[LIVRO] Sagas – Volume 2: Estranho Oeste (resenha)

Sempre gostei da temática western (ou bang e bang, na minha distante e tenra infância), é um gênero que sempre me atraiu. Clint Eastwood é um mestre no assunto. Django de Tarantino está no meu top 10 de filmes em geral. Até mesmo o não tão maravilhoso Cowboys & Aliens me cativa. Na literatura, até agora, só havia lido o bom conto de Duda Falcão O Trem do Inferno”, sobre o  mestiço Kane Blackmoon e seu demônio interior, numa soturna atmosfera de faroeste sobrenatural (A Torre Negra do Stephen King ainda me aguarda para ser devorada).

Quando comecei a ler Sagas – Volume 2: Estranho Oeste me peguei entre o sobrenatural e o oeste selvagem. O livro, lançado há alguns anos pela Argonautas, e organizado por um dos meus autores nacionais preferidos, Cesar Álcazar, nos remete novamente à maravilhosa literatura no melhor estilo pulp. Diferentemente de Sagas – Volumes 1: Espada e Magia, aqui há o encontro com o Weird West, que é um subgênero que combina elementos do Ocidente com outro gênero, geralmente horrorocultismofantasia ou ficção científica.

Iniciamos a antologia com o prefácio exorbitante de Thomaz Albornoz, elucidando nosso paladar literário sobre as maravilhas do western. Citando, inclusive, os capítulos do gênero na Itália, época do spaghetti western.

Sinopse:

Feiticeiros, mortos-vivos, espíritos ancestrais! Aventure-se através de desertos misteriosos e cidades fantasmagóricas no segundo volume da série Sagas. Estranho Oeste apresenta cinco histórias arrepiantes, escritas por alguns dos melhores autores da Literatura Fantástica brasileira. As trilhas selvagens do Velho Oeste nunca mais serão as mesmas!

Em o Bisão do Sol Poente, me deparo novamente com Kane Blackmoon. Conto que originou a bela imagem da capa. Nessa narrativa, Duda Falcão narra a saga de Blackmoon, em busca do grupo de Hernandes Calderón, um bandido muito procurado. Porém, com o decorrer das páginas, descobrimos que Calderón está tendo uma mística ajuda, e que Kane precisará de muito mais que alguns tiros para vencer seu inimigo. O índio Sunset Bison une forças a Kane durante a caçada. Como sempre, Duda não decepciona ao narrar as aventuras de Blackmoon, o texto é gostoso de ler e nos faz mergulhar em uma ambientação lovecraftiano. Folgo por um tomo grande sobre o caçador de recompensa.

“Kane Blackmoon abriu as portas de todas as casas e encontrou o mesmo quadro de desespero estampado no rosto das vítimas. Isso quando ainda conservavam suas faces, sem terem sido desfiguradas por potentes garras.”

Em seguida, temos Aproveite o Dia, de Christian David. Com simplicidade e bom desenvolvimento, temos um conto com humor e muito gostoso de ler. A história é bem contada e prende bastante a atenção. Tem algumas boas doses de sarcasmo, especialmente nos diálogos entre o cowboy e a garçonete do lugar. O pistoleiro Jeremiah Duncan decide entrar num saloon para se alimentar e descansar. Mas acaba por chafurdar na lama. O sobrenatural aqui se volta para o vodu. Além do terror, também temos boas doses de comédia, devido ao personagem principal não ser lá muito corajoso. A narrativa do autor te prende desde o início, e não tem como não gostar do Duncan e se deliciar de seu pânico.

“Aquela loucura toda era demais para mim, não queria saber de feiticeiras vodu, Loas ou feitiços de qualquer ordem, muito menos de traições, vinganças e mulheres enganadas. Essas últimas eram ainda mais perigosas do que qualquer coisa sobrenatural.”

, de Alícia Azevedo, é bem interessante. Beatrix era uma freira que tomava conta de uma missão. Porém, certo dia, o local onde a missão era realizada foi invadido e todos foram mortos, menos ela. À beira da morte e em uma profunda tristeza, ela faz um pacto com quem menos se espera. Fé é recheado de diálogos e questionamentos interessantes, e o tempo todo você fica fazendo suposições de quem seria a outra parte do pacto. Renderia um bom romance a lá John Wick fundido com Beatrix Kiddo (qualquer semelhança é mera coincidência). Ansioso para ver novamente a freira em ação, e conhecer mais a escrita da autora.

“Ela seria o juiz, o júri e o carrasco. Ninguém que tivesse a alma manchada escaparia ao seu ódio. Aquele era seu ato de fé: reivindicar as almas apodrecidas e retorná-las ao lugar que pertenciam, mas a fé podia ser mais que isso.”

Logo após temos Justiça… Vivo ou Morto!!!, de M. D. Amado. Acompanhamos o pistoleiro Cole Monco, que resolve tomar as dores de um garoto que teve a família morta. Reviravoltas interessantes percorrem a história. A mitologia indígena retorna ao ar, gerando um misto de terror e mistério. Justiça…Vivo ou Morto é bem narrado, em alguns momentos você se questiona se Monco está ficando louco, e se Josh realmente está vivo. O desfecho me surpreendeu positivamente.

“O vento, batendo nos cabelos empoeirados do garoto e balançando a velha placa de madeira do armazém de Billy Bronco, era testemunha do silêncio que se fez por quase dois minutos. As lágrimas de ódio rolavam pelo rosto de Josh Mackenzie …”

Finalizando a antologia, vem The Gun, the Evil and the Death, de Wilson Vieira. O autor narra a história de Tom William, um assassino orgulhoso, que enfrentará uma situação assustadora e desconcertante. Um julgamento macabro. A premissa da narrativa é muito interessante, a metalinguagem utilizada pelo autor é corajosa. Porém, um contraponto que fica aqui é o uso excessivo de palavras estrangeiras totalmente desnecessárias, que tornam a leitura arrastada. Se o autor fizesse uso desses termos estrangeiros com moderação, o conto seria muito melhor.

“Era uma excentricidade talvez, mas o Oeste estava repleto delas, portando não o surpreendia mais. Ou talvez fosse um simples mágico, de algum circo mambembe, realizando seu treino quotidiano de ilusionismo em troca de míseros cents.”

No geral, Sagas 2: Estranho Oeste é um livro bem divertido e gostoso de ler. Sem dúvida alguma, indico o livro para todos que gostam de terror, e principalmente pra quem tem uma queda pelo velho oeste. Hoje em dia não é um livro muito fácil de se encontrar à venda, é preciso uma pesquisa apurada e alguma sorte. Mas a leitura vale o esforço.

 


Argonautas 

Capa comum

Brochura 12 x 18 cm

144 páginas

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