[LIVRO] “Os Portões do Inferno” de André Gordirro (resenha)

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Um improvável grupo de anti-heróis deverá enfrentar as piores ameaças sobrenaturais em uma perigosa missão para conter a invasão de tropas demoníacas e salvar a humanidade. Trata-se de Os Portões do Inferno, a obra inaugural de fantasia de André Gordirro, publicada pela Editora Rocco.

Um cavaleiro desertor. Um bardo de um povo esquecido. Um guerreiro condenado à morte. Um ladrão de rua. Um assassino profissional. Um mago arrogante. Reunidos por uma figura misteriosa, os seis são enviados em uma missão suicida para restaurar ao trono o legítimo governante dos anões. Enquanto isso, uma trama dos malignos elfos das profundezas pretende reabrir os Portões do Inferno e mergulhar o reino humano de Krispínia nas trevas, e nosso estranho grupo de anti-heróis é a única esperança do Grande Rei para conter esta terrível ameaça…

Se por acaso isso soa como uma aventura de RPG, você matou a charada. Eu só tive a confirmação disso ao ler os agradecimentos no final do livro (e me surpreendi ao ver que o autor não foi mestre da campanha, mas sim jogador), mas quanto mais eu avançava na história, mais a minha convicção de que isso começou como uma campanha (não sei se de D&D ou de outro sistema) se aprofundava. Começando pela introdução e reunião dos personagens, cada qual com suas habilidades e peculiaridades; continuando com o misterioso NPC que aparece do nada e fornece a quest, sem maiores explicações; passando pelas piadinhas internas (tem um kobold chamado Na’bun’dak que serve como guia do grupo – dá pra imaginar o pessoal perguntando “quem leva Na’bun’dak”); chegando nas lautas recompensas de ouro e equipamentos de alta qualidade, que deixam os aventureiros com água na boca; e desembocando na grande batalha épica contra o boss final, que desde o começo você sabe que vai acontecer. Tudo ocorre como manda o figurino de uma campanha padrão de D&D ou outro RPG de fantasia medieval.

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O autor e sua obra

Aliás, a principal crítica a ser feita a essa obra é sobre sua pouca originalidade. Confesso que, ao ler a apresentação da contracapa, já torci o nariz com o que me pareceu o cúmulo do convencional. “Anti-heróis? Salvar o reino? Comparando o livro com Tolkien e George R. R. Martin? Bah, isso aí tem cara de ser um porre,” pensei. E, pra falar a verdade, não tive muitas surpresas ao lê-lo. Realmente, é uma campanha de D&D bem típica. Realmente, essa coisa de protagonistas “sujos” e desajustados, em boa parte do livro, me pareceu mais “olha como meu livro é adulto” do que verdadeira profundidade dramática. E, sim, o caráter dos personagens secundários muitas vezes era um festival de generalizações grosseiras – os cavaleiros são todos corajosos e incorruptíveis, os elfos das profundezas são todos cruéis e traiçoeiros, os anões são todos intransigentes e atabalhoados… E, claro, o enredo é frequentemente “conveniente demais”, com as coisas acontecendo com pouca explicação de forma a colocar os heróis onde eles precisam estar para enfrentar a próxima ameaça. Ou seja, coisas perfeitamente aceitáveis ou até mesmo necessárias em uma campanha de RPG (que parece ter sido divertidíssima), mas que podem empobrecer uma obra de literatura.

Entretanto, apesar dessa má impressão inicial, Os Portões do Inferno foi me cativando conforme a história avançava. Não sei se pelo texto fluido e envolvente de André Gordirro, que demonstrou muita competência na composição das cenas e no ritmo da ação (talvez fruto de sua experiência anterior como jornalista e tradutor); ou ao ser fisgado pela trama, que, apesar de convencional, não deixa de ser uma aventura épica com momentos de muita tensão; ou por presenciar um desenvolvimento dos protagonistas que vai além de seu conceito inicial (sem dúvida, aquilo que constava em suas fichas), adquirindo facetas de personalidade complexas e profundas ao enfrentar situações que desafiam sua visão de mundo, principalmente o assassino Kalannar (que, não à tôa, originalmente era personagem do próprio autor). A interação entre os heróis também é ótima – seja fruto da conversa entre os jogadores na mesa, seja inovação de Gordirro (não sei o quanto se deve a cada um desses fatores), o fato é que os diálogos são deliciosos de ler.

Em suma, trata-se de uma fantasia medieval bastante padrão. Para quem não tem tanta familiaridade com o tema, é uma ótima introdução; para quem já conhece algumas histórias do tipo, não traz novidades, mas rende umas boas horas de aventura. André Gordirro me pareceu ter um grande talento para a escrita; gostaria muito de vê-lo aplicado em uma história mais inovadora.


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Os Portões do Inferno
André Gordirro

Fábrica 231 (Editora Rocco)
2015 (1ª Edição)
16 x 23 cm
384 páginas

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