[LIVRO] “Snow Crash” de Neal Stephenson (resenha)

snow crash neal stephenson editora alephUm hacker samurai e uma skatista ninja unem-se para salvar o mundo de um vírus que ameaça tanto a Realidade quanto o Metaverso, neste que é um dos marcos da literatura cyberpunk, concebido por Neal Stephenson. Estou falando de Snow Crash, relançado mês passado pela editora Aleph, que analisarei nesta resenha.

Antes de começar, vale dizer que Snow Crash saiu pela primeira vez no Brasil em 2008, também pela Aleph, que na época adaptou o título original para Nevasca. Nesta 2ª edição, que conta com uma nova tradução de Fábio Fernandes, a editora optou por usar o título original, pois, como fica claro logo antes do primeiro capítulo, há muitas leituras possíveis para ele, que se perderiam caso fosse traduzido ou adaptado. Dito isto, prossigamos…

Snow Crash pode ser lido de três formas distintas:

  1. Focar-se na aventura frenética de Hiro e Y.T. em seus esforços para impedir que um vírus alastre-se pelo mundo real e o virtual; 
  2. Concentrar-se nas extrapolações de problemas existentes em nossa sociedade, e na forma como Stephenson os amarrou à história da humanidade, da linguagem e da tecnologia;
  3. Ou simplesmente dar igual atenção a ambos os aspectos da obra, usufruindo-a por completo, divertindo-se com as ações e comportamentos muitas vezes absurdos dos personagens, e com as empolgantes sequências de ação, ao mesmo tempo em que reflete sobre as implicações presentes na mescla de realidade e ficção que o autor criou para embasar os fundamentos de seu universo.

Isto posto, optei por dividir esta resenha em duas partes. A PARTE 1 tratará do livro sem dar grandes spoilers, e sem muitos detalhes referentes à natureza e história complexas do vírus que Hiro e Y.T. tentam deter. Já a PARTE 2 estará, inevitavelmente, lotada de SPOILERS, e discutirá todas as principais conexões entre mitologia, ciência, religião, e fenômenos viróticos propostas por Neal Stephenson. A decisão de ler a resenha completa é sua.

PARTE 1snow crash yt and hiro

Antes de jogar o leitor para um mergulho nas profundezas do conhecimento humano, Neal Stephenson oferece um bocado de diversão, que começa nas primeiras páginas, e prossegue de maneira quase ininterrupta até a metade de Snow Crash. O início do livro é uma viagem surtada e dinâmica pelo universo da obra, que serve tanto para ambientar o leitor ao frenesi que move seus personagens, como para introduzi-lo ao mundo que habitam.

UNIVERSO BINÁRIO

Algo que já posso adiantar é que o Stephenson soube apresentar e explicar o funcionamento dos dois aspectos de seu universo ficcional – a Realidade/mundo real e o Metaverso/mundo virtual – melhor que William Gibson em Neuromancer, isto nas 30 primeiras páginas. Além de exibir uma superioridade técnica em comparação a outro expoente fundamental do cyberpunk, Stephenson não economizou em informações adicionais sobre seu mundo fictício, sem torná-las gratuitas, usando-as para dar mais textura e credibilidade a ele, por mais absurdo que algumas pareçam num primeiro momento.

Compensa falar dos dois lados do universo binário de Snow Crash separadamente:

A Realidade

Tá, é mais emocionante que isto...

Tá, é mais emocionante que isto…

O mundo real de Snow Crash é tão louco e surreal quanto sua contraparte virtual. Creio que basta dizer que começamos a história acompanhando uma entrega de pizza feita por Hiro, um nipo-afro-americano que anda pra cima e pra baixo carregando espadas japonesas, trabalha para uma rede de pizzarias comandada pela Cosa Nostra – a máfia italiana – no que restou dos Estados Unidos da América – que no livro já não presta pra mais nada a não ser fazer pizza, música, cinema e softwares. Tudo isto é transmitido para o leitor enquanto acompanha a correria de Hiro, num amontoado massivo de informações que ajudam-no a ambientar-se ao ritmo frenético da obra e seu universo.

snow_crash__deliverator_hiro_by_huxtable-d3f8liwNo futuro imaginado por Stephenson, o mundo rendeu-se às corporações, transformando nações inteiras em franquias, as EQNOFs (Entidades Quase Nacionais Organizadas em Franquias), algo que ele dá a entender que começou na China, que ele apelida de “avó de todas as EQNOFs”. Elas funcionam como alegorias com teor crítico, comprovado pelo nome dado a algumas delas, como Cayman Plus, The Alps e, minha preferida, Narcolômbia. Até mesmo a polícia foi substituída por duas grandes corporações rivais: a MetaCops Ilimitada e a Enforcers.

Aliás, por falar nas corporações responsáveis pela segurança pública, no futuro segundo Neal Stephenson os criminosos poderão barganhar com os MetaCops ou os Enforcers, a fim de escolher em qual rede de Serviço de Contenção e Encarceramento ficarão presos. Dependendo do quanto pode pagar, o prisioneiro terá como optar entre uma cadeia luxuosa ou uma chulé. Neste ponto o Brasil já está na vanguarda, como comprovam alguns de nossos traficantes e políticos. 😛

snow_crash__y_t__by_huxtable-d3f8m2nOutro detalhe que chama atenção é o uso que o autor fez de palavras híbridas – muito bem adaptadas pela tradução de Fábio Fernandes – como “suburbiclaves”, “franchulados” ou “vanagon”, que sutilmente apontam para um futuro onde tudo parece resultante de fusões de conceitos e marcas, que curiosamente caminham no sentido inverso da política interna dos Estados (não mais) Unidos, onde ocorreu uma fragmentação do Governo, tornando cada cidade um estado em si mesmo, assemelhando-se à fase mais decadente do Império Romano.

O que restou dos Estados Unidos reflete essa tendência global de empreender fusões, como é o caso da CIA e da Biblioteca do Congresso, com a primeira absorvendo a segunda, quando o governo do país desmoronou, dando origem à Central Intelligence Corporation (CIC), para a qual Hiro trabalha como pesquisador freelance quando não está entregando pizzas.

O Metaverso

Snow Crash YT por Francisco Galárraga

Um ponto que se destacou logo no início foi o pouco detalhamento dado por Stephenson à tecnologia de realidade virtual usada por Hiro e outros personagens para acessarem o Metaverso, que seria uma mistura de realidade virtual com a internet. O autor escolheu dar mais atenção para a arquitetura do mundo digital, e sua organização social.

Merece atenção a solução de Stephenson para mostrar como a divisão de classes sociais reflete no visual dos avatares usados pelas pessoas que acessam o Metaverso: quanto mais customizado e melhor renderizado é o avatar, maior é a classe social da pessoa; em contrapartida, quanto menos privilegiado é o usuário, mais padronizados, pouco expressivos e estereotipados eles são. Portanto, a expressão da personalidade é diretamente proporcional à capacidade de cada usuário bancar um avatar com uma gama maior de customização visual e de expressão de sentimentos. Um princípio semelhante foi usado no anime Serial Experiments Lain, onde o avatar digital de um usuário da Wired – correspondente ao Metaverso – tinha relação com o nível de expertise de cada um. Quanto mais experiente era o usuário, mais fiel à sua aparência no mundo real era sua versão virtual – como era o caso da protagonista – , enquanto os menos experientes eram capazes apenas de projetar partes do corpo, como os olhos, a boca, ou um par de orelhas, por exemplo.

Snow Crash por Francisco GalarragaOutra ótima sacada do autor é incorporar aos avatares ruídos provenientes do mundo real, naqueles que usam uma tecnologia inferior, que não filtra influências externas antes de gerar a representação digital do usuário, como o avatar usado pelo Corvo para contatar Hiro pela primeira vez (já falo de ambos).

As metáforas visuais para conceitos de informática são um atrativo a parte da obra. Um exemplo são os daemons, aplicativos de auxílio aos usuários do Metaverso, que normalmente assumem a forma de robôs, ou de algo que represente sua função no sistema. Dá pra dizer que eles são os “avôs” do Agente Smith de Matrix. Outra ótima ideia são a dos hipercartões, que no Metaverso são representações gráficas e simbólicas, em forma de cartões de visitas, de um pacote de informações que pode conter qualquer tipo ou quantidade delas. Se você aceita um hipercartão de outro usuário, você permite que os dados representados por ele sejam transferidos para o seu computador.

Em Snow Crash o autor antecipou a tendência atual de negociar informações, além de falar muito da necessidade de sistemas mais eficientes de armazenamento, busca e filtragem de dados. Por exemplo, Hiro é um hacker que viaja pelo Metaverso buscando e revendendo informações filtradas do caos informacional que é aquele universo digital, o que exige certa perícia da parte dele. Isto não é muito diferente do que é a internet hoje, um amontoado de informações diversas, que devemos filtrar para encontrarmos aquilo que realmente nos interessa.

Ng_Snowcrash_by_ariokhAlém de hackers como Hiro, que alternam entre a Realidade e o Metaverso, Stephenson também criou o conceito dos gárgulas, que são hackers que vivem simultaneamente entre os dois mundos, usando computadores adaptados para carregarem consigo pelas ruas, onde constantemente recolhem informações que são transmitidas e cruzadas com aquelas acessíveis apenas no mundo digital. Alguém aí pensou em realidade aumentada e no Google Glass? 🙂 

Outro conceito recente que Stephenson antecipou foi o do Google Maps. Snow Crash foi lançado em 1992, e apresentou uma descrição quase literal de seu funcionamento exato, no capítulo em que Hiro acessa a interface gráfica da CIC, que tem a forma de um globo terrestre hiper realista, onde é possível acessar informações meteorológicas e de vigilância por satélite em tempo real.

E neste cenário de uma relação tão íntima entre o usuário e o mundo digital, surge o Snow Crash, um vírus capaz de infectar o cérebro dos hackers por meio de um código binário escondido num bitmap que afeta a programação neurolinguística das “estruturas profundas” do cérebro humano. Opa! Muita informação de uma só vez? Calma, que falarei sobre ele mais detalhadamente na parte 2 desta resenha.

O ELENCO

Snow Crash não teria o mesmo impacto sobre seus leitores se não contasse com personagens tão interessantes quanto o mundo imaginado por Neal Stephenson. Felizmente o autor investiu na criação de figuras tão envolventes quanto o universo fictício da obra. Entre elas:

Hiro Protagonist, o Hacker Samurai

hiro_protagonist__snow_crash_by_ariokh-d5vkofiHiroaki Protagonist é filho de uma nipo-coreana com um afro-americano, considerado o samurai nº 1 do mundo, além de ser um dos hackers criadores da interface gráfica do Metaverso. Hiro é personificação do melhor dos dois mundos, sendo igualmente destemido e habilidoso em ambas as técnicas tanto no mundo real como no virtual. Sem dúvida um sujeito respeitável (e foda).

Ao definir que Hiro é um dos co-criadores da interface básica dos avatares usados pelos usuários do Metaverso, e que Juanita Marquez – outra hacker e sua ex-namorada – foi a criadora da tecnologia que permitiu gerar rostos mais expressivos e humanos para os mesmos, Stephenson sutilmente sugeriu em Snow Crash que as mentes mais brilhantes dos Estados Unidos do futuro serão de descentes mestiços de estrangeiros. Enquanto Hiro é um nipo-afro-americano, Juanita é possivelmente filha de emigrantes mexicanos, sendo ambos representantes de raças pouco valorizadas por parte da população anglo-saxã caucasiana dos Estados Unidos atuais.

Y.T., a Skateninja

chloe_moretz_as_yt__snow_crash_movie_by_ariokhApesar de Hiro ser supostamente o protagonista (algo que seu sobrenome deixa bem claro), quem acaba chamando tanta atenção quanto ele (em alguns momentos até mais) é Y.T., a impulsiva, destemida e petulante surfista de asfalto adolescente, que não tem medo de peitar autoridades e “fazer o que dá na telha”. Tudo isto a torna uma espécie de “proto Hit-Girl”, pois suas personalidades indomáveis e desafiadoras são bem parecidas, assim como o fato de serem bem mais jovens e prematuras que seus parceiros, a maioria adultos.

Y.T. participa de um dos movimentos mais arriscados de Stephenson em Snow Crash, quando o autor a faz envolver-se com um dos vilões da história. Se por um lado isto o permitiu explorar uma faceta dele que, de outra forma, não seria exposta ao leitor, por outro há uma longa e detalhada cena envolvendo os dois personagens que pode ser considerada bem polêmica. Ainda assim, a dinâmica dos dois funciona ao propósito da situação, e torna ambos os personagens mais humanos, e menos “peões da narrativa”, o que sempre ajuda.

L. Bob Rife, o “Deus do Metaverso”:

snow crash l bob rifeNão demora muito pra traçarmos alguns paralelos entre o fictício L. Bob Rife e real L. Ron Hubbard, criador da polêmica cientologia. Rife é formado em comunicação social, envolveu-se com a indústria petroleira norte-americana, investiu seu capital em religião, teologia, arqueologia, astronomia e ciências da computação, e tornou-se o dono da internet no mundo descrito em Snow Crash. Como se tudo isto não fosse o suficiente para o enxergarmos como uma extrapolação fictícia de Hubbard, descobrimos que Rife é dono de todos os radiotelescópios do mundo, que foram conectados numa só rede, em busca de sinais de vida alienígena.

A maneira como Stephenson conta a ascensão de Rife em poucas páginas é um ótimo exemplo de como apresentar um personagem com uma história complexa de maneira concisa. Em pouco tempo nos damos conta do nível de poder nas mãos do homem, que é a personificação do monopólio na indústria tecnológica e religiosa. Rife é comparável a um deus onipresente e onisciente, por ter em suas mãos o controle das telecomunicações, e alguns de seus milhares de “olhos” apontados para o espaço. 

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Além disto, por meio da “caridade” e da promessa de “salvação”, Rife reuniu milhares de refugiados de nações subdesenvolvidas em sua Jangada, um aglomerado de petroleiros, navios e barcos ao redor do Enterprise, seu porta-aviões particular, formando um gigantesco organismo coletivo, um leviatã, com ruas e avenidas que serpenteiam por complexas redes pluviais. Mais tarde descobrimos que a Jangada funciona como uma versão “macroscópico” de um vírus, navegando “a esmo” pelos oceanos, soltando partes de si na direção dos continentes, carregando consigo “agentes infecciosos” responsáveis por espalhar sua “religião” pelo mundo.

Corvo:

SnowCrash__Raven_by_ariokhEnquanto Rife é o cérebro, o Corvo são os músculos da Jangada. Stephenson deu ao aleuta – descendente dos nativos do Alasca – um ar lendário e temível. Um homem imenso, montado em sua Harley, de cabelos longos e sorriso sinistro. Além de ser uma figura assustadora, o Corvo é um expert no uso de facas e lanças, cujas lâminas são feitas de vidro, usando uma técnica de seu povo que as torna capazes de cortar tecidos, músculos, ossos e até metal num nível molecular.

O fato de Hiro encontrá-lo primeiro no Metaverso dá um peso maior ao primeiro vislumbre que ele tem do Corvo no mundo real, que só aumenta quando Hiro envolve-se num confronto entre o Corvo, T-Bone, e os Enforcers. O capítulo que narra este embate é um ótimo exemplo de quão competente é Stephenson ao lidar com sequências de ação complexas. Além de tenso, o embate é cheio de suspense, graças à escolha do campo de batalha: uma plantação de lúpulo, que dificulta a visão do oponente, contribuindo para aumentar a ameaça representada pelo Corvo, e para reforçá-lo como o nêmesis de Hiro.

Mas nada disto torna o vilão mais temível do que o fato de que ele carrega no sidecar de sua moto uma BOMBA DE HIDROGÊNIO conectada a eletrodos implantados em seu cérebro, que será detonada caso pare de receber sinais de vida do Corvo. Sem dúvida um vilão que não podemos subestimar.

NEAL STEPHENSON

neal-stephenson

Um dos muitos pontos positivos do texto de Neal Stephenson é sua habilidade em conduzir o leitor através da trama sem cansá-lo. Para isto ele utiliza muito bem o fluxo de consciência, emendando impressões dos personagens com descrições de ações com informações sobre o mundo, dando um ritmo mais orgânico à obra, seguindo o fluxo de informações que trafegam tanto na Realidade quanto no Metaverso.

snow crash yt fanartVelocidade é a palavra de ordem em Snow Crash. A alucinante sequência da entrega de pizza que abre o livro, iniciada por Hiro e encerrada por Y.T. enquanto “surfa” pelo concreto através das ruas e avenidas, é tão empolgante quanto as melhores cenas de ação de um filme.

Outra sequência de tirar o fôlego é a emboscada noturna em alto mar ao navio de Hiro, na qual Stephenson nos jogar na pele do protagonista, que fica a cada instante mais cercado e sem escapatória. O modo como toda a situação vai ficando mais desesperadora é de deixar qualquer leitor refém do capítulo em que ela ocorre. É praticamente impossível interromper a leitura até que o ele termine e você recupere o fôlego que perdeu no início dele.

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Além de escrever bem cenas de ação, Stephenson também sabe quando investir no suspense. Quando ele mete Hiro e Y.T. numa enrascada no final de um capítulo, no seguinte ele interrompe a ação pra nos mostrar um flashback de Hiro – uma luta de espadas no Metaverso – só para voltar ao cliffhanger deixado no antepenúltimo capítulo para recontar seus instantes finais do ponto de vista de… um cachorro robô! Como não amar uma obra assim? ><

Outro trecho de Snow Crash que comprova o talento de Stephenson é o (propositalmente) cansativo capítulo focado na mãe de Y.T. Nele foi captada com precisão metódica, e muito sarcástica, a compartimentação burocrática e desumanizante do serviço federal no que restou dos Estados Unidos, que na obra tenta desesperadamente manter-se organizado, ao ponto de obrigar funcionários do governo a gastarem seu tempo elaborando regras para o uso ideal de papel higiênico nas repartições federais.

O autor, porém, não é isento de falhas. Um dos problemas do texto é sua insistência no uso siglas, cujo significado é explicado uma só vez, o que em diversos momentos exige que o leitor volte atrás na leitura pra relembrar o que significam (faltou um glossário no final do livro, que já ajudaria bastante). Isto dificulta um pouco o avanço em alguns trechos da história. Alguns exemplos:

  • CAMS: Código de Apreensão de Meliante Suspeito
  • TMEWH: The Mews em Windsor Heights
  • COGRE: Comando Operacional Geral do Ramo Executivo
  • RARE: Rife Advanced Research Enterprises

E sou forçado a dizer que do meio do livro pra frente há verdadeiros turbilhões de informações referentes à Bíblia, Suméria, linguística e neurolinguística, o que pode ser um tanto “denso” para alguns leitores que esperam o mesmo ritmo frenético da primeira metade de Snow Crash. É bem desafiadora a tarefa de absorver tantos conhecimentos de uma só vez. Apesar da quebra de ritmo imposta por tais trechos, as conexões sugeridas pelas ideias expostas são fascinantes, e merecem um estudo à parte. O qual farei mais abaixo, na 2ª parte desta resenha.

PORTANTO…

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Snow Crash é um ótimo investimento pra quem gosta de histórias com personagens carismáticos, ação bem narrada, e altas doses de ficção científica e filosofia, além de discussões intrigantes a respeito de história das religiões, das civilizações, das línguas e da mente humana, tudo isto amarrado de maneira muito criativa e bem elaborada, tornando-o um livro obrigatório para amantes do gênero cyberpunk. Há uma dose generosa de alta tecnologia casada com um mundo decadente, e uma abordagem criativa da relação íntima do ser humano com seus aparatos e apêndices tecnológicos.

Numa nota mais pessoal, posso afirmar que Snow Crash foi um dos livros mais fascinantes que li nos últimos anos.

nota-5

Ainda aqui? Então que comecem os SPOILERS e a…

PARTE 2

snow crash The Art Of Ladrönn

Em sua camada mais profunda, semelhante à estrutura de códigos por baixo da superfície tridimensional do Metaverso, Snow Crash é um detalhado e instigante estudo sobre as origens da humanidade, das religiões, das linguagens, e da mente humana e sua arquitetura fundamental. Que este aspecto se sobressaia literalmente quando atingimos o meio da obra, seu núcleo, pode ser tanto uma feliz coincidência, ou uma decisão igualmente arbitrária e brilhante de Neal Stephenson, que tornou a própria estrutura do livro uma metáfora das diferentes camadas que o compõem.

É esta estrutura mais complexa que explorarei nesta 2ª parte.

MAS, MUITA ATENÇÃO AGORA: o que foi registrado abaixo não tem a menor intenção de convencer alguém da veracidade de todos os dados aqui reunidos, mas meramente analisá-los de maneira lógica, e dentro do contexto em que são citados na obra aqui resenhada. Dito isto, prossigamos…

Religiões, linguagens e vírus:

snow crash asherah metavirusA correlação proposta por Stephenson entre o funcionamento da mente humana e a disseminação das religiões é fascinante, e merece ser exposta aqui. Pra começar, o Snow Crash é um metavírus digital capaz de tornar qualquer sistema, mesmo biológico, suscetível a outros vírus. No livro ele ainda tem uma contraparte biológica, distribuída como droga, e produzida a partir do sangue de pessoas infectadas com a versão digital. Ambas as versões servem como meio de disseminação do Culto de Asherah, a religião financiada por L. Bob Rife.

Como esta disseminação ocorre? Bom, tudo começa nas pupilas de nossos olhos, que funcionam como terminais do computador biológico que é nosso corpo, nosso bioware, o que torna os cérebros dos hackers – pessoas que lidam diretamente com código binário – mais suscetíveis a transmissões de informações neste formato através dos nervos ópticos. Por isto, a versão digital do Snow Crash só consegue infectar hackers, como o amigo de Hiro, Da5id, que tem sua rede neural completamente reprogramada, perdendo a capacidade de organizar pensamentos lógicos e racionais, além de começar a “falar em línguas” (mais detalhes sobre isto daqui a pouco).

É por meio de Juanita que Stephenson expõe sua teoria sobre a religião como um fenômeno viral. Segundo a ex-namorada de Hiro, que também é uma hacker, todas as religiões são conjuntos de crenças/informações que replicam-se dentro da mente humana, e são transmitidas de uma pessoa pra outra. Isto se deve ao fato do cérebro ter “receptores de religião” embutidos nos neurônios, um “espaço livre” reservado para qualquer tipo de religião.

snow crash glossolaliaPara embasar sua teoria sobre a natureza virótica das religiões, Stephenson mergulhou literalmente fundo, até a raiz de todas as línguas do mundo, por intermédio do fenômeno neurológico da glossolalia, que descreve o ato de “falar em línguas”, recorrente em diversas religiões ao longo da história humana, o qual tem uma possível relação com as estruturas mais profundas do cérebro – comuns a todas as pessoas – que herdamos de nossos antepassados mais remotos, e foram preservadas apesar de toda a evolução pela qual passou o cérebro de nossa espécie.

A glossolalia, por sua vez, apresenta outros sintomas colaterais naqueles que a manifestam, entre eles: “perda completa de controle racional; predomínio da emoção que leva à histeria; ausência de pensamento ou vontade; funcionamento automático dos órgãos da fala; amnésia; e manifestações físicas esporádicas ocasionais como estremecimento ou contrações musculares”, além de “supressão deliberada do pensamento consciente” e “delírio” incontrolável. Todos sintomas que podemos encontrar, em maior ou menor escala, em fanáticos religiosos, pessoas ligadas umas às outras pela religião, que “falam a mesma língua”, sendo suscetíveis aos mesmos dogmas e crenças. Portanto, se fosse desenvolvida uma versão virótica da glossolalia, ela se tornaria uma forma de controle de massas, um meio de “converter” grandes quantidades de fiéis, aos milhares. É isto que Rife faz, usando todos os recursos tecnológicos e humanos que tem sob seu controle.

O resultado dos esforços de Rife foi o Snow Crash, um metavírus que “lava o sangue” de quem infecta – segundo uma hacker infectada por ele – e torna os infectados submissos à Palavra pregada pelo Culto de Asherah, ao ponto de doarem seu sangue infectado para a fabricação de versões biológicas do Snow Crash na Jangada, e ajudarem a “espalhar a Palavra”, vendendo o Snow Crash nos continentes, disfarçado de droga, para os “infiéis”. Vale notar aqui outro paralelo traçado por Stephenson, igualando as religiões às drogas.

Talvez um dos pontos em que o autor mais exija de nossa suspensão de descrença seja quando ele tenta explicar a origem da versão digital do Snow Crash, que não é tão elaborada quanto a de sua versão biológico. Basta dizer que é possível traçar um paralelo entre o Snow Crash e a Equação Anti-Vida, usada pelo vilão Darkseid na saga Crise Final, escrita por Grant Morrison, especialmente quando levamos em conta o resultado da disseminação virótica de ambos, e a consequente anulação do livre-arbítrio, assim como a submissão dos infectados à Palavra/vontade emanada de um “ser superior”. Além disto, na história em quadrinhos, Darkseid é adorado como um deus, em torno do qual surgiu a Religião do Crime, não muito diferente do Culto de Asherah de Snow Crash.

snow crash final crisis darkseid

Mitos, Deuses e Encantamentos Sumérios:

Religião, magia e medicina estão tão completamente entrecruzadas na Mesopotâmia que separá-las é um trabalho frustrante e talvez fútil… [Encantamentos sumérios] demonstram uma íntima conexão tão completa entre o religioso, o mágico e o estético que qualquer tentativa de retirar um do outro distorcerá o todo.

O trecho acima resume quão intimamente ligadas estão estas vertentes do conhecimento humano em Snow Crash. Tudo começa na Suméria, civilização que existiu no sul da Mesopotâmia, atual sul do Iraque e Kuwait, entre 6.500 e 1.940 a.C., cuja mitologia foi a base dos mitos babilônico, assírio, cananeu, hebraico e ugarítico.

Um dos mitos suméricos fala da Língua do Éden, que foi a linguagem usada por Adão e Eva, também conhecida como Linguagem do Logos – sendo “Logos” o momento em que Deus criou o mundo pronunciando uma palavra, que supostamente era seu próprio nome. A Língua do Éden permitia uma comunicação sem erros de compreensão, por ser derivada do Nome Divino. Em Snow Crash, Hiro a interpreta como a “linguagem de máquina do mundo”.

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A língua suméria, por sua vez, foi a primeira língua escrita do mundo. Por isto, ela é considerada a linguagem mais próxima da Língua do Éden, raiz de todas as línguas, portanto, uma linguagem superior às que vieram posteriormente.

Aqui cabe um parêntese sobre as duas escolas de pensamento rivais no que diz respeito à importância da linguagem para a mente humana: a relativista e a universalista.

Os relativistas acreditam que a linguagem é uma estrutura da cognição, na qual nossas percepções são organizadas. Para eles, estudar a evolução da linguagem é o mesmo que estudar a evolução da mente humana.

Por outro lado, os universalistas creem que todas as linguagens têm características em comum, cujas raízes estão em “estruturas profundas”, que são componentes inatos do cérebro humano os quais efetuam operações formais (ou formativas) em sequências de símbolos, padronizando o córtex e sua rede neural, e “programando” seus canais eletroquímicos e neurofisiológicos.

Isto posto, podemos dizer que a linguagem suméria serviu como base para a estrutura cerebral dos sumérios, formando sua “infraestrutura linguística”, composta por uma língua-mãe, que “precisa existir para permitir que nossos cérebros adquiram linguagens mais avançadas”. Usamos um processo semelhante com uma de nossas criações: a linguagem binária é a “língua-mãe” dos computadores, que precisam dela para executarem operações, e para que entendam o que queremos deles a partir dos comandos que inserimos usando linguagens secundárias, as quais criamos para nos comunicar com eles, através um compilador – um programa que traduz as linguagens de programação secundárias para a língua-mãe.

snow crash the indo european uralic languag families

Voltando à glossolalia, algumas teorias a consideram uma manifestação de nossa “língua-mãe”, que compõe nossa infraestrutura linguística.

E cabe aqui um novo parêntese: os cabalistas, místicos judeus da Espanha e Palestina, acreditavam no poder mágico da linguagem derivada das letras do Nome Divino. Para eles havia uma conexão entre a letra impressa e as conexões neurais, que escondia um significado profundo no interior das palavras. Entre os cabalistas, haviam aqueles que usavam o “alfabeto arcangélico” para aplicar a cabala na vida cotidiana usando a “escrita do olho”, assim chamada por ser composta de linhas e círculos, que podem ser interpretados como zeros e uns, tornando-a uma linguagem binária. Estes cabalistas eram conhecidos como feiticeiros ou ba’al shem, que significa “mestre do Nome Divino” em hebraico.

Uma tabuleta suméria

Uma tabuleta suméria

Uma interpretação fascinante proposta por Stephenson é a de que os sumérios, ao contrário dos egípcios, criaram uma mídia de armazenamento para seus escritos mais durável que os papiros egípcios: “tabuletas de argila cozida ou enterradas em jarros.” Isto permitiu que seus documentos sobrevivessem por milênios, entre eles o nam-shub de Enki, que em Snow Crash está sob a posse de L. Bob Rife.

Um nam-shub era uma “fala com força mágica”, um “encantamento” sumério.

Enki foi um deus ligado à água. Seu sêmen, a “água do coração”, dava origem a rios quando ele se masturbava. Seu nome em sumério significa “Senhor de Kur” – sendo Kur o Oceano Primordial – por isto, ele era conhecido como o Conquistador do Caos. Nos mitos sumérios, Enki é igualado a Deus, pois foi ele quem pronunciou o nome de tudo o que foi criado, trazendo ordem ao caos através das palavras. Razão pela qual também ficou conhecido como o criador e guardião das “palavras-chave” e “padrões” que governam o universo, que podem ser interpretados, em linguagem informática e sob uma óptica mais mundana, como os algoritmos necessários para efetuar atividades essenciais para a sociedade, que formam o “sistema operacional da sociedade”. Usando esta mesma base interpretativa, o “sêmen/água” de Enki era um transmissor de informação, enquanto a argila usada pelos sumários para gravar seus conhecimentos foi a “mídia” fornecida pelos rios Tigre e Eufrates, “avatares” de Enki, o “Deus da Informação”.

O nam-shub de Enki

O nam-shub de Enki

Na interpretação proposta por Stephenson, através do hacker Lagos, que serve como um mentor de Hiro por intermédio de seu Bibliotecário, Enki na verdade foi um mago, ou seja, um “ser humano normal com poderes especiais”, entre eles criar “vírus neurolinguísticos” usando “palavras-chave”. Para Hiro, Enki foi um dos primeiros “hackers” da história, capaz de criar “palavras mágicas”, ou nam-shubs, que tiravam proveito da ligação linguagem-cérebro para alterar o funcionamento do cérebro e do corpo, fazendo um “hacking neurolinguístico” usando o sumério como “linguagem de (re)programação neural/cognitiva”.

Assim, Enki supostamente usou seu nam-shub para imunizar a humanidade de um metavírus neurolinguístico capaz de afetar as estruturas profundas do cérebro, comum a todos nós desde a antiguidade, quando era a responsável por permitir que falássemos uma só língua, e aglutinar linguagens distintas numa só. Este metavírus era representado, nos mitos sumérios, pela deusa Asherah, que nos acompanha desde os tempos do Jardim do Éden.

A Queda do Paraíso

snow crash binary universeA maioria dos mitos de criação começam com uma “unidade paradoxal de tudo, caos ou Paraíso”, com a criação em si ocorrendo após a separação do mundo estático e unificado em um sistema binário.

Outro ponto fascinante de Snow Crash é o paralelo traçado por Neal Stephenson entre a crença dos filósofos dualistas – que acreditavam num universo binário, formado por um mundo material e um espiritual – , e a natureza binária do universo apresentado no livro, que alterna entre o mundo real e o virtual, além de também fazer referência à linguagem binária usada pelos computadores, alternando entre o um e o zero, o ser e o não ser, uma separação de aspectos presente em vários mitos de criação.

Também é importante mencionar a conexão que o autor estabelece entre o Metaverso e a “magia”. O mundo virtual, segundo Hiro, é uma estrutura ficcional feita de códigos de palavras-chave, o que faz do Metaverso um imenso nam-shub, de cuja infraestrutura L. Bob Rife não apenas é “dono” – pois é em sua rede global de fibras ópticas e satélites que ele existe – como também possui um grande “terreno virtual” na forma de um imenso cubo negro que ele usa para armazenar informações confidenciais.

Uma das interpretações apresentadas em Snow Crash sobre o mito do Paraíso Perdido, também conhecido como Mito da Queda, o relaciona com o fim de um período em que a humanidade não adoecia, quando ainda vivia no Paraíso, ou Jardim do Éden, e mais próxima de Deus. A Queda, segundo Snow Crash, foi o momento em que Adão, ao aceitar comer a maçã oferecida por Eva, infectou-se com o primeiro metavírus, que tornou a humanidade suscetível à infecção de todos os vírus que foram criados desde então.

snow crash Adam and Eve Sistine ceiling by Michelangelo

Este metavírus era representado pelos sumérios como Asherah, a deusa do erotismo e da fertilidade, que tinha ligação íntima com a terra, o solo. Uma de suas representações simbólicas era a imagem de uma serpente enrolada numa árvore ou cajado, símbolo que conhecemos hoje como caduceu. Em Snow Crash, o caduceu é interpretado como uma representação do metavírus neurolinguístico Asherah, que desde a infecção de Adão alojou-se no tronco cerebral de toda a espécie humana, reprogramando suas estruturas profundas, e dando aos sumérios a capacidade de “aglutinar” as línguas no lugar de fragmentá-las.

Asherah é comparada à herpes simples, um vírus que infecta o sistema nervoso, altera os genes dos neurônios, e com eles o comportamento dos infectados. Em outra interpretação proposta pelo livro, Asherah é vista como uma “entidade informacional […] que [fez] com que sistemas de informação [infectassem] a si mesmos com vírus customizados”.

snow-crash-Being-Nicolas-CageEstes vírus não são apenas organismos microscópicos, mas “ideias virais” ou “me”, que na Suméria eram regras de comportamento social – ou, segundo Hiro, “programinhas” que ajudavam a sociedade primitiva a funcionar, “fragmentos de informação autossustentáveis” e “autorreplicantes” – responsáveis por funções como fazer pão ou construir uma casa. Uma vez transferidos para a mente humana, estes “me” geravam a compulsão de serem retransmitidos para outras pessoas. Podemos deduzir, com base no que é dito em Snow Crash, que “memes” são uma variante dessas ideias virais. Tanto os “me” quanto os “memes” são comportamentos ou informações que, ao infectarem um hospedeiro humano, o estimulam a propagá-la, como um vírus.

Cada “me”, na interpretação de Hiro dos mitos sumérios, é um vírus – biológico ou informacional – gerado pelo metavírus Asherah, que causou a Queda da humanidade de um período sem doenças e dores. Desde então as sociedades humanas estruturaram-se a partir de uma série de me/regras, que eram registradas em tabuletas de argila, e armazenadas em templos, guardados por “en”, ou seja, guardiões das regras sociais. Enki foi um destes guardiões, e o causador do evento Babel.

Babel e o Infocalipse:

snow crash The_Tower_of_Babel Gustave DoreO que conhecemos como o mito da Torre de Babel ganhou uma interpretação bem curiosa em Snow Crash. Babel, que literalmente significa “Portão de Deus” em acadiano (uma das primeiras línguas semíticas derivadas do sumério), foi o evento que permitiu que Deus se reaproximasse a humanidade, libertando-a do metavírus Asherah, e levando-a de um mundo materialista para um dualista/binário, com um componente físico e um espiritual.

Com base em seus estudos dos mitos sumérios, Hiro sugere que Enki foi o primeiro ser humano a ter consciência, e enxergar quão paralisada no tempo e dependente das mesmas regras sociais estava a sociedade suméria. Isto o levou a buscar um meio de alterar tal estado estático.

Para provocar uma mudança de tamanha proporção, ele criou um nam-shub, um vírus neurolinguístico capaz de afetar diretamente as estruturas profundas do cérebro e reprogramá-las. Sendo ele o guardião dos “me”, ele tinha os meios para distribuir seu nam-shub, pois era sempre consultado por outros membros da sociedade que iam até o templo do qual era guardião (um “banco de dados” primitivo), a fim de buscarem os “me” necessários para aprenderem um conhecimento (lembrando que os “me” não eram apenas leis ou regras sociais, mas também “manuais de instrução” que ensinavam a preparar alimentos ou construir moradias, por exemplo).

Todos somos suscetíveis ao impulso de ideias virais. Como histeria em massa. Ou uma melodia que fica na sua cabeça e você fica cantarolando o dia inteiro até espalhá-la para mais alguém. Piadas. Lendas urbanas. Religiões malucas. Marxismo. Não importa o quão inteligente fiquemos, há sempre uma parte irracional profunda que nos torna hospedeiros em potencial de informações autorreplicantes.

Ao distribuir seu nam-shub pela Suméria, Enki iniciou uma disseminação virótica do mesmo, pois ele agia como os me, criando réplicas de si mesmo nas mentes infectadas, que o retransmitiam para outras mentes, via linguagem oral ou escrita. Seu objetivo era desconectar o cérebro humano de suas estruturas profundas, mais antigas, baseadas na linguagem suméria, forçando a espécie humana a desenvolver novas linguagens. Isto marcou o início da consciência humana, quando os seres humanos passaram a usar as estruturas superiores do cérebro para pensarem a fim de buscarem novas soluções para seus problemas, e criarem novas religiões e filosofias.

Assim, o nam-shub de Enki fragmentou a língua única, falada pela humanidade de sua época, em milhares, no que ficou conhecido como o evento Babel. Desde então a tendência das línguas humanas convergirem para uma única foi invertida para a tendência de divergirem, fragmentarem. Em Snow Crash a Queda de Babel é apelidada de “Infocalipse”.

Religiões Racionais vs Religiões Irracionais

Segundo Juanita Marquez, no universo de Snow Crash existe uma disputa milenar entre as religiões irracionais e racionais, marcada pelos esforços de personagens como Enki (4000 a.C.) e Jesus Cristo, de povos como os hebreus (século 8 a.C) e de instituições como a Igreja Católica, todos empenhados em racionalizar a religião. O grande problema é que todos tiveram que conviver com a existência do metavírus Asherah, que continuou alojado, em estado latente, no tronco cerebral, feito a serpente enrolada na árvore do mito sumério.

O Código de Hamurabi

O Código de Hamurabi

De acordo com a interpretação proposta no livro, Enki foi o primeiro a tentar manter sua sociedade afastada de regras rígidas demais, que se aproximassem daquelas dos tempos pré-Babel. Para isto ele criou novos códigos/leis, que transmitiu ao filho Marduk, o qual foi incumbido de retransmiti-los para Hamurabi, 6º rei da Suméria. Tal evento foi imortalizado no monólito conhecido como Código de Hamurabi. Chama atenção o fato dos símbolos que Marduk passa para as mãos de Hamurabi se assemelharem aos numerais zero e um, podendo ser interpretados como representações do código binário.

Outras tentativas de manter a humanidade imune a Asherah foram as chamadas “religiões do Livro”, todas tendo como base um livro que é, supostamente, a cópia exata de regras de conduta entregues à espécie humana por Deus, uma “ideia viral” tão forte que segue o mesmo processo de proliferação usado pelo metavírus antes de Babel. O Judaísmo foi a primeira “religião do livro”, seguido pelo Islamismo e o Cristianismo.

O Torá

O Torá

O livro sagrado do judaísmo é o Torá, formado por cinco livros, entre eles o Deuteronômio, escrito pela escola deuteronômica – composta por “nacionalistas, monarquistas [e] centralistas”, os “precursores dos fariseus”. Os deuteronômicos centralizaram e codificaram várias histórias e mitos sumérios, contribuindo para que o judaísmo se tornasse uma “entidade organizada e autopropagadora” , ou seja, uma “vacina” contra o metavírus Asherah. Uma das medidas para que o judaísmo não fosse infectado por influências de Asherah foi a criação de um rígido sistema de cópias da Torá, que por serem feitas em registros escritos preservava a “higiene informacional”. 

"Be good to each other, bros!"

“Be good to each other, bros!”

Jesus Cristo, em seu tempo, criou um novo nam-shub. Seu evangelho foi uma tentativa de impedir que o judaísmo fosse dominado por tendências centralizadoras de poder, que os fariseus reviveram ao impor a armazenagem de suas leis em templos, inacessíveis à maior parte da sociedade. Cristo buscou tirar a religião dos templos e das mãos dos sacerdotes, e levá-la para todos – semelhante a Enki, que entregou à sua sociedade a responsabilidade por si mesma – , “mensagem explicitamente dita em seus sermões” e “simbolicamente incorporada em seu túmulo vazio”, como uma forma de evitar a idolatria de Jesus.

Depois de Cristo vieram as Igrejas do Oriente e do Império Romano do Ocidente, que aproveitando-se do fato de grande parte da sociedade da época ainda estar acostumada com a rigidez dos fariseus, incluíram o mito da ressurreição de Cristo nos evangelhos. Segundo  a nova versão, Jesus voltou à Terra para organizar uma igreja. E de acordo com a interpretação de Hiro, tal ato marcou o retorno de uma teocracia rígida, brutal e irracional. Prova disto são os relatos de que os primeiros cristãos falavam em línguas, ou seja, manifestavam a glossolalia.

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Já nos séculos seguintes o cristianismo alastrou-se pelo mundo, convertendo pagãos nos novos continentes usando, inicialmente, a glossolalia como meio de transmissão da religião, que depois era substituída pelo latim. Tal técnica de conversão, com o advento da televisão, foi substituída pelo tele-evangelismo, usado pelo Reverendo Wayne de Snow Crash, cujos templos são convertidos em Cultos de Asherah, financiados por L. Rob Rife.

No livro descobrimos que Rife está tentando reverter Babel, restaurando a língua-mãe ao provocar glossolalia naqueles infectados pelo metavírus. Através deles ele visa converter toda humanidade ao Culto de Asherah, uma religião irracional. Um dos efeitos da restauração da língua-mãe é tornar os infectadas mais suscetíveis aos “me”, ou seja, às ideias virais, como sua religião, que estimula comportamentos promíscuos, os quais facilitam a transmissão sexual da versão biológica do Snow Crash. Trocando em miúdos, o industrial texano imperialista quer mesmo dominar o mundo. E cabe a um samurai hacker e uma skatista ninja salvarem o mundo deste aspirante a Ozymandias. Mas esta é uma história que, bom… voltem ao início da resenha, pois eu já falei bastante sobre ela lá em cima. Ou melhor, VAI LÁ PRA FORA APROVEITAR A REALIDADE!!! \O/ (você já gastou tempo demais lendo esse texto… ¬¬)

snow crash neal stephenson editora alephSnow Crash
Neal Stephenson

Tradução: Fábio Fernandes
Edição: 2ª
Ano: 2015
Número de páginas: 496
Acabamento: Brochura
Formato: 16 x 23 cm

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