[LIVRO] “Star Wars: Kenobi” de John Jackson Miller (resenha)

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John Jackson Miller foi desafiado por seu editor a escrever um faroeste ambientado no universo de Star Wars. Deste desafio nasceu a obra que resenharei aqui: Star Wars: Kenobi, publicada pela editora Aleph.

A ideia do livro é bem simples: contar os primeiros dias de Obi-Wan Kenobi em Tatooine, após esconder-se do Império Galáctico, e entregar a guarda de Luke Skywalker a seus tios, Owen Lars e Beru Whitesun. Não demora até Kenobi mudar seu nome para Ben, e envolver-se, a contragosto, em um conflito entre os colonos, fazendeiros de umidade, e os Tuskens, o Povo da Areia.

No prólogo do livro Miller já demonstra uma habilidade exemplar de descrever com clareza e elegância uma sequência de ação divertida e dinâmica que remete aos clássicos do faroeste, além de reintroduzir Kenobi ao leitor. Uma ótima sacada do autor é mostrá-lo usando seus poderes através dos olhos de alguém que nunca viu um cavaleiro jedi em ação.

Tatooine

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Um dos grandes atrativos do livro é a forma como Miller enriquece a mitologia de Tatooine, a começar por um mito criado pelos Tuskens que explica a relação dos sois do planeta. 

Também merece destaque a maneira como o autor detalha o funcionamento da sociedade e cultura locais, sem negligenciar o desenrolar da trama e o desenvolvimento dos personagens, que são bem construídos, com um background rico, que aos poucos é revelado ao leitor.

Colonos vs Tuskens

star_wars_tusken_raiders_by_carlosnctA base da trama, pelo menos no início, é o conflito dos fazendeiros de umidade contra os Tuskens, que é inspirado nos combates entre cowboys e índios norte-americanos. Os colonos foram claramente baseados nos magnatas do petróleo, que no livro foi substituído por outro líquido bastante valioso: água. Já os Tuskens ocupam o papel dos nativos da região desértica de Tatooine, que tiveram sua cultura e costumes afetados pela chegada dos colonos.

A origem dos conflitos entre colonos e Tuskens é bem estabelecida nos quatro primeiros capítulos, nos quais Miller apresenta os dois lados da guerra, com Kenobi sendo tangencial durante este trecho da obra.

O primeiro quarto do livro é muito eficaz em familiarizar o leitor com os personagens, suas relações e conflitos. Às vezes dá até pra esquecer que a trama é ambientada no universo de Star Wars, pois Tatooine é apresentado como um mundo que ocupa uma posição espacial e política muito periférica e distante dos eventos da saga. Isto acabou ajudando Miller a trabalhar melhor seus personagens, em sua grande maioria desconhecidos, e levar o leitor a interessar-se por eles. Com exceção de Ben Kenobi, e algumas menções a Jabba, todos os demais são novas adições ao universo expandido.

Outro detalhe que chama atenção é a abordagem não-maniqueísta do autor. Miller deu ao leitor a chance de entender os dramas e motivações dos dois lados do conflito. Assim, ele trabalhou muito bem a questão da relatividade das visões de mundo, e das interpretações dos conceitos de bem e mal.

Os conflitos físicos são descritos com clareza por Miller, evitando que o leitor se perca enquanto acompanha a ação, mas talvez mais interessantes que eles sejam os conflitos morais. Uma das passagens que melhor exemplificam estes é quando, passado o calor da revolta e raiva despertos pelo ataque dos Tuskens ao Lote de Dannar, Annileen e Ben têm um encontro revelador com A’Yark, a partir do qual passam a compreender com mais profundidade as ações de seus adversários.

Apesar de aparecerem menos, os Tuskens não são retratados como os vilões da história. Miller fez questão de explorar o ponto de vista deles, representados por A’Yark, líder do Povo da Areia. O autor foi cuidadoso na elaboração de seu passado, e na omissão de um detalhe que, quando revelado, muda nossa visão a seu respeito, além de dar-lhe uma oportunidade de aprofundar-se mais na cultura tusken.

Além disto, também há na história o que pode ser interpretado como uma crítica à tendência dos Estados Unidos de retalhar qualquer ataque ao solo americano de maneira desproporcional, usando um poder de fogo maior e causando mais baixas para os inimigos do que as sofridas por eles. Assim como há uma alegoria à “política” estadunidense de incentivo à guerra, e suas medidas de perpetuação de conflitos com o intuito de alimentar a indústria bélica.

Jedi até o fim

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Não dá pra dizer que Star Wars: Kenobi seja um aprofundado estudo do personagem título, pois a trama não se resume a ele, e explora muito da comunidade de colonos com a qual se envolve durante a história. Mas nos momentos em que o Miller investe no protagonista, a obra consegue conferir-lhe uma riqueza interior e psicológica que foi pouco explorada nos filmes, o que já faz valer a leitura.

Parte desse envolvimento de Ben com os colonos é trabalhado na forma de um “triângulo amoroso” formado por ele, Annileen e Orrin – líder do Chamado dos Colonos, a milícia formada por fazendeiros locais para combater os Tuskens. Apesar de ser um tema já batido, ele é trabalhado sem apelar para muitos clichês. Além de ocorrer num ritmo natural, parte da leveza e bom humor da narrativa é devido às situações que se criam entre os três.

O relacionamento de Ben com Annileen é um dos meios usados por Miller para trabalhar externamente os conflitos internos de Ben, gerados pela culpa que carrega consigo por seu papel na queda de Anakin Skywalker. Isto rende um diálogo entre ele e Annileen no qual tais conflitos são abordados sem que seus motivos sejam explicitamente revelados, confirmando a qualidade do texto do autor. É um bom momento em que Miller explora a humanidade de Ben, desmistificando-o.

Uma ideia bem utilizada pelo autor são os intervalos entre alguns capítulos do livro, nos quais relata as reflexões de Ben a respeito dos últimos acontecimentos da trama a um ausente Qui-Gon. Isto faz com que o leitor tenha acesso a um lado mais íntimo do cavaleiro jedi, que ocorre de maneira pontual, gerando momentos de respiro e introspecção à narrativa.

Também vale a pena atentar para o paralelo que podemos traçar entre o exílio de Ben em Tatooine e a passagem bíblica que fala da ocasião em que Jesus Cristo isolou-se num deserto onde foi tentado pelo Diabo. Em Tatooine, o cavaleiro jedi enfrenta seus demônios internos quando recolhe-se em sua cabana isolada no deserto, de uma maneira mais pessoal e reflexiva, e menos simbólica que o trecho do Evangelho. Outro ponto em comum é a aparência de Ben Kenobi, presente na ilustração da capa do livro, que foi baseada na interpretação de Ewan McGregor do personagem, a qual também remete à figura mais comumente associada a Cristo.

Outro detalhe interessante sobre o exílio de Ben em Tatooine é o quanto isto o forçou a mudar seu ponto de vista a respeito dos acontecimentos na galáxia. Se antes, ao lado de Qui-Gon e Anakin, sua vida era dedicada às grandes batalhas para salvar a galáxia, no planeta desértico ele passa a envolver-se, mesmo que de maneira relutante, em conflitos menores, se comparados aos do passado, e habituar-se a um ritmo de vida mais pacato. Isto reflete na forma como Miller narra a história, concentrando-se em episódios mais cotidianos dos personagens, que ajuda o leitor a ter mais empatia por eles, assim como Ben, que vai aos poucos participando de suas vidas, ao ponto de preocupar-se quando elas são ameaçadas.

Fora todo o trabalho que fez com Kenobi, Miller demonstrou um bom planejamento na hora de arquitetar as revelações e reviravoltas que surgem entre o final da 3ª e o início da 4ª parte do livro, que nos leva a mudar nossa interpretação dos atos de alguns personagens quando analisadas em retrospecto. Além de impulsionarem os conflitos do ato final, eles tornam a narrativa mais urgente e tensa, ao mesmo tempo em que expõe novas camadas e nuances dos personagens. A verdade é que, em vários momentos, os coadjuvantes apresentam uma complexidade até maior que a do protagonista. Um exemplo disto é Orrin Gault. Mas a respeito dele eu prefiro não dizer muito para não estragar algumas das surpresas da obra.

Um distúrbio na Força

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Star Wars: Kenobi, semelhante a Herdeiro do Império (mais sobre ele aqui), sofre de um defeito recorrente em obras literárias do universo expandido: o excesso de confiança do autor no conhecimento do leitor a respeito do aspecto visual das raças alienígenas citadas no livro. Ou seja, a menos que você seja fanático pela saga, e saiba de cor todas as raças que habitam Tatooine, há muitos trechos em que você terá que pausar a leitura para uma fazer uma rápida pesquisa na internet, a fim de visualizar cada uma das criaturas citadas por Miller, que não as descreve em detalhes.

Com exceção deste problema – que é até perdoável justamente por tratar de uma obra que funciona como complemento de um universo do qual não faltam referências visuais para serem consultadas pelo leitor – Star Wars: Kenobi é uma ótima chance de conhecer novas facetas de um dos personagens mais importantes da saga criada por George Lucas, escrita num ritmo que torna a leitura agradável por um autor que sabe a hora certa de investir na aventura, drama ou ação.

Ah sim!, e se tudo isto ainda não o convenceu, ainda tem Ben Kenobi enfrentando um DRAGÃO KRAYT! 

DÁ PRA SER MAIS ÉPICO QUE ISTO?!

DÁ PRA SER MAIS ÉPICO QUE ISTO?!

star-wars-kenobi-john-jackson-miller-editora-alephStar Wars: Kenobi
John Jackson Miller

Tradução: Fabio Fernandes
Ano de publicação:  2015

Encadernação:  brochura
Tamanho: 23 x 16 cm
Nº de Páginas:  528

Disponível nas seguintes livrarias:

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