[LIVRO] Os Condenados: Lição da morte e uma vida de Danny Orchard (resenha)

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Não imagino quanto tempo demora até a gente morrer numa forca, ou mesmo queimando numa pira de sacrifício humano, mas, sem dúvida ou sombra, Andrew Pyper me levou à sensação de que pode haver algo pior, por mais doloroso que seja, do que os últimos passos para o fim da vida. E talvez possamos aprender algo com isso. Talvez algo bom. Passei estas duas últimas semanas na companhia da obra “Os Condenados”, – do mesmo autor de “O Demonologista” (também publicado pela Darkside Bookse resenhado aqui). E poderia destilar minha impressão numa única palavra:

Agonia.

Danny Orchard é escritor oriundo de uma decadente Detroit, e alcança notoriedade após a publicação de uma obra obscura intitulada “O Depois”. Nela, Danny relata sua experiência pós-morte, descrevendo com detalhes o limbo cerúleo-infernal. A prova da veracidade de sua experiência foi o relógio, dado por seu avô, com que sua mãe fora enterrada, e que, ao despertar, o escritor trouxera de volta.

O outro mundo não passa de uma projeção contígua do nosso próprio, muito diferente das esferas de percepção incognoscíveis, essencialmente transcendentes. O outro lado, segundo o livro, possui geografia e organização similares a qualquer cidade, constituída por ruas, prédios e parques, distinta da estrutura funcional de mundos dos mortos descritos por Dante, Homero ou Virgílio, talvez mais próximo à vivência espiritual descrita por Swedenborg, ao passo que, uma vez no outro lado, a realidade da morte é abastecida pelos fantasmas de nossa consciência. Por isso, Danny, ao morrer, se encontra em Detroit, em uma casa comum de classe média, e, o mais importante, os fatos trágicos ou momentos sublimes recorrentes em sua vida, que de alguma forma se imprimiram na memória de sua alma, o acompanham pela eternidade em sua nova morada.

Um dos detalhes mais interessantes do outro lado é a possibilidade de encontrar pessoas também mortas, além de bestas, que não se sabe bem de onde se originam. Tal liberdade de encontros abre margem à participação de sua condenação, formando assim um grande limbo coletivo de infinitas camadas de tormento.

A primeira parte do livro é dedicada a elucidar as memórias de Danny. Ele nos leva à infância e revela o que havia por trás da boa aparência da família Orchard. Sua bela e proeminente irmã gêmea, Ashleigh, demonstra desde cedo aptidão para a crueldade, alimentada pelo medo e sofrimento dos demais. Como um buraco negro fundido a uma máquina de tortura, Ash usa toda a sua aptidão intelectiva e boa aparência para atrair, trair e ferir, fosse um namorado, destruindo sua carreira de jogador ao inutilizar sua mão numa lâmina para corte de madeira, ou torturando psicologicamente o próprio irmão, fazendo-o assistir a tudo.

Após a morte da irmã, Danny se encontra no meio de um mistério. Ela falecera em um incêndio de uma casa abandonada e fora encontrada com outro cadáver. Mesmo sem vida, os gêmeos pareciam conectados. Ash retornara em forma etérea e insistia em assombrá-lo nos sonhos, expressando o mesmo comportamento possessivo e doentio, não permitindo que ele tivesse qualquer relacionamento com outra mulher. Em meia idade, Danny ignora a irmã e casa-se com Willa, mãe de Eddie, e, com o pequeno, inicia uma relação afetuosa de pai e filho. Os ataques de Ash se tornam cada vez mais constantes e agressivos, ao ponto de ela se manifestar materialmente no mundo dos vivos, usando sua ligação com o irmão como espécie de portal. Não resta alternativa alguma para Danny além encarar as raízes putrefatas do passado e tentar arrancá-las de uma vez por todas. Em sua jornada de volta à Detroit, conforme escava mais fundo, mais fica claro que a consciência acerca do mal não possui margem, especialmente quando se encontra sozinho no vale da morte, com sua irmã em seu encalço, aparentemente transformada em algo pior que um fantasma.

Emparedado dentro da própria alma, uma alma feita de casas vazias e fábricas abandonadas. Essa foi minha sensação ao longo da história. “Os Condenados” não nos submerge apenas à experiência de condenação infernal, mas soterra o leitor em um pesadelo perene, no qual a extensão somos nós mesmos. Todavia, curiosamente tive alguns lapsos de luz, em meio a interrupções de leitura, enquanto meu amigo, que dirigia o carro pela avenida, discutia com mãe sobre o preço das compras. No instante exato, desses sincrônicos, em que lia o trecho em que Danny encontra sua mãe. Diferente dos personagens, eles, meu amigo e sua mãe, estavam vivos, de uma maneira estranhamente clara para mim. Poucas vezes notei tanta lucidez no fato de se estar vivo. Espero que a história de Andrew Pyper possa participar, como comigo, para além da expectativa da crueldade da vida e do horror da morte. Algo que você só percebe atravessando o caminho do medo. Porque não há como fugir quando eles se aproximam de nós no escuro à noite.

os condenados andrew pyper darkside books resenha 09


os-condenados-andrew-pyper-3dDarkSide Books

Capa dura

21 x 14 x 2,6 cm

336 páginas

Onde comprar: Amazon | Saraiva | Submarino
Kit com “Demonologista” + “Os Condenados”