[LIVRO] Os Pássaros: aves que cantam a morte (resenha)

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“Talvez eu seja o único homem vivo nesta ilha que se lembra dos pássaros. Muitos morreram naquela época; dos poucos que restaram, a maioria deve ter falecido desde então. Por alguma razão, a Providência tem me proporcionado uma vida longa. Não me queixo disso – por que deveria?”

Há exatamente uma semana, bem no final da tarde, cheguei em casa e me deitei no sofá. Não se passaram dois minutos que eu estava de olhos fechados, quando ouvi um ruído na janela. Batidas leves, intermitentes, pareciam se comunicar por código Morse. Saltei rápido e fui até o basculante da cozinha. Não vi nada além de um vulto turvo através do vidro e o som de asas. Algo foi deixado do lado de fora. Um pacote. Pelo desenho da caveira sobre o remetente imaginei que acabara de receber um livro. Sorri ao começar a ler. E digo em bom som: a editora DarkSide acertou mais uma vez.

Tratava-se de Os Pássaros, obra de Frank Baker que completa oitenta anos desde a primeira edição, e que me agradou muitíssimo. A começar pela qualidade da capa dura e bem elaborada. A arte gráfica em detalhes dourados e ilustrações ao longo dos capítulos, incluindo belas manchas de Rorschach. O capricho já é marca registrada da nossa querida “Caveirinha”.

Apesar do título homônimo ao filme de Hitchcock, aparentemente o romance de Baker não o inspirou. Segundo consta nos créditos, a película foi baseada no conto de Daphne du Maurier, publicado posteriormente. Todavia, penso que há semelhanças demais entre as obras do cineasta e do romancista para serem ignoradas, algumas delas citadas por Ken Mogg logo na introdução – a cena da mulher encurralada por aves na cabine telefônica, por exemplo, – creio que, acima de qualquer polêmica, tanto o livro quanto o filme me agradaram de maneira particular.

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“Agora, todos os dias, eu presenciava tragédias terríveis e selvagens. Aos poucos, pessoa a pessoa, o mundo estava enlouquecendo. “Uma onda de suicídios”, comentavam os jornais. E era a coisa mais sincera que eles jamais escreveram, embora não se dessem conta do total significado daquilo.”

A narrativa de Os pássaros concentra-se no relato de um homem sobre a praga de aves que consumiu o mundo civilizado, enquanto sua filha, atenciosa, anota cada palavra. A descrição do cenário pós-apocalíptico nos dá a impressão de que estamos diante de uma espécie de testamento às gerações futuras, como a semente de uma nova gênese da humanidade. Para a filha que nascera neste novo cenário, o mundo civilizado é distante e remoto como um mito.

Enquanto embarcamos em suas memórias, não fica clara a origem das aves. A sociedade apenas especula se pertencem à natureza natural ou sobrenatural. A única certeza é a constante presença da praga que se concentra nas cidades. Certamente culminaria em um desastre, ele pensa, então a vontade de fugir dali insiste cada vez mais em seu íntimo: ir para algum lugar distante de todos. Não apenas dos pássaros, mas de toda forma de civilização moderna.

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“Tomado pelo pavor, não viu nenhum pássaro, nem mesmo uma pena sequer; nada, com exceção do seu amigo caído ao pé da estátua, suas roupas rasgadas e manchadas de sangue, seu rosto horrivelmente irreconhecível, os olhos despedaçados em sua cabeça. Caído a alguns metros, estava seu carregador na mesma terrível condição. Os dois cães retrivers, em uma cena patética, sentados um de cada lado do corpo mutilado, uivando, inconsoláveis. Um miserável sino de igreja irrompeu o ar de repente; a pequena figura da estátua tocava sua flauta com indiferença, como se nada tivesse acontecido.”

os-passaros-frank-baker-darkside-resenha-06Desde o primeiro ataque de aves até o desfecho – principalmente no desfecho – se evidencia a fragilidade da fé nas instituições civis responsáveis pela ordem. Assim, a história alterna entre reflexões pessoais sobre o sistema econômico, política, sexualidade, religião e cultura de maneira abrangente, em paralelo aos eventos desastrosos que envolvem os animais, variando de investidas violentas a concentrações dos animais em reservatórios de água potável, resultando em contaminação massiva. Há um instante em que as pessoas se habituam com a circunstância. Porém, aos poucos, aquelas criaturas desprezíveis se revelam bem mais do que uma praga. As reflexões do protagonista sugerem que talvez fossem um fenômeno ligado a certo aprisionamento do homem moderno ao próprio estilo de vida. De um modo catastrófico, as aves chamam literalmente a atenção das pessoas submersas em um mundo que, a seu ver, trata a cada dia de reduzir o pouco que resta de suas almas.

Aqueles que se consideram amantes do horror clássico, esperem muito mais do que olhos arrancados e corpos mutilados por um bando enlouquecido em revoada sobre terras londrinas. Neste livro, enquanto você sente as patas afiadas sobre o peito e o peso agudo dos olhos negros mirando os seus, a angústia e o terror se estendem inevitavelmente para o campo pessoal, no sentido mais reflexivo do termo, e a sensação poderá se expressar em uma pergunta no meio do fedor de ave: o que você está fazendo com sua vida?


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Capa dura

21 x 14,8 x 2,6 cm

304 páginas

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Cultura


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