[LIVRO] Rumah, de Bruno Flores (resenha)

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“Mas a maturidade trouxe um desejo profundo de ver, ouvir e tocar o Nada, e a avidez aos poucos se transformou em obsessão. Manusia propôs matarem os pais para se libertarem. Hutan, muito apegado à Mãe, discordou, sugerindo somarem forças para promover a separação. Céu se tornaria um estranho acima deles, enquanto Terra ficaria embaixo para lhes fazer companhia.”

Como amante incondicional de mitologia, a oportunidade de ler uma obra que espraiasse as lendas dos povos malaios foi uma agradável surpresa. Falo aqui de Rumah, romance escrito por Bruno Flores, cuja história se passa num tempo em que os homens eram regidos por tradições religiosas, e a ordem era estabelecida pela voz dos deuses, tudo em um contexto de natureza violenta e espírito tribal, em que o abismo para a decadência dependia da sedutora travessia da linha que separa a corrupção da virtude.

A história é de linguagem simples, e entrelaça três períodos distintos: a descoberta de mistérios sobre o próprio povo pelo curioso e teimoso Tesé; a queda do povo Kitaran, causada pela corrupção e má administração dos líderes; e a dura viagem na busca pela terra prometida, conduzida por Wangka (que, pessoalmente, foi a trama que mais me cativou).

Não ache que Rumah se trata de uma aventura comum. A estrutura narrativa não linear e a quantidade relevante de personagens em intrigas simultâneas, em tempos diferenciados, exige bastante a atenção do leitor. Daí se encontra o trunfo da história, creio. É conduzida de maneira bastante fluida, pontuada pelo passado dos personagens e mesmo por mitos (como a lenda de Wetu Wetu, que dera origem ao inhame). Assim, Bruno Flores soube equilibrar a dinâmica convincente das tramas e as descrições das paisagens dos arquipélagos oceânicos. Os hábitos do povo são introduzidos de maneira bastante sutil e agradável, sem muitas explicações e belas demonstrações. Eu, particularmente, me senti aproximar de maneira natural quando se tratava de gestos simples como tomar um gole de ‘kava’ ou preparar uma embarcação para a pesca.

Apesar da verossimilhança dos costumes e paisagens, em minha recepção, ora ou outra não se imprimiu identidade nas vozes dos personagens. Por vezes, tive a sensação de diálogos “monotonais”, muito semelhantes entre si, tirando certo brilho na fala. Além disso, notei que havia algo de utopia contemporânea em seus anseios, o que não neutralizou minha imersão na narrativa, mas, de certo modo, não me fez crer totalmente na dinâmica social da ilha, ou mesmo nas motivações particulares dos indivíduos. Outra teia que não me permitiu submergir em absoluto no espírito da cultura malaia foi o juízo do narrador. Em diversos momentos se explicita o ideal um tanto moderno de liberdade e igualdade conquistadas através de revolução, o que fragmentou minha expectativa em relação a brutalidade primitiva e inexorável do universo tribal. Talvez isso se dê, em parte, por influência de perspectivas sociológicas contemporâneas. Determinado senso de justiça social universal, que vai além dos conflitos da existência e da alma. Neste âmbito, senti um leve toque que me despertou daquele sonho maravilhoso, em que o mito e a cultura, diante da brutalidade e crueldade da sociedade e da natureza, não dissipa em nada o valor de sua magia, pelo contrário, a potencializa.

Arrependido, Hutan criou o Sol, a Lua e as Estrelas e as jogou para o alto para aliviar a solidão do Céu.

Eis toda minha apreciação pela saga dos clãs de Rumah. Para além do juízo pessoal deste leitor, sou muito grato a Bruno Flores pela oportunidade de desfrutar de uma rica e harmônica narrativa, sem nos negar a crueldade da condição humana. É, em absoluto, um primoroso trabalho. Fiquei satisfeito pela ousadia e potência com que me contou a história, e acredito ter garantido lugar especial no acervo da literatura nacional.


rumah bruno flores multifoco capaMultifoco

Selo Desfecho

Brochura

234 páginas

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One thought on “[LIVRO] Rumah, de Bruno Flores (resenha)

  1. Sua resenha foi muito interessante, mostrou seu ponto de vista de apreciador sem esquecer de ressaltar informações técnicas valiosas. Escrever sobre mitologia é tentador, entretanto, é muito mais difícil do que se parece, deve se emular todo um modo de pensar, além de interpretar o “zeitgest” daquela sociedade. Parabéns pelo texto.

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