[LIVRO] “Onde Cantam Os Pássaros” de Evie Wyld (resenha)

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Tão cru e visceral quanto o corte úmido, quente e sanguinolento feito sem piedade na garganta de uma ovelha cujo destino não pode ser outro que não a morte, Evie Wyld escreve Onde Cantam os Pássaros com o tom de quem não deseja lágrimas alheias, e sequer derramaria as próprias por pequena ou grande miséria.Tudo em seu magnífico suspense sujo de suor e com cheiro de uísque misturado a óleo diesel parece guiar para um ponto só: Quem é essa enigmática protagonista e quantas coisas fez? Foi vítima de atos ou feitora de ações para estar onde chegou. Mas para que a narrativa em si nos leve a esse ponto, e para que cheguemos a descobrir coisas pretéritas importantes, Wyld nos carrega por um caminho em que tudo parece absolutamente imundo, maculado.

Tudo tem cor de madeira velha cheia de manchas provenientes de coisas que nem eu e nem você gostaríamos de saber o que foram; tudo é sujo, confuso, seco, conspurcado demais para que mesmo esta história, a vida de Jake White – que muito bem poderia ser a história mais melancólica do mundo – se torne uma narrativa contundente e fria sobre a vida de uma garota solitária, cuja face se divide entre vítima e algoz; uma garota que, longe de sua terra natal na Austrália, encontra o ofício de fazendeira de ovelhas na Inglaterra, onde aves de rapina libertam aterrorizantes sons catárticos de caçadores noturnos, e onde Jake encontra trabalho junto a homens brutos e sem qualquer tipo de problema em tratá-la como a um homem. Na verdade, temos a sensação de que nem mesmo Jake se enxerga muito como uma mulher. Sua dureza mental, física e emocional fazem parecer fracos os homens perto dela.

Dona da força de um homem e de uma estrutura psicológica invejável – ou completamente perdida, por isso, não passível de deterioração – Jake tem sua história contada em duas direções distintas. Wyld escreve uma das partes do enredo em uma linha temporal normal, respeitando nosso passeio mental natural do presente ao futuro (que torna-se presente, à medida que lemos), contando da vida da fazendeira, dos pequenos desgostos de uma estranha neurose sobre algum ser que ataca suas ovelhas, e que não tem uma forma humana e nem a forma de um animal conhecido. Nessa linha, aparecem até lembranças sem-sentido (ou, até então, sem-explicação) de um passado aparentemente conturbado e sem boas lembranças de fato.

No entanto, em dado momento da história, um enredo secundário surge, fazendo-se muito curioso, desvendando muitos “porquês” de algumas verdades de Jake, e surpreendendo o leitor com seu sentido retrógrado.

Onde Cantam Os Pássaros não é uma história com um enredo edificante ou com uma lição de moral. É algo muito mais como um suspense e um soco no estômago… mas um soco que você gosta de levar.

Suas linhas tortuosas são traçadas com muito sangue, nicotina cuspida, escarro, sêmen de sexo consentido, sêmen de sexo pago, sêmen de abusos diversos, bebidas baratas, e muito suor e lama.

Mais do que tudo, Onde Cantam os Pássaros é um livro traçado com cicatrizes – em todos os sentidos que esta palavra pode ter – que em seus desenhos incertos sempre levarão até o seu passado. Ou guiarão seu passado até você, como as diretrizes de um mapa.

O passado sempre de volta. Não importa o quanto se fuja… Onde quer que os pássaros cantem.


nota-4


Onde Cantam os Passaros Evie Wyld darkside books

DarkSide Books

Capa dura

21,2 x 14,4 x 2,4 cm

256 páginas

Lançado em 3 de julho de 2015

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