[LIVRO] “Os Senhores dos Dinossauros” de Victor Milán (resenha)

senhores dos dinossauros darkside books banner

Paraíso é um mundo onde homens e dinossauros coexistem, e as grandes feras são usadas em batalhas sangrentas e duelos mortais. Eis a premissa desta fantasia medieval lançada no Brasil pela DarkSide Books.

Antes de entrar em detalhes a respeito da obra de Victor Milán, devo dizer que tive com ela uma relação de amor e ódio durante toda a leitura. Somente no terço final do livro é que comecei a me conectar com alguns de seus personagens. Talvez mais por insistência minha do que pela eficácia de Milán em torná-los cativantes. Mas estou me adiantando aqui. Vamos aos pormenores…

Parte do livro é contada do ponto de vista de Rob Korrigan, um Senhor dos Dinossauros, o que significa que ele é encarregado de treiná-los para batalhas. Por amá-los quase como filhos, teoricamente isto o botaria em conflito consigo mesmo, ao testemunhá-los em batalha. Esta afeição dele pelos animais poderia render momentos interessantes. O problema é que Milán é tão disperso em sua narrativa, que pouco me importei com os lamentos de Rob sobre seus queridos animais, e com as perdas sofridas por cada lado da guerra inicial do livro.

Jaume é o protagonista de outra subtrama da obra. Um guerreiro honroso, belo, habilidoso, muito querido pelo Imperador, amante de Melodía, a princesa imperial, hedonista e bissexual. Enfim, é um sujeito quase perfeito. Mas tudo isto pouca importa até o terço final do livro, quando Jaume é forçado a enfrentar a insubordinação de parte de seu exército durante um cerco que comanda. Sinceramente, achei a maior parte das participações dele bem chatas e arrastadas.

Um tricerátopo e seu montador por Richard Anderson

Um tricerátopo e seu montador por Richard Anderson

A qualidade da escrita melhora consideravelmente quando Milán foca sua narrativa em Karyl, de longe o personagem mais interessante da história. Além de comandar uma manada de tricerátopos na batalha inicial; ele luta pelado (!) contra velociraptores; vira um artista itinerante maneta; e é contratado, ao lado de Rob, para treinar um exército cujo objetivo é defender de lordes inimigos das redondezas o Jardim da Verdade e da Beleza – uma comunidade de religiosos ripongas pacifistas.

“Coragem é tão comum quanto jovens com mais sêmen no saco do que bom senso na cabeça.” – Karyl, o personagem mais colhudo do livro

Outra personagem que se destaca dos demais é Montserrat, a irmã caçula de Melodia. Ela é basicamente uma versão pirralha e ingênua da Arya Stark. Cada participação dela vale a leitura:

“O pai decretou um enorme banquete esta noite para celebrar o retorno de Jaume. Todas as pessoas chatas vão estar lá. Fico feliz por ser jovem demais pra ir.” – Montse, a menina mais esperta do Palácio dos Vagalumes

Melodia, por sua vez, é uma mulher respeitável, altiva e honrada, que no decorrer da trama acaba sendo vítima de uma conspiração contra o Império. É graças a ela que Milán insiste em escrever conversas enfadonhas entre a princesa e suas amigas, que acabam se justificando apenas no final, quando elas se unem para ajudar a princesa a sair de uma encarrascada.

A grande verdade sobre Os Senhores dos Dinossauros é que a mitologia criada por Milán é mais interessante do que a trama em si. Paraíso foi criado por oito deuses, conhecidos como Criadores (muito original…). Além de dinossauros, há também os Fae, conhecidos como o Povo das Fadas; e os Anjos Cinza, entidades cuja função é “manter o Equilíbrio Sagrado dos Criadores no Paraíso”, ou, trocando em miúdos, punir os humanos quando eles fazem alguma besteira muito grande. Infelizmente o autor explorou muito pouco do misticismo de Paraíso neste primeiro volume.

Por exemplo, é curioso que a principal religião de Nuevaropa – continente onde se passa a maior parte da história – seja uma mistura de politeísmo grego com catolicismo romano e taoismo. Claro que isto gera conflitos religiosos e vertentes dissidentes e consideradas heréticas. Um elemento do cenário que ganha mais destaque com o desenrolar da história, mas não tanto quanto podia.

Raptor correndo por Richard Anderson

Raptor correndo por Richard Anderson

Quando o livro concentra-se nas peculiaridades de Paraíso, ele chega perto de tornar-se fascinante. Infelizmente Milán estava mais interessado nas politicagens entediantes do mundo que concebeu, e nas relações insossas entre a maioria dos personagens que criou. Há muita “gordura” no texto de Milán, que, se retirada, faria muito bem à obra.

Apesar dos problemas, Milán soube imergir o leitor em trechos menos turbulentos da história. O duelo entre Jaume e Falk é um bom exemplo. Nele é possível sentir o cansaço, a dor e o suor dos combatentes. E o texto também tem o mérito de não ignorar os inconvenientes do uso de dinossauros como montarias, levando em conta o fedor que exalam os carnívoros em seu hálito, ou a urina e as fezes dos dinossauros em geral. Tudo isto é descrito por Milán, a fim de tornar Paraíso mais crível.

Mas, no balanço final, Milán peca por sua narrativa difusa e pouco envolvente. A batalha de abertura, que poderia ser arrebatadora, tem seu ritmo prejudicado pela fragmentação dos focos narrativos e a oscilação do ritmo, demonstrando claramente que o autor não estava pronto pra descrever esse tipo de sequência. Pode parecer lógica a decisão de entrecortar a descrição da ação com as impressões dos personagens sobre o combate e curiosidades a respeito de algum combatente, mas Milán não conseguiu transmitir tais informações com fluidez. Isto me tirou o tempo todo da ação, dificultando meu envolvimento com o que era narrado, tornando grande parte da obra arrastada e cansativa de ler.

Aliás, se tem uma palavra que resumiria minha experiência de leitura d’Os Senhores dos Dinossauros é “cansativa”. E isto não é nada legal num livro que, teoricamente, deveria me entreter, coisa que em poucas momentos ele conseguiu.

T-Rex por Richard Anderson

T-Rex por Richard Anderson

No que diz respeito à edição da DarkSide, com exceção de alguns erros de digitação que passaram batido pelos revisores, o projeto gráfico está primoroso, como já era esperado da editora, que manteve as belas e sugestivas ilustrações de Richard Anderson, as quais chegam a ser mais empolgantes e ter mais energia e vigor que a obra em si.

Enfim, não foi dessa vez que conseguiram fazer algo realmente épico combinando duas coisas que nós, nerds, tanto adoramos. Talvez no próximo no volume a história melhore. Milán soube terminar o volume 1 criando bons ganchos. Fica a minha torcida para que o próximo livro não seja tão irregular quando este. Comecei a leitura querendo amar Os Senhores dos Dinossauros, e a terminei lamentando o desperdício de um conceito fascinante.


nota-3


capa-darkside-books-senhores-dos-dinossauros-01DarkSide Books

Capa dura

23,4 x 15,8 cm

480 páginas

Onde comprar: Amazon | Submarino