar:

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Livraria Cultura

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