[LIVRO] Os Despossuídos, de Ursula K. Le Guin (resenha)

Todo fã de ficção cientifica já deve ter imaginado como seria viver em outro planeta, desde encontrar novas espécies, novos seres, até descobrir novos materiais, elementos e sociedades esquecidas. Eu mesmo já imaginei, e até cheguei a escrever algo assim. Mas só ao ler Os Despossuídos é que tive uma visão realista de uma possível colonização da espécie humana em outros planetas. Essa visão não tem o glamour das produções hollywoodianas, é cru e, no princípio, é sem graça. Mas com o tempo se observa uma beleza racional peculiar, que expande as maneiras de se enxergar o mundo.

Os Despossuídos é um romance de ficção cientifica utópica/distópica escrito por Ursula K. Le Guin que ganhou o prêmio Nebula, em 1974, além do Hugo e do Locus em 1975. O livro é uma ficção cientifica muito corajosa, já que aborda temas e ideias como anarquismo, coletivismo, individualismo, sociedades revolucionarias, e é ainda mais corajosa se levarmos em consideração que o livro foi escrito em 1974, em plena Guerra Fria. Ao longo da narrativa o livro faz criticas aos modelos de governo defendidos pelos E.U.A e pela U.R.S.S, encontrando defeitos em ambos os lados, e mostrando como esse conflito ideológico criou uma semi-indestrutível bolha social que perdura até hoje.

Além disso, o livro me introduziu à Hipótese Sapir-Whorf, que também é retratada no filme A Chegada. Criada por Benjamin Whorf e Edward Sapir na década de 30, essa hipótese diz que se você fala uma língua X, você terá alguns pensamentos diferentes de alguém que fala uma linguá Y. Nessa hipótese, a língua determina nossos pensamentos, e sua estrutura define a estrutura da nossa cognição. Inclusive é essa teoria que dá sentido ao título da obra.

Seria o princípio do relativismo linguístico, onde a língua é tida não como um instrumento de comunicação, e sim um fator decisivo para o entendimento do mundo.

A estória do livro é ambientada entre os mundos de Anarres e Urras, planetas gêmeos próximos, de maneira que um é considerado a lua do outro, e ambos são habitados por seres humanos. Urras é um planeta com recursos em abundâncias e um passado cheio de conflitos. Urras é dividido em vários estados que são dominados por duas potências rivais, A-Io e Thu, claras referências aos Estados Unidos e à União Soviética, respectivamente. Já Anarres é um planeta sem recursos, onde toda a sociedade formou uma sociedade anarquista baseada no bem comum, responsabilidade e bens compartilhados. a sociedade de Urras foi fundada 150 anos atrás do momento atual da estória por rebeldes que eram contra as diferenças sociais de Urras.

Superficialmente, a sociedade de Anarres funciona. Mas no início do livro logo percebemos que as coisas não estão indo tão bem assim. Os ideais da revolução estão estagnados. Novas ideias surgem e são temidas, enquanto pessoas gananciosas e egoístas (conhecidas como ‘proprietarianos’, na linguagem que eles criaram) começam a ganhar poder. Nesse contexto o protagonista nos é introduzido: Shevek é um físico brilhante que é o primeiro cidadão de Anarres a ir para Urras em 150 anos. A história de Shevek é contado com uma cronologia embaralhada. Os capítulos impares se passam no presente, em Urras, e os capítulos pares contam o passado de Shevek em Anarres, desde a infância até o momento atual em que parte para Urras.

Mas essa cronologia bagunçada faz todo o sentido quando descobrimos que Shevek está criando a ‘teoria da simultaneidade’, que mexe com as ideias de tempo, começo e fim, com o passado acontecendo ao mesmo tempo que o presente. Portanto não estranhe essa estrutura dos capítulos, tudo faz parte do plano da autora.

Em Anarres, os mais poderosos que não gostam da teoria da simultaneidade, porque ela promete fornecer um método de comunicação instantânea que acabaria com sua providencial isolação. Já em Urras descobrimos que o interesse dos poderosos é em conseguir utilizar a tecnologia para esmagar as outras sociedades existentes nos demais planetas humanos. Isso coloca Shevek em uma série de dilemas morais muito bem trabalhados pela autora.

A linguagem falada em Anarres, o pravic, foi construída para refletir os aspectos e fundamentos do anarquismo utópico. Por exemplo, não existem palavras para descrever conceitos simples do capitalismo como a propriedade privada, o uso de pronomes possessivos é extremamente desencorajado (vem daí o título do livro!), crianças são treinadas para falar apenas sobre assuntos que possam interessar à coletividade. Uma personagem diz em determinado momento “você pode compartilhar o lenço que eu uso,” no lugar de “Você pode usar o meu lenço”, como diríamos normalmente. Tudo isso é uma excelente representação da Hipótese Sapir-Whorf, ou seja, da ideia de que a linguagem pode definir o universo mental e a cultura de uma sociedade. Uma prova do talento da autora é justamente o fato de ela ter conseguido fazer essa hipótese funcionar no livro.

Se tem uma coisa que aprendi lendo livros foi que, por trás de toda ficção cientifica, existe uma crítica social, e isso Le Guin consegue fazer com maestria, ao mesmo tempo em que desenvolve uma narrativa em que o passado e o presente ocorrem simultaneamente. Mas o livro também tem problemas. A leitura é muito cansativa e o protagonista é muito “sem sal”. Então, recomendo insistir com a leitura de forma lenta mas constante. Por isso desejo a vocês uma boa leitura e recomendo que aprendam novos idiomas.


Editora Aleph

Tradução: Susana L. de Alexandria

21 x 14 x 2,4 cm

384 páginas

Onde comprar:

Amazon

Cultura

Submarino

Deixe uma resposta