[LIVRO] “Sidarta” de Hermann Hesse (resenha)

SidartaVocês já ouviram falar ou já sofreram com “depressão pós-livro”? Pra quem não sabe do que se trata, é aquela tristeza profunda após termos terminado a leitura de algum livro. Tristeza que, por vezes, acaba nos impedindo de iniciar outra leitura, por acharmos que nada mais no mundo irá superar o último.

E eu tive isso pela primeira vez. Não que eu nunca tenha ficado triste em acabar um livro, mas no geral eu partia facilmente para outro e vivia feliz com a minha vida de leitora.

Mas dessa vez foi diferente! Eu estava numa fase ruim. Numa baita “bad”. Num pessimismo puro, com vários pensamentos disfuncionais, e completamente desmotivada. Fui aconselhada por uma psicóloga a pesquisar sobre filósofos otimistas e etc., e não o fiz. Não sentia motivação, e pensar em ler algo repleto de felicidade e otimismo me deixava bem irritada. Mas então lembrei de Sidarta. Peguei o livro na estante, coloquei na bolsa e iniciei a leitura no ônibus voltando da faculdade. E foi uma das melhores decisões que fiz na vida.

No livro, Hermann Hesse narra em um romance filosófico a busca pela sabedoria, inspirado na vida de Sidarta Gautama – o Buda. Assim como outras obras, Sidarta foi fruto de uma viagem de Hesse à Índia, em 1911.

Vale ressaltar que a obra é inspirada na vida do Buda, e não é uma biografia propriamente dita. E por mais que alguns fatos coincidam, a maioria deles é criação do autor para retratar melhor a jornada de Sidarta para uma mente completa e plena.

A narrativa inicia ainda na juventude de Sidarta, com toda a felicidade e orgulho que as pessoas sentiam por ele, e com toda a insatisfação que ele sentia por não se encontrar nas doutrinas que seguia.

Sidarta queria mais. Queria conhecimento pleno, e acreditava que seu pai (um brâmane) e os sábios que os rodeavam não poderiam lhe dar o que queria. E com essa certeza Sidarta vai contra os gostos do pai, e pede para se juntar aos ascetas, para se tornar um samana.

Após uma intensa prova de determinação, seu pai cede, e o jovem inicia então sua jornada com os samanas, com quem aprendeu a pensar, esperar e jejuar. Os ensinamentos lhe foram muito úteis, mas infelizmente não foram o suficiente para prender Sidarta ao grupo.

Um novo boato surgia pelas redondezas, sobre Gotama – “o Sublime, o Buda, aquele que dominara em si mesmo o sofrimento do mundo e fizera parar a roda das ressurreições” – e então Sidarta decide ir a caminho dos ensinamentos desse sábio tão aclamado.

E é após seu encontro com Gotama que Sidarta desperta. Agora, já virando homem, ele nota que por tanto tempo procurou mestres e ensinamentos e deixou de conhecer o que era realmente importante: o Sidarta. Ele procurou conhecer seu eu através de doutrinas, e com isso deixou seu eu de lado. E isso não podia mais acontecer.

O sentido e a essência não se encontravam em algum lugar por trás das coisas, mas em seu interior, no íntimo de todas elas.

A partir de então, Sidarta ruma ao seu próprio conhecimento, e se deixa levar por seus instintos. Faz contato com uma famosa cortesã, com um abastado comerciante, e até com jogadores de dados. Sidarta entra, então, no Sansara – as vicissitudes do mundo, da vida e da morte da existência humana; a instabilidade e a efemeridade das coisas; a agitação do mundo; a vaidade e a inquietude da vida humana.

Sidarta vai aos poucos deixando seu espírito morrer, e quando se dá conta disso, foge. Nota que já não sabe pensar, esperar e jejuar. Mas não desiste. Sente que já não podia mais aguentar aquela roda de vícios, e que se continuasse ali, perder-se-ia de vez.

Em meu corpo e minha alma fiz a experiência de quanto carecia do pecado, da volúpia, da cobiça de bens materiais, da vaidade, de quanto precisava até do mais abjeto desespero para que aprendesse a desistir de minha obstinação, a querer bem ao mundo, a cessar de compará-lo a qualquer outro mundo imaginário que correspondesse a meus desejos, a algum tipo de perfeição brotado do cérebro e para que, deixando-o tal como é, me limitasse a amá-lo e a gostar de fazer parte dele.

É quando retoma o contato com um balseiro que ele aprende um dos ensinamentos mais importantes de sua vida: a ouvir. E não só ouvir as pessoas, como também ouvir o rio. E é com a natureza que Sidarta vai se conectando com o átman, e finalmente consegue atingir o Nirvana.

O livro é um constante ensinamento, e por vezes me peguei sorrindo no ônibus com a beleza de toda a simplicidade da história.

Sidarta é um personagem iluminado, e mesmo quando espera-se o pior de alguém em uma situação de crise, ele consegue superar, tirar conhecimento e evoluir. E Hesse consegue nos explicar tudo isso de uma maneira maravilhosa.

A sabedoria não pode ser comunicada. A sabedoria que um sábio quiser transmitir sempre cheirará a tolice. […] O conhecimento pode ser transmitido, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres por intermédio dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la.

Nunca em minha vida achei que um livro tão curto poderia ter tanto reflexo em mim. É de longe um dos livros que mais irei recomendar para amigos. Porque acredito que independente da vivência da pessoa, a narrativa a tocará de alguma forma. E Hesse conseguirá passar algum conhecimento para ela.

Não vou falar que a leitura mudou a minha vida, mas confesso que quando terminei, comecei a analisar algumas coisas de maneiras diferentes. Comecei a tentar me conectar mais a mim. Conectar-se com a natureza e com o mundo. Ser mais Monique. Ser mais Sidarta.