[LIVRO] Os Sete: redescubra o prazer de ler sobre vampiros (os de verdade).

Se você gosta de releituras de mitologias fantásticas, mas acha que certos aspectos delas devem ser preservados por serem, justamente, aqueles que as caracterizam, este livro é pra você.

Se você gosta de vampiros e se deleita com uma boa história desses sugadores de sangue impiedosos, este livro é pra você.

Se você não se conforma com vampiros andando durante o dia e brilhando igual à fada Sininho, e se você acha que isso foi um desserviço para a mitologia vampiresca, este livro é pra você.

Se você gostaria de ver algo que trouxesse de volta o devido respeito que esses filhos da noite merecem, este livro, definitivamente, é pra você.

Desde criança sempre gostei de vampiros. Sua mitologia, seu poder, suas estratégias de sedução, sua ligação com a noite e sua imortalidade sempre me fascinaram.

Enquanto as outras crianças do meu prédio amarravam toalhas às costas e fingiam ser o Superman, ou algum outro super-herói de capa, eu colocava um lençol nas costas e brincava de Conde Drácula (com a dentadura, inclusive). Minha diversão chegava ao máximo quando acabava a energia no bairro e eu podia pregar sustos nos vizinhos pelas escadarias do prédio, fantasiado do vampiro mais famoso de todos. Bons tempos…

Depois de ler alguns livros sobre o assunto, todos traduções de literatura estrangeira, incluindo o clássico de Bram Stoker, qual não foi minha surpresa ao me deparar na livraria, no início da década de 2000, com um livro sobre vampiros escrito por um BRASILEIRO (!!!).

A história, contemporânea à sua escrita (1999), se passa em uma cidade litorânea do Rio Grande do Sul.

Um grupo de amigos que mora no local, mergulhadores nas horas vagas, encontram uma caravela portuguesa afundada não muito longe da costa. Dentro dessa embarcação encontram, entre outras coisas, uma caixa de prata maciça, aparentemente oca, mas supersticiosamente protegida por imagens de santos e outros artefatos religiosos.

Querendo faturar uma grana com o achado, eles contatam a universidade de Porto Alegre pra, então, em parceria, retirarem a caravela do fundo do mar.

Na caixa, a sinistra inscrição:

“Nobres homens de bem, jamais ouseis profanar este túmulo maldito. Aqui estão sepultados demônios viciados no mal e aqui devem permanecer eternamente. Que o Santo Deus e o Santo Papa vos protejam.”

Mas a curiosidade e a ciência sempre falam mais alto… Um acidente bobo, um corte na mão, uma gota de sangue, e é o suficiente para desencadear os eventos mais sinistros que eles poderiam esperar.

Uma das criaturas, até então não identificada, retorna inexplicavelmente à vida e já mostra a que veio: com seu poder sobrenatural, congela o ambiente, mata algumas pessoas, sai ileso e promete voltar para despertar os outros “irmãos”.

Congela? Sim, congela.

Junto com a advertência, há sete nomes: Lobo, Tempestade, Inverno, Gentil, Espelho, Acordador e Sétimo.

Inverno, como fica fácil de deduzir que foi o primeiro a acordar, volta pra cumprir sua promessa.

A partir daí, diversos acontecimentos sinistros, incluindo mortos deixando suas tumbas em busca de vingança (agora você também sabe o que faz o Acordador), alterações climáticas sem explicação e a intervenção do Exército Brasileiro tem lugar na pacata cidadezinha.

Acontecimentos cheios de reviravoltas e descobertas que se espalham para Porto Alegre e chegam até Osasco, na Grande São Paulo.

Os vampiros portugueses do rio d’Ouro, encerrados numa caixa de prata por 493 anos, querem vingança e querem retomar seu reinado de horror. Será que meros mortais serão capazes ou terão coragem de detê-los? Será que os desalmados serão rápidos o suficiente para assimilar todas as novidades de quase 500 anos de sono e inventarão novas maneiras de escapar aos caçadores modernos? O que significa cada um dos nomes dos irmãos malditos? Eu te convido a iniciar a leitura e você não vai se arrepender.

André Vianco é, praticamente, o pai da literatura fantástica brasileira. Nesse seu segundo livro, ele mantém o estilo e faz uso de uma linguagem bastante contemporânea, explorando ao máximo elementos da cultura e geografia brasileiros, além de trazer elementos do dia a dia que ajudam a nos identificar com a história. Elementos, como por exemplo, os nomes dos âncoras de telejornais conhecidos, nomes de estabelecimentos comerciais, expressões tipicamente brasileiras, entre outros, que fazem da leitura de Os Sete um prazer e um vício. Dificilmente você consegue colocar o livro de lado (believe me).

A narrativa tem uma estrutura que, embora trate-se de um livro, se assemelha muito à dinâmica cinematográfica, tanto na inclusão de histórias secundárias, como com cortes nas “cenas” e a retomada dos mesmos acontecimentos pela perspectiva de outros personagens.

Uma outra característica que é perceptível pra quem já leu outros livros dele, como O Senhor da Chuva, por exemplo, são menções a acontecimentos de uma história na outra, deixando claro que eles fazem parte do mesmo universo, e situando as histórias no tempo uma em relação à outra.

Os Sete é considerado um dos maiores sucessos de Vianco até hoje. Temos, então, o prazer de vê-lo republicado pela Editora Aleph com tamanha qualidade, carinho e cuidado.

Desde a escolha da capa, com suas cores e tons puxados para um vermelho acobreado, como sangue desbotado, passando pelas primeiras primeiras páginas pretas com as letras em branco, a reprodução de um bilhete encontrado no bolso de um cidadão da pacata cidadezinha, até a escolha da cor das demais páginas que, como os bons livros atuais, não é mais branca, mas de uma tonalidade que ajuda a não cansar os olhos.

Como um bom, antigo e voraz leitor, tenho que dar a nota máxima para o cuidado da Aleph com Os Sete.

Depois dessa leitura, garanto que você vai conseguir voltar a dormir tranquilo sabendo que alho, estaca e, principalmente, sol fazem todo o sentido no universo vampiresco, e eles têm razão em temê-los.



Aleph

Brochura

22,8 x 15,4 x 2,8 cm

432 páginas

Disponível nas seguintes livrarias:

Amazon

Saraiva

Submarino