[LIVRO] Star Wars: Herdeiro do Império (resenha)

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Cinco anos após “O Retorno de Jedi“, Leia, Han e Luke tentam estabelecer uma Nova República na galáxia, enquanto remanescentes do antigo Império, liderados pelo temível grão-almirante Thrawn, arquitetam a retomada do poder. Assim começa Star Wars: Herdeiro do Império, de Timothy Zahn, lançado pela editora Aleph.

Parte da “Trilogia Thrawn”, uma das obras literárias mais conhecidas e aclamadas do Universo Expandido de Star Wars, “Herdeiro do Império” não é um livro inédito no Brasil, mas estava fora de catálogo desde o início da década de 1990, até a Aleph relançá-lo no final do ano passado, nesta edição com novo projeto gráfico, capa e tradução. Mas será que, passadas mais de duas décadas desde o seu lançamento, a obra continua merecendo a atenção dos fãs da saga de George Lucas? É do que falarei nesta resenha.

Antes iniciar qualquer análise, devo confessar que não sou um grande fã de Star Wars, o que não significa que eu não goste da saga, mas apenas que tudo que eu conheço a respeito dela veio dos seis filmes, e da primeira Clone Wars, aquela feita em animação tradicional e dirigida por Genndy Tartakovsky, não a mais recente, feita em computação gráfica. Portanto, não sou um profundo entendido de seu universo. “Herdeiro do Império” foi meu primeiro contato com o universo expandido (apesar de eu já ter lido e resenhado a 1ª edição da nova série em quadrinhos produzida pela Marvel, que muitos fãs não consideram parte da versão anterior, mas de um “novo universo expandido”). Dito isto, sigamos em frente.

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Capa da 1ª edição original do livro.

Para o meu contentamento, logo no início do livro constatei que Timothy Zahn fez um bom trabalho de reapresentação do elenco e seus dramas pessoais, o que me ajudou muito, pois faz anos que não vejo os filmes, e lembro deles vagamente. O autor não teve pressa de jogar os heróis contra os vilões logo de cara. Os primeiros capítulos foram usados para (re)apresentar todos os jogadores e posicioná-los no “tabuleiro”. Essa “lentidão” inicial foi usada para mostrar que, por trás de todos os conflitos bélicos presentes em Star Wars, há um cuidadoso planejamento estratégico e um bocado de burocracia e politicagem. Isto acaba refletindo um pouco no comportamento de Han, Leia e Luke, que expressam angústia e tédio em diferentes níveis no início do livro, devido aos seus esforços para construírem um novo governo galáctico após derrubarem o anterior. Apesar desse ritmo inicial mais lento, Zahn não permite que a narrativa torne-se enfadonha.

Uma das vantagens de Star Wars em livro é o maior desenvolvimento da dinâmica dos personagens em situações mais “cotidianas”, o que o autor fez através de “diálogos de respiro” entre eles, que ocorrem após sequencias mais movimentadas. Isto deu ao leitor a chance de envolver-se mais com os personagens e compreendê-los com maior profundidade. E tão logo o trio principal passa a interagir, o livro torna-se mais envolvente e cativante.

Além disto, Zahn soube agradar os fãs da trilogia clássica. Fora seu ótimo trabalho de caracterização do elenco, ele revisitou velhos conhecidos populares entre os fãs, como Lando Calrissian, e lugares nostálgicos como Dagobah.

Mas não é só de nostalgia que esta continuação da saga se sustenta. Enquanto não ocorrem confrontos físicos com um inimigo externo, Zahn arma conflitos internos, enfrentados tanto pela Nova República quanto pelo “Velho Império”. Assim, nem tudo é preto e branco em “Herdeiro“, o que faz do livro uma obra um pouco mais sutil que os filmes, mas não ao ponto de tornar a saga irreconhecível. Ele apenas adiciona uma camada a mais em Star Wars, que ganha novas nuances e conflitos que não apenas “bem versus mal.”

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“Sabe, era bem mais fácil quando estávamos apenas atacando o Império. Pelo menos na época nós sabíamos quem eram nossos inimigos.”

Parte da força motriz da obra é devida a uma crescente suspeita de conspiração dentro da Nova República, e da presença de espiões do Império dentro do novo governo. E vocês sabem que tudo fica mais emocionante quando há espiões envolvidos. ;P

A outra é, claro, a introdução do grão-almirante Thrawn à mitologia de Star Wars, um personagem peculiar, que desperta atenção logo no início, por paradoxalmente ser um praticante da “arte da guerra” e um admirador das “artes culturais” das muitas civilizações alienígenas com as quais teve contato a serviço do Império. E a forma como ele usa seus conhecimentos destas para ajudá-lo a traçar estratégias de combate é, no mínimo, curiosa (embora exija um bocado de nossa suspensão de descrença em alguns trechos, devo dizer).

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“Quando você entende a arte de uma espécie, você entende toda a espécie.”

Guerras psicológicas e demonstrações de poder sem o intuito de grandes vitórias marcam o tipo de estratégias de combate empregadas por Thrawn, tornando-o um inimigo temível e respeitável. E sua calma e frieza fazem dele um líder paradoxalmente magnético e repulsivo, lembrando, neste aspecto, Darth Vader. Também merece menção a forma como sua aparência reflete os dois extremos de seu comportamento: a pele azul simbolizando sua sociopatia glacial, e seus olhos vermelho-sangue funcionam como um lembrete de que Thrawn guarda em si uma constante ameaça de explosão furiosa, que nem sempre se traduz em violência física, mas em atos indiretos que geram tal violência.

Seu conhecimento intuitivo – e eu diria quase sobrenatural – torna Thrawn um mestre das artes de guerra. Por exemplo, ele é capaz de deduzir a estratégia usada pelos heróis para despistar sua frota apenas com base numa gravação à distância das naves de Han, Luke e Lando. Isto o torna um inimigo desafiador – talvez mais até do que Vader, pois ele sabe como lidar com todas as peças em jogo.

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Joruus C’Baoth

Além de Thrawn, outra ameaça para os heróis é Joruus C’baoth, o clone de um Jedi a serviço do grão-almirante, capaz de controlar centenas de pilotos da frota imperial simultaneamente. Infelizmente ele tem uma participação pequena neste primeiro livro, em parte porque Thrawn evita usá-lo para não tornar-se muito dependente de C’baoth. Espera-se que ele cause mais problemas nos próximos livros da trilogia.

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Mara Jade

Mara Jade é outro dos personagens criados por Zahn que despertam curiosidade, não tanto por sua aparência (basicamente uma versão Jedi da Viúva Negra, só que revoltada com a vida), mas por sua quase obsessão por encontrar Luke, cujo motivo o autor mantém em segredo por boa parte da obra. E é muito engenhosa e simples a forma como autor conseguiu inserir Mara na história já estabelecida pelos filmes, sem desrespeitar a cronologia deles. Um retcon bem feito e elegante.

Outro trunfo de Zahn é saber jogar com seus personagens e levá-los por caminhos imprevistos e perigosos, renovando o interesse do leitor, como quando cria uma situação que força Mara e Luke a se aliarem temporariamente. O relacionamento deles é outro dos destaques do livro, em parte por lembrar um pouco o de Leia e Han na trilogia clássica. A diferença é que Mara alimenta um ódio mortal por Luke. 

Além de apresentar novos personagens, Zahn criou subtramas bem interessantes para os já conhecidos. Uma das mais legais é o treinamento das habilidades Jedi de Leia por Luke, e a maneira como elas são usadas para expandir sua percepção dos gêmeos que carrega no útero, do estado mental de Luke, e do ambiente em que se encontra. Essa dinâmica dos irmãos é outro dos grandes atrativos de “Herdeiro“. E tudo se torna ainda mais empolgante quando ela ganha de Luke um sabre de luz.

Porque uma princesa grávida usando um sabre de luz é outro nível de formidabilidade!

Porque uma princesa grávida usando um sabre de luz é outro nível de fodacidade!

“Lamentar a perda de um amigo e professor era adequado e honorável, mas chafurdar desnecessariamente na perda era dar ao passado poder demais sobre o presente.” – coisas que aprendemos com os Jedi quando nas mãos de um bom escritor.

No que diz respeito ao estilo de escrita de Zahn, ele carece de um pouco mais de detalhamento na descrição de personagens, cenários e ambientação. O autor investe mais nos diálogos e na narração das ações deles. Por isto, “Herdeiro do Império” lembra, em sua estrutura, um longo roteiro de um filme, pela falta de uma construção visual mais cuidadosa da parte de Zahn. Isto pode desagradar quem espera um maior valor literário da obra, que depende muito do conhecimento prévio dos filmes e da imaginação do leitor, que tem que visualizar os personagens novos a partir de parcas descrições oferecidas pelo autor. Apesar desta carência, o texto de Zahn flui de maneira agradável, e pouco cansativa, com transições de cena bem feitas, indo de um núcleo a outro de personagens com naturalidade. Portanto, está longe de ser uma obra ruim do ponto de vista do ritmo. Você a lê rápido, e se interessa pelos acontecimentos e pelo destino dos personagens, pois Zahn encadeou de uma maneira agradável as subtramas e os núcleos narrativos.

O autor também foi muito feliz na coordenação das subtramas. Por exemplo, no meio do livro, ele separa Luke e R2D2, Leia e Chewbacca, e Han e Lando em pequenos grupos através da galáxia, estratégia narrativa que o permitiu lidar melhor com as dinâmicas entre eles, e criar novas subtramas, reforçando o interesse do leitor em descobrir como e sob quais circunstâncias eles se reencontrarão mais adiante.

E apesar da breve desacelerada que a trama sofre no meio do livro, Zahn soube convergir muito bem a maioria dos plots para o planeta Myrkr, onde fica a base do contrabandista Talon Karrde, outra criação do autor. Após mostrar que o novo personagem, apesar de ser um criminoso, segue alguns princípios éticos que o impedem de ser totalmente mal, Zahn jogou boa parte dos problemas que ocorrem paralelamente em Myrkr nas costas de Talon, levando o leitor a compadecer por toda aflição que ele enfrenta. Tudo isto faz da metade final de “Herdeiro do Império” ainda mais tensa.

Talon Karrde e seu vornskr de estimação (simpático, não? ^^').

Talon Karrde e seu vornskr de estimação (simpático, não? ^^’).

Os maiores problemas do livro se encontram em seu início. Um deles ocorre na emboscada no mercado aberto de Bimmisaari (retratada na arte da capa), que começa empolgante, mas perde o rumo no final, quando a Millennium Falcon entra em cena, criando uma interrupção súbita e confusa da ação. A impressão que ela passa é de que uma parte da sequencia foi cortada, e que Zahn escreveu seu desfecho com pressa.

Felizmente o autor se redimiu em outra emboscada sofrida por Leia e Han em Bpfassh. Nesta a ação foi melhor narrada e resolvida, mostrando que Zahn foi se ambientando ao universo que explorou na obra, e passou a descrevê-lo com mais desenvoltura conforme avançava em sua produção.

Star Wars - Heir to the Empire 1 by Mathieu Lauffrey

Capa da 1ª edição da adaptação do livro em quadrinhos (arte de Mathieu Lauffrey)

Outro momento inspirado do autor é no capítulo em que Luke fica à deriva num ponto desconhecido da galáxia, após sofrer um ataque do destróier Quimera. Zahn transmitiu ao leitor com muito eficácia todo desamparo da situação desesperadora de Luke, fazendo com que participasse e se envolvesse na luta solitária do herói para encontrar um meio de escapar de uma morte lenta. E mesmo que não entendamos a função de todos os equipamentos e componentes do X-Wing, a forma como Zahn descreveu as tentativas de Luke em criar uma solução para livrá-lo de seu “encalhe espacial” tornou toda a ação muito crível.

O terço final do livro é um exemplo de como prender o leitor, com Zahn jogando Luke e Han numa enrascada atrás de outra, culminando numa climática batalha espacial. Ou pelo menos deveria ser, pois ela não chega a empolgar tanto quanto a preparação para o confronto, feita durante toda a metade final do livro. Mas, como este é apenas o primeiro volume da trilogia, vou deduzir que Zahn reservou suas melhores ideias para os próximos.

Independente de seus defeitos, “Herdeiro do Império” é um livro que entretém, e muito rápido de ler, algo que todo fã de Star Wars deveria fazer, pois está à altura de seus melhores filmes, assim como o ótimo trabalho gráfico da editora Aleph, que teve o cuidado de criar uma ilustração para separar um capítulo de outro que lembra o leitor da constante ameaça que os persegue os heróis através da galáxia. 

star-wars-herdeiro-do-imperio-timothy-zahn-editora-alephStar Wars – Herdeiro do Império

Autor: Timothy Zahn
Tradução: Fábio Fernandes
Ilustração da capa: Marc Simonetti
Ano: 2014
Número de páginas: 472
Acabamento: Brochura
Formato: 16x23cm

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nota-4