[LIVRO] Os Cavaleiros dos Dinossauros, de Victor Milán

Ano novo começando e você ainda está se corroendo para determinar por qual livro irá começar sua leitura de 2018? Bem, após ler essa resenha, espero poder colocar um norte em sua cabeça, ou no mínimo aumentar ainda mais sua dúvida sobre por onde iniciar sua nova leitura.

SINOPSE:

O Paraíso é um mundo extenso, diversificado, muitas vezes cruel, onde cavaleiros blindados conduzem legiões de tricerátopos treinados pela guerra. Karyl Bogomirsky é um cavaleiro que optou por reunir aqueles que buscam uma saída para a jornada de guerra e loucura. Mas o Império da Nuevaropa anunciou uma cruzada religiosa contra as pessoas que desejavam viver em paz. Todos devem ser convertidos ou destruídos. As coisas realmente tomam um rumo surpreendente quando os temidos Anjos Cinzas, antiquadas armas dos deuses que criaram Paraíso, surgem em cena após quase um milênio. Todos achavam que se tratava de fábulas para assustar crianças. Mas eles são muitos reais. E vieram para livrar o mundo do pecado… incluindo todos os humanos que manifestaram esses vícios.

O segundo volume da série parte de onde terminou o primeiro (na maioria das vezes isso é algo lógico). Karyl e Rob ainda estão tentando salvar Providence, apesar de estarem sendo julgados pelos acontecimentos do fim do primeiro livro.

“E, embora matemática nunca tenha sido o meu forte, tenho quase certeza que o resultado é eu me fodendo, ele pensou.”

Melodía continua sua fuga junto de Pilar, seguindo para o Jardim da Beleza e do Amor.

E Pilar. Ah Pilar!, que grata surpresa foi essa menina. Pilar merecia ter muito mais espaço no livro, do que o autor lhe concedeu.

“Mas que jogo ela pretende com nossa Princesa Imperial? Um jogo de prazer ou um jogo de tronos?”

Melodía continua desinteressante e sem graça no inicio, algo constante no livro um. Porém, um acontecimento que a própria Día provoca durante sua estadia em Providence, faz disparar uma excelente transformação na princesa, mostrando uma nova e surpreendente faceta (eu diria agressiva) da fugitiva do Império, algo que, sinceramente, eu não esperava da amada de Jaume, visto que sua participação no primeiro livro, e no começo do segundo, foram enfadonhas.

“A voz dizendo amor trouxe-lhe à mente um rosto cuja máscara de sangue o havia abençoado, ao ocultar o que garras e dentes haviam feito com seu amor.”

O autor deixou de lado quase que completamente as intrigas palacianas do império. Disse quase, porque Falk ainda continua soprando intrigas no ouvido de Felipe Delgao. Outro ponto, esse sim esquecido completamente, é a irmã de Melodía, Monserat (uma pena), e as amigas da primogênita do imperador, que a ajudaram a escapar das garras do duque aleman.

“Sim, fomos. E esta é uma das lições mais difíceis: não se pode proteger todo mundo. Não importa o quanto você seja bom. Não importa o quanto tente.”

O livro se passa quase todo em Providence, e vemos fantásticas batalhas travadas em nome do Jardim da Beleza e do Amor. E com certeza temos as melhores interações de personagens. Apesar de Melodía ganhar destaque, e outros junto dela ao longo da narrativa, a dupla dinâmica Rob e Karyl continuam sendo os personagens mais intrigantes dessa jornada. O filhinho da mamãe Korrigan provavelmente é o meu personagem favorito, e acredito que o de muitos leitores, com seu amor pelos fósseis vivos, seu humor negro, sarcasmo, esperteza, e seu desespero em alguns momentos, como por exemplo quando seu pescoço está em cheque, e ele está totalmente desesperado por uma solução que o livre da forca, e se vê encarando Karyl, que ao contrario dele está tremendamente calmo perante as circunstâncias de perigo. Isso é algo muito engraçado. Karyl é intrigante. Um líder taciturno, estrategista fabuloso, e um guerreiro feroz (acho que no melhor estilo Chuck Norris). Aos poucos descobrimos pequenos detalhes de seu passado, e ainda recebemos algumas revelações do que o aguarda.

“Você não enxerga? Mesmo? Não é o real que motiva as pessoas. Não é nem o que elas pensam. É no que acreditam.”

Sexo e luxúria estão presentes ao longo de todo livro. Dá pra sentir que Milán quis usar e abusar do poder sexual, em cada descrição de cópula voluptuosa.

Shiira foi uma das minhas paixões ao longo da trama. Os poucos capítulos referentes a ela são estupendos. Dá pra sentir todo o sentido de saudade do alossauro em busca de sua mãe. E que entrada magnifica a dela (melhor parar de falar, caso contrário darei spoilers para vocês).

“E, uma matadora sortuda que era, sentira leves traços do cheiro da mãe e começara a segui-lo. Isso começara havia ainda mais tempo do que a última refeição que tivera – bem mais tempo, ela achava -, mas sua determinação nunca vacilou. Seu amor era grande demais.”

Mas nem tudo são flores no Éden. Jaume, que é descrito como o melhor guerreiro de todo o Império, estrategista brilhante, um verdadeiro campeão, que era para ser junto de Karyl e Rob um dos melhores personagens, decepciona novamente. Ele e seus companheiros, devotos da Dama do Espelho, são chatos, diria quase sem alma, não empolgam em nenhum momento (e acho, que ao longo dos próximos livros, ele terá algumas surpresas inesperadas, surpresas essas que serão algo como levar um soco inesperado bem fundo no estômago).

“Mas ele ouvia o vento, sussurrando promessas e mentiras, suspirando, gemendo, e soprando sobre as paredes de seda do pavilhão dianteiro do imperador.”

Viollete é outra personagem que não me desce muito bem pela garganta, mas que não atrapalha o fluir dos acontecimentos. Aliás, é a partir dela e de Borgadus que a chave principal da trama é girada.

“Ele desinflou. Pareceu encolher. O coração dela parou de subir, como um pássaro que, atingindo a janela alta de uma torre, mergulhasse, ele a encarou. Na quase escuridão da tenda, seus olhos eram faróis negros de desespero.”

A batalha final é brilhantemente descrita. Aliás, todas as batalhas são muito bem descritas. Dá para sentir cada choque de aço contra aço, cada embate de cavaleiro montando suas bestas reptilianas. É possível sentir lâminas perfurando corpos e decepando membros, tudo misturado ao cheiro fétido da peleja. Victor nos entrega alguns maravilhosos cliffhanger, que nos fazem querer devorar cada página do livro.

A descrição dos dinossauros, tanto em batalha ou em suas vidas corriqueiras, é perfeita. Milán foi até o mar abissal dos dinossauros para descrever cada monstro pré-histórico. E no fim, Victor ainda nos presenteia com um segredo que vem sendo escondido desde o primeiro livro.

“A inundação de carne se dividiu. Duzentos horrores a ultrapassaram. Corpos raiados em verde e marrom, com suas bocas rosadas escancaradas e aneladas por dentes serrilhados amarelados, avançaram com garras assassinas erguidas. No lombo coberto por penas de cada um deles, uma criança cavalgava.”

O acabamento deste segundo volume é primoroso como no primeiro. Nem preciso dizer nada, vindo da DarkSide é uma obra de arte, que é enriquecida pelas sublimes ilustrações de Richard Anderson. E se você, assim como eu, se decepcionou com o primeiro volume, não renuncie ao mundo de Paraíso. Parafraseando Gandalf em O Retorno do Rei, “Irradiada a esperança”, sim, minha esperança foi renovada com esse segundo livro, e creio que Victor Milán ainda nos brindará com uma excelente trama, pelo bem de Paraíso.

“Aprendam uma lição: às vezes é melhor ter sorte do que ser bom.”

Nota 4 de 5


Darkside Books

Tradução: Alexandre Callari

Capa dura

23,4 x 16,3 x 3,6 cm

478 páginas

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