[LIVRO] “O Vilarejo” de Raphael Montes (resenha)

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No final do século passado, em consequência de uma guerra civil na capital de um país europeu não identificado, os habitantes de um vilarejo ficaram isolados do resto do mundo. Uns diriam que isto provocou sua ruína, enquanto outros defenderiam que ela foi apenas a conclusão de uma punição divina pelos pecados ali cometidos.

O Vilarejo, de Raphael Montes, lançado pela Suma de Letras este ano, é uma antologia de sete contos fechados ambientados num canto esquecido por Deus, que se conectam pela aparição de personagens em comum, e menções a fatos ocorridos anteriormente, ou revelados posteriormente, conforme avançamos na leitura.

De início a obra chama atenção por ser apresentada como a tradução dos manuscritos macabros de uma tal de Elfrida Pimminstoffer, o que dá aos contos reunidos uma contextualização histórica a fim de torná-los mais impressionantes.

o-vilarejo-de-raphael-montes-capa-resenha-1Outro aspecto que se destaca nas narrativas curtas d’O Vilarejo é a crueldade manifesta pelos personagens, desde adultos até crianças e idosos. Por centrar cada conto num dos sete pecados, desde o início Raphael deixa subentendido que o tal vilarejo foi condenado pelos crimes cometidos por seus habitantes. É como se o local fosse aos poucos se tornando uma extensão do Inferno. E os capítulos “batizados” com os nomes dos demônios que personificam cada um dos sete pecados reforçam esta ideia.

Raphael escreve de uma forma bem precisa e crua, como se dissecasse os personagens conforme narra suas histórias. Ele não nos poupa dos detalhes mais sórdidos, indo do suspense ao terror psicológico, e deste para o gore em poucas páginas. Essa versatilidade narrativa já é vista no primeiro conto, “Belzebu“, sobre uma mãe que tenta manter os filhos vivos, apesar da fome que assola seu vilarejo, enquanto o marido não volta de uma caçada que já dura semanas.

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Tudo vai muito bem até “Lúcifer“, quando achei que Raphael forçou a barra a fim de provocar uma virada. A mudança da postura de uma personagem é muito súbita. Faltou mais sutileza em sua mudança de comportamento.

Mais adiante o autor se redime, em contos como “Asmodeus“, que nos incomoda do início ao fim, por descrever abertamente um caso de pedofilia. Talvez o moralismo velado da maioria dos contos seja outro motivo de incômodo para alguns leitores, mas neste ele funciona muito bem, quando mesclado à ideia de uma deturpada justiça divina, e à “lei” de causa e efeito, que marca presença de forma pungente e fatídica.

Conforme O Vilarejo aproxima-se do fim – o que não demora, pois é bem curto – as peças vão se encaixando, e algumas histórias se tornam um tanto previsíveis. “Azazel“, por exemplo, serve mais para amarrar algumas pontas soltas. Este é outro conto onde senti falta de mais sutileza. Nele Raphael repete alguns eventos narrados anteriormente, como se subestimasse nossa inteligência e capacidade de ligar os pontos (que nem são o suficiente pra justificar tais redundâncias narrativas).

o-vilarejo-de-raphael-montes-capa-resenha-3A comparação feita por Fernanda Torres com os contos dos Irmãos Grimm – na citação da capa do livro – é válida, pois os de O Vilarejo não deixam de ser “contos de advertência” para adultos, com uma alta dose de horror, ironias fatídicas e humor negro. Todos terminam com a condenação de um ou mais personagens resultante do pecado que cometeram.

Apesar dos problemas citados, O Vilarejo consegue entreter durante suas 96 páginas. O texto de Raphael é bem econômico mas muito evocativo, o que facilita na hora de visualizar os eventos narrados. E as ilustrações de Marcelo Damm ajudam na composição da atmosfera pesada e doentia das histórias.

O trabalho editorial caprichado da Suma de Letras tornou o livro atraente para fãs do terror e horror, não somente pelo acréscimo das artes de Marcelo, mas por detalhes como respingos de sangue nas páginas onde cada história atinge seu ápice de violência.

Vale aceitar esse belo convite para conhecer um nome promissor da literatura brasileira contemporânea. Acompanharei os próximos trabalhos do Raphael. O rapaz tem potencial.


nota-4


o-vilarejo-de-raphael-montes-capaSuma de Letras

Brochura

22,8 x 15,8 cm

96 páginas

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